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47x19 Interlúdio

 

Imagem: TingTing Huang

Ele vem, no meio da noite. 
Death, himself, cavalgando seu cavalo negro, feito de ilusões. 

Invade os meus sonhos e nem mesmo o apanhador de sonhos pendurado na janela é capaz de contê-lo. 

Eu o convido a entrar, mesmo sabendo que preciso acordar cedo. 
Mesmo exausta,
mesmo que me sinta estúpida
e envergonhada. 

Ele sabe, você não acha? 
E, mesmo assim, ele entra no meu cérebro como se fosse o dono do lugar, sujando o piso, deixando marcas de pés e mordidas, morte celular, 
ressuscitando sinapses há muito desconectadas. 

Eu finjo que vou trancá-lo pra fora. 
Mas, novamente, eu o convido a entrar, como se convida um vampiro. 
Só que o vampiro sou eu, que  te convido a entrar na prisão que é a minha cabeça. 

De novo,
e de novo,

até o sangue chegar. 

44x09 Late resolutions

Imagem: TingTing Huang

- Quem você quer ser?

Ando preocupada, inquieta, mal durmo, comendo feito louca, carente, insossa: tenho medo do futuro.

Tá chegando, tá me alcançando e eu tenho medo. Queria não ter, ser super decidida, bem organizada, planos impecáveis. Mas sou só humana.

- Quem você quer ser?

Garota do cabelo de molinhas (por enquanto), com cheirinho bom, que calça tênis e se diverte com as pessoas certas.
É, eu quero sair de casa com as pessoas certas. Gente que não precisa de tudo, nem de muito, porque nem tenho, e que entende o esforço que é socializar. Quero meus amigos, bons amigos, vinho e pizza e coxinhas. Manter perto de mim quem dá pra manter por perto.

Eu quero ser a irmã que fala o que precisa ser dito. Que abraça. Que conversa. E que brinca até mais tarde. Que leva ao parquinho e ao cinema.
Quero abraçar minha mãe. E levá-la ao médico.

Quero ir ao médico.

E quero ser médica. Uma das boas. Mas do meu jeito, nos meus limites, de acordo com os meus conceitos. Nem preto, nem branco. Cinza. Colorida. Brilhante. Cor de arco-íris.

Começar a guardar dinheiro pro meu futuro de cerca branca, filhos mestiços e cãezinhos. Dias dos pais, é. Oh, boy.

Quero ser briguenta, FIERCE, quero o que eu quero, o que eu quiser e vou fazer o que for preciso pra conseguir. Quero não ficar calada. Quero lutar com palavras e punhos.

Palavras. Quero viver com elas, pra elas, delas, por elas.

Quero ficar bem. É o mais importante agora, ficar bem, parar um segundo, vai dar tempo, sempre dá, vai dar certo, e tudo bem se não der.
Vai ficar tudo bem.

(Não sei porque insisto nisso,
mas vai ficar tudo bem.
Não sei como, não joguei tarô, nenhuma cigana me disse, mas vai ficar tudo bem. )

Exercícios. Eu acho que não quero morrer cedo. Quero ficar pra ver o fim do filme.

E é, eu posso - eu provavelmente vou - jogar no lixo muitas dessas resoluções, vou deixar pro ano que vem, de novo e de novo.
E tudo bem.

Isso é problema da B. de amanhã.
A de hoje tá aqui, decidida, otimista, de barriga cheia, casa limpa e coração quase tranquilo.

Vai ficar tudo bem.

43x15 Thunderstorm

Imagem: TingTing Huang

O céu está caindo.

Eu tentei avisar.

O céu está caindo.

Mas ninguém ouviu.

É assim que é?

Eu me deito no chão, sob o domo. Pedaços de nuvens, sol, azul, pó de estrelas mortas há trilhões de anos.

O céu está caindo.

Abro uma garrafa, outra, mais outra.
Separo grãos.

O céu está caindo, Deus, o céu está caindo, e talvez eu descubra se realmente há um Deus.

Eu tento me concentrar em estatísticas, planos, uma gueixa cheia de dentes, mas eu estou tão cansada, tão cansada de nunca ser o suficiente.

Tão cansada, que não quero me levantar, e o céu continua caindo.
E eu continuo esperando pra ver o que acontece.
Sem mover um músculo.

Eu quero ver o que acontece,
eu quero ver.

Eu estou tão cansada.

Tão,
tão cansada.

43x14 At last

Imagem: TingTing Huang

Tem esse sol enorme, desaparecendo rápido, as nuvens flutuando nesse céu que parece um domo. Tem esse gosto na minha boca, de chocolate e feijão, talvez um pouco demais de cominho, tem grama, mosquitos, tem o zumbido das pessoas em volta.

Tem você.

Tem essa sensação de paz, segurança e felicidade que eu não sei se já senti antes.

Estamos.

Dorme comigo.
Acorda comigo.
Mora comigo.
Casa comigo.

Sim,
estamos.

Eu caminho nas pontas dos pés pra não te acordar,
e você me deixa dormir até mais tarde.
Coloca as pontas dos dedos no meu cabelo,
acho que somos alguma coisa estranha, estranha feito esse texto.
Uma massa colorida, cheirosa e macia.

Eu te amo.
Eu fico.

Guardo seus segredos,
lavo suas roupas,
seguro sua mão.

Eu fecho meus olhos e é só você.
É sempre você.

"Fui eu quem escolhi", você diz,
e eu não me ofendo.
Você me escolheu.
Você me escolheu.

E eu escolhi você.
Eu escolhi ficar.

E vou ficando,
de manhã,
depois da aula - minha ou tua -,
na cama depois que você sai,
na festa até você vir me buscar.

Eu vou ficando,
sem planos, sem prazos.

Se o pra sempre vai chegar ou não,
a gente só vai saber sabendo.

43x06 Cabeça cheia

Imagem: TingTing Huang

Acordei, ansiosa.
Vontade de escrever.

Faz tempo que não acontece. Acordar assim, com essa vontade, essa sede de letras. Pegar um livro, levar pra ler, mesmo sabendo que não dá, um calor no corpo, uma taquicardia estranha.

Sou eu.
Eu tô aqui, eu acordei de algum lugar absurdo onde eu estive nos últimos anos, nos últimos 5 anos.

Minhas solas dos pés tocam o chão devagar, acordando tudo na cerâmica gelada.

Eu sonhei com Holden. Estranho, ele tocava minhas costas enquanto eu dormia e era bom, como um daqueles sonhos antigos com sensações, era bom e simples.

Sonhei com minha avó, ela vestia dourado e toda a luz do mundo parecia se concentrar nela.
Quero acreditar que isso é um bom sinal. Que quer dizer que ela está bem. De volta a casa, deusa africana, mãe de Anansi, avó de uma mulher de metal e ossos, meio Hulder, meio aranha.

A vontade foi passando no decorrer do dia, tem tanta coisa pra ver, pra fazer, pra estudar, e tudo vai sufocando aos pouquinhos a vontade de pegar a caneta, emudecendo os sussurros e as risadas dos meus amores, Otto, meu Otto, e eu sinto que desperdicei tanto tempo, tanta vida, tantas vidas.

Mas tá na hora de arrumar o guarda roupa. Botar a roupa pra lavar. Arrumar a mochila, pensar no dia de amanhã. E depois. E depois.

