Imagem: TingTing Huang
Domingo à noite, doente, perdida em uma nuvem de dor, ele liga e me convoca pra lutar.
Tomo pílulas e pílulas, antiinflamatórios, analgésicos, antitérmicos,
vou à luta.
Eu não tô OK.
Meus ouvidos escorrem, garganta dói, meus olhos coçam.
L. me põe remédio debaixo da língua e eu derreto, escorro pelas frestas do chão até passar o efeito.
Mas, quando ele passa,
eu não sou.
Não reconheço meu rosto ou a textura seca dos meus cabelos.
Eu não sou.
Digo isso a L. e ela me diz que tô doente, que não posso voltar pra casa.
Pego o carro e dirijo sem parar, sem dormir, compro sorvete e espero o sol nascer, sentada no carro num lugar qualquer, com medo de tudo o que existe no mundo, com medo de ir pra casa e não me sentir em casa, com medo de L., com medo de jalecos brancos, agulhas e ressonâncias. Com medo de canetas e
Minhas costas sangram e eu me obrigo a usar camisetas escuras de algodão, que roçam permanentemente nos machucados, fazendo com que me lembre que estão ali.
Paro na porta da sua casa antiga e te espero voltar, pergunto pra um homem na rua se ele te conhece, mesmo depois de tantos anos.
E ele diz que não.
Eu tô ficando louca.
Ou será que não?
Ou será que sim
Uma gata de pelos dourados fala comigo nas ruas e me conta todo o meu futuro, mas eu me esqueço assim que ela vai embora.
Eu me esqueço rápido.
Assim como me esqueci de que te amava na semana passada.
Porque agora odeio tudo
e todo mundo.
Odeio, odeio.
e não consigo explicar,
eu não consigo encostar a minha boca na sua
eu não consigo sentir dor
eu não consigo levantar de manhã
eu não consigo conseguir
Arranco meu olho direito e sangro, no canto mais escuro da minha mente.
Alguém fala comigo, muita gente fala comigo,
o tempo todo
e eu não quero falar.
E elas não me deixam não falar.
Por que é que as pessoas teimam em saber mais de mim do que eu?
"Você consegue ver isso aqui?", eu grito, enquanto enfio os dedos no buraco do olho e arranco de lá o que me faz ser assim tão errada. "VOCÊ CONSEGUE VER A PORRA DESSE NEGÓCIO? Você não sabe de porra nenhuma sobre mim, então não me venha com diagnósticos baratos e seus clichês estúpidos"
Mas eu não falo de verdade,
eu me calo no canto do carro.
Eu nunca mais
Não quero mais falar.
L. me pergunta o que há de errado comigo, bate no meu rosto com os dedos gelados, molhados, me diz que já é segunda à noite, que eu tenho aula pela manhã, enfia os dedos na minha goela, mas eu não tomei nada.
Eu não tomei nada, eu tô é toda fodida, bem aqui ó.
Eu não quero morrer, L.
Seguro as mãos dela, mas já não consigo
não quero mais falar.
Eu não quero morrer, L.
Eu quero que o tempo pare,
eu quero que as pessoas parem.
Mas já é segunda à noite,
e eu tenho aula pela manhã.
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33x15 Going Rogue
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garota solteira procura,
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Sia
31x01 Tanque cheio
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Meu coração tá batendo feito louco, minha cabeça tá batendo feito louca ao som de uma música que acabei de conhecer e define todos esses dias.
Eu tô
Nova.
Esgotada.
Diferente.
Tanta coisa que nem cabe aqui,
Em um estado de mania ou do que quer que seja, dane-se a nomenclatura, as regras.
Eu tô viva.
Sei que tô viva quando a minha raiva dele vem e passa, mudo de ideia, deito na cama e sonho com beijos e bizarrices, bolos verdes e casacos em cabides.
Eu grito pro mundo, falo alto, dou risada e perco quando não dá pra ganhar.
Eu xingo o mundo todo, durmo na aula, acordo afrontosa,
quero berrar que amo, amo amo amo amo amo amo
- Ama o quê?
- Isso.
Tenho tido esses sonhos estranhos, vívidos, confusos, nojentos, que me atraem sobremaneira. E acho que sei o porquê.
Eu amo. Claro, de forma doentia, ridícula, triste e podre. Mas é amor.
Eu estou transbordando.
Eu não tenho a quem amar, não estou apaixonada, não escrevo, não leio.
Então saio por aí jogando amor a torto e a direito, sonhando que beijo meus amigos, e dando amor, amor puro e simples que eu costumo guardar.
Só que já não cabe.
Me ponho a tremer no meio das aulas, dor de cabeça, náusea, uma preocupação excessiva com meus amigos, Berenice, Elspeth, Claire, Liz, Tess. deito na cama e fico pensando em maneiras de escoar fora. Não consigo. Não durmo. Cochilo, acordo às 4 da manhã, elétrica e danço uma ode ao meu corpo, abraço o travesseiro, toco o rosto das pessoas e abraço meu melhor amigo como se não o visse há séculos.
Todo o amor guardado, contido, escorre pelos dedos, jorra, me deixa doida, elétrica, falante.
Eu amo. Da maneira mais errada, destrutiva, agressiva e defensiva, escandalosa.
Eu quero amá-lo de novo, mas não é isso, não dá mais.
Eu quero amar e é maior do que uma pessoa só, maior do que esse meu corpo.
É maior do que uma simples conexão, o toque entre as mãos ou conversas no whatsapp. É maior do que as lembranças aleatórias que surgem na minha mente, do que essa sensação de estar perdida.
É forte, impreciso, e também é delicado. Complexo.
E eu não sei o que fazer com isso.
Eu não sei lidar com isso.
Parece algo vivo, dentro de mim, me dizendo o que fazer em um idioma que eu não compreendo.
Mas está aí, é inegável.
Mais dia, menos dia, eu descubro o que fazer com isso.
Não tenho pressa.
Meu coração tá batendo feito louco, minha cabeça tá batendo feito louca ao som de uma música que acabei de conhecer e define todos esses dias.
Eu tô
Nova.
Esgotada.
Diferente.
Tanta coisa que nem cabe aqui,
Em um estado de mania ou do que quer que seja, dane-se a nomenclatura, as regras.
Eu tô viva.
Sei que tô viva quando a minha raiva dele vem e passa, mudo de ideia, deito na cama e sonho com beijos e bizarrices, bolos verdes e casacos em cabides.
Eu grito pro mundo, falo alto, dou risada e perco quando não dá pra ganhar.
Eu xingo o mundo todo, durmo na aula, acordo afrontosa,
quero berrar que amo, amo amo amo amo amo amo
- Ama o quê?
- Isso.
Tenho tido esses sonhos estranhos, vívidos, confusos, nojentos, que me atraem sobremaneira. E acho que sei o porquê.
Eu amo. Claro, de forma doentia, ridícula, triste e podre. Mas é amor.
Eu estou transbordando.
Eu não tenho a quem amar, não estou apaixonada, não escrevo, não leio.
Então saio por aí jogando amor a torto e a direito, sonhando que beijo meus amigos, e dando amor, amor puro e simples que eu costumo guardar.
Só que já não cabe.
Me ponho a tremer no meio das aulas, dor de cabeça, náusea, uma preocupação excessiva com meus amigos, Berenice, Elspeth, Claire, Liz, Tess. deito na cama e fico pensando em maneiras de escoar fora. Não consigo. Não durmo. Cochilo, acordo às 4 da manhã, elétrica e danço uma ode ao meu corpo, abraço o travesseiro, toco o rosto das pessoas e abraço meu melhor amigo como se não o visse há séculos.
Todo o amor guardado, contido, escorre pelos dedos, jorra, me deixa doida, elétrica, falante.
Eu amo. Da maneira mais errada, destrutiva, agressiva e defensiva, escandalosa.
Eu quero amá-lo de novo, mas não é isso, não dá mais.
Eu quero amar e é maior do que uma pessoa só, maior do que esse meu corpo.
É maior do que uma simples conexão, o toque entre as mãos ou conversas no whatsapp. É maior do que as lembranças aleatórias que surgem na minha mente, do que essa sensação de estar perdida.
É forte, impreciso, e também é delicado. Complexo.
E eu não sei o que fazer com isso.
Eu não sei lidar com isso.
Parece algo vivo, dentro de mim, me dizendo o que fazer em um idioma que eu não compreendo.
Mas está aí, é inegável.
Mais dia, menos dia, eu descubro o que fazer com isso.
Não tenho pressa.
20x04 Felix Felicis
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
(Esse dia foi tão bom, tão bom que foi até ruim. Prepare-se)
Um frasco inteiro pra um dia perfeito:
Na hora do almoço, meio sem querer, parece que alguém derrama um pouco no seu suco.
Aí você sai de casa e descobre que ainda é cedo e que o sol deu uma trégua. Descobre que a professora malvada não veio e que o tutor substituto não liga muito se você fala ou não (aparentemente).
E o dia fica tão hilário e você consegue fazer com que alguém novo ria bem alto.
Gira nas cadeiras e brinca porque algo te diz que esse dia não pede esforço, pede pra acontecer, simplesmente.
A aula termina e você não sente vontade de ir embora, só fica e espera enquanto sua amiga termina de copiar, e vocês conversam sobre coisas e apagam quadros e você não sente pressa alguma.
Nas escadas, Aidan chama sua amiga - e você, em anexo - pra irem ao bar. Mas é claro que não vai - embora queira ir onde quer que ele vá - porque a Redhead não vai. Não é? Você pensa: "Eu tenho que ir com o L., cadê o L."
Não. Seu estômago, sua intuição te diz pra ir.
Não.
"Vai, sua boba", diz a Redhead.
Não.
É, ok. Você vai.
Enrolam no laboratório e você convence um amigo a ir porque você quer que todo mundo vá e você se sente bem, mesmo feia.
E você queria, ainda, ser um pouco mais bonita, mas nem tanto como de costume.
Porque você sabe que tem que ir, sabe o que fazer e como agir, mesmo sem saber com que finalidade.
As garotas estão bonitas, brilhantes, de uma maneira que você nunca esteve e nunca vai estar, mas, dessa vez, você não se importa.
Você ri e fala com elas como se fosse uma delas. Faz suas piadas, seu tipo. E parece simplesmente normal.
Vocês chegam ao bar e você só vê ele. Ele parece feliz e bêbado e você quer tanto que ele fale com você, olhe pra você, mas sabe que não vai acontecer e se pergunta logo o que é que te deu pra aparecer ali.
Você bebe e ri e ouve e fala e olha pra ele - obra da sorte, ele está sentado tão perto que você pode olhá-lo sem medo e ouvi-lo falar à vontade, sem esforço.
Os dentes dele, enormes, gigantics, te atraem feito luzes e mariposas, mas você se controla porque algo te diz que não é a hora.
Algo sussurra "divirta-se" e depois "fique" quando você está louca pra ir embora. Ficar te faz sentir bem e seu corpo recusa a ideia de ir.
Você continua bebendo e rindo e olhando pra ele quando pode e as horas passam e você tem tanta coisa pra fazer...
Um vento estranho balança a copa das árvores e alguém anuncia que vai chover.
E você começa a se arrepender de ter ido e tenta contornar as coisas pedindo carona a um amigo. Mas ele vai pro lado contrário.
"Não dou sorte", você diz.
E ele sugere: "Vai com o Aidan".
Seu coração cai e seu estômago afunda, mas você tira coragem sei lá de onde e grita - porque ele trocou de lugar: "Aidan, você pode me dar carona?"
Sim. Você flutua.
Na hora de ir, você descobre que não vão sozinhos e despenca um pouco só porque não ia rolar nada mesmo.
Aí você diz que precisa pegar sua mochila e ele diz "Pode ir, eu te espero" e você corre na chuva, insana, se sentindo uma Elizabeth Bennet indo ao encontro do Sr. Darcy.
Por um segundo, você treme de medo de que ele tenha ido sem você, mas seu coração dá um salto quando você o vê ali, à espera, ainda.
Vocês não se conhecem, falam do tempo, de música, enquanto o céu desaba lá fora e você não liga, silêncio ou diálogo, porque está com ele.
Porque estão tão próximos que você poderia só estender a mão e acariciar os cabelos dele. A possibilidade te anima e é o suficiente.
"Me deixa ali", você diz, porque quer correr na chuva e rir sozinha no meio da rua, mas ele não deixa.
Te deixa em casa, recomenda cuidado, se inclina pra um abraço-beijo que você nem esperava e você, num estalo "tome cuidado", porque isso diz muito.
Quer dizer "quero te ver amanhã, ouvi o que você disse, me preocupo com você". Então é suficiente, por agora.
Você o observa ir e corre para a chuva e dança e ri.
E entende, enfim, como seria fácil se viciar nessa tal de Felix Felicis.
(Esse dia foi tão bom, tão bom que foi até ruim. Prepare-se)
Um frasco inteiro pra um dia perfeito:
Na hora do almoço, meio sem querer, parece que alguém derrama um pouco no seu suco.
Aí você sai de casa e descobre que ainda é cedo e que o sol deu uma trégua. Descobre que a professora malvada não veio e que o tutor substituto não liga muito se você fala ou não (aparentemente).
E o dia fica tão hilário e você consegue fazer com que alguém novo ria bem alto.
Gira nas cadeiras e brinca porque algo te diz que esse dia não pede esforço, pede pra acontecer, simplesmente.
A aula termina e você não sente vontade de ir embora, só fica e espera enquanto sua amiga termina de copiar, e vocês conversam sobre coisas e apagam quadros e você não sente pressa alguma.
Nas escadas, Aidan chama sua amiga - e você, em anexo - pra irem ao bar. Mas é claro que não vai - embora queira ir onde quer que ele vá - porque a Redhead não vai. Não é? Você pensa: "Eu tenho que ir com o L., cadê o L."
Não. Seu estômago, sua intuição te diz pra ir.
Não.
"Vai, sua boba", diz a Redhead.
Não.
É, ok. Você vai.
Enrolam no laboratório e você convence um amigo a ir porque você quer que todo mundo vá e você se sente bem, mesmo feia.
E você queria, ainda, ser um pouco mais bonita, mas nem tanto como de costume.
Porque você sabe que tem que ir, sabe o que fazer e como agir, mesmo sem saber com que finalidade.
As garotas estão bonitas, brilhantes, de uma maneira que você nunca esteve e nunca vai estar, mas, dessa vez, você não se importa.
Você ri e fala com elas como se fosse uma delas. Faz suas piadas, seu tipo. E parece simplesmente normal.
Vocês chegam ao bar e você só vê ele. Ele parece feliz e bêbado e você quer tanto que ele fale com você, olhe pra você, mas sabe que não vai acontecer e se pergunta logo o que é que te deu pra aparecer ali.
Você bebe e ri e ouve e fala e olha pra ele - obra da sorte, ele está sentado tão perto que você pode olhá-lo sem medo e ouvi-lo falar à vontade, sem esforço.
Os dentes dele, enormes, gigantics, te atraem feito luzes e mariposas, mas você se controla porque algo te diz que não é a hora.
Algo sussurra "divirta-se" e depois "fique" quando você está louca pra ir embora. Ficar te faz sentir bem e seu corpo recusa a ideia de ir.
Você continua bebendo e rindo e olhando pra ele quando pode e as horas passam e você tem tanta coisa pra fazer...
Um vento estranho balança a copa das árvores e alguém anuncia que vai chover.
E você começa a se arrepender de ter ido e tenta contornar as coisas pedindo carona a um amigo. Mas ele vai pro lado contrário.
"Não dou sorte", você diz.
E ele sugere: "Vai com o Aidan".
Seu coração cai e seu estômago afunda, mas você tira coragem sei lá de onde e grita - porque ele trocou de lugar: "Aidan, você pode me dar carona?"
Sim. Você flutua.
Na hora de ir, você descobre que não vão sozinhos e despenca um pouco só porque não ia rolar nada mesmo.
Aí você diz que precisa pegar sua mochila e ele diz "Pode ir, eu te espero" e você corre na chuva, insana, se sentindo uma Elizabeth Bennet indo ao encontro do Sr. Darcy.
Por um segundo, você treme de medo de que ele tenha ido sem você, mas seu coração dá um salto quando você o vê ali, à espera, ainda.
Vocês não se conhecem, falam do tempo, de música, enquanto o céu desaba lá fora e você não liga, silêncio ou diálogo, porque está com ele.
Porque estão tão próximos que você poderia só estender a mão e acariciar os cabelos dele. A possibilidade te anima e é o suficiente.
"Me deixa ali", você diz, porque quer correr na chuva e rir sozinha no meio da rua, mas ele não deixa.
Te deixa em casa, recomenda cuidado, se inclina pra um abraço-beijo que você nem esperava e você, num estalo "tome cuidado", porque isso diz muito.
Quer dizer "quero te ver amanhã, ouvi o que você disse, me preocupo com você". Então é suficiente, por agora.
Você o observa ir e corre para a chuva e dança e ri.
E entende, enfim, como seria fácil se viciar nessa tal de Felix Felicis.
19x19 Moves (Season Finale)
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
(Olha só pra essa foto. É linda. Incrível. Perfeita.)
