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44x11 Radio

Imagem: TingTing Huang

- Quero um anel mágico, que me faça viver pra sempre, ela diz, baixinho.

Olho para os meus próprios dedos - velhos, enrugados, manchados, tortos.

- Você vai morrer, - sussurra a voz das células que flutuam, despertas - porque não pode nos conter.
E eu ouço.
Ouço os ossos rangendo, abrindo caminho, ouço-as roendo, roendo, tentando perfurar.
Elas querem viver dentro de você, através de você, por você, com você, mas você não deixa.

Então elas tentam viver ao invés de você. Se escondem nas suas veias, cochicham entre si, pra que você não as encontre até o último segundo.

Elas veem pelos seus olhos, se alimentam pela sua boca pequena que beija e canta, elas comem tudo, famintas, vorazes, sedentas, até não sobrar mais nada. Até sobrar só você. Então, chega a sua vez.

A vez dos seus sonhos, esperanças, gemidos e de cada sensação, exceto a dor.

Mas não se preocupe, tudo tem cura. Você só precisa de um anel mágico, que te faça viver pra sempre.

Abro minha gaveta, cheia de anéis de plástico barato, escolho um pequeno, azul celeste e dou a ela.
- Aqui. É o último.

O rosto dela se ilumina e ela me agradece várias vezes, antes de sair.

Fico só.
Levanto da cadeira, tranco a porta e choro, sem lágrimas, por uns 2 minutos, até o horário da próxima paciente.

Ela entra,

- Quero um anel mágico, que me faça viver pra sempre.

31x13 O lado azul do sofá

Imagem: TingTing Huang

Maio.

"Vai ficar tudo bem".
Chego em casa às 04:00, é primeiro de maio.
E eu vou sobreviver.
31 dias.
Não pode ser tão ruim.

Então saio de casa.
Pro mesmo lugar onde estivemos 1 ano atrás.
Onde brigamos 1 ano atrás.
E eu percebo que sempre soube,
que acabaria assim.

Sacudo a cabeça e os pensamentos desaparecem, ou se escondem.
Mas não sacudo maio, e ele se infiltra sob minhas unhas, escuro e viscoso.

Decido me concentrar no trabalho.
Estudo, leio, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo.
Termino.
Indo pra casa, meus melhores amigos me dão a notícia de que um de nós seguiu em frente.
Em tempo:
não fui eu.

Um dia de cada vez, eu esqueço o fato de que há um ano, um ano só, eu era outra pessoa.
Em outra vida.
E te olho com os olhos de alguém que nunca te conheceu.
Faz bem.
Ou, pelo menos, não faz tão mal.

Ela se senta e diz
que minhas notas de agora vão decidir meu futuro.
Porque decidiram o dela.
E eu digo a mim mesma que uma porra de uma nota não vai dizer quem eu sou.
Mas tô mentindo.

Esqueço de comer, deixo tudo de lado, não assisto seriados ou leio livros, ou penso em amor.
Eu estudo.
E estudo.
E estudo.
E estudo.
Como se fosse a única coisa que eu tenho, como se fosse a única maneira de provar que sou realmente boa em alguma coisa,
e não uma grande fraude.
Novidade: não é o bastante.

Saio da prova me sentindo lixo,
cega e surda,
suja.
E eu tento lutar com as vozes,
tento lutar contra o aperto na garganta.

Mas eu consigo sentir,
eu consigo quase perceber a sensação rondando,
observando,
esperando,
pra me levar de vez.
Então eu não seguro o choro, nem a dor de me sentir inútil.

Encho a boca de sorvete, pela trecentésima vez esse mês,
e deixo vir.
Fico atenta, escutando meus próprios pensamentos,
esperando,
esperando,
que eles digam tudo de ruim que pode ser dito sobre mim.

Ela diz que me admira, que sou muito inteligente, etc etc

E eu ouço, mas não quer dizer nada.
Porque eu sei que não é verdade.
Mas também sei que é verdade.
E isso me dá uma sensação maior ainda de estranheza.
Porque eu sou boa.
Mas nunca vou ser boa o bastante.

Estamos no supermercado, corredor de condimentos, e eu sinto uma vontade repentina
de desaparecer.
Balanço a cabeça e ela vai embora.
Porque é um dia normal.
Um dia azul.

Sento no carro.
E quero ver você.
Você entenderia, mais ninguém.
Você entenderia, --
Mas aí lembro que não.
Você não entenderia. Você nunca entendeu.
E nunca vai.

Eu só preciso ir embora.
Pra bem longe.
Bem longe daqui.

Pego o carro,
e dirijo.
Dirijo.
Dirijo.
E choro, sem conseguir me conter.
Choro.

Ainda nem estamos na metade do mês,
e eu já posso senti-la sob a pele,
eu já posso ouvi-la nas minhas veias,
vê-la nos seus olhos.

Então eu deito,
durmo
e espero
que acabe logo.

