49x01 Despertar Maligno

Imagem: TingTing Huang

Sonhei com algo, mas logo me esqueci. 

Eu acho. 


Levanto da cama várias vezes, para ir ao banheiro, e lembro que me esqueci. Pauso, por um instante, tento lembrar. 

Não consigo. 


Durmo. 


E, mais um dia. 

E outro. 

E outro. 

Os dias se empilham feito panquecas americanas, viscosos. 

Fico sempre com a sensação de que me esqueci, mas nunca me lembro. 


E mais um dia. 

E outro. 


Noventa dias e noites, num piscar de olhos. 

E depois anos. 

Um, e outro, e outro. 


Acordo, ainda, no meio da madrugada, com a sensação de que esqueci, de que esqueço. 

No banheiro, jogo água gelada no rosto, penso. Penso. 

Abro a gaveta pequena À esquerda, pego um objeto: um grampo, uma presilha, um alfinete, um botão, uma agulha.

Abro bem a boca e ponho para dentro, engulo, sem mastigar. 


Sinto, quase como que surpreendida, o gelado do plástico ou do metal, a sensação de que há algo que não deveria estar ali, estranho ao meu corpo, o corpo estranho. 

Isso me acalma, e me ajuda a dormir, às vezes. 


Às vezes, me lembro de sentir raiva. 

Uma raiva intensa, quase que dilacerante, intensa, mas fugaz. 

Esqueço. 

Mais um pouco. 


Mais um dia, 

e outro.

E outro. 


Ele me pergunta se eu vi uma das suas abotoaduras metálicas. 

"Foram um presente do meu avô", ele diz. 

Eu digo que não, não as vi. 


Na terapia, ela me diz 

coisas


Chego em casa mais cedo, acendo as luzes, lavo a louça. 

Desastrada, derrubo um copo e ele se parte em mil pedaços.

Não me irrito, nada me irrita, nada pode me irritar, então eu pego vassoura e pá, me abaixo para recolher os cacos, grandes, médios e pequenos. 


E eu simplesmente sei, eu sinto

O coração acelera um tanto, enquanto eu pego o primeiro pedaço, pequeno. Coloco na boca e engulo. 

E ele desce, sem esforço. 


Um médio, então, e o pensamento passa feito um raio pelo meu corpo todo, o desejo e o medo e eu simplesmente 

sinto.

Algo.


Ele desce e eu sinto um gosto de sangue no fundo da garganta.

Espero o medo, o pavor, a realização. 

Nada. 


Mais um. Maior, fino e transparente, afiado. 

Vou enfiando na garganta aos poucos, sem tossir. 

A facilidade do ato me surpreende e me excita. 


E eu me lembro,

e sei, 

e penso, 

e ouço e vejo e penso e sinto

por quem eu fui e por quem eu tenho que ser e a dor é insuportável, absurda e lancinante, 

mas não a dor dentro de mim, mas a dor de estar e existir e eu simplesmente que é isso que vai matar, que existir vai me matar

e eu quero viver, eu realmente quero viver. 

Eu só não quero estar. 


E eu me debato e eu brigo com o tecido puído da realidade, mas eu não sei como, eu não sei outro jeito, eu não sei viver sem existir.

Eu não sei tolerar a angústia de lembrar que existir é estar.  


Ele volta pra casa e eu continuo ali, no mesmo lugar. 

Não tem sangue, não tem nada, nenhum sinal de luta ou de esforço. 

Só o chão cheio de vidro e eu. 

Ele me pergunta o que houve, preocupado. 


"Esqueci", sorrio. 


Só mais um dia. 



(e outro)



12/02/2025 - Para Carol.

0 comentários: