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38x04 Sucedâneo de Paixão Violenta

Imagem: TingTing Huang

(Peço desculpas por qualquer perturbação que possa causar, querido leitor. Mas não meço palavras. Hoje não. Eu sofro, e não vou sentir muito, por sentir tanto)

Sonho com baratas.
Você me sufoca, durante um sonho.
Eu, Selvagem,
estive tentando te dar amor
mas você não foi feito pra ser amado, foi?

Ah, não, você não foi feito pra isso, sentimentos desse tipo, pra pessoas desse tipo. Você quer limpeza, quer fordeza, quer gramas de soma e Golfe-Obstáculo, sentir beijos que não lhe foram dados, você quer essa sensação passageira, esse interesse breve, seu amor possui interruptor.

Desembaraço meus cabelos com força,
mas sem me machucar
e percebo que te odeio, que todas as gramas de Soma não são suficientes pra me fazer esquecer disso.
Oh, meu Ford,
eu te odeio e não se deve odiar ninguém.
É proibido, não é?

Enfio as unhas nas palmas das mãos
e eu te odeio, eu me deixo te odiar.

Um rapaz me pergunta, educadamente, se amo alguém, baixinho, como se fosse um pecado
e eu digo
não.
Mas eu odeio, e ódio e amor são a mesma coisa, em dias como esses.

Eu odeio você,
e tenho ignorado isso por tempo demais,
por medo das consequências que odiar alguém podem trazer.
Mas
será que podem ser diferentes disso?
Te odiar vai me partir em mais pedaços?

4 comprimidos de meia grama pra mim,
4 para Henry,
e derretemos no chão de madeira,
acalentados pela voz de vestido fúcsia, eu tô tão cansada,
eu tô tão cansada
que confundo tudo, mas não quero mais confundir,
estendo meus dedos na direção dele,
mas ele também sente dor, e não pode me ajudar.

Então, eu me levanto e dirijo pra casa,
ébria,
falsamente feliz,
a cabeça trabalhando numa fórmula pra te apagar do universo.

Cheguei em casa e ela me disse,
essa mulher minúscula, mínima
que eu tô aqui porque eu sou forte,
ela me disse coisas,
ela encheu meus bolsos de soma
e me sussurrou no ouvido
pra não tomá-lo,
ela me disse pra ficar sóbria
pra esperar,
pra entender

e eu esperei,
esperei até o efeito passar pra poder perceber o que tô percebendo aqui, agora, na frente do espelho
eu te odeio

Eu quero fazer coisas horríveis com você,
estamos ligados por esse sentimento horrível e escuro que tô carregando
essa coisa que me torna amaldiçoada e incapaz de me sentir plena, feliz, satisfeita
essa nuvem negra em cima da minha cabeça.

Alguém me oferece mais uma grama, outra grama, outra
e eu tô tomando
até a euforia bater, a vontade de acordar do lado,
de ouvir músicas bonitas à tarde toda,
eu tô tomando,
eu tô tomando, uma grama, outra grama, outra
e fingindo que tá tudo bem

Porque, quando eu parar de tomar,
quando eu parar de fingir
vou acabar com você,
vou arrancar cada grama de soma do teu corpo
e te ver sentir dor e adoecer,
como você fez comigo.
Eu vou despejar o ácido das minhas feridas na tua goela
e te ver queimar por dentro,
vou ter a coragem que você não tem e nunca vai ter,
eu vou te fazer sangrar no mesmo chão em que você me deixou pra morrer,
vou arrancar a sua língua pra que você nunca mais possa me machucar,
vou arrancar seus olhos,
furar seus ouvidos,
eu vou arrancar tua pele toda e queimar,
vou urinar no seu rosto, e vou sentir o prazer físico de me aliviar,
eu vou arrancar o seu coração e não, eu não vou comer,
eu não quero pegar essa sua doença.

Eu vou pisar nele.
Eu vou pisar nele.
Tantas vezes, tantas vezes, que me dá água na boca imaginar a carne se desfazendo sob os meus pés, se transformando em uma massa de sangue e carne, disforme.

Eu preciso te machucar, entende?
Porque você me machucou.
Porque não tem outra cura, porque eu finalmente te odeio, como você queria que fosse,
como deveria ter sido desde o começo.

2 gramas no total, eu tomo e me deito na cama
fecho meus olhos
e espero que passe
mas não quero que passe,

não mais.

37x18 Pequenas falhas no espaço-tempo

Imagem: TingTing Huang

Caro Hans,

eu ia escrever teu nome aqui. Quase cheguei a escrevê-lo de verdade.
Queria que você lesse.
Queria que você soubesse o que tenho a dizer.