Tem tanta coisa pra fazer, mensagens, desculpas, leituras, mas não tem paixão, não tem eu, não tem aquela vontade imensa de varar a madrugada escrevendo sem parar, sem descansar, só uma palavra seguindo a outra.

E eu repito pra mim mesma, não se deixe ir. Não se esqueça de quem você é. Não deixe que eles te façam esquecer.

Mas eu já me sinto diferente. Já não sujo as mãos de tinta, nem uso carvão pra desenhar.

Quero filhos, não amores platônicos. Quero doar minhas roupas e arrumar um emprego. Quero dormir. Quero ignorar.

Minha cabeça tá cheia demais, tão cheia que não consigo ouvir os uivos, as cordas açoitando o ar, ou o silêncio por trás das palavras de quem se ama.

E eu quero ouvir. Eu quero ouvir,
mas não sei mais como se faz.
Não sei mais como desligar os sons da vida.

E eu quero desligar,
eu quero sair e pisar na grama,
eu quero a solidão de estar com um milhão de pessoas.

Mas hoje não dá.
Amanhã tem aula.

42x09 Mother!

Imagem: TingTing Huang

E então ela se ergue sobre a cabeça da Caçadora ferida, e ela sabe,
ela sempre soube,
que essa hora chegaria.

Foi pra isso que ela caminhou sob o sol, saiu de casa caminhando no escuro de um dia de verão, quente e seco,
foi pra isso que ela reuniu tudo o que podia,
sangue, sêmen,
uma página em branco arrancada do caderno do karma,
uma armadura cheia de amor, com cheiro de azul e pequenas pintas pretas espalhadas feito uma constelação,

foi pra isso que ela correu, foi disso que ela correu por todos esses anos,
apenas pra ser trazida de volta ao começo,
seguindo o cheiro do seu próprio sangue.

Era chegada a hora de matar seu próprio monstro.

Ela sentia o cheiro de terra da sua primeira casa,
seu primeiro cachorro,
a textura dos azulejos da casa da sua avó,
cheiro da fumaça de cigarros,
o gosto de sal das suas próprias lágrimas,
cada dor,
cada oração da sua voz de criança,
suas costas doendo, vergando sob o peso de vários mundos que não eram seus,
o sangue úmido de uma pessoa amada molhando suas pernas

Ela tinha medo.
E sabia.
Ela sabia.
E sabia que o medo não significava que ela não podia atacar.
Era só medo.

Então ela atacou com as mãos nuas,
usou toda a força guardada em cantos escuros da Brasília de baixo,
cada pedaço de medo,
até a Besta parar de lutar.

Ela emergiu do sangue, ofegante,
assustada,
triste,
doente,

vitoriosa.

Ela podia fazer o que quisesse, agora.

Ela podia até ser feliz.

40x18 14

Imagem: TingTing Huang

Você fez de novo.
Eu tô ouvindo a sua história, palavra por palavra, e aí você diz essa coisa, essa coisa familiar que me faz pensar
"Here we go again".

E isso me assusta.

Eu não quero isso de novo.
Eu quero e não quero estar de novo em uma montanha russa, sentir frio na barriga, borboletas no estômago, eu quero segurar a sua mão, eu quero tocar suas sobrancelhas,
mas eu não quero te machucar.

Eu não posso ser essa pessoa.
Eu não posso ser quem vai te machucar dessa vez
e eu não sei se posso ser quem não vai.

Tenho medo das brigas que ainda não tivemos,
de que não valha a pena,
tenho medo da sutileza no final das suas frases e do jeito como é confortável passar a noite com você,
eu tenho medo da textura do seu rosto e da estranheza de um nós dois.

Eu gosto de mim.
eu gosto de só.
Do caos, eu não preciso de heróis,
eu não preciso de você,
eu posso passar sem isso.

Sem saber o gosto da sua boca,
sem me tornar uma história que você vai contar pra alguém em uma noite fria,
uma das pessoas que espero que uma garota um dia respeite e reverencie,
não com ciúmes, não pra se sentir insegura
pra pensar
uau, elas trouxeram você aqui.
Elas trouxeram você agora, assim, meu.

Eu me encosto no banco do carro, escuro,
tão escuro,
e eu não tenho certeza se vale a pena.

Talvez eu tenha medo de que seja bom,
que beijar você seja uma estrada sem volta,
talvez eu esteja com medo de admitir que finalmente segui em frente,
talvez eu esteja com mais medo de me machucar do que de te machucar,
talvez eu esteja com medo de quem eu me torno quando gosto de alguém

tantas possibilidades,
tantas razões lógicas pra ficar assustada
e a minha cabeça rebate todas com a sua voz, dizendo "Foda-se", do seu jeito extremamente infantil e bizarro.

Eu não sei o que fazer,
eu não quero ter que decidir sozinha,
não me deixe decidir sozinha.

Digo isso, mas tô com a impressão estranha:
já tá tudo decidido.
Você também acha isso?

40x12 Tennessee Honey

Imagem: TingTing Huang

Cheguei em casa, tranquei as portas, abri as janelas, cobertas pelas cortinas que te impedem de entrar.
Respirei fundo.
Livre.

Coloco o colchão no chão, eu já posso sentí-la acordando, se espreguiçando dentro de mim, como quem dormiu por anos e agora sente fome, uma fome que não cessa, de contato humano, de ouvir a própria voz, tocar os próprios cabelos.

Abro e fecho as mãos, tentando entender o movimento desse corpo que não é mais só meu,
onde eu não vivo mais só,
eu nunca estive só.

Tem um vento sutil soprando, quente, e eu danço ao som dele, passos lentos, e depois rápidos demais pra parar.

Meu corpo se move, ocupa espaços, faz uma dança bizarra e ilógica, elétrica, enquanto meu coração bate rápido, sem saber
que agora tudo pode acontecer

Eu me deito no chão e respiro,
deixando o ar entrar e sair dos pulmões,
eu sinto as pernas dela se esticarem dentro das minhas,
seu rosto tomando forma por debaixo da minha pele
enquanto eu deixo de ser eu.

Sem paixões ou sonhos,
personalidade
ou lucidez,
eu vou me apagando aos pouquinhos,
sem querer outra coisa.

Ela segura meu coração devagarinho, contém meus pulmões
e então aperta e solta,
aperta e solta
devagarinho
até que eles aprendam e repitam
até que meu coração bombeie o sangue todo do meu corpo no ritmo da canção do vento,
até que minha respiração se torne uma música assoviada

E todo o meu corpo
desliga

E reinicia
Ela abre meus olhos, os olhos dela
sorri um sorriso que não é meu
e cantarola uma canção, mais antiga do que eu,
mais antiga do que todos que já conheci,
que me lembra um sonho que tive quando ainda nem existia

E só então, quando a canção chega ao fim,
ela se espreguiça, usando meus braços
e se encolhe feito uma bola
e dorme

pra que eu finalmente possa acordar.

40x11 Uma incansável tapeação

Imagem: TingTing Huang

Então, dia dos namorados.
Faltam exatamente 12 minutos pro final do meu 24º dia dos namorados nesse mundo maluco.

Eu não tenho namorado.
Eu não estou apaixonada por ninguém.
E isso é surpreendentemente ok.
Ok, só mais um desses dias em que eu acordo atrasada, levo mil anos pra pentear meu cabelo, passo horas em filas no mercado e em lojas, só porque o sistema caiu ou porque eu saí de casa meio tarde, eu faço meu próprio jantar, dou risada de algo que a minha irmã me diz.

Sei lá, eu tô feliz.
Feliz o bastante pra encher a barriga sem culpa, porque eu fiz esse frango assado maravilhoso,
pra dormir a tarde inteira,
falar com o melhor, pior e único ex-namorado do universo sobre nada,
assistir episódios de séries aleatórias,
dar risada das piadas terríveis do melhor amigo de arco-íris que se pode ter,
terminar um livro,
e não ficar obcecada com o fato de não ter feito algo que deveria ter feito.

Tô feliz e orgulhosa de mim mesma.
É, as coisas não estão saindo como eu gostaria.
Não tenho escrito nada relevante,
ou estudado tanto quanto gostaria,
ou sido a pessoa que gostaria de ser.
Mas eu tô me surpreendendo, de um jeito bom.

Tô surpresa com a força das minhas crenças,
com os movimentos que meu corpo sabe fazer,
e com as sensações que ele pode alcançar.
Surpresa com o final das histórias que eu nunca contei,
com as pessoas e suas histórias,
as cores do céu em uma tarde de domingo,
minha incapacidade de cantar no ritmo certo ou de me apaixonar,
com o fato de que, às vezes, pessoas são só pessoas,
músicas são só músicas,
e nem tudo o que eu escrevo aqui ou no papel está escrito em pedra.
Eu tô surpresa com o fato de que quebrar minhas regras pode não significar trair tudo em que acredito,
tô surpresa com a minha coragem de falar o que sinto.
Porra, eu tô falando o que sinto, quando eu sinto.

Tô surpresa com os meus cabelos se enrolando e desenrolando
formando nós que eu não consigo desembaraçar,
e com o fato de que isso me parece perfeitamente natural
bonito até
Tô surpresa com o fato de que eu até gosto de mim.

Não só da minha companhia, de me sentar na janela e ficar
gosto dos meus pensamentos,
da minha comida,
da maneira como eu digo "Pare, descanse",
e da minha própria proteção, dessas barreiras que eu criei, nem pra me trancar, nem pra deixar de fora quem eu amo,
só pra me proteger das coisas ruins da vida.

Gosto de tentar,
acertar ou errar.
Gosto de refletir antes de julgar (nem sempre é fácil, é difícil pra caralho),
gosto de ouvir a minha voz,
gosto dessa minha nova maturidade disfarçada,
de sair e me levar por aí, no meio da noite, sim sim sim
sem saber onde vai dar
do mistério no horóscopo,
gosto de desembaraçar meus cabelos no meio da noite, sem ter lugar pra ir,
sabendo que tudo é possível.

De fechar meus olhos antes de dormir e pensar
tem alguém por aí
e não pode ser qualquer pessoa, não é mais sobre gostos comuns, ou horóscopo ou destino ou declarações de amor
porque eu gosto de quem eu sou,
do meu rosto deveras estranho,
do meu jeito repelente de homens,
das coisas que eu digo e penso

E é, eu estou pronta,
pronta para passar de novo por essa tapeação que é estar apaixonada,
uma puta quantidade de dopamina solta,
mas não dá pra ser qualquer pessoa,
a qualquer momento.

E não é que eu queira ferrar com a espontaneidade da coisa,
é que não quero magoar ninguém e isso me parece importante,
o que eu quero me parece importante
e eu gosto dessa nova B.,
gosto de querer coisas
de querer pessoas,
de querer bem.

Então tudo bem, vai ficar tudo bem.
Eu desejo um dia dos namorados incrível pra todas as pessoas, com namorado ou sem. Espero que ninguém tenha se sentido amargurado por ver um casal de mãos dadas ou um homem comprando flores, espero que isso tenha sido banal ou bonito de ver.
Eu espero que tenha sido só mais um dia, ou um bom dia.

Eu espero que,
onde quer que você esteja,
quem quer que você seja,
onde quer que você se encaixe,
esteja bem.
Feliz.
Espero que tenha sido um dia engraçado, bonito, meio poético,
quente, rápido, azul, tranquilo.

Fique bem.

Feliz dia dos namorados.

40x09 Better than hugs

Imagem: TingTing Huang

Não gosto de abraços,
nunca gostei.

Meu melhor amigo tem essa teoria de que pessoas precisam de um determinado número de abraços por dia.
Eu não acredito nela.

Abraços guardam duas sensações distintas,
grandiosas demais pra desperdiçar com gente que simplesmente está de passagem
abraços são sobre chegada, reencontro.
Abraços são sobre partida.

Eu poderia distribuir beijos na boca,
mas jamais conseguiria distribuir abraços.
Não gosto que me toquem.

Distribuo abraços ébrios,
abraços de cumprimento,
pequenas demonstrações de carinho
mas abraços,
ah, abraços
esses eu guardo pra momentos específicos

Abraços daqueles em que se poderia ficar pra sempre
daqueles que a gente dá sabendo que nunca mais vai dar de novo,
abraços doloridos
que deixam parte da gente na outra pessoa.

Esse texto nem era pra ser sobre isso,
mas escrever sobre abraços me lembrou desse abraço específico
que eu te dei, sabendo que seria o último,
tão intenso e breve que eu chorei, mesmo sem saber ao certo o porquê.

Esse abraço me trouxe aqui, anos depois.
Meu Deus, quanta coisa mudou naquele abraço,
quantas escolhas foram feitas,
quanta dor
por causa de um abraço.

Então, como eu poderia sair por aí abraçando
a torto e a direito
se tanta coisa pode mudar a partir de um gesto?

Entende, agora?
Eu não quero o seu abraço,
nem o contato com a sua pele,
eu não quero o seu cheiro,
ou o que você acha que um abraço deve conter,
eu não quero dizer adeus
eu não quero dizer olá.

Eu não preciso de abraços,
eu preciso de pessoas que fiquem.

Teu abraço talvez não melhore o meu dia (já aconteceu, é verdade, mas pode piorar. Também já aconteceu),
não vai me dar vontade de estar aqui,
definitivamente, não vai significar que tudo está perdoado,
nem mesmo me fazer acreditar que você gosta de mim.

Alguns gestos são melhores do que abraços,
dizem coisas que abraços nunca dirão (muito embora eles digam muito)
e eu percebi isso quando olhei para a menina que gritava ao meu lado na sexta,
pelo mesmo objetivo que eu.

A presença dela, a existência, sua vontade, seu grito
me fizeram mais acolhida do que qualquer abraço aleatório e constrangedor.
O fato de que ela ficou, sem saber quem eu era,
pra lutar por nós duas significou muito mais pra mim do que contato físico significa.

E as pessoas não compreendem ainda.
Eu mesma demorei a entender
que o amor está nas entrelinhas.

Amor está numa viagem de carro de 10 minutos,
nos seus resumos de anatomia,
mentiras contadas sem razão,
mensagens que chegam no meio da madrugada,
uma coleção de garrafas,
no gosto do chocolate branco,
garrafas de água,
feijão.

Você não precisa me tocar pra que eu saiba.

