33x10 The Hangover, parte 2

Imagem: TingTing Huang

L. me pergunta sobre ontem.
Como vou explicar?
Não consigo, nem quero conseguir contar tudo de maneira lógica.
Não quero tentar contar sobre rampas, e me sentir feito branca de neve enquanto colocava os meninos pra dentro do elevador, contando um por um pra me certificar de que estavam todos lá.
Ou todas as declarações bêbadas de amizade profunda que recebi do aniversariante mais maluco de todos os tempos.
Não quero tentar contar sobre a profusão de cores e livros naquele apartamento que quero ter quando crescer, ou na vista incrível da varanda.
Eu talvez queira contar sobre beber e discutir política e direitos humanos, sobre ouvir todas as coisas que não deveria ouvir calada, e conseguir dar risada e ficar zangada ao mesmo tempo.
Sobre todas as pessoas mais inusitadas, sobre roncos e pasta de dente.
Sobre plantas que se desfazem, gatos psicopatas e muito fofos, milhões de livros de todos os tipos e a vontade de me deitar no chão do escritório e ler todos.
Sobre eclipses solares e mercúrio retrógrado. Saber coisas sobre as pessoas que você nunca saberia de outra maneira.
Sobre perguntas que eu nunca teria coragem de fazer.
Cartas de tarô, de todos os tipos e tamanhos.
Azulejos coloridos e como a luz da manhã é linda.
Sobre como as pessoas sempre me surpreendem.
Eu queria escrever textos e mais textos enormes, transcrições das conversas que tive, queria nunca esquecer nenhum detalhe, capturar cada segundo e guardar em um frasco pra dar risada todos os dias.
Eu queria descrever a familiaridade dos meus pés imundos com o piso e os tapetes, e a minha falta de vergonha na cara de deitar no sofá com os pés sujos pra olhar a manhã.
Queria falar da coisa, A COISA, e de como ela estava lá também, e eu já estou me acostumando, então não liguei muito. Só olhei pra ela e dei de ombros, como quem diz "vamos ter que conviver uma com a outra amigavelmente, certo?". Acho que, por ela, tudo bem. :)
E joguei tarô, uma, duas, três vezes, jogaria um milhão de vezes.
Tirei "Princess of hearts", a personificação desse setembro maluco, de vozes na minha cabeça dizendo que não consigo me parecer com uma princesa, das minhas esperanças românticas e tolas, das minhas incertezas, da COISA, de milhões de pequenos detalhes como as horas iguais nos relógios, e as músicas de amor.
Deixei as armaduras de lado e dormi no sofá, sem medo de acordar com o rosto sujo de pasta de dentes, sem medo de nada, sem vontade de ir embora. Eu só queria ficar, eu só queria ficar ali, como se fosse um lugar sagrado, e o mundo estivesse preso lá fora, enquanto eu estava livre lá dentro.
Livre o suficiente pra dizer qualquer coisa, que tô cansada de beijar pessoas que não significam muito a longo prazo.
Fui sutil, me afastei nos momentos certos e tentei não causar mal a ninguém.
Queria explicar a sensação de não querer voltar pra casa, de criar um limbo, uma repetição daquelas horas, um concentrado de palavras e expressões, de coisas não ditas, engarrafar a sinceridade desse gigante maluco e usar nos momentos certos. Engarrafar sorrisos e aquela cara de "é, eu sei" que o homem-abacaxi faz quando sabe que eu não tô entendendo nada de nada.

Queria contar as histórias toda a hora, pra todo mundo, cada detalhe.
Mas não conto.
Digo uma coisa aqui, um detalhe engraçado ali,
mas guardo a maior parte de tudo, como se tivesse medo de deixar escapar.

Setembro, é, eclipses e etc. Esses segredos não me pertencem.
Ouço tudo e guardo num cantinho da memória, pra lembrar do que não conheço sobre as pessoas.
E é tudo.

A manhã chega, vamos embora, e eu não quero ir. Quero morar entre as duas fileiras de livros da estante, ou na gaveta das cartas de tarô, talvez no mesmo aquário em que o peixe que não se chama Baudelaire. E me sentar cada dia em um sofá diferente, colocar comida para os gatos bizarros e escrever sentada no sofá, enquanto a manhã chega aos pouquinhos e invade o mundo.
Eu não quero ir embora, quero entender cada enigma escondido debaixo da miniatura de aranha e a disposição dos azulejos.
Quero acordar cada um dos sete bêbados insanos e perguntar tudo sobre a vida deles, eu quero
Eu só não quero sair.
Eu só não quero voltar pra minha casa bagunçada e muda, pouco colorida. Não quero voltar pras minhas manhãs brilhantes demais. Não quero voltar a encontrá-los somente nos corredores e não quero voltar lá pra fora, onde existe o tutorial e a vida inteira, decisões a tomar, e pessoas que precisam de mim, precisam que eu me decida.
Eu quero aqui.
Eu quero as paredes coloridas e os imãs na geladeira, quero as poesias de T.S. Elliot e a sensação de que esses pêlos de gato jamais sairão do meu cabelo.
Mas é tarde,
e a vida espera lá fora.
Os telefones tocam, as mães telefonam, meu quarto precisa de organização, minha vida implora por organização, e eu não tenho tempo pra conhecer todos os segredos desse lado do mundo.
Saímos, e ele tranca a porta,
e eu me despeço,
acabou.

Mas deixe,
esse dia vai estar vivo na minha memória por muito tempo ainda.
Muito,
muito tempo.

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