Meu Deus, eu estava sentada no sofá, mil coisas na cabeça, pensando em cozinhar camarões
E, de repente, eu não estava mais aqui.

Era maio.
E você estava lá, segurando suas coisas, e me dizendo o que fazer.
Eu queria escrever aqui o que você disse, palavra por palavra
mas essas palavras são minhas
e eu não quero que ninguém saiba sobre elas.

É tudo o que eu tenho.
Então eu tô sentada feito um fantasma, olhando meu eu passado,
deslumbrado
o coração batendo tão forte que tô ouvindo o barulho
e não posso fazer nada

Ela hesita, por um segundo
E eu prendo a respiração,
eu quero mudar o final desse filme
eu quero escrever uma história nova, uma fanfic nova

Mas eu só posso olhar.

Eu só posso olhar e perceber que já era tarde demais àquela altura dos acontecimentos
Pela maneira como ela se inclina,
como ela sorri
como ela fala

E eu tô com o coração pesado
Cheia de vontade de dizer a ela
De dizer o que acontece no fim
De dizer o que acontece depois dos créditos

Tô treinando meu discurso,
eu preciso que ela confie em mim, acredite em mim
Ele vai partir seu coração.
Ele vai te cortar em pedacinhos.
E você não vai conseguir recolher sozinha.
E eu ainda nem sei se você vai conseguir recolher.

Ela dá risada
coloca o cabelo atrás da orelha
passa a mão no rosto oleoso
uma quantidade excessiva de rímel
ela usa um vestido.

Tento reunir as informações,
coisas nas quais ela acreditaria,
invocar o nome de Otto,
eu preciso usar todas as armas possíveis, eu preciso
eu preciso me salvar de se tornar isso

Eu preciso economizar as lágrimas
eu preciso me salvar desse exato momento
eu preciso me salvar da dor infinita
e do pavor que eu sinto toda a vez que acordo ao lado de alguém
eu preciso me salvar
dessa sensação
do cheiro de fracasso
eu preciso me salvar

Reúno toda a minha coragem,
todas as minhas palavras
respiro fundo
tão fundo
e levanto a minha voz,
me faço enxergar

- B.?

Ela olha pra mim, assustada.
Tomo fôlego pra começar a explicar,
pra contar toda a história
mas percebo
que isso já aconteceu antes
quando ela
me diz
- Tá tudo bem. Eu consigo. Tudo bem se tudo desandar depois. Tudo bem.

Assim como eu vim,
muitas de mim virão.
Eu queria sim, arrancar o mal pela raiz.
Voltar até lá e dizer não.
E ir pra casa.
Ir pra casa.
Mas eu nunca vou pra casa.
Eu sempre escolho ficar.

E isso vai me perseguir
isso vai me assombrar
pelo resto da vida

Porque não importa quantas vezes eu volte até lá
eu sempre vou escolher ficar e lutar.

Então eu volto pro hoje, pro agora
e enfrento a dor
de acordar todos os dias de manhã
com um pouquinho mais de coragem, um pouco mais de paciência
porque o que aconteceu em maio, em janeiro, agora
foi o que eu quis que acontecesse,

Agora, paciência.
Maldita paciência.

37x17 Sempre que eu pensar em nós

Imagem: TingTing Huang

Não consigo estudar.
Eu tô apaixonada por você, de novo.

Saí de casa bem cedo e te encontrei nos meus pneus gastos.
Numa camiseta que usei na noite em que a gente se encontrou, e olha, eu fui pegar um colar e achei aquele lá, sabe?

Essa menina gritou alguém na rua e ele tinha o teu nome. Meu melhor amigo cheirava à livros novos, e eu me lembrei
do quanto gosto do cheiro de grama da tua camisa.

Eu pensei em dizer à ela que te amava,
mas não consegui.
Não saiu.
Mas ela entendeu, e me disse pra ter paciência.

E eu tenho.

Mas a pessoa que vive dentro de mim não tem.
Sentei no sofá, instável, pipocando
E ela quis te ligar.
Digitei seu número e esperei a vontade passar,
já que a coragem não vinha.

19:19, eu pensei em você
Em te ver
Mas foi um pensamento ligeiro,
porque eu te amo,
mas nem tanto assim.