E, por favor, não me toque sem a minha permissão.
E, por favor, não tenha medo de me tocar.

É complicado.
Mas simples.

Você vai saber, vai entender
quando chegar a hora.

Mas, até lá,
apertemos as mãos.

39x10 Magnetic North

Imagem: TingTing Huang

Eu não sei que música colocar. Eu não sei que roupa vestir.
Eu não quero vestir preto pro teu funeral.
Eu não quero ouvir a música que tocava naquela noite, eu não quero ouvir algo que queira dizer algo.
Queria que chovesse, mas faz um calor ameno e o céu continua lindo. Você morreu e a temperatura nem mudou, e o mundo não age de acordo.

Meu celular apita, descontrolado, nenhuma prova foi cancelada e nem as pessoas me deixam chorar em paz.
E eu também não quero chorar.

Tudo errado.

Essa música triste tomou um significado feliz, tem até um cara sorrindo nesse vídeo, por Deus.
Coloco minhas roupas, um vestido colorido pra dançar, que faz um efeito incrível quando eu giro. Eu não quero me sentar e chorar, eu quero sair pra dançar, meu coração tá batendo, tem sangue fluindo por todo o meu corpo, pequenos focos de energia que aparecem e desaparecem e me tornam capaz de sentir milhões de coisas em um segundo. De sentir a tristeza pela sua morte, a felicidade pela sua breve existência e a vontade de descobrir o que mais tem por aí.

Meu cabelo tá macio, cheiroso, enrolado, meu corpo tá pedindo atividade, uma massagem nas costas e um beijo na boca daqueles que demoram uma eternidade pra acabar.
Eu quero chorar, quero acender uma vela pro teu cadáver, eu quero limpar meu batom e prender meus cabelos em um coque austero, sair em um dia cinzento pra chorar tua morte atrás dos meus óculos escuros, mas a verdade é
já faz muito muito tempo que você morreu pra mim.

Eu já vivi essa dor incontáveis vezes, choramingando no balcão de alguns bares, mesas de cafés, fast-foods, sob as páginas arrancadas dos meus livros, diários e guardanapos, abraçada ou não à garrafas de vinho, catuaba e latas de guaraná.
As cartas do tarô previram sua morte incontáveis vezes, pra que eu me preparasse e eu acho que eu finalmente fiz isso, então não é uma grande surpresa que tenha acontecido.

E é, talvez você mereça uma cerimônia bonita, umas flores, algumas palavras e eu juro que esse texto correu na contramão da minha vontade de colocar uma música bem triste e escrever sobre o quanto você é incrível, mas sabe, será que você foi mesmo? Quero dizer, eu nem sei se você realmente existiu ou se eu montei seus pedaços e preenchi as lacunas com coisas que eu queria que tivessem acontecido.

Minha intenção era escrever um texto bonito, Magnetc North, sobre como eu sempre acabo onde você está, mas a verdade é que meu norte tá apontando pra quilômetros de distância de você, um mundo novo que eu ainda vou desbravar, onde eu vou sangrar, eu tô a dezenas de livros de distância de você, dezenas de episódios, de histórias e de lágrimas.

Um dia desses, eu prometo visitar seu túmulo, comprar flores, quem sabe, eu prometo contar boas histórias sobre você, Mas isso é tudo. Porque a única coisa que eu me lembro de verdade sobre você, nesse exato momento, é que você não tinha nada pra oferecer.

Bom, eu tenho.

A gente se vê.



Sem pressa.

39x08 Too much to ask

Imagem: TingTing Huang

Minha cabeça está cheia de segredos.
Ando misturando histórias,
esqueço fatos,
eu sei coisas demais sobre as pessoas,
e os meus próprios segredos escorrem pelos meus dedos enquanto durmo.

Tenho essa sensação ruim, constantemente.
Sensação de não ter feito algo,
o peito apertado,
ou será que eu fiz algo que não deveria ter feito?
Eu disse algo errado?

Não consigo dormir.
Fico pensando, pensando, remoendo seus segredos e como eles afetam as outras pessoas.

L. enfia uma chave de fenda gelada no meu ouvido direito,
aperta uns parafusos,
fumamos um cigarro,
tomo uns comprimidos
e me sinto aliviada porque ela não tem nada novo pra dizer,
porque ela está morta.

- Eu tô morta? Essa sensação de estar saindo do meu corpo, quer dizer que estou morta? Eu nunca sei.
Ela dá de ombros, eu pego meu celular pra fazer alguma burrice, mas eu não sinto vontade de fazer nada. Devo estar mesmo morta, porque não encontro nada pra fazer e falar com você é a última coisa na minha mente.

Tem algo errado, mas não é o de sempre, eu acho.
É uma sensação.
Eu tento explicar a L. que não é a mesma coisa de antes, é diferente.
É como se eu não fosse real.
Não tem a ver com estar morta, ou tristeza, ou com o que aconteceu naquelas noites, eu acho.
Mas eu sinto como se nada disso estivesse acontecendo.

- Está acontecendo? Prove que está acontecendo. Mostre algo, faça algo.

Mas ela só sopra fumaça no meu rosto e me manda calar a boca e parar de ser tão maluca o tempo todo, e eu me deito na grama, sem saber se tô acordada ou se tô dormindo, se esses últimos meses realmente aconteceram ou se eu imaginei tudo,
se eu imaginei janeiro,
e ainda estou deitada na cama da minha avó em dezembro,
ansiosa pelo início desse ano,
pelas possibilidades

Talvez depois eu reflita e perceba que as coisas tinham que ter acontecido dessa maneira, que eu precisava --
mas a sensação de estar dormindo, de que isso é tudo um sonho
é boa,

boa demais pra desperdiçar.

38x13 50/50

Imagem: TingTing Huang

Estudei a manhã inteira, a noite inteira.
Dia de prova,
matei aula,
e estudei, estudei.

Fiquei nervosa,
mas escrevi em todas as páginas, furiosa:
uma criança tentando ganhar uma sandália de brilhos.

Eu tô feliz.
Hoje. Inexplicavelmente.
Dou risada de tudo e danço,
eu danço.

Meu cabelo está seco, murcho, mas a gente tá bonito.
Chove muito e eu tudo
e eu muito

E eu saudade,
leio um livro,
como demais
eu jogo
e assisto uma série
mando milhões de áudios,
eu BERRO

e rio nas escadas
que dia bonito.
Que chuva incrível,
essa música.

Eu sou toda amor,
eu quero o teu bem.

Pégaso me diz "Você tá assim 50% do tempo"
e eu sei do que ele tá falando
porque eu tenho medo, muito medo, dos outros 50%

Eu tenho que viver agora, eu tenho que aproveitar esse lado dos 50%
Pra comer um pão, que gosto maravilhoso de pão
eu tenho que cantar
tenho que rir, eu tenho que amar a senhorita agora e
dançar
me deixa cantar em voz alta, rouca, desafinada

Saio correndo na chuva,
eu pego um barco,
eu molho meus tênis,
eu corro pra te ver
eu preciso te ver,
eu preciso me ver

Eu quero estar aqui, agora
eu quero sentir esse gosto,
essa chuva,
esse medo,
essa vergonha,
eu quero essa risada,
esse som,
a música me assombra,
Tô maravilhada, minha boca forma um O,
tô boba,
bato palmas e seguro nas suas mãos,
eu fico na ponta dos pés
e danço esse menino magrelo e cabeludo, meio sonolento, meio barbudo, meio lindo, meio meu
deixo que ele arrepie os cabelos da minha nuca
e deixo a chuva chover
o povo se atrasar

Eu não vou dormir,
eu vou cochilar
sozinha,
no meu sofá,
não vou te contar sobre o meu dia, mas eu vou piscar,
iluminar,
e as pessoas que me amam vão se sentir amadas
porque eu só quero dividir essa sensação.