Passava das duas. Bêbada, entediada, faminta.
Ele sorriu e seus dentes eram tão grandes, tão grandes, tão grandes e afiados que
Ah, merda.
(Olha só pra essa foto. É linda. Incrível. Perfeita.)
Passava das duas. Bêbada, entediada, faminta.
Ele sorriu e seus dentes eram tão grandes, tão grandes, tão grandes e afiados que
Ah, merda.
16x20 Tomato Soup
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Autismo social beirando a misantropia. Só mais um rótulo.
Sacudida, cuspida, dopada, a chave do quarto firmemente amarrada no pulso.
Eu não gosto de gente.
Pessoas me irritam, outras pessoas.
Quando me tocam, falam comigo, sinto uma espécie de fúria se expandir dentro de mim, de um tipo que não sei se consigo controlar totalmente.
Só gosto de vê-los, observá-los.
Mas é difícil, se não se é invisível, olhar sem ser olhada. E isso me deixa doente. Fisicamente doente, dores de cabeça e diarréia.
Por isso é que resolvi trancar minha porta por 48 horas. Era só isso. Eu só achei que me faria sentir melhor - e fez.
Mas disseram que não é normal.
Nunca é.
Autismo social beirando a misantropia. Só mais um rótulo.
Sacudida, cuspida, dopada, a chave do quarto firmemente amarrada no pulso.
Eu não gosto de gente.
Pessoas me irritam, outras pessoas.
Quando me tocam, falam comigo, sinto uma espécie de fúria se expandir dentro de mim, de um tipo que não sei se consigo controlar totalmente.
Só gosto de vê-los, observá-los.
Mas é difícil, se não se é invisível, olhar sem ser olhada. E isso me deixa doente. Fisicamente doente, dores de cabeça e diarréia.
Por isso é que resolvi trancar minha porta por 48 horas. Era só isso. Eu só achei que me faria sentir melhor - e fez.
Mas disseram que não é normal.
Nunca é.
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MEGA DELAYED
15x08 Ginger Snaps
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Pensei que tivesse enlouquecido. Não seria a primeira vez, não seria nem a pior. Não chegaria nem perto da pior.
Cheguei a pensar que, talvez, Otto não existisse.
Eu o tive tantas vezes, de tantas maneiras, na minha mente, na ponta do lápis. Talvez eu o tivesse inventado.
Quase parei um senhor na rua pra perguntar se ele se lembrava de nos ter visto juntos, mas não consegui reunir coragem suficiente. Me apavorou que ele pudesse dizer que sempre me vira rindo sozinha.
Me sentia cada vez mais distante do nós como se estivesse esquecendo de um sonho. Fui perdendo as cores das suas camisetas, os movimentos dos seus joelhos e a sua gengiva. Perdi há muito as lembranças da sua boca e do seu nariz. Mas te sinto de cor.
Ainda tinha a sensação sombria de que você era imaginário, alguém que "entrevi" na rua e fantasiei de meu. Essa sensação me tirou do prumo, me rasgou aquela película de sanidade tão frágil; me olhei no espelho e me disse "tu és louca".
Eu quis ir pra casa, quis minha mãe, aconchego, ar. Se fiquei, foi por pura teimosia e porque achei que, se fosse, não voltaria mais.
Sentei numa cadeira, alheia ao mundo por horas, mergulhei na Física e na Geografia.
De repente, aquela vontade de ir embora, de me levantar e ir pra rua olhar o céu.
Corri, deixando pra trás folhas e canetas - alguém me chamou de volta -, como se soubesse que tinha que ir lá fora.
A rua fria, o céu escuro e eu parada no meio, sem saber pra onde ir. Olhei pros lados, buscando atravessar e ela olhou e ela olhou pra mim - ela lembra de mim?
Ginger.
(Se ela é real, Otto é real, porque eles eram um pacote só)
Não sorri, não a cumprimentei, não lhe perguntei sobre Otto.
Só respirei fundo e, por alguns instantes, senti meu vazio preenchido de ar.
(Quem é que pode dizer que sentiu tanto alívio ao ver a própria rival?)
Pensei que tivesse enlouquecido. Não seria a primeira vez, não seria nem a pior. Não chegaria nem perto da pior.
Cheguei a pensar que, talvez, Otto não existisse.
Eu o tive tantas vezes, de tantas maneiras, na minha mente, na ponta do lápis. Talvez eu o tivesse inventado.
