47x08 As mulheres que odiavam

 

Imagem: TingTing Huang

Tem um tipo de ódio que não consigo explicar, geracional, intenso, transformador, quente feito lava e frio feito a neve no topo das cordilheiras. 

É um ódio específico, ora líquido, ora viscoso, que eu tenho que experimentar, digerir, entender, ressignificar, ocultar feito o vestígio de um crime que nenhuma de nós cometeu. 

Sinto ódio, e não nego. 

Nomeio e semeio, homem, o ódio que recebi de herança é meu, até que eu passe adiante. 

Tenho ódio do que você fez e faz e fazem e fizeram e fará e farão. 

Dos dedos e medos e da chuva fina que caía sobre o meu cabelo mestiço na noite em que você não me disse não (e nem sim). Eu quero o seu bem, mas hoje não. Hoje eu me dou o direito único e irrevogável de lhe querer mal. 

E eu quero. 

Hoje eu quero que você seja infeliz, solitário, arrependido. 

Hoje eu quero que você pereça a medida em que eu floresço e escolho e sou escolhida. 

Eu desejo que você hesite e faça a escolha errada, contrária. E eu desejo, também, ardentemente -


(você)

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