Tô apaixonada por você, mas te conheço bem demais
pra estar apaixonada de verdade,
pauso as músicas românticas,
você me manda uma mensagem
e eu já nem me lembro mais
o que queria tanto te dizer

Eu amo você.
E me apaixono de novo por você nos momentos mais estranhos,
quando estou calçando meus sapatos
ou quando descasco minhas frutas,
quando como comida estragada
e quando jogo fora o lixo.
No meio de conversas e quando estou comendo pipoca

Mas eu te conheço bem demais
pra estar apaixonada de verdade,
então sacudo os ombros e te deixo ficar
feito um incômodo a me apertar o estômago
a me sufocar um pouquinho
até que você some
e eu fico só

como eu estava, antes de você chegar.

Não tenho mais medo,
eu estava sozinha,
antes de você chegar.
Eu estava sozinha, antes de você ir embora.

Então, eu te amo.
Mas não o bastante.
E, sempre que eu pensar em nós,
eu vou me lembrar de tudo

e é por isso
que você volta a existir.
Porque eu penso em nós.
Então, eu te trago de volta
e te deixo ficar.

Mas uma hora passa,
eu não penso,
você não volta
e eu fico sozinha
como eu estava antes de você chegar,
como tem que ser

como eu quero que seja.

37x16 Capitolina

Imagem: TingTing Huang

Acordo, no meio da noite.
Sonhei com você.
De novo.

Olhos de ressaca.
Olhos de ressaca.

Coloco a água pra ferver, com um saquinho de chá lá dentro.
Engulo um, dois, três comprimidos, com água da torneira, que me seca a boca, ao invés de umedecer.

Os remédios não fazem efeito rápido o bastante, porque eu começo a me lembrar
E eu não quero mais me lembrar.
Porque eu não sei o que houve.
E minha imaginação fértil teima em preencher as lacunas.

Ouço coisas,
vejo coisas,
mãos tocando corpos
esse intervalo gigantesco de tempo
eternidade

Começo a chorar, a soluçar
e a implorar
pra que ela tire as mãos de você
mesmo sabendo que isso é só uma memória
e que eu não posso mudar o final da história.
Mas eu tô tentando argumentar, com meu passado
eu tô tentando entender,
tentando descobrir
juntas as peças que eu não tenho mais
mas eu só consigo ouvir seu coração bater forte
e choro
porque não é por minha causa

Fico tonta com as possibilidades,
e odeio
odeio
rasgo meus braços com as unhas,
meu rosto,
minha dignidade,
minha sanidade.
A água ferve, borbulha, derrama, mas eu não desligo o fogão.
Perdi as forças
Mas você não se importa.
Não é do seu feitio se importar.

Procuro algo teu pra queimar, mas não tenho nada.
Eu não tenho nada.
E preciso queimar algo
pra me sentir melhor, pra me sentir inteira
Não consigo respirar, não vou conseguir respirar
se não queimar algo que tenha significado algo pra você.

Então,
Olhos de ressaca,
eu pego a panela cheia de água fervendo, com toda a delicadeza do mundo, desligo o fogo, caminho até à pia
e despejo toda a água sobre o meu braço.
A pele fica vermelha, murcha sob meus olhos.
E eu digo a mim mesma que nunca senti tanta dor, que nada poderia me causar mais dor
mas não é verdade, é?

Não é verdade,
é?

37x02 Brisa

Imagem: TingTing Huang

Tô meio drogada, bêbada, 222 mensagens no celular por abrir e o meu melhor amigo de qualquer coisa a quilômetros de distância, incapaz de me proteger de mim mesma.

Qualquer pessoa a quilômetros de distância, em outro universo.

Tenho sim, teu endereço, tenho o teu número, tenho com quem falar, a quem beijar, com quem dormir.

- Me beija, então.
Me abraça, dorme comigo.
Tiro a blusa, fico nua e você olha através de mim.
Meu Deus, tem tanta gente no mundo, não pode ser você.

A voz na minha cabeça, sábia, concorda.

Se fosse ele, B., ele estaria aqui.
A gente não dá as costas pra quem ama.

Então tá bem.
Se você diz,
deve ser verdade.

36x21 Ar (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Eu preciso de ar.
Tento respirar, mas essas paredes me apertam, você aperta.

Então eu saio, descalça, na chuva e respiro. Meu Deus, eu respiro.

Milhares de pessoas dentro de mim colocam as cabeças pra foda d'água e respiram, levantam e saem da água.

Uma sereia tenta desembaraçar o meu cabelo duro e sujo de glitter,eu ouço ruídos de trovão, mas é só o barulho do colchão quando me movimento durante a noite.
Chuck rosna pras tuas mãos e pras mãos dela e eu sinto que vou vomitar, então uma garota asiática segura meu rosto no escuro, beija meus dedos,
mas Alex me diz que não tem nada a oferecer.