Eu só quero que essa sensação dure,
só essa
por dias e dias a fio, sem parar
quero tocar as pessoas e contagiá-las

e alguém vai dizer que isso que eu tenho,
isso é doença
isso não é rebeldia, não é um dia bom,
isso é a química errada do meu cérebro
mas ai
ai
me deixa mudar a química do teu cérebro e te ensinar exatamente o que é estar feliz
porque é lindo
as cores
as pessoas
o cheiro da chuva
e o ruído da voz desse magrelo barulhento que eu amo tanto.

Eu quero aproveitar até a última gota desses 50%
porque eu não tenho a menor ideia
de que lado dos 100% eu vou estar amanhã.

Então corro na chuva, crio uma coreografia pra lua,
eu vou morrer de pneumonia,
mas tudo bem se a gente se casar agora,
se você me beijar só um pouquinho

porque eu não sei quem eu vou ser amanhã
mas o que importa é hoje.

Agora.

Vem?

38x12 Won't you stay with me?

Imagem: TingTing Huang

A gente volta tarde e eu só quero te beijar. Por que?
Por que você não vai embora e me deixa sozinha, desaparece do mundo, da minha vida, da minha cabeça, do meu corpo?

Beija a minha boca e meu corpo todo acende, elétrico. Back against the wall, você tira meu cinto de segurança, seu cinto de segurança e eu não me sinto mais segura.

Eu preciso ir pra casa, almoço fora amanhã, mas eu não quero ir, eu quero subir, quero te agarrar nas escadas. quero te beijar enquanto você abre a porta e entrar aos tropeções na tua casa escura.

Subimos e eu rio, bêbada, dizendo olá a toda e cada silhueta de objeto na penumbra, enquanto você tira a camiseta e a minha blusa.
Me joga na tua cama e ela faz um ruído engraçado, e a gente ri, sem parar de se beijar.

Você me olha com aquela cara, como se nada tivesse mudado entre nós e eu percebo,
que merda,
que tô sóbria demais pra fingir que tá tudo bem.

Você continua, como se nada mais importasse, como se não tivéssemos nos abandonado e nos arruinado, mas eu já não consigo mais. Sou a velha B. de novo.
Peço que você pare e você pergunta o que houve
"É que isso é errado de tantas maneiras que eu nem sei por onde começar a listar".

Você suspira, mas entende, e deita do meu lado, seminu, sem saber o que dizer, o que fazer.

Eu me levanto pra pegar minhas roupas jogadas pelos cantos e ir embora pra casa tentar entender o que é que eu tô fazendo com a minha vida.
Mas você segura a minha mão.

- Fica. A gente não precisa fazer nada.

E eu normalmente não acreditaria, eu riria na sua cara. Mas eu quero ficar.
Eu quero ficar e conversar até dormir. Acordar de manhã e sair pra comer pão de queijo. Dar umas risadas, escovar os dentes com o dedo.
Eu quero olhar seu rosto quando a manhã chegar.
Eu quero.
6 de espadas invertido, eu tô tão presa à você, à essa ideia errada de que a felicidade se recupera no lugar onde foi perdida, que eu não consigo enxergar mais nada.

Mais ninguém.

Eu quero ficar.
E é por isso que pego as minhas roupas
 e vou embora pra casa,
pra tentar entender o que é que eu tô fazendo com a minha vida.

E falhar miseravelmente.

38x10 Pra me machucar

Imagem: TingTing Huang

Chego em casa tarde, respondo às mensagens, desabafo com Elspeth, deito no colchão: está na hora de me machucar.

Coloco pra tocar minha playlist, Cat Power, The 1975, ANA, Mila Cavalhero

E abro os pulsos, mas não é o bastante.
Fico fraca, boca seca, tonta, meu coração quer sair pela boca. Mas não é o bastante. Não dói o bastante.
Abro uma ferida antiga e enfio o dedo lá dentro. Mordo uma toalha de rosto, filha da puta, dói pra caralho, mas não dói o suficiente.

Eu tento dormir, e eu quase consigo, porque é só o que consigo fazer. Mas não dói o suficiente.
Saio pelas ruas à caça de alguém que queira me bater, partir a minha cara, alguém que me odeie, a quem eu possa empurrar, que vai revidar.
Mas não encontro ninguém e isso me deixa agoniada.

Alguém me diz alguma coisa
e eu não sinto nada.

Enfio a cabeça debaixo da água e tento ficar lá, mas o instinto de sobrevivência do meu corpo é forte, resiste. Eu resisto.
Só quero me machucar, eu não quero morrer.
Eu quero sentir.

Dou um tapa no meu rosto e não dói o suficiente.

Então eu faço o que esperam de mim, eu vou atrás de você, eu quero me machucar, eu quero que você me machuque, vamos lá, vamos lá, dê o melhor de si, venha, com tudo, com toda a força, mas você também tá cansado e suas palavras não me machucam.
Porra, suas palavras não me machucam.

E eu preciso que você me machuque.
Você pode fazer melhor do que isso, pode me cortar em pedaços.
Eu coloco meu coração na tua mão, e você aperta
e até dói, mas não é o suficiente.
Não é o suficiente.

Então eu bebo, eu bebo pra não ter que pensar na dor que eu quero sentir, que eu preciso sentir, que eu mereço sentir
e já tô passada de bêbada quando começo a ouvir a tua voz, Otto
me falando sobre ossos quebrados e me explicando, devagarinho, que não é de dor que eu preciso, que não é dor que eu tô procurando, é só a minha tradução que tá meio confusa.
Diz que não é dor que eu quero, que eu quero
que eu quero

mas eu não tô pronta ainda, Otto.
Não, não, pra isso não.

Ainda não.

38x07 Sábado

Imagem: TingTing Huang

"Me diz que me ama"

Ela sorriu.
O que acontece com essas mulheres, o que elas comem que faz com que elas sorriam assim?

Tomo meu café, enquanto ela ri dessa mensagem que recebeu no whatsapp, e não me diz de quem é, não me diz o que foi. Sinto ciúmes, mas não pergunto nada.

Coisas assim me lembram: não sou o seu dono.

Me levanto da mesa e levo a louça até a pia, bem comportado, quero que ela repare, quero que ela me elogie, quero um beijo na boca como agradecimento, mas ela não diz nada.
Se espreguiça e seu cotovelo estrala, boceja, bagunça ainda mais os cabelos amassados de travesseiro, depois ajeita a camiseta branca amassada, a minha camiseta branca, como se fosse sair daqui a pouco. Meu Deus, eu a amo e ela é a coisa mais linda que já vi.

Essa percepção me deixa aterrorizado, paralisado. Eu a amo, de um jeito que parece, e eu sei que só parece completamente novo. Tento ser racional, tento argumentar comigo mesmo enquanto lavo a louça, eu já me apaixonei antes. Sempre parece a primeira vez. Dessa vez, também parece diferente. Mas não é.

