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45x13 Safe Spaces

 

Imagem: TingTing Huang


Queria conseguir escrever uma crônica, algumas. 

Seguir alguns padrões, andar sobre as linhas, escrever com as letras duras sobre as pautas, sem letras cursivas flutuantes no papel. 

Não consigo. 

Até tento, mas as letras saem voando, correndo, fugindo do papel como fogem da minha cabeça. 
Fogem em busca de um lugar seguro. 

Tolice. 
Não existem lugares seguros. 

Sentamos no banquinho de pedra, sob o sol quente do fim da manhã.
Ele ri. 
Uma risada frouxa, boba, de adolescente. 
Eu gosto. 

Teve um dia ruim, uns dias ruins. 
Fico pensando que as pessoas só chegam pra mim assim, em dias ruins. 
Todo dia é um dia ruim de alguém, pra mim. 

Ele me fala de música, tá animado pra me contar sobre um dia, uma noite, um beijo, uma vontade. Conta sobre prazeres secretos, a escola, um sonho. Quase como se eu,
como se eu fosse um lugar seguro. 
Mas não existe nenhum lugar seguro. 

Mesmo assim, eu deixo. Eu sou o lugar seguro, ou tenho o poder mágico de tornar lugares seguros, umas letras e palavras mágicas de amor e conforto, um colo místico, abro as asas de carne e esquento seus ossinhos arrepiados.
- Tudo bem, criança, vai ficar tudo bem -, minto. 


Eu minto, mas espero que fique. 
Espero que fiquemos. 

44x18 Needless to say

Imagem: TingTing Huang

Eu preciso de um amigo.

Quão estranho é perceber isso?

As mensagens não lidas se empilhando no celular, eu vejo pessoas todos os dias, elas me perguntam se estou bem, e estou.

Eu sempre estou.
Eu sempre estou bem.

A rasura dos relacionamentos que construí com tanto afinco, sem nunca molhar mais que os pés pra não me magoar, me magoa. Que irônico.

Preciso conversar.
Preciso de contato humano profundo, ser ouvida. Preciso de conselhos vazios e sem aplicação prática. Preciso de um abraço.
Preciso de ajuda, e não sei pedir.

Eu sei sinalizar errado, feito um recém-nascido que chora pela angústia de estar vivo e é calado, quase que imediatamento, pelo seio da mãe.

Fico dando sinais tortos "olhe pra mim, eu não estou bem", e sorrio. Eles sorriem de volta.

O horóscopo diz "está tudo bem", os e-mails, o tempo, você, meu amor.

"Está tudo bem", eu repito, feito um mantra, feito um feitiço secreto que vai melhorar as coisas, colorir o mundo, me fazer entender quem sou, pra onde vou, se devo ficar, se sou boa o suficiente pra você e pra todo mundo que importa, eu digo que estou bem,
com sinais confusos e pontos finais,
mas você parece sempre ébrio demais pra se concentrar em mim.

Tem coisas demais por aí pra ver, pra saber, pra não sentir e eu choro feito um bebê,
você me cala com a boca, comida, amor, palavras de afeto que eu não sei ouvir ainda e eu

só preciso de um amigo pra dizer que não tá tudo bem.
Amor,
não tá tudo bem.

41x03 Happy pills

Imagem: TingTing Huang

Eu queria me preocupar com as consequências, eu queria,
mas eu só consigo me preocupar com a hora em que você vai chegar pra dormir comigo.

Queria me preocupar com os sentimentos das outras pessoas, mas só consigo pensar em jeitos novos de encostar minha boca na sua.

Queria me preocupar com roupas e meu cabelo bagunçado, mas só quero mesmo é passar a perna por cima do seu corpo e te abraçar apertado.

Queria me preocupar em engordar demais, mas quero mesmo é que você me convide pra jantar e pra tomar sorvete.

Eu queria não querer tanto beijar a sua boca,
mas aí você chega e derrete meus muros de gelo, e aceita meu labirinto,
brincamos de Marco Polo pelas galerias subterrâneas e, quando eu me percebo, tô correndo pra te encontrar mais rápido, mais cedo.

Porra, eu queria dar um basta nisso, queria te explicar que eu sou undateable, eu sou horrível, monstruosa, ciumenta, triste e infeliz,
eu derrubo barcos,
destruo mundos.
Mas eu não quero te afastar, eu quero você mais perto,
eu quero o seu sorriso absurdamente infantil e fofo, eu quero não ter medo de mais nada.

Minto, queria ter medo do que as pessoas vão dizer,
de como vão enxergar isso que tá acontecendo,
mas eu só quero não soltar sua mão.

Eu tô feliz, horror dos horrores.
Eu tô muito feliz.
Você me faz feliz.

E isso é absurdo,
bizarro,
esquisitíssimo.

E maravilhoso.

Eu não quero outra coisa, não quero viver de outra maneira.

E eu queria me preocupar com o final dessa história, como momento em que você vai embora, mas ei
Obrigada
Obrigada por existir agora.
Por hoje.

O resto a gente vê depois que o efeito da dopamina passar.

40x20 Flores da estação (Season finale)

Imagem: TingTing Huang

Era uma vez um livro sobre o tempo.
Em algum lugar, existe tempo pra tudo.

Tempo pra aceitar mudanças, tempo pra dormir, pra assistir seriados.
Tempo pra comer.
E pra cozinhar o que se come.

Existe tempo pra irmãs.
E tempo pra amigos.
Tempo pra fazer as pazes,
tempo pra dizer verdades.

Existe tempo pra ler os livros empilhados nas estantes.
E pra arrumar o quarto.
Tempo pra assistir as séries na ordem alfabética, e pra sair da ordem.

Existe tempo pra aprender sobre pancreatite.
E pra aprender sobre psicofármacos.

Existe tempo pra escrever artigos,
histórias,
posts,
projetos.

E tempo pra tomar sorvete.
Tempo pra esperar que você diga que gosta de mim,
tempo pra decidir se eu gosto de você.
Tempo pra me apaixonar,
e desapaixonar.
Pra beijar sua boca,
pra beijar outras bocas.

Existe tempo pra segurar sua mão.
Existe tempo pra ficar com frio do seu lado,
e pra me consertar o bastante pra ficarmos juntos.
Existe tempo pra que eu me torne a pessoa que você quer que eu seja.
Existe tempo pra que você perceba que gosta de mim sem que eu precise mudar nada.

E existe tempo pra que eu me apaixone por gente que já sabe que eu não preciso mudar,
por gente que gosta de quem eu sou.

Existe tempo pra dançar,
pro calor,
e pra se afastar de quem quer cometer erros.

Existe tempo pra entender melhor
pra cometer erros
pra perdoar erros,
pra não perdoar erros.

Tempo pra terminar e não querer mais saber de amor,
tempo pra só querer saber de amor.
Tempo pra querer você o tempo inteiro,
tempo pra odiar sua existência.

Existe tempo pra conhecer seu rosto, seu corpo
suas mãos
E tempo pra te dizer que não quero mais,
ou que nunca quis.

Tempo de te puxar e beijar sua boca com toda a força de todos os sentimentos guardados desde sempre,
e tempo de perceber que não é bem isso o que eu queria.

Tempo de me aventurar pelo mundo,
e de só querer dormir a tarde inteira do seu lado.
De ser má,
de ser boa,
de ser robô,
de ser humana.

Eu não sei que horas são.
Nem o que acontece agora.

Eu queria muito saber, queria ter a convicção,
a firmeza de caráter de alguém que sabe que é você
que é você e mais ninguém,
que vai me fazer sair de casa numa noite gelada de julho pra qualquer coisa
qualquer coisa

Mas eu penso nisso, e meu estômago aperta,
cheio de comida, borboletas e de "e se?"s, sacolejando, gelados.

Vamos ter que esperar pra ver.
Isso me cansa, é.
Mas eu não sei fazer outra coisa.

Não sei nem se existe outra coisa.

39x18 Entrelinhas

Imagem: TingTing Huang

Eu não sei.
Dou de ombros.

Cruzo as pernas, coço a cabeça, não tô entendendo direito o que tá acontecendo, se sou eu, se é você, o meu período fértil, a lua cheia ou a solidão.

Eu quero a sua boca,
ou eu quero você?
Ou nenhuma das duas coisas?

Não me entendo.
Um dia eu tô perseguindo o Connor,
no outro você,
falo com você, te amo
te odeio
te amo
te odeio
me acho burra,
me acho certa
aí você responde
eu respondo
e fim

Era isso?
Foi por esse diálogo lacônico que esperei por dias?
Não, não, eu fiz algo errado,
eu só posso ter feito algo errado.

De novo, feito uma criança que é empurrada a contragosto,
tento.
Você responde.
Eu respondo.
E fim.

óbvio pra alguém assim, menos pisciano:
se você quisesse falar comigo, teria falado.
Mas ó, foi exatamente o que eu fiz:
queria e falei.

O que há de errado nisso?
Em não querer jogar, em querer ser sincera.
É o que eu quero,
é como eu me sinto nas segundas-feiras, vontades incontroláveis de caras aleatórios.

Eu podia perder meu tempo lendo nas entrelinhas,
decifrando os códigos,
forçando assuntos e conversas,
eu podia dar tratos à bola por horas, em busca de um assunto que te interessasse.
Mas eu não quero forçar isso,
nem conversas,
nem encontros,
nem beijos.

Tem que ser natural,
fluido,
feito amigos que se encontram depois de anos e conversam sobre tudo,
feito lembranças antigas,
feito conversas sobre filmes,
feito sorvete e planos para o futuro.

Tem tanto assunto no mundo, moço,
tanta risada pra dar,
uma semana horrível pra contar histórias que espero que fiquem engraçadas daqui a alguns dias,
eu tenho tanto pra te perguntar,
tanto pra te dizer.

Mas não posso fazer isso,
se você não quiser saber.

Disso eu sei, sem precisar de manuais,
diretrizes, conselhos,
a habilidade de ler nas entrelinhas
ou de ler seus pensamentos.

É óbvio.
Até pra mim.

Desejo que a gente se fale/veja/beije de novo,
mas não vou ficar esperando sentada.
Não mesmo.

Tenho mais o que fazer,
e espero que você também.

38x13 50/50

Imagem: TingTing Huang

Estudei a manhã inteira, a noite inteira.
Dia de prova,
matei aula,
e estudei, estudei.

Fiquei nervosa,
mas escrevi em todas as páginas, furiosa:
uma criança tentando ganhar uma sandália de brilhos.

Eu tô feliz.
Hoje. Inexplicavelmente.
Dou risada de tudo e danço,
eu danço.

Meu cabelo está seco, murcho, mas a gente tá bonito.
Chove muito e eu tudo
e eu muito

E eu saudade,
leio um livro,
como demais
eu jogo
e assisto uma série
mando milhões de áudios,
eu BERRO

e rio nas escadas
que dia bonito.
Que chuva incrível,
essa música.

Eu sou toda amor,
eu quero o teu bem.

Pégaso me diz "Você tá assim 50% do tempo"
e eu sei do que ele tá falando
porque eu tenho medo, muito medo, dos outros 50%

Eu tenho que viver agora, eu tenho que aproveitar esse lado dos 50%
Pra comer um pão, que gosto maravilhoso de pão
eu tenho que cantar
tenho que rir, eu tenho que amar a senhorita agora e
dançar
me deixa cantar em voz alta, rouca, desafinada

Saio correndo na chuva,
eu pego um barco,
eu molho meus tênis,
eu corro pra te ver
eu preciso te ver,
eu preciso me ver

Eu quero estar aqui, agora
eu quero sentir esse gosto,
essa chuva,
esse medo,
essa vergonha,
eu quero essa risada,
esse som,
a música me assombra,
Tô maravilhada, minha boca forma um O,
tô boba,
bato palmas e seguro nas suas mãos,
eu fico na ponta dos pés
e danço esse menino magrelo e cabeludo, meio sonolento, meio barbudo, meio lindo, meio meu
deixo que ele arrepie os cabelos da minha nuca
e deixo a chuva chover
o povo se atrasar

Eu não vou dormir,
eu vou cochilar
sozinha,
no meu sofá,
não vou te contar sobre o meu dia, mas eu vou piscar,
iluminar,
e as pessoas que me amam vão se sentir amadas
porque eu só quero dividir essa sensação.

Eu só quero que essa sensação dure,
só essa
por dias e dias a fio, sem parar
quero tocar as pessoas e contagiá-las

e alguém vai dizer que isso que eu tenho,
isso é doença
isso não é rebeldia, não é um dia bom,
isso é a química errada do meu cérebro
mas ai
ai
me deixa mudar a química do teu cérebro e te ensinar exatamente o que é estar feliz
porque é lindo
as cores
as pessoas
o cheiro da chuva
e o ruído da voz desse magrelo barulhento que eu amo tanto.

Eu quero aproveitar até a última gota desses 50%
porque eu não tenho a menor ideia
de que lado dos 100% eu vou estar amanhã.

Então corro na chuva, crio uma coreografia pra lua,
eu vou morrer de pneumonia,
mas tudo bem se a gente se casar agora,
se você me beijar só um pouquinho

porque eu não sei quem eu vou ser amanhã
mas o que importa é hoje.

Agora.

Vem?