Só acabe logo.

30x14 You don't know shit about fuck

Imagem: TingTing Huang

Meu caro,

Eu amo você.
E é por isso que peço educadamente: Vá se foder. Você não faz a menor ideia de quem eu sou.

Eu gosto de Russian Red. Durmo no sofá. E eu bebo até desligar qualquer pudor.
Beijo rapazes. Eu gosto de beijar na boca. Mas eu não gosto de nenhum deles, nem mesmo um. Porque eu amo você.
Viajei para uma cidade que me assusta, que é um enigma gigantesco, com meu melhor amigo. E desbravamos o monstro, andamos de metrô, talvez tenhamos nos encontrados com a fera que vive na São Paulo de baixo. Ela vivia na linha amarela e sussurrava meu nome. Quando eu dormia, ela tomava sua forma e arrancava meu coração do peito incontáveis vezes. E eu sobrevivi. Eu não sou covarde.
Eu fechei o caderno no tutorial. E falei. Não morri disso. Eu sou capaz disso. E não me venha dizer que sempre soube, porque você não sabe de porra nenhuma.
Eu estive no limbo que é o oceano que fica no meio da sua sala de estar por 6 meses, esperando que você voltasse pra me ver e esquecer, ou pra puxar minha mão quando a hora chegasse, e você me esqueceu. Porque você não sabe porra nenhuma. Me deixou plantada no meio da sala, com medo dos meus próprios demônios, enquanto trouxe outras pessoas pra sua vida, que eu considero infinitamente mais o que quer que seja. Que eu não considero nada, eu acho.
Você não me pediu pra esperar, nem disse que voltava. Porque você não sabe porra nenhuma de mim, nem soube ler o título desse blog, onde fica claro que esperar é uma das minhas coisas favoritas.
E foi o que eu fiz.
É o que eu tô fazendo.
Você sabe tanto, tantas coisas que ninguém sabe. Tantos significados ocultos nos meus atos. Mas não sabe de porra nenhuma. Não sabe que eu acordei e me pintei pra guerra, rasguei tudo o que me fazia mal e queimei meu corpo até a dor passar. Nem sabe que eu coloquei o dedo na tua campainha uma noite, pra matar ou morrer. Mas tive coragem de deixar pra lá.
Você não sabe de nada, porque eu olhei nos seus olhos e menti incontáveis vezes nos últimos meses, tantas, tantas, sem sentir, sem pensar, eu só me esqueci que tinha dito pra mim mesma que ia te dizer o que pensava pra consertar as coisas. Ou talvez eu tenha me lembrado que isso nunca trouxe nada de bom.
Se você soubesse quem eu sou, não me magoaria dessa maneira. Se soubesse quem eu sou, não faria isso comigo.
Se me conhecesse, pelo menos um pouco,
Mas você não sabe de porra nenhuma.

Você não sabe sobre como machuquei meu joelho, ou como Otto apareceu de repente e tirou minha vida dos eixos, sobre uma aliança que guardei por 7 anos e que talvez seja a hora de colocar no dedo, sobre como descobri que meu melhor amigo não queria ser o rei do mundo como conheço, sobre o que ele me ensinou sobre a vida enquanto nos sentávamos no chão do banheiro. Você não sabe porra nenhuma sobre quantas vezes o meu nariz sangrou e quantos narizes eu fiz sangrar, sobre os cortes nos pulsos de Ingrid, o que eu disse nas cartas que você não leu, o que a mãe dela nunca riscou, uma playlist secreta e limpa, sem dono, pra pessoa certa.
Você  não sabe de porra nenhuma, sobre o meu lado da história, sobre o que houve antes, o que houve depois.
Você nem sabe que eu não sou uma vadia escrota, que eu não simplesmente mudo meu humor do nada, que você me ataca sem saber e eu me defendo atacando de volta. Que só porque você não sabe qual é o motivo, não quer dizer que não tenha um.
Você não sabe que eu poderia ter perguntado qualquer coisa, que eu poderia saber qualquer coisa, mas eu preferi não saber porque eu sou uma filha da puta covarde, incapaz de admitir o óbvio.
Você não sabe porra nenhuma.
Então não finja que sabe, não aja como se me conhecesse porque já viu de perto a cicatriz nas minhas costas e já sentiu meu mau hálito matinal.

Porque você não sabe porra nenhuma sobre mim.
E eu digo isso, meu caro,

porque também não sei porra nenhuma sobre você.

Atenciosamente,

B.

Early Cuts: Prosopon

Imagem: TingTing Huang

Aviso: Encontrei este texto recentemente. E tenho a impressão de que essa dor e confusão que encontrei nele não chega nem perto da dor que senti ao escrevê-lo. Queria poder reencontrar a B. desses meses, desse último ano, e abraçá-la bem forte. Vai ficar tudo bem. Só depende do ponto de vista.
É um texto confuso, mas contém toda a verdade sobre o que aconteceu enquanto a vida seguia seu curso.

