33x11 Heart in a cage

Imagem: TingTing Huang

Coração enjaulado, engaiolado, pia, canta e bica.
Perde as penas, perde sangue, um olho ou dois, bate o bico nas grades até partí-lo e morre de fome, sem ninguém pra amar.
Dramático,
até demais.
Abro a gaiola, dou comida, grãos de esperança, e ele  queima, vira cinza e nasce de novo, piando e cantando. Sorrio.

Deixo aberta a gaiola, e ele não foge, não sabe voar, arredio, meu pássaro novo e vermelho vivo, vermelho sangue, cheirando a metal.
Arranco do peito e o levanto na altura dos olhos.
- O que é que vou fazer com você?
E ele nada, nem liga, pia alto, ruído estridente, assim que o sol aparece na janela que não é tua.
- Shhhhh, quietinho! - peço silêncio e ele me olha como se entendesse, olhos brilhantes escuríssimos, pia baixinho.
Mas, se entende o que digo, ignora, faz o que quer. Coloco-o no ombro enquanto lavo a louça suja de domingo e ele começa a piar, baixinho, aquela canção que é sua, até meio nossa.
Canto junto e ele se anima, bate as asas depressa, quase feito beija-flor.
- Feliz, agora?
Ele pia, uma vez só. Depois, fica quietinho, espera.
Comemos morangos, muitos. Limpo meu quarto, leio, estudo, enquanto ele me espera, quieto.
De vez em quando, solta um pio, me recriminando pela falta de ação.
- Não adianta. Eu não vou fazer o que você quer.
Ele bate as asas, zangado, e eu o ignoro.
Penso em explicar, como se explica a uma criança inquieta, porque é que as coisas são como são. Mas não tenho ânimo, e nem sei todas as respostas, nem sei se essa coisa faz sentido ou se é só efeito de setembro e dos eclipses solares.
Ele pia, tristinho, sente saudade, sente vontade. Passo o dedo na sua cabecinha lisa e me dói tudo, bate uma tristeza e uma vontade de ser quem fica com o mocinho das histórias de aventura.
Mas há que se aceitar.
Abro a gaiola e ele se encolhe lá dentro, triste. E murcha, silencia, amuado.
O humor dele contagia, me ponho sorumbática, tristonha.
Quer coisas que não pode ter, que não pode querer, nas quais não pode pensar.
Tolices.

Tolices de cabeça cansada, deito no sofá pra ler, mas não me concentro.
Olho pro teto, faminta dessa familiaridade do teu olhar do outro lado do cômodo lotado, da sensação de que estamos a sós no centro do mundo.
Sinto dor no peito, súbita, lancinante, mas não é Angina, nem infarto, nem TEP, nem dissecção de aorta: é vontade de ser mais.
A dor aumenta, oclui, não vaza, não sai do lugar, inflama.
E ele pia: alto, triste, muda o arranjo da nossa música, tornando-a melancólica, e o som preenche a casa vazia, o mundo vazio, o peito já cheio desses sentimentos que não admito e não admitirei.

Um hora dessas, vou acabar explodindo.
Não esteja por perto, ok?

Não quero te machucar.

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