Imagem: Sifu Renka
- Eu odeio você.
Ele se faz de surdo, checa meu pulso.
- Eu odeio você.
Estou sendo sincesa, eu o deio. Não sei quando começou, uma raiva imensa, substituindo o desprezo de antes.
Agora, encho a boca pra dizer, arregalo os olhos e projeto meu corpo pra frente:
- Eu odeio você - sem gritar, fácil feito um desabafo.
Ele observa minhas pupilas, muito próximo.
- Eu odeio você.
Ele franze a testa, pega um algodão na bandeja e passa pela minha gengiva purulenta.
- Ligéia? - pergunta.
Não respondo, mas acho que ele está meio certo; Ligéia, diabetes escorbuto, é mesmo humanamente impossível eu estar viva no meio de tanto pus e catarro.
- Eu odeio v---
- Não, não odeia. Você SE odeia porque não consegue dar conta sem mim. Se conseguisse, não estaria aqui.
E é verdade. Eu quero ser ele, eu quero ser tão otimista quanto ele, saber tanto quanto ele sabe sobre mim. Eu tentei sozinha e olha só pra mim agora.
- Não é Ligéia. Eu estou ---
- O quê?
Suspiro. Não é isso o que eu quero?
- É melhor você se sentar, doutor. Vou te dizer exatamente porque você não consegue me curar...
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