Olho nos olhos da sua máscara, minha máscara, nossa máscara.
Quem é --- eu?
Eu não sou mais. Somos.
Partes do corpo trabalhando, transformando caos, sem criar ordem.

Eu penso, ela fala, você faz.
Eu penso.
Um dos pensamentos ali dentro é meu.
Uma dessas bocas é minha.
Mas qual?
Quem veio primeiro?
Eu sou a ideia original?
Sou aquela que se repete eternamente, em ciclos.
Isso sou eu ou é fase?

Você é minha ou eu sou sua?
Existe eu?
Uma tábua crua, nua, onde jogaram palavras e cores.
Eu me vejo em você. Você se vê?
Sinto o seu coração estranho empurrar minhas costelas, seu cérebro, nosso cérebro que pulsa.
Você me diz que tudo pulsa.
É sangue, estou viva.

O que é vida? Controlo mãos,
e pés, e boca. Estou viva.
Então, eu sou. E você não.
Certo?

Então, quem me controla?
Então o que é você?
Então falo,
ouço
ando
penso
sinto.

NADA.

Eu sou só a voz na minha cabeça.
Nem mãos, nem és, olhos e orelhas.

Acordo com mãos
Acordo

Quero mais.
Quero menos.
Quero acordar eletricidade,
gás.

Quero não-mãos
Quero não-pés

Quero não-eu.

Early Cuts:Pillowtalk

Imagem: TingTing Huang

Cabeça no travesseiro, não durmo.
Fecho os olhos: Mimi-Rose.
Quase posso sentir o gosto daquela boca na sua.

Sento na cama, pego os fones, coloco música, penso em hemoglobina, heme, globina, sua boca, ferro, bilirrubina, o corpo dela, aqueles seus olhos antigos, alfa-talassemias, me dá náuseas, penso em filmes antigos, conto carneirinhos, Downton Abbey,

mas Claire tem razão, sempre teve:

Você não me conhece mesmo.

29x08 Revulsion

Imagem: TingTing Huang

L. me liga, me pergunta com quem estou, onde estou, quem eu sou.
Respondo que não.
Eu não,
Eu não tô.
E também não sou.

- Você pode vir me buscar?

E ela sai de longe, de tão longe, de um lugar que eu pensava que nem existisse mais, só pra me buscar onde quer que eu esteja.

- Qual é o teu problema? - ela pergunta, e eu me encolho no banco do carona, até sumir. - É a faculdade? É a porra toda?
Não.
Mas eu não respondo.
Eu não encontro os sons.
Eu não encontro mais nada.
Quero dizer
Eu tô perdida
Mas já sabemos disso.
Tudo em mim grita isso.

- Pare o carro, eu digo, eu quero vomitar.
E eu vomito no acostamento até ficar trêmula e fraca.

- Vem, eu te levo pra casa, ela diz, com a voz meio assustada, meio triste.
- Onde fica?, eu pergunto.

Ela olha pra mim, com aqueles olhões elétricos,
e não diz nada.

Às vezes, a gente só sabe,
Às vezes, a gente esquece.

Às vezes, a resposta é pura, simples, clara:
Não.

27x14 6 ou Canção pra não voltar (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Caro Pégaso – é, eu nunca te dei um nome de verdade, nome de gente. Agora é desnecessário -,

Abro a playlist no aleatório pra te escrever uma carta, uma última, uma penúltima, uma carta só, de número 5, 6 ou 7, sei lá, e os acordes de “Mercadorama” me dão um tapa na cara, forte, um aperto grande no estômago, náusea. Prendo a respiração, procuro os botões pra mudar de música, mas essa coisa não passa, ainda me dói respirar.
Bom, direto ao ponto. Escrevo porque senti vontade. E vontade, do tipo puro e simples, é uma coisa rara, nos últimos dias.
Você talvez nunca leia isso, muito embora tenha mais chance de ler essa carta do que Otto tem de ler as que escrevo pra ele. Talvez um dia, daqui a alguns meses, você se veja parado na frente de uma tela como essa e se pergunte “Ei, o que será que ela anda fazendo?”. Aí você vai vir aqui e muito tempo já vai ter passado, essa postagem vai estar lá em setembro, há um século de distância. Mas, quem sabe, talvez você sinta vontade de se ver pelos meus olhos antigos. E, então, vai saber:
Eu ainda não segui em frente.
Tô perdida, sozinha, carente, confusa. Não segui em frente.
Ontem, estava sentada com uns amigos - Holden, meu amigo, é. O mundo dá essas voltas -, você passou, e eu senti o mesmo misto de medo, ansiedade e desespero de sempre. A garota, que você deve saber quem é, disse depois que “nem me lembrava mais que vocês dois já estiveram juntos”.
Eu me lembro. Não disse isso a ela, dei risada, dei de ombros. Mas eu me lembro.
Eu tenho uma lembrança pra cada uma das suas camisetas. Pra cada uma das minhas roupas, cada um dos meus brincos.
Eu não segui em frente.
Mas tô tentando. Não tô mais ouvindo o “How big”, da Florence, que acredito ser o nosso “break-up album” .  Evito Babel e o último álbum da Russian Red (Ou evitava, até hoje). A banda mais bonita da cidade, nem pensar.
Por um tempo, tentei ser como era antes, como se a vida sem você fosse simplesmente a mesma que era antes, como se houvesse um ponto de restauração no sistema. Li. Li durante dias, horas, sem ver o tempo passando, até a vista escurecer toda, até algumas horas antes das aulas.
Li. Saí por aí procurando Otto. Que loucura. Como se ele fosse a grande resposta, como se voltar a amá-lo fosse apagar você. Deus, eu espero que ele esteja bem longe. Feliz.
Enquanto procurava Otto, percebi que eu nunca mais poderia ser quem costumava ser. Percebi que só queria ser aquela pessoa porque você se apaixonou por ela. Porque eu queria que você se apaixonasse por mim outra vez.
Mas não dava. Continuei a ler, comecei a beber, passava a maior parte do tempo pensando em sair pra beber. A semana se tornou apenas um intervalo entre a ressaca e o próximo porre. Bebi, bebi, fiz coisas muito tolas. Mas não chorei. Não saí por aí chorando e gritando seu nome.
Dirigi bêbada, coisa que havia prometido pra mim mesma nunca mais fazer. Voltei pra casa bêbada, gritando músicas da Florence pra mim mesma, lutando contra a vontade que me rasgava em pedaços, de ir tocar seu interfone, te pedir pra descer, te pedir pra gostar de mim de novo, te pedir pra pelo menos me deixar dormir no seu quarto.
Senti dor. E agora vejo que você também deve ter sentido, talvez ainda sinta. Às vezes, eu só queria te perguntar se isso passa, se é sempre assim.
Sinto sua falta. Sinto falta da sua companhia, sinto falta de te perguntar as coisas, de te contar o que acontece. Sinto falta de te contar sobre um livro muito bom, sobre a cor do céu de madrugada, um evento no CCBB, uma fofoca da vida de alguém, uma coisa que aconteceu em casa, hoje um filme no cinema (vão passar uns filmes do tipo 500 dias com ela por esses dias, sabe?) . Sinto falta de olhar pra você sem ter que desviar os olhos.
Mas calma, já passei da fase de achar que vamos voltar. Já passei da fase de te querer de volta, de querer te beijar, dormir com você, sentir seu cheiro. Já até esqueci como é seu beijo, tanto que às vezes tenho que me esforçar pra lembrar da consistência da sua boca. Já superei a vontade de ir até sua casa, embora ainda imagine – todas as segundas e quartas, quando passo pela sua rua – qual seria sua reação. Você provavelmente também já passou dessa fase de achar que vamos voltar, eu acho. É triste, mas me deixa aliviada.
Já passei dessa fase, mas não segui em frente.
Ainda te encontro em cada canto do meu quarto, dos meus cadernos, da minha playlist e paro um segundo, pra ficar triste porque eu te amei tanto, nos amamos tanto e agora somos estranhos. É triste, é como se você tivesse morrido e eu não pudesse passar pelas fases do luto porque ninguém quer falar sobre você. Cada vez que menciono seu nome, as pessoas se entreolham e mudam de assunto, e eu me obrigo a guardar você de volta. Aos poucos, elas vão se esquecer de que a gente existiu e eu não sei se é o que eu quero. Porque aconteceu.
Isso me deixa muito confusa. Eu deveria apagar mesmo você, cada traço, cada memória, e começar com um espaço em branco na vida? Porque, às vezes, eu quero fazer isso. Às vezes, acho que é o único jeito de fazer com que isso passe. Mas aí vem alguém mais sensato que eu e me diz pra dar tempo ao tempo, que eu vou guardar isso, que você e eu nos tornaremos uma história que eu vou querer contar.
Mas será que vou?
Eu conheci um cara. Já faz um tempo, eu o conheci um dia depois do nosso último encontro, o encontro fatídico.
Ele me encontrou no meio de um monte de gente e eu mal olhei pra ele, eu estava tão cheia de dor, eu me sentia tão horrível, tão monstruosa, suja, vil. Tão só. Levou um tempo, muito tempo e álcool – uns poucos caras também, confesso -, pra deixar de me sentir assim.
Ele foi paciente, está sendo paciente. Eu digo a ele que não quero gostar de ninguém, nunca mais, não quero me envolver com ninguém, não quero nada, não quero ser nada e ele dá de ombros, diz que espera.
E eu gosto disso. Da ideia de que essa dor é só uma dor, que passa e daqui a pouco quero estar junto de novo. Da ideia de que a gente não deu certo, mas a culpa não é toda minha, eu posso dar certo com alguém um dia, quando estiver pronta.
Mas não estou pronta agora.
Antes da gente, antes mesmo que eu te conhecesse, eu estava me preparando  pra você sem saber, me preparando pra estar com alguém, pra ser parte de um nós, pra pai, mãe, festas de família, andar de mãos dadas, sair pra jantar, apresentar pros amigos. Eu estava me preparando pra dormir junto, pra deixar de enxergar o meu corpo como sagrado e apreciar o que ele pode fazer, o que mais ele pode significar. Eu estava me preparando pra penumbra, pra me magoar, pra falar e pra guardar os seus segredos.
E agora, eu não quero dar as mãos. Eu não quero ninguém passando o braço pelos meus ombros ou me acompanhando até o carro. Depois de ficar com um cara eu só quero ir pra casa ficar só. Não sinto vontade de mandar mensagens dizendo o quanto o dia ou a noite foi especial pra mim. Não sinto vontade de dividir meus segredos ou contar sobre o meu dia. Ou dizer o que penso. Ou dizer coisas que só fazem sentido pra mim.
Eu me sinto perdida. Tão perdida. Não acho que seja só porque você não está aqui, acho que acabaria por acontecer um dia desses. Eu me sinto perdida e preciso me encontrar. Não quero ninguém aqui enquanto faço isso.
Eu não rezo. Eu não vou à igreja, não leio a bíblia. Não falo sobre Deus. Até nisso acabei me perdendo.
Eu não estou pronta.
Esse cara, eu acho que posso gostar dele. Pode ser bom. Ele é uma boa pessoa. Acha que sou normal. Gosta do meu jeito estranho de pensar, do meu cabelo, do meu corpo. Diz que quer me ver, sinto borboletas no estômago. Descubro que quero vê-lo também. Acho que isso é bom.
Mas ainda não superei.
Ainda fecho meus olhos ouvindo Pompeii e consigo sentir meu coração bater daquele mesmo jeito que batia na Disney quando eu me sentava pra falar com você, do jeito que batia quando eu ia pra uma reunião do C.A. e você estava lá sentado no sofá, do jeito que bateu quando você segurou minha mão na palestra de Anatomia do Amor, quase consigo sentir o seu cheiro e a sensação de certeza que tive de que queria arriscar, de que queria que fosse você e mais ninguém a me magoar quando saí do cinema depois de assistir “A culpa é das estrelas”, depois de te beijar no seu carro usando aquela blusa de zebras que eu quase nunca uso porque ela é sua, é nossa e sempre vai ser.
Eu nunca achei que fôssemos ficar juntos pra sempre. E isso não quer dizer que eu não tenha acreditado. Eu acreditei. Em quase todos os segundos. Eu acreditei tanto, como nunca pensei que fosse possível. Eu te amei tanto - ainda te amo tanto, embora não do mesmo jeito - , de um jeito que eu tenho até medo. E, lá, naquele show da Banda do Mar, quando eu cantei olhando nos seus olhos, eu só disse a verdade 
"Olha só, moreno do cabelo enroladinho
Vê se olha com carinho pro nosso amor
Eu sei que é complicado amar tão devagarinho
E eu também tenho tanto medo
Eu sei que o tempo anda difícil e a vida tropeçando
Mas se a gente vai juntinho, vai bem
Eu não sei se você sabe, mas eu ando aqui tentando
E a gente tem o eterno amor de além".
Era tudo verdade. Eu fiz o melhor que eu pude, mesmo que não tenha sido o suficiente. E mesmo que eu me arrependa de muita coisa, não sei se faria diferente, porque eu sou assim, eu cometo esses erros. Não cometê-los seria não ser verdadeira com o que sou, seja algo ruim ou bom. Mas eu te amei de verdade. Eu te amo de verdade, acho que sempre vou, after all this time...
Eu ainda não segui em frente.
Mas vou fazer isso uma hora dessas.

Com amor, todo o amor que eu te dei, meu coração inteiro – até os pedaços que você acha que não conhece -,


B. 

27x09 Are we there yet?

Imagem: TingTing Huang

Ele mordeu meu nariz.
E aí você veio jorrando de todos os lados, memórias de nós, penumbra, Coppolla, minha mão no seu rosto, parada, paralisada, será que eu vou amar alguém assim de novo?, o jeito como você sorri em diferentes situações, suas cuecas, o jeito como você dorme, como você acorda, sua boca, seu cheiro que senti na minha pele ainda outro dia.
Poderia ter estragado a noite. Mas não.
Eu já entendi que você vai estar em todos os lugares, vou te encontrar em cada canto da minha vida.
E tudo bem.

"Não morda meu nariz", pedi.
Te afastei pra um canto da mente, trouxe a boca dele pra mais perto e pronto.
Acho que estou quase lá.

Just you wait.

26x16 Rabo Córneo Húngaro

Imagem: TingTing Huang

Eu não estou pronta.
Ele se aproximou e dei dois passos para trás.
Não quero beijos, nem sei mais manter diálogos.
Sou um bicho doente, assustadiço.
Ele me tocou o cabelo e me enrolei feito lagarta. Tô com medo, não me olhe, não me toque.
Sou bicho que levou uma surra sem apanhar, e as memórias são fortes demais pra que eu me aproxime e coma a comida que você traz nas mãos.
Você se encosta em mim, inofensivo, e eu fico rígida, meu corpo todo responde em alerta, selvagem, posição de fuga.
Eu não quero te machucar. Eu não quero me machucar.
Sou melhor do que isso, mas talvez não seja mais.

Apague as luzes, quando sair.
Quero ficar só.

26x10 Kübler-Ross, parte 3

Imagem: TingTin Huang

Depression.

Chegou em uma noite comum.
Eu estava sentada na sala, assistindo Cidade dos Ossos.
De repente, a voz de Ulrika "Ninguém nunca vai nos amar como somos". E eu senti uma dor enorme de uma vez só, feito um soco bem dado no rosto: ela estava certa.
Eu nunca ---
Eu guardei tantos segredos a minha vida inteira. Eu me guardei a vida inteira.
E aí você veio, feito uma promessa, feito uma profecia a se cumprir, a resposta das preces que eu fazia, por mim e por Ulrika "por favor, não deixe que ela esteja certa".
E agora essa dor no corpo todo, a dor de mim golpes, chutes e socos, o medo de voltar pra casa de me apaixonar de novo, de me desapaixonar por você, de te ver se apaixonar, de tocar alguém, de te ver, de olhar pra você e saber que você sente alívio e que sabe que tomou a decisão certa, o pavor de dormir e acordar um dia mais próxima de você.
É como se você tivesse vindo provar que ela sempre esteve certa.

Hoje, pela primeira vez, me arrependi de ter dito "sim".

26x02 Ida

Imagem: TingTing Huang

Acordo de manhã e já te amo, antes mesmo de me levantar da cama.
Eu te amo com água e sabão, pasta de dentes.
Eu te amo quando me visto, enquanto calço os sapatos. Eu te amo mesmo quando penteio os cabelos.
Eu te amo no vento frio que me ataca o rosto quando saio pela manhã. E no ruído do motor.
Eu te amo no barulho do trânsito.
Eu te amo no som das vozes e dos passos nas escadas, no virar das páginas e na madeira e metal das cadeiras.
Eu te amo nas luzes, e pelo dia inteiro, até dormir.

Mas, calma, não me assusto mais, não fujo.
Porque você existe, e vive, e respira.
Existem luzes e madeira e eu acordo de manhã, tenho sapatos e sabão.
Então, cada vez que eu te amar, com a água ou laranjas, tecido e pele, serei grata.
Não tenho mais medo.
Obrigada.

24X15 Beloved Deirdre

Imagem: TingTing Huang

Quem está lá pra você, querida? Você se sente segura? O mundo é um lugar seguro?
Quem vai te amar quando você não se lembrar mais como é que se levanta dessa cadeira?
Ninguém vai amar sua loucura e decrepitude, as rugas e a degeneração, o murchar dos seus neurônios. Ninguém além de mim.
Quando o seu nome deixar de ser conhecido, quando só a morte souber seu verdadeiro nome, eu vou te reconhecer e te chamar pra conversar.
Quando sua boca secar e a vida se tornar insossa, quem vai te descrever o gosto das maçãs?
E quando o cansaço chegar, a fraqueza e o peso, quem vai te admirar por entre as grades da prisão do seu corpo?
Quem vai levar adiante a sujeira dos seus genes, quem vai velar pelo seu sangue e sua carne?
E quem vai te tocar mais forte até que você sinta, quem vai gritar seu nome no meio do dia?
Quem vai enxergar em você aquela que você foi? Quem vai saber sobre os seus cabelos rebeldes, sobre a firmeza da sua pele e a cor dos seus olhos por inteiro?
Quando a sua luz se apagar, quando você não souber mais quem é, quando não tiver mais nenhum interesse em ser, quando seu mundo se tornar mais real do que todos os outros.
Eu vou estar lá. Pode ir sem medo. Quando a hora chegar, estarei lá.
Não vou me atrasar.

23x14 100 escovadas antes de ir para a aula

Imagem: TingTing Huang

Bruxa, espírito ruim.
Desde criança, me queimaram na fogueira das ideias, me chamaram de aberração, me internaram e doparam, jogaram no lixo quem eu era, me purgaram com fogo, perfurocortantes e castigos.
Me esfolaram a pele pra tirar a tinta, arrancaram-me as asas, lavaram meus cabelos, me deram espelhos.
Pro meu bem.
Pra que eu não fosse mais marginalizada, pra que eu não fosse mais tão julgada, fosse invisível.
Só precisou de um boato, umas poucas palavras.
Bruxa, espírito ruim, promíscua.

Acendam as fogueiras: preciso recuperar minha invisibilidade.

Early Cuts: Blue 16

Imagem: TingTing Huang

Caro Otto,
sonhei que nossa música - uma delas - mudava de nome.
As coisas estão mudando. Você sente isso também? Um vento estranho que não é de frio ou chuva, que gela os ossos?
Parece que estamos andando eternamente por caminhos perpendiculares, nunca parando.
Nos cruzamos, eventualmente, e você vira a minha vida de cabeça pra baixo. Eu não afeto a sua vida, sou fraca demais pra isso.
Mas as coisas estão mudando.
São cabelos que crescem, músicas novas, pessoas e sonhos.
Será que estaremos prontos algum dia? Um pro outro, pra luz, cor e som.
Eu ainda anseio pelo dia em que eu vou poder tocar seu rosto, sem susto, seus cabelos, seus ossos. Eu ainda amo cada gesto seu que desconheço.
Amo seu colocar de cabelos atrás da orelha, seu balançar de canetas, amo o seu esgar de concentração, o estalar de seus dedos.
Ainda é você.
Mas as coisas estão mudando.

Com amor,
B. 

18x08 Without a trace

Imagem: Ting Ting Huang

Ouvi dizer que as pessoas só devem ficar em nossas vidas enquanto são necessárias. Mais que isso seria tolice, desperdício.
Foi assim com Otto. Ele esteve por aí me dizendo, com aqueles olhões, que era hora de crescer.
Ele me disse, batendo as mãos umas nas outras, que eu tinha que estudar.
Me ensinou a ser paciente enquanto esperávamos nossos ônibus no ponto.
Ele me disse que eu precisava me gostar mais, me mostrou coisas dentro da minha cabeça que eu nunca teria visto sozinha.
Ainda tem tanta coisa que eu tenho que aprender, coisas que eu queria que ele me ensinasse.
Mas ele não pode, ou ainda não pode.

Obrigada, Otto. Por todos esses dias e por todos esses gestos e olhares e por não cortar os cabelos nem se demitir antes que eu pudesse, finalmente, andar com meus próprios pés.
Tenha uma boa vida. Por favor.

17x21 Mimi's Knuckles

Imagem: Ting Ting Huang

Cabelos recém lavados, cheirando a xampu e suor. Orelhas limpas, ligeiramente ácidas, tão pouca pele cobrindo as mandíbulas claras e o pescoço magro.
"E pra que isso seria bom? Os fins não justificam os meios, B. Isso só vai te fazer sentir pior, suja, indigna".
Seguro sua cabeça num abraço estranho, não quero olhar seu rosto, saber quem você é. Me interessam apenas essa pele parca, esses ossos quase expostos, esses ombros. Sabe que, quando de olhos fechados, tocando seus cabelos, você poderia ser outra pessoa?
"A culpa foi sua e de suas escolhas tolas e egoístas, você sabe"
Costelas firmes batendo nas minhas, ruídos abafados pelo tecido, pela música alta, pela boca. Você quer falar e eu não deixo, não quero saber, não quero ouvir.
"Você acha que quer mudar? Você não pode mudar, você não consegue! E, se conseguisse, não adiantaria, não traria nada de volta".
Você quer pele, e eu também quero. Encontro a sua primeiro, lisa e esticada, aperto-a com os dedos comos e quisesse atravessá-la e você não reclama.
"Será que você consegue lutar contra essa sua mania de ser mártir, de se comprometer com as pessoas, só pra fazer isso?"
É pouco ainda, para calar as vozes, as bocas, as lembranças, é pouca pele, me diz pra onde ir, me diz o que fazer. Não diz, só a mesma repetição de movimentos, os ossos, a pele. Preciso de mais.
"Isso não é saudável, você precisa sair daqui, ver pessoas. Me deixa te ajudar".
Caminhamos a 4 pés, você ri e eu guio. Preciso de mais e você quer dar mais. É um alívio o contato entre a mão áspera e o tecido liso.
"Você precisa me ouvir"
Mais um pouco, você olha pra mim e eu vejo seus dentes surgirem, vejo as coisas acontecendo lentamente - e, ainda assim, depressa demais - no seu rosto.
"Você ainda acredita em inferno?"
Seus olhos, seu nariz, sua boca "vem". Mas eu ajeito as roupas e o cabelo depressa.
- Adeus.

Sem olhar pra trás, sem me arrepender.
Apática.

16x01 Don't Panic

Imagem: TingTing Huang

- É o que estou tentando dizer, Doutor. Desde que ela chegou, minha vida ficou desse jeito. Cortes, maçãs, pus, mel.

E ele
É como quando você assiste a um lindo filme e fica temporariamente apaixonada pelo protagonista. Ela o amava tanto, de forma tão crua e descalça e me disse isso tantas vezes...
Quero que ela pare de falar nele e quero que ela continue. Que ele seja meu pelas palavras dela.
Posso me permitir a isso.
Só.