Tento dizer isso pro meu corpo, mas ele fica todo trêmulo quando ela se aproxima por trás e encosta o nariz gelado na minha nuca. Me abraça pelas costas pra colocar seu copo e prato na pia e me beija as costas, sem deixar de me abraçar. Me diz alguma coisa engraçada, pra me convencer a lavar sua louça também, e eu lavo. Eu lavo e me sinto grato por poder lavar a sua louça, beijar a sua boca, dormir na sua cama e ser a primeira pessoa que você vê pela manhã.

Ela corre pro banheiro, ouço a descarga, ouço o chuveiro ligando. Roupas jogadas no chão, sujas e limpas, tudo misturado no meio do caos, e eu cato as roupas como se catasse pedaços dela, junto em um montinho no canto do quarto e me lembro de quando era criança e minha tia me elogiava porque eu era tão organizado, tão limpo, tão educado. Estou apaixonado pela antítese e mim. O caos. Isso me lembra um trecho de um livro de mitologia grega que li quando adolescente "Primeiro, havia o caos". Soa certo, deito na cama quentinha e rolo para a ponta dela, esquerda, sempre a esquerda. Tem o cheiro dela, de condicionador e essa coisa, essa coisa que é só dela.

Sinto uma coisa estranha, faço um esforço imenso pra respirar. Como é que eu vou viver com isso, como é que eu posso fazer isso, o que eu faço com isso tudo, com essa sensação insana de que eu não posso mais viver sem ela?
Isso tá errado, isso não é amor, isso é assustador, é bizarro, é

Ela sai do banheiro, usando calcinha e sutiã descombinados, secando o cabelo com uma de suas técnicas secretas de secar o cabelo e me pega olhando pra ela, embasbacado, assustado. Me pergunta se vi um fantasma. Digo que não. Uma barata, então. Digo que não tenho medo de baratas. Ela diz que tem medo, um puta medo, mas que não é medo, é nojo, que se mistura com medo e vira um pavorzão. Conta uma história sobre um pesadelo que teve com baratas. Adoro quando ela conta histórias.

Ela fica empolgada com as próprias histórias, para pra rir e arregala os olhos de um jeito como eu nunca vi ninguém arregalar os olhos. Eu quero ouvir todas, todas as histórias, quero conhecer cada pedaço do seu corpo e cada fragmento da sua memória, por favor, me deixe fazer parte de tudo o que aconteceu antes de nós dois.

Ela continua a falar, alheia ao fato de que eu me desespero, e eu fecho os olhos pra me concentrar só no som da sua voz. Ela para de falar, pensa que dormi, e eu deixo que pense assim. Eu não quero que ela saiba, ainda não. Sou humano, um desses humanos que acha que é ruim demais quando as pessoas sabem o quanto gostamos delas, que é até errado que elas saibam.

Deita na cama, com cheiro de desodorante, condicionador, creme de pele, protetor solar, sabonete e pasta de dentes, uma mistura doida que dá certo no corpo dela, e me beija na boca. Me beija a boca. Como isso soa bem quando estamos apaixonados. Me beija a boca. E beijo de volta, com toda a intensidade permitida nas manhãs de domingo, e eu quero dizer, eu quero sussurrar entredentes que eu a amo mais do que já amei na vida toda, que o corpo dela é a única coisa que me faz sentir seguro, que eu não quero que ela me deixe, eu quero ficar assim pra sempre, aqui, pra sempre.

Abro os olhos e olho diretamente nos olhos dela. "Diga que me ama"
Então espero, olhos nos olhos, enquanto o mundo inteiro passa por trás dos olhos dela, sem que eu saiba em que ela pensa. "Diga que me ama"
Mas ela se levanta, ajeita o cabelo, ajeita as roupas, me diz que a gente vai se atrasar se eu não for tomar banho logo, sai do quarto e me deixa sozinho, perdido em dúvidas, pensamentos e insegurança.

Caos.

38x05 Nau frágil

Imagem: TingTing Huang

Deito no chão de madeira, fecho os olhos.
O professor me pede pra imaginar coisas, meditar.
Não consigo.
Mente a mil por hora, acelera até a velocidade da luz, eu tô quicando.

Durmo, e isso é um bom sinal.
Ou não?
Não sei, porque durmo 14 horas seguidas, depois acordo e não consigo ficar acordada.
Meu médico dizia que, se eu tô dormindo, então é um bom sinal, nesse contexto.
Mas não sei se é.
Eu tô doente?
Pego o telefone, mas não tenho pra quem ligar.

Tô sentindo
Tô me sentindo fragmentar, como se meus dedos estivessem se separando do meu corpo, como se meu cérebro corresse em direções diferentes, minha boca, meus olhos caem enquanto corro e vou deixando pedaços de mim pelo caminho torto que sigo.
Eu sento.
Respiro fundo, 1,2,1,2,1,2

Mas não adianta, adianta?

Eu sinto isso vindo na minha direção, como se eu pudesse prever uma batida de carro fatal, eu a vejo vindo e isso me deixa agoniada.

Durmo.
Durmo, durmo, durmo, durmo, durmo, durmo, durmo
Faço listas.
Faço listas o tempo todo, começo a criar regras novas, regras pras coisas, pras pessoas, eu preciso de regras, eu preciso ficar aqui nesse quadradinho, estável, completamente estável, segura e sã. Não posso sair, não posso sair.
Durmo.
Tenho que estudar, mas não estudo.
Eu não quero estudar.
E isso me deixa agoniada, porque eu não quero.
Porque tocar nos livros me dá engulhos, eu não quero.

Minhas unhas caem, meu nariz ferido solta casquinhas e eu começo a fazer listas
Faço listas
e mais listas
Febril, no meio da madrugada, eu respondo à perguntas que ninguém me fez, eu encontro padrões.
Depois durmo e falto às aulas e volto, dou risada
Depois tô de mau humor, não quero que me toquem, não quero que me toquem, não quero que

Ligo pra L., em desespero, números desenhados na pele do corpo inteiro, em todas as partes que consegui alcançar e como vai doer pra tirar tudo até amanhã de manhã
Ela me diz, como sempre, "por que você não se corta, como uma pessoa normal?", daí a gente ri, porque essa piada nunca fica velha.
Mas eu digo a ela, eu digo a ela que eu tô me fragmentando, explico que, debaixo da minha pele tem alguma coisa estranha acontecendo, que o gosto na minha boca não é de algo que eu comi, que--

E ela reconhece o padrão. Respira fundo e me diz, daquele jeito dela, pra não sair de casa, que ela tá vindo.
Mas eu não tô em casa, L.
Tô no meio da rua, tentando pegar meu braço esquerdo do chão.

Tiro uma nota ruim, tenho um dia ruim, uma mulher grita comigo.
Tantas regras, tantas listas
E eu não consigo ficar aqui, estável.
Eu não consigo fechar os olhos.

Holden me manda mensagem e ele sabe.
Eu não sei como ele sabe, eu nem sei se eu sabia até agora.
Mas ele sabe,
ele sabe mesmo sem ter me visto assim, sem dedos, sem braço, completamente desconectada.
Eu tento dizer que tudo bem, meu bem,
isso já aconteceu antes. Muitas vezes, incontáveis.
E eu tô aqui. Eu tô bem. Eu vou ficar bem.
Mas ele sabe.