Dimitri me olha nos olhos, toca a minha pele, alguém me abraça e eu sinto uma vontade incontrolável de cantar, mas eu não consigo respirar, eu não consigo respirar porque os cabelos de Sofia estão presos em um coque, porque ela está sentada e eu não estou.

Eu preciso de ar, e tremo de frio, e quero morrer de frio, no meio da calçada suja, com os pés sujos, então Annabelle me dá um abraço gelado, e me toca como se me amasse, como se eu fosse especial, ela me diz coisas, me dá as costas e um menino chamado Vincent não beija a minha boca, por que ele não beija a minha boca?, eu preciso de ar, mas você não sopra, você não sopra
Um dos irmãos Edson chora na minha frente e
Por que?
Pippa me segura forte pra que eu não caia de joelhos no meio da rua, eu não consigo entender porque é que ele chora, então ela tapa meus ouvidos
mas eu posso ouvir, Pippa
eu posso ouvir, e meus ouvidos sangram mesmo que eu não entenda o que Augustus está dizendo para Annaliese. Ele a beija, e ela muda de cor e forma, é Annaliese, Henrietta, Helen, Maurício, Maria, Otto.
É mágica.
Sinto vontade de vomitar e procuro uma lixeira, meu telefone toca e eu percebo que não o trouxe.
Não é pra mim,
Marcella atende e
Ulrika fala comigo, ela fala comigo, ela fala comigo sem mover os lábios
Mas eu só quero beijá-la, eu só quero beijá-la.
Ela abre a boca e sopra fumaça no meu rosto, tanta fumaça que ela precisa de coragem,
e eu me lembro que tô sozinha no frio, na chuva, que tô enlouquecendo, de novo.
Então, misericordiosa, L. arranca meu coração todo fodido, sangue coagulado aos montes, e eu vomito, sem saber onde estou.

Eu preciso de ar, e o trem do metrô traz uma lufada de vento, e eu quero, eu quero ir com ele, eu preciso de ar, seguro a tua blusa, sem saber quem você é, e puxo, e peço
sopre ar em mim, sopre ar em mim.

Mas você se desvencilha, dizendo que só quem sopra vida é Deus,
e Deus não existe.

36x19 Take Responsibility

Imagem: TingTing Huang

Eu me recuso a enlouquecer.
Eu me recuso a chorar mais uma lágrima sequer, pela penumbra, teu riso ou o ruído tardio dos teus passos.

Eu tomo a responsabilidade pela minha dor.
A minha dor é causada por mim, não por você, pela sua boca ou sua rudeza.

Magoar as pessoas é impessoal,
não tem rosto, não tem meu corpo o alvo dos teus golpes.

Mas o meu alvo tem meu rosto, minha boca e minha voz e eu teimo em me deixar magoar e ruir e sussurrar fatos e mentiras, canções e sonhos em meus ouvidos sujos e doloridos.

Eu me responsabilizo pela dor que cativei pra mim, que me corta e me assusta, queima e embaraça.
Eu tenho deixado a dor me consumir, vermelha e azul, queimar minhas asas grandes.

Eu assumo a minha dor, eu grito, eu grito "MAGOAR AS PESSOAS É IMPESSOAL.

Mas será que é?

36x16 Sexual Healing

Imagem: TingTing Huang

Respire fundo, pense.

Às vezes, coisas boas vêm disfarçadas de coisas ruins. Às vezes só.

Penso, engulo o orgulho e penso na dor que a coisa toda há de me poupar.

Sim.
Sim!

E, de repente, estou salva, ilesa, intacta. Salva, por uma noite só, e isso é quase inebriante demais pra conter dentro de mim, quer dar amor a todo mundo, mordidas e sinais trocados, abrigo da chuva, do frio, de corações partidos.

Homem, eu estou segura hoje, e nem a sua sinceridade pode me magoar, nem a certeza da minha tolice, nem os ruídos do mundo, o medo ou as regras universais impostas há milênios.

Deito, olhando pra lona úmida enquanto você fala, Dragon Maker, sobre essa garota de olhos verdes que representa todas as coisas que acredito desconhecer e fico feliz por você, por nós, extasiada, e viajo, como quando era criança, nas costas de um dragão, pra um lugar possivelmente melhor.

36x15 Dead Hearts

Imagem: TingTing Huang

N.A.: Escrito em uma noite de chuva, depois de uma puta bebedeira, a leitura de certas mensagens sem sentido e mais do mesmo.

Pra que serve um coração?
Quem diz que é bom?

Ela parte meu coração todos os dias, dezenas de vezes. O meu, e também o dela.

Fala com ele a se inclinar, a voz muda, as mãos suam: ela derrete.
Mas ele não.

