43x20 There is a road

Imagem: TingTing Huang

Onde é minha casa?

Minha casa sou eu, preciso entender.
Minha casa, meu cavalo, meu cão de caça.

Onde quer que eu esteja, estarei em casa.
Ainda assim, tenho medo.

Tenho medo da responsabilidade, de ser adulta, de estar só no mundo, dos ruídos lá fora, dos olhos e mentes.

Tenho medo de querer chorar. De querer voltar.
Medo de ir.

Medo de sair de um lugar onde estou só de passagem.
Minha casa sou eu.

E eu tenho medo do mundo.
Dos estranhos nas esquinas, da noite brilhante, das luzes.
Medo do portão entreaberto,
medo de não ter pra quem ligar.

Onde é minha casa?
Minha casa sou eu.
E ela é forte. Ela aguenta furacões, tempestades e o sopro do lobo.
Calor infernal, gritos, verdades e mentiras.
Aguenta pesadelos.
Aguenta a incerteza do futuro.

Onde é minha casa?

Minha casa sou eu,
e eu sou capaz de qualquer coisa.
Vou ficar bem sozinha.

Estarei em casa, se precisar de mim.

43x19 Casas

Imagem: TingTing Huang

Vale a pena amar alguém, você me diz. Você tenta me dizer.

Mas você não entende, você não entende nada.
Tá calor, e o vento do ventilador sopra seu cabelo, o pouco que não tá grudado na sua testa.

Eu tô aqui, eu tô agora.
O que mais eu posso dar?

Amor é estar, eu te digo. Amor é estar.

Mas você insiste em falar da lua, pares e pessoas, e eu não entendo. Eu nunca vou entender, como é que alguém pode amar indo embora.
Quem vai embora não sabe o que é amor.

Mas você me segura, me pega pela mão, pescoço, pernas, e você me mostra, você me diz pra lembrar, você me diz pra não esquecer
que amar tem muitas versões, muitos arranjos diferentes.

Não, não.

Que a gente ama muita gente, de muitos jeitos, que quer dizer muito, que não quer dizer nada. Que amor pode ser terremoto, mas amor pode ser calor em dia quente, pode ser mormaço, pode ser furacão. Pode ser tudo junto. Ou nada disso.

Ele me pede pra fechar os olhos, pra me contar um segredo.
Eu não quero, mas ele precisa que eu o faça.
Então eu fecho os olhos
Por um segundo, uma hora, um ano,

até ele dizer tudo e ir embora, pra nunca mais voltar ou voltar em breve, ou

não importa.
Não importa mais.

43x18 Subsolos

Imagem: TingTing Huang

Dá a mão.
Eu não sei porra nenhuma, me ensina, me mostra.

Eu caminho no meio do povo, anônima, incógnita. Não sou. Somos.
Temos medo, mas somos fortes.
A força talvez esteja nos números.
Talvez, vai saber.

Penteio meus cabelos com medo, e quebro os fios com a força dos puxões. Estou treinando.
Treinando pra um futuro horrível, inimaginável, onde eu sou ninguém.

Onde minha vida vale menos que nada, um grito, um susto, um segundo, um desejo.
Onde eu acordo pela manhã sem saber se vou voltar pra casa, sem saber se eu sou alguém ou o objeto da imaginação doentia de alguém. Sem saber se eu valho mais do que a mulher que se recusa a me deixar tocá-la.

Tô treinando pra cobrir a cabeça, obedecer e me calar. Pra um mundo onde nenhum lugar é seguro. Nenhuma roupa é a certa. Nenhum homem é culpado. Nenhum negro está a salvo. Onde minha voz é a voz de um homem.

Tô treinando pra nunca me defender. Pra deixar que levem tudo o que é meu.
Pra não ter nada.

Treinando pra deixar as pessoas que eu amo sofrerem. Pra nunca mais ver quem eu amo, pra não poder amar.
Treinando pra nunca botar ninguém no mundo, pra nunca me importar com alguém, pra morrer rápido, durante a noite, em liberdade.
Tô treinando pra aguentar,
pra ficar firme, pra mentir, pra mentir pra salvar minha vida.
Treinando pra apanhar, pra sangrar, pra sobreviver.

Treinando pro frio, e pras feridas que não saram nunca.
Treinando pra desaparecer como se nunca tivesse existido, pra sentir o cheiro de livros queimados. Treinando pra nunca esquecer, treinando pra nunca falar que me lembro.

Treinando pra me calar.
E pra admitir uma culpa que não é minha.

Não sei mais o que fazer.

Eu luto,
eu grito,
eu esperneio.
Eu te dou a mão.

Mas e se for tudo em vão?
E se não houver nada além disso?

Eu quero acreditar que há algo mais.
Que há força nos números.
Que as pessoas são melhores do que isso.
Mas eu não tenho certeza. Talvez eu nunca chegue a ter.

Aguardemos.
Oremos.
E que seja o que tiver que ser.

#elenão

43x17 Moses

Imagem: TingTing Huang

Vem, ela disse.
Vem.

E a luz me afogou, o cheiro, o frio, o ar, os sons do mundo.

As mãos dela tocando meu corpo, meu rosto, meu pescoço, o cheiro do medo.

Vem,
venha e uive.

Mas eu não uivei.
Eu estava com medo.
Eu estava com medo da luz,
com medo do amor,
da chuva,
da morte.

Com medo do sangue,
da voz de Deus.

Meus pulmões tiveram medo,
e minha boca.
Tremi e meus dedos, 5 mais 5 mais 5 mais 5.

Eu tive medo de meu pai
e do abandono,
eu tive medo das crianças que nunca choram,
e das crianças que nem sequer experimentam o medo que sinto agora.

Tive medo do verde, e das cores que veria um dia.
Tive medo da minha própria vida,
de meus irmãos, da escola,
da noite escura
e do pôr-do-sol.

Da textura da grama,
pasta de dente e do cheiro do pão recém saído do forno.

Eu tive medo,
e não uivei.
E eu a senti prender a respiração e fazer uma prece,
me dizer pra ter coragem,
que a vida talvez valesse a pena,
talvez não.

Que existem dias bons,
e dias ruins.
Pessoas boas,
e pessoas ruins.
Que a gente lembra,
que a gente esquece.
Mas existem bicicletas,
e o cheiro dos livros novos,
o movimento que fazem as cortinas,
beijo na boca e que eu não precisava temer
o pulsar do meu próprio coração.

Mas eu estava tão assustado, atônito, incrédulo,
eu só queria voltar pro escuro,
e ela também.
Mas não tem volta, ela disse, não tem volta.
Nós tínhamos que ter coragem. De uivar, de conquistar o mundo inteiro, ela disse.

Então, eu uivei.
Alto, forte, pra todas as luas de todos os planetas nessa galáxia, que ouvissem, que soubessem, eu estou aqui, EU ESTOU AQUI.
Então eu disse a ela:
- Agora é sua vez. Uive.

E ela disse:

Estou com medo.