Sabe, eu estou fazendo algo errado.
E eu não sei o que é.
Eu não consigo ver onde é que eu tô errando.
Porque eu erro quando acordo de manhã, e quando durmo demais.
Quando vou a todas as aulas e estudo e me aplico, eu erro quando mato aulas pra descansar, eu erro quando fico, quando vou pra casa, quando tô junto, quando tô sozinha, eu estou fazendo algo muito errado
Eu tô tentando ficar aqui, nesse quadrado estável, seguro. Eu só tô tentando fazer isso, não experimento coisas novas, eu repito as receitas, as fórmulas de ficar bem, mas elas não querem funcionar.
Nada nunca funciona.
Porque parece que tá tudo bem,
aí eu durmo
aí eu não durmo
faço listas
escrevo números
e, mesmo assim,
meu corpo se parte em pedaços

mas eu continuo correndo
sempre correndo

No final, sempre fica tudo bem.
Ou não.

37x21 O terrível dia jamais descrito (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Estava organizando as temporadas, ao invés de estudar, de explicar pra minha irmã como é que uma camisinha vai parar no quarto de alguém, de ler meu livro ou fazer qualquer coisa útil, quando me deparei com o terrível dia jamais descrito. Eu decidi, há um tempão, que jamais escreveria sobre ele porque não sabia como.
Acho que doía, também.
Acho que incomoda, um pouco, o que quer que isso queira dizer.

Mas não tenho medo da dor ou do incômodo.
Vamos lá, vamos terminar essa temporada com bravura. Vamos quebrar regras.

24 de julho de 2015.

Eu estava lá.
Acordei cedo, voltei pra casa bem cedo, como nunca tinha voltado antes.
O dia todo era bonito, eu ouvia o álbum recém saído do forno da Florence, e fingia que não estava indo ver se a gente tinha volta.
Não me lembro da minha roupa naquela manhã.
Roupa de dirigir.
Lembro de usar meus óculos de coração, os cor de laranja, e de pensar que o mundo inteiro queimava.
Eu não sabia o que ia acontecer naquela noite. Sabia o que queria que acontecesse. Mas não tinha coragem de imaginar. Eu tinha muito medo.
Eu tinha muito medo de chorar.
Estava doente.
Digo isso porque agora me parece muito nítido, mas eu não percebia, então.
Trazia na bolsa um monte de sudokus e palavras cruzadas, que me acompanharam durante algumas das piores fases da vida, como um lembrete de que, quando tudo está ruim, eu sempre podia fugir pra dentro de mim.
Arrumei meu cabelo. Na época, estava em transição, meus cabelos estavam furiosos, eu me sentia a medusa, cachos tortos, em desalinho, como se alguém os tivesse dado vida própria e os congelado em seguida.
Eu usei azul.
Azul é a minha cor favorita, às vezes.
Blue.
Caiu bem.
Eu queria ficar bonita, mas bonita feito uma pessoa comum em uma tarde comum.
Penteei os cabelos, usei maquiagem, mas não tanta, porque queria parecer que estava ali só porque tinha que ir.
Fiz o caminho mais cedo, eu queria esperar, eu queria estar lá quando você chegasse.
Sentei no deck, e fiquei olhando o pôr do sol, esperando você chegar, com medo da sua chegada, com medo do futuro, com medo da falta de estrelas pra quem pudesse pedir, com medo de não saber o que pedir.
Você chegou e, olha, você estava lindo. Nossa.
Eu estava de novo, desajeitada, meio maluca, sozinha, escrevendo em papéis e nos cantos dos sudokus, trazendo um presente sem pacote, uma caixa cheia de mim e das coisas que eu não pude te dar. Cheia de amor sem sentido, sem destinatário.
Deixei que você lesse, eu queria que você lesse, era seu, não era? Mas não era mais.
E foi uma droga perceber que não era mais.
Porque ainda tinha amor ali, ainda tinha amor em mim, o que eu ia fazer com aquilo??
Pra quem eu ia dar, se não pra você?
Soco no estômago, saímos pra comer, de acordo com o que eu planejara.
Eu precisava de tempo, ficar estável, peguei meu carro e fui pelo caminho mais longo e mais familiar que conhecia.
Eu precisava ficar estável, eu precisava não sentir nada.
Eu precisava respirar fundo e não te querer mais, eu precisava que você me quisesse, eu precisava--
Chegamos ao shopping, mas não entramos de mãos dadas, não teve sorvete e nem você me deu bronca por alguma razão boba. Fingi que estava diferente, em uma tentativa desesperada de te fazer voltar, mas hoje acho que isso não fez, nem faz diferença.
Comi carne, e estava ruim, mas eu não reclamei.
Conversamos.
Sobre coisas amenas.
Coisas amenas, eu e você, conversando sobre coisas amenas, uma morte lenta.
"Não, não, não, tá errado. Me fala da tua casa, da tua vida, da saudade que você sente de nós dois, vamos pra minha casa, dorme comigo essa noite e a gente resolve tudo amanhã, volta pra mim, volta comigo pra sua casa, eu te faço o café da manhã e a gente começa do zero, a gente finge que nada aconteceu, eu nunca mais discuto por coisas pequenas, eu não vou mais brigar, eu não vou mais ficar indecisa, eu vou ser melhor, eu vou--", era o que passava pela minha cabeça. Mas eu nunca disse, eu nunca diria, eu sou a mulher mais orgulhosa que já andou por essa terra, e até isso me orgulha.
Então eu sorri, e falei com a minha voz estável. Eu fui estável. Porque era o que eu achava que deveria ser.
E tinha tanta coisa que eu queria dizer, que eu queria cobrar, que eu queria te dar, e a minha estrela, e tudo aquilo que a gente ainda ia fazer
mas eu não tinha voz, nem bravura
nem nada.
Eu só tinha o meu orgulho, pra me manter de pé, pra me fazer te soltar quando a gente se abraçou uma última vez, pra me levar pra casa, pra minha casa, não pra sua, pra me tomar o celular quando eu só queria escrever tudo o que estava entalado na minha garganta, me apertando o peito, pra colocar o colchão na sala porque entrar no quarto e ver as coisas de nós dois espalhadas doía, pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando eu sabia que não ia ficar, pra me fazer cafuné enquanto eu chorava pela primeira vez, oficialmente.
Meu Deus, como foi horrível aquele dia, terrível. Parece tolo, agora.
E nem de longe tão ruim quanto os que vieram depois.
Mas ruim.
E não sou insensível a ponto de dizer que o seu também não foi ruim. Deve ter sido, tão ruim quanto. Mas acho que nunca vou saber.

O que sei é que esse foi o meu dia terrível.
Não o primeiro, não o último, mas especialmente terrível.
Como todos os dias terríveis.