Já dizia Pégaso, "ninguém é obrigado a gostar", frase dura, levei pra vida, percebo.
Ninguém é obrigado a ser.
Acho bonito o meu pensar e repito para o coração partido ao lado, ela derrete, a quilômetros de distância.
Ele não.

Todo mundo morto, todo mundo perdido.

De que me serve isso?
Isso não é o que eu quero
(é o que eu quero)
mas não é o que eu preciso,
coração partido e bordô,
que me dá vontade de comê-lo.

É o que eu quero,
não o que preciso.
Eu não preciso ser dilacerada diariamente, das formas mais vis (porque não intencionais, eu acho),
eu não preciso,
mas eu quero.

E, mesmo sendo capaz de compreender,
de aceitar,
cada sombra me traz sobressalto,
cada passo me traz esperança.

Fui Alice,
e não no bom sentido.

36x14 Bird Song

Imagem: TingTing Huang

Pássaro descontrolado, pia sem parar, bate as asas, revolta-se, enlouquece.
Eu peço calma, o mundo é tão grande.
Olho pela janela e vejo o mundo inteiro quieto, ágil.

Meu coração quer sair do peito, explodir as costelas, despedaçar-se, manchar o chão com sangue escuro.

Calma.

Respiro fundo, fundo, minha expiração parece movimentar as árvores lá fora.
Mas meu coração não se acalma, bate mais rápido e as veias parecem doer quando o sangue chega até elas.
"B, você precisa de terapia"

Como é que eu posso explicar isso pra alguém?

Todos os dias, todos os dias, mesmo depois que cheguei, eu preciso, em algum momento do dia, sentar no sofá e respirar fundo, respirar fundo.
Porque meu coração quer sair do peito.
Explodir costelas.
Despedaçar-se.
Manchar o chão com sangue escuro.

Quando meu telefone toca
quando alguém me chama pra sair
quando penso em voltar
quando tô feliz
quando tô triste
antes de dormir
e depois de acordar
quando leio meu caderno
e quando leio um livro

Como é que eu posso explicar isso pra alguém?
Como é que eu conto essa história?
Como é que eu explico essa sensação de estar permanentemente sufocando?
Como é que eu começo a falar nisso, se toda a vez em que penso no assunto, toda a vez que escrevo um texto, que pego uma caneta pra escrever, que digito algo que escrevi há séculos (é o que parece, às vezes), eu ainda tenho que parar na metade pra respirar fundo?

Tô oficialmente fodida, é.
Quebrada.

Parafraseando Byron (ou não):
Vida que segue.

36x12 Out Loud

Imagem: TingTing Huang

Medo.
Eu me lembro do medo, do gosto, do cheiro, do toque.
Fiquei lá no meio de um mundo de pessoas, carros e prédios, um céu enorme. Meu Deus, como sou pequena.

Senti medo da dor, da morte (um medo contínuo e familiar), dos passos, da perda.
Senti medo dos movimentos da tua mão e meu coração parou cada vez que a perdi de vista, a cada movimento a favor do vento.
Camisetas vermelhas, pretas, brancas, azuis gritavam em meus ouvidos e eu tinha medo.
De onde vem, onde fica guardado tanto medo?
Freud explica, ele sabe de tudo, afinal.
Sabia até que eu tinha medo de estar com medo, abri a boca pra pedir casa e trégua, mas gritei palavras rimadas, manifestei meu descontentamento. E isso me deu força, ombros novos: eu estava ali pra lutar.
Pra apanhar, pra morrer, pra sentir dor.
Aquilo era maior do que eu, infinitamente maior do que afetos mesquinhos, centavos e brigas.
Meu coração gritava e se desfazia em pedaços murchos de carne, mas minhas pernas continuavam, também meus pés, e a boca gritava.
Eu quero passe livre, eu quero. Eu quero. Eu não quero pra mim, eu sou só um pontinho, eu quero pra eles, quero, quero agora, e não paro de gritar.
Mas parei.
Senti medo, um medo súbito de que alguém se machucasse.
Olhei pra eles, sentados nos seus carros grandes com gás e balas de borracha pra acertar em crianças, em gente que só queria ganhar pra todo mundo, prontos pra machucar, carregar, reprimir.
E me deu medo.
Não por mim, eu já não era eu, tirei a blusa da cintura e esperei o momento de usá-la pra tapar meu rosto.
Deu medo por uma menina pequena, toda feliz, olhos castanhos clarinhos com dois pontinhos na íris esquerda, quatro pintinhas estrategicamente plantadas em lados opostos do olho esquerdo e que tem covinhas no queixo quando sorri.
Não era pra ninguém se machucar, vambora.
E eu até fui,
mas não podia ir.