Quase parei um senhor na rua pra perguntar se ele se lembrava de nos ter visto juntos, mas não consegui reunir coragem suficiente. Me apavorou que ele pudesse dizer que sempre me vira rindo sozinha.
Me sentia cada vez mais distante do nós como se estivesse esquecendo de um sonho. Fui perdendo as cores das suas camisetas, os movimentos dos seus joelhos e a sua gengiva. Perdi há muito as lembranças da sua boca e do seu nariz. Mas te sinto de cor.
Ainda tinha a sensação sombria de que você era imaginário, alguém que "entrevi" na rua e fantasiei de meu. Essa sensação me tirou do prumo, me rasgou aquela película de sanidade tão frágil; me olhei no espelho e me disse "tu és louca".
Eu quis ir pra casa, quis minha mãe, aconchego, ar. Se fiquei, foi por pura teimosia e porque achei que, se fosse, não voltaria mais.
Sentei numa cadeira, alheia ao mundo por horas, mergulhei na Física e na Geografia.
De repente, aquela vontade de ir embora, de me levantar e ir pra rua olhar o céu.
Corri, deixando pra trás folhas e canetas - alguém me chamou de volta -, como se soubesse que tinha que ir lá fora.
A rua fria, o céu escuro e eu parada no meio, sem saber pra onde ir. Olhei pros lados, buscando atravessar e ela olhou e ela olhou pra mim - ela lembra de mim?
Ginger.
(Se ela é real, Otto é real, porque eles eram um pacote só)
Não sorri, não a cumprimentei, não lhe perguntei sobre Otto.
Só respirei fundo e, por alguns instantes, senti meu vazio preenchido de ar.
(Quem é que pode dizer que sentiu tanto alívio ao ver a própria rival?)
13x01 Lucky blue
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TaÃs Toti
Achei uma moeda, peguei - não se recusa dinheiro achado.
No horóscopo, dia bom.
Uma peça de roupa velha, pra ajudar com Murphy.
Tênis da sorte nos pés, perfume da sorte.
Faço figa na rua, cumprimento pombos - por falta de pegas.
Me desvio de escadas e de rachaduras na calçada.
É hoje o dia, já posso me ver esbarrando com você ou você me pergunta algo ou diz logo que me ama - quem sabe?
Mas chego lá e você não está. Passo a manhã deprimida.
Resolvo não ir pra casa direto, vou no mercado - fila gigante -, na lan house - mas que rápida a internet hoje! Vou saindo, vejo uma caixinha bonita - não vou comprar, mas olho assim mesmo, me dá vontade. Demoro bem uns 15 minutos olhando, meu estômago ronca, tenho que ir.
Quando piso na porta, enxergo, lá do outro lado da rua uma camiseta azul - sempre chama a minha atenção -, uns braços e uns cabelos inconfundíveis.
Caio na risada. Rio do dia completamente atípico, da caixa do supermercado, do Google chrome, do meu primo, de Berenice, tudo o que me atrasou o suficiente pra que eu te visse.
Saio correndo, atravessando a rua e vou pra casa, sem passar por ele. Deixe estar a sorte, deixe estar o destino. Não vou abusar. Hoje.
Achei uma moeda, peguei - não se recusa dinheiro achado.
No horóscopo, dia bom.
Uma peça de roupa velha, pra ajudar com Murphy.
Tênis da sorte nos pés, perfume da sorte.
Faço figa na rua, cumprimento pombos - por falta de pegas.
Me desvio de escadas e de rachaduras na calçada.
É hoje o dia, já posso me ver esbarrando com você ou você me pergunta algo ou diz logo que me ama - quem sabe?
Mas chego lá e você não está. Passo a manhã deprimida.
Resolvo não ir pra casa direto, vou no mercado - fila gigante -, na lan house - mas que rápida a internet hoje! Vou saindo, vejo uma caixinha bonita - não vou comprar, mas olho assim mesmo, me dá vontade. Demoro bem uns 15 minutos olhando, meu estômago ronca, tenho que ir.
Quando piso na porta, enxergo, lá do outro lado da rua uma camiseta azul - sempre chama a minha atenção -, uns braços e uns cabelos inconfundíveis.
Caio na risada. Rio do dia completamente atípico, da caixa do supermercado, do Google chrome, do meu primo, de Berenice, tudo o que me atrasou o suficiente pra que eu te visse.