Se eu teria feito algo diferente?
Tudo, eu diria, mas não tenho certeza.
Porque eu realmente gosto de azul.
E eu realmente gostava desse cara, mas
Eu sei que as pessoas imaginariam que eu diria que deveria ter deixado o orgulho de lado, mas ele me trouxe até aqui.
Ele me manteve de pé,
me fez comer quando eu não queria,
pentear meus cabelos, ir pra aula fingir que estava tudo bem, tirar notas boas,
falar com meus amigos, nem que fosse pra responder "Tudo bem sim :) e você?".
Ele me abraçou e me impediu de pedir ajuda, é, mas também me impediu de tomar atitudes drásticas, de dizer o que sabia que não adiantava ser dito e de ficar em casa chorando as pitangas.

Então, eu mudaria o dia terrível?
Talvez, possivelmente.

Mas provavelmente não.

37x15 Garotas bonitas e babacas

Imagem: TingTing Huang

Eu amo meu cabelo.

Eu sei, todo mundo sabe disso. Mas eu o amo.
Amo minhas roupas, amo o jeito maluco como me visto.

Eu beijo bem, ouvi dizer.
Não tem nada de muito errado comigo.
Quero dizer, fora o que há de errado comigo, mas isso você não sabe o que é. Ninguém sabe ainda.

Gosto do meu corpo.
Ele é ok.

Eu consigo falar sobre coisas.
Um pouco de história, literatura, música, cinema,
eu sei até mesmo enrolar quando não conheço o assunto.
Também sei onde tem café gostoso,
um lugar legal pra sentar,
música agradável.

Eu sei sorrir.
E posso usar maquiagem o suficiente pra parecer bonita.
Me vestir de maneira mais sexy ou mais feminina.
Alguns caras já até me disseram que eu era bonita.
Alguns caras já até gostaram de mim.

Hoje, eu dancei.
E acredito que posso ser quem eu quiser ser.
Ou poderia ser,
não fossem garotas bonitas
e babacas
me dizendo
que eu não sou bonita o bastante pra gostar de alguém
que eu não sou feminina o suficiente
que eu não sou sociável o bastante
ou que eu não sou atraente.

E eu acredito.
O pior é,
eu acredito.
Eu me olho no espelho e me sinto horrível.
Cansada, abatida,
eu só consigo ver minhas olheiras, meu cabelo bagunçado, meu corpo desproporcional,
a maneira como sou desajeitada.

Eu acredito,
eu concordo
que não sou bonita o bastante.

E a parte de mim que é forte grita,
e se irrita
porque eu acredito.
Eu sei que não é verdade, que eu sou tão bonita quanto eu quiser ser, porque as pessoas têm olhos diferentes.
Eu sei que vocês são tão inseguras quanto eu e disfarçam essa insegurança sendo maldosas, mesmo sem intenção.

Mas eu acredito.
E quantas outras garotas não acreditam também?
Quantas pessoas vocês fizeram com que se sentissem uma bosta porque vocês se sentem uma bosta?
Quantas, só hoje?

Bom, deixe-me dizer,
pelo menos uma.

Porque eu acredito em você
é impressionante,
é muito fácil
acreditar em você.

37x12 24 horas ou a assistente de mágico

Imagem: TingTing Huang

Começo meu aniversário estudando, tiro um cochilo, não consigo me concentrar nos meus pedidos, acordo, leio sobre Volvos Intestinais e agora tô escrevendo, cagando as tradições anuais.

Por que?
Annabel disse, no começo do mês "Não faça planos". E é por isso que aceito o que a vida deu, vou ao cinema acompanhada, almoço acompanhada, durmo, faço tudo errado, o livro que eu queria é caro demais, tô pensando em abandonar um pouco as tradições e só fazer o que tiver que fazer, quando tiver que fazer.

Acendi uma vela na janela,
mas não soube o que pedir.

Coragem, sempre, essencial, maravilhosa. Mas tem mais alguma coisa. Tem outra coisa de que preciso.
Porra, que ano longo.

E eu tô viva, minha boca tem o gosto horrível de sono, eu tô estranhamente descansada (pra quem só dormiu uma hora e tem que acordar daqui a pouco), estranhamente calma. Daqui a pouco, começam a chegar as mensagens, os abraços.
E eu estou viva.

Às vezes, eu não tenho certeza de quanto consigo aguentar, de qual é o meu limiar de dor e incerteza. Se eu vou estar aqui pra ler todos esses livros na minha estante. Então, eu me sento aqui, na frente da estante, e eu desejo, com todo o meu coração, estar aqui pra ler "O teorema Katherine".
Ler "The solitude of prime numbers", que eu comprei pra um homem que já não amo mais, e que não me ama mais.
Quero chegar o fim do semestre lendo "Nick & Norah", pra me lembrar de quando eu era uma romântica incurável, pra ler com esses meus olhos mais velhos, mais cínicos.

Eu tô viva e eu gosto disso.
Gosto das possibilidades.
Gosto do meu corpo, sou apaixonada pela textura dos meus cabelos, eu tenho que tomar decisões diariamente e lembrar a mim mesma que eu consigo fazer isso.

Eu não tenho a menor ideia do que acontece daqui pra frente.
Mas eu quero descobrir.
E isso me surpreende.

Eu quero sair de casa.
Conhecer pessoas.
Eu quero sentar em algum lugar dessa cidade com vento soprando, e quero sentir que dá pra respirar. Que tem ar suficiente pra mim aqui.

Eu quero usar um vestido azul.
E transformar meu corpo em uma onda.
Eu quero esperar. Pelo cara certo, no momento certo. Tô mesmo cansada de magoar as pessoas, de acordos e de sentir que tô perdendo tempo. Eu não consigo mais fingir gostar, eu quero sentir muito.
Eu quero te deixar pra trás, assim como as coisas que eu nunca disse a ninguém.
Eu quero o que a vida tiver pra oferecer, o que eu quiser aceitar.
Não sou madura o suficiente pra pedir essa coisa, essa pessoa. Arregalei os olhos só de pensar que, talvez, seja isso o que eu queira pra vida. Não. Definitivamente, não.
Bom, eu quero acordar de manhã.
E eu quero voltar pra casa sã e salva.
Eu quero retribuir o amor das pessoas, preciso aprender a fazer isso porque me mata um pouquinho cada vez que tenho que ouvir alguém que amo me dizer que acha que não sinto o mesmo que esse alguém sente por mim.
Eu quero me apaixonar. Bilateral, por favor, gênios dos aniversários.

Ano passado, eu quis bravura.
Coragem pra fazer tudo e mais um pouco.
E eu consegui.
Eu fiz tudo,
eu me declarei
eu falei em público
eu tirei minhas roupas
beijei todo o mundo
viajei
briguei
decidi
aceitei
pedi desculpas
e não pedi desculpas
falei o que me veio à cabeça

Esse ano, eu preciso de esforço, de força.
Preciso me aprumar,
forçar minha entrada no caminho certo,
no caminho errado.
Preciso de força, preciso de foco
preciso de esforço.
Preciso de esforço pra levantar da cama pela manhã e pra dormir à noite,
pra respirar
pra ser o melhor que eu puder ser.

Vela na janela, podemos começar de novo?

Eu desejo, eu desejo, eu desejo
Força
de vontade
de atrito
de aceleração
empuxo
de expressão
daquele tipo que mantém a galáxia coesa.

Sopro a vela,
escovo meus dentes,
nem sei se vou acordar daqui a pouco,
mas tenho que acreditar que vou.
E partir daí.

O que vier, eu aceito.

Feliz aniversário.
Pra mim,
de mim.