47x01 Basic instincts

 

Imagem: TingTing Huang

Por que não? 
E se? 


Ele se senta na cadeira oposta e me pergunta o significado do universo.
Quem somos? 
Pra onde vamos? 

Seguimos, e é tudo. 

Fomos feitos para ser felizes? 

Bombardeia meus sonhos com perguntas terríveis e cortinas escuras, quando eu sigo desesperadamente tentando fechar minhas persianas. 

O que você quer? Ou, mais importante ainda, por que você quer? 

Deliro, febril, ou talvez não. 

Feito uma mariposa atraída pela chama de uma vela, acredito. 

Ergo altares e monumentos, uma estátua de um homem enorme oculto nas sombras, a destruição personificada, Perpétuo desaparecido. 

O homem quer a morte. 
Ele diz que não, que quer estar vivo novamente. 

Mesmo assim, diante dos meus olhos vítreos, mergulha a cabeça na água gelada, sem parar, engasga, afoga-se. 

Eu quero que pare, mas, talvez, eu não queira. 

Puxo meu próprio balde de água, cheio até o topo, 
água lisa, espelho de narciso. 
Eu considero. 
Uma, duas, dez vezes. 
Eu considero. 

Ele urge que eu tente também, vamos, tente. 

Por que?, eu questiono. 
Por que você faz isso, se dói? 

- É quem eu sou, ele diz, eu não consigo controlar. 

E eu consigo.
Mas eu não quero. 

Encaro o balde, o espelho, toco a superfície gelada. E sinto medo. 
Intenso, paralisante. 
Pânico, dispneia, taquicardia. 

Nem reconheço meu próprio reflexo, despersonalizo, desrealizo. 
Sufoco. 

É quem eu sou, 

é quem eu sou. 

46x22 What it was that made you weak ou UkuLulu (Season Finale)

 

Imagem: TingTing Huang

Acordei no meio da noite, boca seca.
Enchi um copo com água quente da torneira, gosto doce, rascante, água que deixa com sede.
Como pode isso? Satisfazer um desejo gerar mais vontade?
Faço silêncio. Tento ouvir a sua respiração através da parede. Nada. 

Nem um ruído sequer. 

Fico parada no meio da noite, pensando, esperando por aquele momento prometido pelos livros de Jane Austen. 

O momento em que você vem. 

O id todo pulsa, terremoto inconsciente, tonteio.
Ê, homem.
Sacudo a cabeça com força, como se espantasse o fantasma das coisas não vividas.
Tô tranquila, vou ficar bem.
Você nem existe.
O você que eu quero só existe na minha imaginação, repito, feito mantra. 

Você é só você, não tem nada do homem que eu, às vezes, no meio da noite, e até algumas vezes durante o dia, manhã e tarde---
Bom, isso não vem ao caso. 

Intrusivo, egodis, digo, sintônico, penso no cheiro do seu pescoço e fico meio taquicárdica, só um pouquinho.
Ou, talvez, eu tenha uma arritmia, uma disritmia.
Era só o que me faltava.

Ego ferido, coração ferido.
Puro suco do clichê.
Bebo mais água, sinto mais sede.
Mas que droga. 

Fico de pé olhando os prédios pela janela da cozinha escura, esquecendo que tenho medo do escuro, que acordo cedo amanhã, que não posso querer você.
Quase esqueço de tudo, dissocio, hipnotizada pelas janelas minúsculas e escuras onde mora gente que sabe ser amada.
Quase lá, sou despertada bruscamente do meu transe hipnótico pelo ruído do seu interruptor, seus passos, sua porta que se abre. 

Esse é o momento.
O momento em que você vem. 

Meu coração bate tão rápido que tô com medo de que você possa ouvir daí, que a sua mãe escute lá da casa dela, de que meus antepassados escutem.
Acho até que acabei de acordar um homem na Austrália.
Imagino brevemente o susto dele, "What the fuck", ele tá ouvindo trovejar, mas o céu tá limpo. 

Enfim, você chega.
Não diz nada, pega um copo, enche de água da torneira.
Bebe um copo, depois outro.
E outro.
E outro.
E outro. 

Você me olha, em silêncio, o silêncio mais angustiante já concebido. Uma mistura delicada e única daquele choro silencioso, do som que fica depois que alguém vai embora, e do silêncio de espaços em que a gente não deveria estar, espaços em que a gente não cabe. 

Esse é o momento.
É o momento em que você vem. 

Por favor, não venha. 

Early Cuts: Quinn

 

Imagem: TingTing Huang

Eu sou um oceano
Você sabe disso e, mesmo assim, tenta molhar os pés.

Não dá.

Eu sou uma sereia, um coral, a lua. Eu sou a maré, a areia sob os seus pés.
tudo e nada.
O ar e o vazio entre os planetas.

Eu vou pra casa e você, fica. E você, 

Fica. 

46x21 O amor que não posso dar

 

Imagem: TingTing Huang

Caro Otto, 

como você está? Por onde anda? 

Pergunto por educação, não sei se ainda me importo. Às vezes, acho que sim. Só às vezes.
Tem algo dentro de mim, e me sufoca. Abro todas as janelas da casa, me ponho nua, ligo o ventilador, preciso de ar, preciso respirar.

Preciso de silêncio e de música.
De afeto e de distância.
Preciso de um incêndio e de chuva torrencial.
De você e do não-você. 

Tem algo dentro de mim, que precisa sair, que eu quero que saia. Eu preciso que saia.
Mas eu não sei colocar em palavras, Otto.
eu não sei falar.
Sinto como se estivesse doente, meu corpo todo me diz que estou doente.
Talvez eu esteja.
Puxo o ar, tem ar aqui, eu tento convencer meus pulmões, tem ar aqui. E, mesmo assim, parece que me afogo. 