Porra, B., minha cabeça gritou
Seja Alice.
Uma vez na vida, seja Alice.

355, dê as costas pra tua mania de segurança e volte.
Eu não podia nem hesitar ou parar pra raciocinar.
Tinha que voltar, pra apanhar, pra bater, chorar.
E isso não faz de mim uma pessoa melhor, não faz de mim uma heroína, a super B.
Eu só estava cansada, eu tô cansada de ir e vir nas escolhas que faço.

Seja Alice, porra.

36x11 Time has come

Imagem: TingTing Huang

Querida B.,
respire fundo, porque isso vai doer feito o soco mais doído.

A burrice da coisa toda, a simplicidade da coisa. Vai doer junto.
Tô avisando porque quero que saiba: vai doer.

A Alice tá ali na mesa, dando tudo de si pra fazer o certo, sendo honesta, sendo forte, alterando pra sempre o significado de "ser Alice".
Seja Alice, B.
É hora de ser Alice.

A vida é pra doer, a dor é pra sentir. Sentir é ser Alice.

Seja Alice e tome a bordoada quando ela vier. E ela vai vir, amor.

Seja Alice hoje, B.
Sem medo, a hora chegou.

A cura, amor, é tomar veneno.

Abra a boca, respire fundo:
vai doer.
Eu prometo.

36x10 Repetições

Imagem: TingTing Huang

VÁ TOMAR NO CU
(é um mantra, minha maneira de extravasar, me olho no espelho ao acordar de manhã, penteio meus cabelos para mais um dia horrível, torcendo, ansiosa, pra que seja um pouco menos horrível)

Começo.
Repetições.
Galeano disse que a vida acontecia em círculos.
Somos padrões, vivemos padrões.

Isso não é novo, não me surpreende, mas me enoja, me machuca, me humilha, me fere fundo.

Círculos, padrões, repetições.
Aperto replay na eterna cena da minha vida, essa.
Aqui, agora.

Círculo, padrão, repetição.
Minha cabeça lateja, eu anoto no braço que posso ir embora.
Eu anoto "B, vá pra casa".
Eu anoto milhões de vezes, nos braços, nas pernas
355
355
355
355
355
355

É quebrar um padrão, um círculo, uma repetição.

Vá pra casa, B.
Vá pra casa, B.

Vá pra casa.


(não deu)

36x09 Where does the good go?

Imagem: TingTing Huang

Cadê o povo pra defender a menina sem coragem de pegar a faca e matar o pai?
Cadê o povo que grita acusações, que chama esse (meu) Deus, quando essa menina é violentada todos os dias, quando é obrigada a sentar ao lado do seu estuprador?
Cadê sua lógica quando uma criança me diz, quando um amigo me diz que não se sente feliz no seu próprio corpo e você diz que isso não é normal? Fala sobre Deus, um Deus que você nem conhece, e que, se conhece, não é o meu. Não é o que eu quero.
Dor não é comparável, não é mensurável, não é engraçada.
Vê se me escuta, vê se olha as pessoas nos olhos e entende que o mundo muda, que homens beijam homens na boca e não é errado amar, e você não precisa beijar uma mulher na boca pra respeitar uma mulher que faz isso. Você só precisa ser humano.
Errado é reprimir, violar, aprisionar, ferir, entristecer.
Por que você não vê?
Quero te arrancar os olhos, te mostrar meu mundo, não tô tentando impor minha opinião, tô tentando te mostrar que existe outra opção, que o mundo não é só esse quarto fechado em que você se encontra, quero mostrar o mundo e a crueldade dele, a tua crueldade, a minha.
Cadê as pessoas boas, cadê o povo que alimenta os famintos, agasalha os pobres e dá as costas aos homossexuais pecadores?

Por que vocês não conseguem ver?
Isso não é guerra, frescura, fase,
isso é amor.
De um jeito que você não pode não sentir, mesmo sendo como eu.
É maior, mais bonito, incrível.

E é óbvio.
Mas você não consegue ver.
É óbvio.
Mas eu não consigo te mostrar.

Porque você não quer ver.

36x08 Akhmet

Imagem: TingTing Huang

Eu me lembro de um sonho.
Eu era.
Eu significava algo pra alguém, portanto, eu era.
Ou não?
Sim.
Eu era poesia pura, minhas pernas foram construídas dentro das canções de amor e das cores dos seus olhos.
Nas minhas costas podia-se ver a tua respiração e meus cabelos cresciam ao som da tua voz.
Eu era uma música que vivia no teu peito, sem ritmo e sem dor, eu era incrível, invencível e bonita, eu já fui bonita e eu sabia como criar mundos e estrelas.
Eu cheirava à grama e lençóis limpos, recém lavados.
No meu corpo, toda a existência consistia na cor marrom e na textura macia da sua boca.
Eu era.

