Mostrando postagens com marcador 1234. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1234. Mostrar todas as postagens

22x12 Vier

Imagem: TingTing Huang

Chegou um momento em que poucas partes do meu corpo não tinham números desenhados.
Um momento em que, por mais que eu esfregasse, a tinta não saía por completo, persistia nos ombros, braços, mãos, pernas, pés, barriga, seios, pescoço e rosto.
Eu não era mais nada além de números, uma ideia abstrata. Isso me acalmava.
Houve uma época em que eu não dormia se não tivesse desenhado em cada centímetro das minhas pernas.
Eu sentia que os números podiam, podem, manter meus pensamentos aqui.
Aqui onde?
No cotidiano. Estudo, comida, família, a ideia do amanhã. Rotina.
1 2 3 4
Uma amiga disse "Parece feitiço".
E eu ri,
mas é feitiço. É pra me manter aqui.
Pra me impedir de pensar demais e acabar


descobrindo o que eu sou de verdade.

15x19 Old friends

Imagem: TingTing Huang

Outubro de 1998

- Você ficou velho.
- Acontece. Quando se vive muito em tão pouco tempo.

Não digo nada. Às vezes me esqueço dessa nossa diferença.
Olho em volta. A brancura do quarto de hospital quase fere meus olhos. É um quarto simples, mas caro.
O soro goteja e eu sinto  como se pudesse ouvir a gota viajar até a veia.
- Você parece doente, diz.
- Não. Você é quem parece.
Ele ri, jogando a cabeça pra trás, e eu sinto um arrepio gelado. Tremo e ele percebe.
- Ela chegou, não? - pergunta. Sua voz nem treme, nunca tremeu.
- Ela sempre esteve por perto.
- Assim como você.

Ele estende sua mão, cheia de manchas senis, sua mão firme, e toca meu queixo. Eu toco sua mão.
- Não me deixe. Não me deixe de novo.
Beijo a palma de sua mão, cada um dos dedos, "por favor"
Ele retira sua mão e segura meu rosto.
- Eu preciso descansar. Eu preciso que você me deixe descansar.

E eu me levanto, derrotada. Mais uma batalha perdida. Tudo o que eu tive que fazer pra chegar a tempo, e ele nem sequer vai lutar. Dessa vez pode dar certo, pode ser a nossa hora.
Eu aceno e ele não levanta a mão, apenas fecha os olhos. E eu sei, mesmo antes de escutar a máquina gritar, que essa não é a hora.
Ainda.

12x21 Sh'muel (Season finale)


Imagem: DJMcCrady

Assim como veio, ele deve ir.
Pois do pó vieste, e ao pó retornarás.
 
Eu quero saber. Saber se você está aí.
Oi.
Eu tenho um milhão de beijos guardados pra você, aqueles que faltaram nesses últimos anos.
Eu tenho desculpas que eu queria que você ouvisse. 
Um te amo sincero, pensado e pesado.
Tem mágoa guardada, mas já está vencida. Ela se afogou no tempo espesso.
Tenho perguntas que não pretendo fazer, perguntas que não importam.
Tem muita culpa, muita. Litros e caixas. 
Eu espero que você tenha me perdoado, que saiba que eu fiz o que achei que deveria fazer.
Eu sinto muito por nós todos, pelo que fomos e pelo que nos tornamos.

Eu só não sinto saudade, nunca senti. 
Mas era só te ver pra me dar conta de que eu tinha feito um esforço sobre-humano pra ficar longe de você.

Eu vou me sentir assim de novo um dia. 
No dia em que nos encontrarmos de novo, pai.
Obrigada por ter me amado desde o início. Me desculpe se eu não soube corresponder, me desculpe se eu não soube. Um dia eu vou aprender e vou te compensar. 
Eu vou, papai, acredite, como você sempre fez.

2x12 June said, I did.


Alguns de vocês, leitores imaginários, provavelmente se perguntaram o que houve. Com minhas paixões instantâneas e todo o resto. Ou talvez nem tenham se preocupado, talvez tenham continuado vivendo suas vidinhas que não ousarei chamar medíocres, posto que a minha também não é grande coisa, e ouvido mais do que o silêncio que é tudo o que me resta - sem música = tédio -.
O que aconteceu foi o que eu previa. Não posso culpar minhas influências, nem mesmo culpar o retorno de minha velha amiga por isso. Bebi. Comecei com o Martini e terminei com Uísque. E não me arrependo disso, precisava disso. Tinha me esquecido da sensação de estar queimando por dentro, da sensação de estar sendo apagada aos pouquinhos... Não se preocupem, não vou voltar a urinar em telhados alheios apenas porque bebi um pouquinho aqui e ali.
Sabem do que estou cansada hoje? De nunca me deixar levar. De lutar pra não ser arrastadas por essas correntes loucas de amor livre, homossexualidade e ódio. Dane-se eu, dane-se você falso moralista. Se podemos fazer o que queremos, pra quê tantas barreiras mentais? Quero mais é transbordar e me juntar às outras correntes - filosóficas ou não -, deixar que Annabelle me leve pela mão e me mostre o mundo que eu conheci e de onde jamais deveria ser saído.

Você pode me entender, sem esforço algum, é só que estou cansada de ouvir as peripécias de outros e apenas sorrir;
de sentir cheiros dos quais desisti apenas por um moralismo que nem sequer possuo;
de amar e esperar algo em troca, pra quê, minha mosca?! Se não pertencemos nem a nos mesmos?;
de ter medo de sair e de sorrir, de ter medo de errar e nao ser amado por ninguém;
e, principalmente, estou cansada de nunca ter algo a dizer que já não tenha dito milhões de vezes.
June pode ter dito tudo que estou dizendo, mas aposto que ela não teve a mesma convicção que eu.
E, aposto que ela também não tinha que ser anfitriã de uma festa de arromba pré prova como eu. ;D

23 dias para a festa e contando...