Eu quero tudo, Otto. Eu não quero nada.
Se eu puder, 

Finjo que você está aqui. Uma cadeira vazia, na frente do sofá.
Olho nos seus olhos de fantasma.
- Eu quero muito, mas não sei como.
E você não responde, você nunca responde.

Otto, o que é amor?
É o que ensinaram pra gente?
Por que eu insisto que seu amor é me dar as respostas pras perguntas que eu não sei formular?
E quem foi que te disse que amar é ficar em silêncio?
E o que era pra ser?
Você acha que a gente já amou alguém?
E como, como eu seria capaz de aceitar o amor que não consigo retribuir?

Tô pensando em Drummond, tô pensando nos meus pais e em quantas vezes o amor bateu à porta e eu fingi que não estava em casa.
E em quantas vezes ainda vou fazer isso.
E que o mundo é um lugar hostil e cheio de adultos feridos, como nós. 

Tô pensando se amor existe e que controlar nossos impulsos é o mais sensato.
E penso na textura do seu cabelo recém raspado e no cheiro de xampu.
Você acha que eu te amo?
Como? Como é que se ama uma coisa que não existe mais, um fantasma, uma alucinação, um delírio.
E, se eu te amo, por quê?
Tanta gente no mundo que merece meu amor e que pede os meus sentimentos, e eu insisto em guardar todos em você.
Porque você, Otto, não pode retribuir. 

Lembra-se daquele conto japonês sobre a garota que recebeu um bilhete: "amar ou ser amada"?

Todos esses anos, Otto.
E eu ainda não estou pronta para ser amada.
Eu nunca vou estar, desconfio.
E me dá medo, um pouco. 

Eu amo esse homem, como você sabe. E ele me ama. Mas eu não sei ser amada.
É complicado, mas funciona, de algum modo.
Não sei onde vai dar. Mas espero. Isso eu sei fazer com maestria. 

Mas. 

O que acontece quando uma pessoa que não sabe ser amada tem filhos?
Como se ensina algo que não se aprendeu? 

Tem algo, Otto, algo dentro de mim.
Você poderia, só desta vez, me responder o que é? Pra que serve? Só dessa vez, será que você poderia me dizer

Eu juro, só dessa vez, 

quem sou eu? 

46x20 Contrato não-verbal

 

Imagem: TingTing Huang

Sorrio, através da mesa. 

"Eu te amo", penso.
Mas não digo, não digo nunca.
Comento sobre a comida, o tempo, um filme. 

Você assina com sangue o contrato não verbal de jamais dizer que sim, e diz que está pensando em viajar.
Eu comento sobre uma nova coleção de agasalhos, conchas diminutas de praia, uma piada antiga, e me dá uma vontade imensa de pegar na tua mão. 

Você quase me toca, por pouco, arrepia, mas disfarça, apontando para o cartão que deixei cair.
Tomo um gole da sua coca-cola e quase sinto o gosto do seu beijo. Engasgo.
Você ri da minha confusão, me dá um tapinha e seu coração dispara, feito cavalo de corrida. 

Te abraço na saída e te solto um segundo antes, mesmo querendo ficar por horas escondida no seu peito.
Você me dá tchau e entra no carro, todas as músicas são nossas, a noite é nossa, o cheiro dos meus cabelos invade as suas narinas e você abre as janelas pra não sufocar.

Eu deito na cama e não durmo, eu tremo.
Em outro universo, outro travesseiro, você pega o celular 100 vezes pra me mandar mensagem, pra quebrar o contrato, pra dizer finalmente que

"Chegou bem??", brilha, na tela, a mensagem que eu, insone, enviei.
"Sim :)"
Nas entrelinhas, sim quer dizer tudo o que só pode ser dito no escuro? 

Boa noite, eu digito, pra não dizer que preciso do seu corpo aqui, agora, pega sua roupa, sua mala, sua escova de dentes, sua ---

"Boa noite"

Encaramos o celular, esperando mais, mais o quê?
Só é preciso uma fagulha, um sinal, uma mensagem mística, uma mensagem por engano, me mostra que não tô ficando doido, me mostra que não vou me magoar, me mostra que não vou estragar tudo.
É só uma questão de propulsão
Talvez seja essa a hora, talvez seja hoje, talvez

Não era.

Dormimos, mais uma vez, deixando o contrato intacto. 

46x19 Male Fantasy

 

Imagem: TingTing Huang 

"Queria beijar sua boca"
4 palavras no papel, letra miúda, singela. 

Ele sorri com os olhos, como se pudesse ler a minha mente.
E eu quase tenho medo de que possa. 

Eu sou uma mulher.
Cor de café-com-leite, burro quando foge.
Nem de longe a primeira a ser chamada pra dançar. 

Ninguém me olha duas vezes ao passar por mim, nas ruas ou corredores.
Ninguém me busca nas fotos ou me escreve poesias.
Não olham meus seios e nem sussurram meu nome nos vestiários.
Não sonham sonhos eróticos, cheios de cores e sensações.
Ninguém quer o que eu vejo no espelho. 

Por um instante, você quase consegue me fazer pensar nisso. Quase consegue me fazer pensar que --

O que você quer?
O que você vê, com esses seus olhos fundos de contar degraus?
Vejo, refletido nos seus olhos, a imagem de um lago pra você se debruçar num dia quente.
Feito uma miragem. 

Dentro do lago, existe um oceano.
E você só quer o lago. 

Todo mundo só quer o lago.