Acordei, com aquele gosto horrível na boca, e me lembrava.
Eu me lembrava.
Virei pó.
Eu não era. Só carne, sangue, ossos, metal e a dor de ter que continuar sabendo de tudo o que eu não era mais.
Como viver sabendo?
Como conviver com a frustração de saber e não poder ser?
Guardei dentro de mim a sensação de ser até que a vida perdesse a graça, vida torpe, morosa.
Morro?
Não, não, eu luto.
Eu me levanto e enfrento a crueza da vida, sendo cruel, eu arranco a beleza dos ligares, roubo significados.
Eu quero significar.
Mas eu não sou.
Minha carne é ácida, meu beijo queima, entristece, entristeço, entristecemos e eu sinto muito, eu sinto tanto, eu só queria significar.
Eu só quero significar.

E eu queria terminar esse texto com uma puta mensagem positiva. Sim, sobre significar, sobre não precisar que alguém te dê significado.
Eu tô sentada aqui no meu quarto bagunçado, finalizando esse texto que comecei há quase um mês (dentro de um redemoinho de dor e frustração) e tentando entender porque é que eu acho que o meu significado tem que partir de alguém.
Se eu sou a mesma pessoa que escreve que detesta ser limitada, ser definida por pessoas que acham que me conhecem, por que é que estou choramingando sobre alguém que me dê significado?

Sim, sinto que estraguei um texto que poderia ter sido tão bonito e poético.
Mas essa nunca foi a minha intenção, caro leitor.
A começar pelo título, que é o nome de um homem nojento e revoltante, incrivelmente cruel: um ser humano podre (e fictício, ainda bem).
Esse não é um texto sobre amor, sobre querer ser amada.
É sobre a crueldade dos momentos bons. E sobre a bênção do esquecimento.

Como é que eu posso viver sabendo que já significo algo pra alguém, e que esse significado vai se perder com o tempo?

Eu não sei responder a essa pergunta, ainda.
Mas eu sei que está relacionada com meu próprio significado.
Eu tenho um, que não me foi dado por alguém.
Eu só preciso encontrar.

E aí,
eu respondo.
Se você quiser saber.

36x07 Por favor

Imagem: TingTing Huang

Por favor, Deus, por favor.
Por favor
Por favor
Por favor

Já fizemos isso antes, nós dois. Já estivemos aqui, eu sentada na Tua frente, pedindo, implorando.

Por favor
Por favor
Por favor, exista, por favor, me responda.
Por favor, me ajude.
Dessa vez também, mas não.

Só mais essa.
Hoje, por favor.
E amanhã.

Daí alguém diz, Ella diz, que minha dor é pequena quando comparada ----
E me sussurra histórias que me fazem ter medo de escuro, de dormir, de comer e de viver.

Por favor, só mais essa vez.
Só agora, só hoje.
Por favor.

E Ele cospe no meu rosto, Ele cospe no meu rosto como eu já cuspi no dEle e deseja que eu morra aos poucos, e eu estou, eu vou.

Seja feita a Vossa vontade.

36x05 Ceiling

Imagem: TingTing Huang

Ir embora não é fugir, nem deixar de lutar,
não é feio não querer mais sofrer.
Tem algo de bonito em querer se tratar bem, se sentir bem, braços limpos, veias intactas, querer ir pra casa, limpa e enxergar além do que teima em te tolher.

Música espanhola, escrever sobre um menino que lê um livro, gente que teima em não se apaixonar, azuis de uma echarpe e o olhar distante de uma garota deitada no sofá.
Se tem um lugar pra onde posso ir é pra dentro da minha própria cabeça, nas sardas e na boca da menina ruiva de sapatos coloridos. Tem tanta gente no mundo, B. E as pessoas são tão lindas, tão lindas.
A frase de um cara que abriu a boca e não disse nada, e quem as pessoas procuram.
O que eu penso, o que eu procuro, isso é só meu.

Posso até não poder ir pra casa, posso estar aqui onde você vê
mas você nunca vai me alcançar.
Nesse lugar, dentro de mim,
você só me machuca
quando eu deixo.

36x03 Coisas que não se diz a ninguém

Imagem: TingTing Huang

N.A.:  Eu não tenho coragem de digitar o texto original, não por completo, seria desnecessário. É raiva pura, tristeza, decepção. Mas está aqui porque tem que estar aqui. Eu conto histórias. Mesmo quando não gosto delas. Esse texto é sobre mulheres que conheci, mulheres que seguraram caladas, seguraram o choro até quando deu pra segurar. Digam, mulheres, digam: viver assim dói.