14x09 Uma verdade inconveniente

Imagem: TingTing Huang

- Quanto tempo - diz a Gypsie, a guisa de oi.
Não digo nada, aflita, Helen, num conto que escrevi.
Limpo os pés no carpete encardido, entro.
O velho cheiro de incenso e chá me invade as narinas (He'll hit you, get you), já estou em casa.
Formalidades a parte, nos sentamos na mesa bamba e as cartas são embaralhadas, cortadas, viradas.
Eu quero vê-lo.
Quero desesperadamente me certificar da existência dele. Mas, se não posso, pergunto às cartas.
Elas me dizem que ele vai mal (não entrarei em detalhes).
A vontade de vê-lo me rasga em 3. Seguro o pulso dela "De novo".
A Gypsie nota meu desespero. Embaralho de novo, ela abre.
- Hm, você tem um problema, meu bem. O seu ponto fraco, nesse caso, é que você quer muito, você espera de mais de algo muito frágil. Mas você tem um ponto forte: sua impulsividade.
(Sorrio. Nunca fui impulsiva, mas, quando se trata de Otto, cometo os erros mais estúpidos)
- Olhe, querida, você diz que tem algo que te incomoda, mas essa carta mostra você agora e ela fala de paz, de busca pela felicidade, alívio. Eu não sei o que você procura, mas as cartas dizem que as coisas já estão no caminho certo.
-Sim, continue, peço, por favor.
Bem, a solução é - ela faz sua pausa - É o que eu disse: a solução é mudar, concluir isso. Evoluir.
De certa forma, era o que eu esperava. Meus olhos começam a arder - tem acontecido muito. Me levanto depressa, como normalmente faço.
- Tem mais uma.
- O quê? - pergunto
- Tem mais uma. É um conselho.
Eu estou pronta pra ir embora, mas me agarro a esse conselho como se fosse a única coisa que pode me ajudar, o sinal pelo qual tenho esperado.
- Revele a verdade. Mesmo que vá causar algum dano.
Por um instante, não entendo o que ela quer dizer. Tem tantas áreas da minha vida cheias de mentiras que...
Ah. A verdade.
- Obrigada.

Saio em direção de mais uma dessas manhãs enlouquecedoramente iluminadas.
A verdade. A verdade vai acabar com tudo. Mesmo que cause algum dano.
Considerando os tipos de danos que isso pode causar, prefiro nunca mais vê-lo.
Talvez seja mesmo melhor eu amá-lo pra sempre.

13x16 O significado das palavras que você não disse

Imagem: JamesCalder

Fiquei zangada com você.
Custei a admití-lo pra mim mesma porque me zangar significava que você ainda me fazia sentir algo.
Fiquei inquieta, ansiosa por destrancar a cela onde te guardo, esperanddo te encontrar morto, putrefato e vomitar por causa do cheiro, me aliviar.
E você lá vivo. Fraco, um arremedo daquele sonho imponente, mas vivo.
Delirava, chamando por um tal barril de amontillado.
Desatei os nós que rasgavam seus pulsos e tornozelos, te deitei no chão.
Me irritei com a tua humanidade. Com teus pulmões a espirar, teus dedos gelados, tuas costelas, teus cabelos, tuas cicatrizes de criança, teus cílios.
"Eu não quero morrer", você disse.
E eu quis que você morresse, eu quis te matar tantas vezes.
Eu te matei tantas vezes, Rasputin.
Mas você não morre, você não morre.
Temo que, se morresse, voltaria pra me assombrar.

12x05 Ouvidos Moucos

Imagem: Santacroce

- Eu não quero me casar, Marcela - Marcela está escovando meu cabelo, cantarolando "Walking on sunshine". Continua.
- Eu não quero me distanciar dos meus sonhos, Ella - Durante o jantar, Ella engole seu peixe e minha frase paira no ar.
- Eu não consigo sozinha, James - Ele sorri e continua a responder seus exercícios.
- Você é muito importante pra mim, Ilsa - Ela não para de falar ao telefone.
- Eu queria que você me curasse - Ele passa a mão no meu cabelo e apalpa meu crânio.
- Eu não me importo com você - mas ela continua soluçando e me contando coisas que eu não quero saber.
- Queria que matar você solucionasse as coisas - Não me viu, continua caminhando.
- Eu odeio quando você me olha dessa maneira - Lariss sorri e organiza os potes de remédios numa caixa.
- Eu sou uma garota - Natalie Portman's shaved head toca alto demais pra que ela me ouça.
- Eu não sinto sua falta - Minhas palavras não fazem sentido pra ele.
Ninguém parece escutar, compreender. Me cansei de falar.
Talvez.
Só mais uma tentativa.
- Eu acho que eu amo você.
Ele olha pra trás, a testa franzida:
- O que você disse?