Saio correndo, atravessando a rua e vou pra casa, sem passar por ele. Deixe estar a sorte, deixe estar o destino. Não vou abusar. Hoje.
12x17 Cruel mistress
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garota solteira procura,
Imagem: Pink Ponk
Aviso: Aconteceram muitas coisas nessa época, algumas das quais nem sequer consigo me lembrar. Apenas as consequências desses eventos foram registradas nesse e nos posts seguintes.
Pedi permissão pra ir embora, mera formalidade.
Ela disse "Pode ir, mas deixe tudo o que eu te dei".
Deixo livros amados, lembranças rasas, cadáveres. "Já vou indo", aviso.
Ela sorri, os cabelos em chama, olhos brilhando: "Deixe tudo". Tudo. A voz dela transborda excitação.
Demoro a compreender, mas nem tanto: "Otto?"
Ela arreganha os dentes e os olhos ficam negros e lustrosos: "E Annabel, e Ulrika, e Gideon, Eddie..."
Fraquejo internamente, não quero deixar tanto pra trás. Mas ela não tem que saber disso.
"Muito bem", digo.
Ela batuca a mesa com suas unhas de granito, sem demonstrar emoção alguma.
"Muito bem. Pode ir quando desejar".
Quem me dera fosse simples assim.
Aviso: Aconteceram muitas coisas nessa época, algumas das quais nem sequer consigo me lembrar. Apenas as consequências desses eventos foram registradas nesse e nos posts seguintes.
Pedi permissão pra ir embora, mera formalidade.
Ela disse "Pode ir, mas deixe tudo o que eu te dei".
Deixo livros amados, lembranças rasas, cadáveres. "Já vou indo", aviso.
Ela sorri, os cabelos em chama, olhos brilhando: "Deixe tudo". Tudo. A voz dela transborda excitação.
Demoro a compreender, mas nem tanto: "Otto?"
Ela arreganha os dentes e os olhos ficam negros e lustrosos: "E Annabel, e Ulrika, e Gideon, Eddie..."
Fraquejo internamente, não quero deixar tanto pra trás. Mas ela não tem que saber disso.
"Muito bem", digo.
Ela batuca a mesa com suas unhas de granito, sem demonstrar emoção alguma.
"Muito bem. Pode ir quando desejar".
Quem me dera fosse simples assim.
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HIPER DELAYED,
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Kelly Clarkson,
Practices,
them all,
vórtice
3x02 Body's passenger seat.
Postado por
garota solteira procura,
Gritos ensurdecedores e uma risada histérica, essa saía da minha boca. Minha blusa molhada de suor e apreensão, meus pés freiando e meu corpo indo atrás dele. Eu estava sentada no banco de passageiro do meu corpo. Ele é quem me dirigia.
You know that I was hopin'
That I could leave this dark crossroad behind
Para o mesmo maldito lugar do outro dia. Mas a culpa não era do lugar, era eu quem não sentia nada.
"Eu não posso fazer isso"
Ele me beijou e eu esqueci o que não podia fazer.
When they cut me open
I guess I changed my mind
"Eu tenho que sentir, ei, vamos lá! Toque em mim, me faça me sentir real"
Mas não era real, porque dessa vez era ele quem não estava ali, eu toquei os cabelos dele, sentindo a textura de outros cabelos, torcendo pra que fossem os outros cabelos.
And you know I might
Have just flown too far from the floor this time
'Cause they're calling me by my name
Ele parou "não pare", e eu abri os olhos, devagar. E não era ele.
That was one lonely night
Me abraçou educadamente "little lover so polite" e eu quis desesperadamente amar ele e só ele naquele momento. Não sou aquela que se apaixona fácil?
The star maker says it ain't so bad
Me diga que eu tentei, me diga que eu tentei esquecer que, em algum lugar existia alguém que não me amava, ao invés de enxergar o quão patética eu sou.
It's all in your mind"
Mas ele só olhou pra mim e penteou os cabelos com os dedos, e eu poderia amá-lo por isso. Eu poderia.
"Você quer ir? Porque eu poderia ficar aqui a noite toda..."
So hesitation to this life I give
Eu queria ir, mas eu não fui.
Ele me daria a ilusão que eu queria, eu lhe daria a sensação que ele queria. Se todo mundo sai ganhando, não é ruim, é?
And you know I'm fine
But I hear those voices at night
Sometimes that justify my claim
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