Seu nariz tá sangrando, eu tô sangrando, minto, esse sangue não é meu, largo a pedra no chão e corro pra casa, tranco a porta do banheiro e tomo banho, longo, pra me sentir limpa.
Mas continuo sangrando, um sangue que não é meu escorre das minhas unhas com esmalte descascado, gosto ruim na boca. Por que?
Porque sim, porque a vida é sim.
Ou não é? Como é que se diz, como é que eu grito as coisas que não se diz a ninguém? Se eu não consigo dizer pra mim, se eu não consigo traduzir e entender, eu tô pensando, eu tô me esforçando, mas não quero passar os dias a colocar e tirar máscaras de mulheres, crianças e monstros. Eu quero dizer as coisas que não podem ser ditas.

Mulher, diga. Diga.
Precisa doer se dói, mas ela tá com medo, tá com medo de, tá com medo de quê? Diga, mulher, diga.
Não digo. Me queima a boca, me queima a boca, me queima, não digo. Diga, mulher, só diga o que precisa ser dito.
Não dá, não dá.
Filha da puta, abra a boca e diga o que tem pra se dizer, você tem tanta gente junta lutando pra sair, diga o que não se diz.

Pois bem.
Eu tô chateada, eu tô me sentindo vilipendiada, enganada. Porque ninguém é obrigado, mas eu faço o que é preciso. E não é só hoje, nem até amanhã, por um ano ou 500 dias. Demora a passar, fica grudado feito o suor em dias quentes.
Não me machuque. Eu não quero me machucar. Nem antes, nem durante, nem depois. E eu tô machucada, eu tô triste com essa porra de ferida que não sara nunca, que vai e volta (às vezes, até pior do que antes). Vá tomar no cu.
Filho da puta, escroto, fodido, nojento, porco maldito, eu odeio você.
Porque você está me machucando e ninguém pode fazer nada sobre isso. E eu não consigo deixar de ser isso, você não consegue deixar de viver porque, bom, você já sabe o porquê.
Essas coisas não devem ser ditas a ninguém, mas eu te odeio. Você é nojento e revoltante, te falta tato, senso ou qualquer coisa que me obriga a tentar ser sempre ok, que me faz não te apedrejar nas ruas e rasgar seu peito. A falta disso me faz ter nojo de mim mesma, da minha pele, do meu passado, das minhas palavras e da minha voz.
Eu odeio você.
Odeio odeio odeio, e isso não se diz, talvez nem seja verdade. Mas alguém tinha que dizer.
E eu disse.
E quero continuar dizendo, dizendo e dizendo que não quero magoar ninguém, que eu digo a verdade, que eu não machuco as pessoas, que eu amo e sou capaz de amar as pessoas sem machucá-las. Você não é. Eu sou capaz.
E mesmo quando não pareço ser, eu tento e tento o quanto posso, e vou continuar tentando.
Eu te odeio.
Tanto, tanto que machuca e confunde.
E eu não deveria dizer isso a ninguém, mas você não vai mais me queimar, cortar minha língua e me partir em pedaços.
Eu te odeio e não sinto muito
por sentir tanto.

(Queria ter te dito isso, mas não por telefone. Eu precisava voltar. Colocar as coisas sob uma perspectiva diferente. Entender, fazer sentido. E percebi que, realmente, essas coisas não devem ser ditas a ninguém. E nem sentidas por ninguém)

36x02 Press Coverage

Imagem: TingTing Huang

Neruda me disse, em segredo, sério, delicado, que amava Matilde, feia Matilde, e seus cabelos.
Na época, eu nada sabia, ou nem sei se já sei, sobre amor.

Sei que dói.
Dói?
Não, não dói.

Amar é querer bem, querer melhor, o melhor que se pode querer.
É querer abrigo, da chuva, do frio, das noites e dos perigos que se escondem na Augusta. Querer que beijos aconteçam, se beijos tiverem que acontecer, sem que se precise saber.

Amor é diferente dessa coisa química de injetar nas veias, desse gosto de sujeira na boca. Amar é apoiar, colo, comida, cavalo, cão de caça.
Amor é essa manhã linda na avenida de nome gringo a me dizer que, B., vai ficar tudo bem.
A me dizer que eu mereço mais, muito mais do que só isso.
Mereço pessoas, histórias boas de se ouvir e bocas boas de beijar, gente gostosa de abraçar.

Merece o mundo, diz a rua, disse a lua.
Digo eu.