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15x07 Breaking down

Imagem: TingTing Huang
Faz tanto tempo desde que nos vimos, séculos.
Eu já vivo uma outra vida, uma que não tem lugar pro seu nome, pros seus fios de cabelo, pros seus olhos.
É uma vida que tem espaço sobrando. Uma cadeira vazia, uma gaveta vazia.
Os horários são meus, os dias, as horas. Não tem nada de seu aqui.
Os tremores são meus, os suspiros são meus.
As músicas são minhas.
Meus sons, meus livros, minhas letras.
As estrelas são minhas, agora. A calçada é minha, o supermercado é meu.
A água que cai do chuveiro é minha, e também os azulejos. Os ônibus, as almofadas.
Os palíndromos, a cor lilás.
Agarro tudo isso de encontro ao meu peito. Feito criança, grito: "MEU"
É tudo meu.
Na nossa divisão de bens lhe coube pouco: o ar que respiro e o seu próprio corpo.
Mesmo assim, volta, quero trocar.

14x09 Uma verdade inconveniente

Imagem: TingTing Huang

- Quanto tempo - diz a Gypsie, a guisa de oi.
Não digo nada, aflita, Helen, num conto que escrevi.
Limpo os pés no carpete encardido, entro.
O velho cheiro de incenso e chá me invade as narinas (He'll hit you, get you), já estou em casa.
Formalidades a parte, nos sentamos na mesa bamba e as cartas são embaralhadas, cortadas, viradas.
Eu quero vê-lo.
Quero desesperadamente me certificar da existência dele. Mas, se não posso, pergunto às cartas.
Elas me dizem que ele vai mal (não entrarei em detalhes).
A vontade de vê-lo me rasga em 3. Seguro o pulso dela "De novo".
A Gypsie nota meu desespero. Embaralho de novo, ela abre.
- Hm, você tem um problema, meu bem. O seu ponto fraco, nesse caso, é que você quer muito, você espera de mais de algo muito frágil. Mas você tem um ponto forte: sua impulsividade.
(Sorrio. Nunca fui impulsiva, mas, quando se trata de Otto, cometo os erros mais estúpidos)
- Olhe, querida, você diz que tem algo que te incomoda, mas essa carta mostra você agora e ela fala de paz, de busca pela felicidade, alívio. Eu não sei o que você procura, mas as cartas dizem que as coisas já estão no caminho certo.
-Sim, continue, peço, por favor.
Bem, a solução é - ela faz sua pausa - É o que eu disse: a solução é mudar, concluir isso. Evoluir.
De certa forma, era o que eu esperava. Meus olhos começam a arder - tem acontecido muito. Me levanto depressa, como normalmente faço.
- Tem mais uma.
- O quê? - pergunto
- Tem mais uma. É um conselho.
Eu estou pronta pra ir embora, mas me agarro a esse conselho como se fosse a única coisa que pode me ajudar, o sinal pelo qual tenho esperado.
- Revele a verdade. Mesmo que vá causar algum dano.
Por um instante, não entendo o que ela quer dizer. Tem tantas áreas da minha vida cheias de mentiras que...
Ah. A verdade.
- Obrigada.

Saio em direção de mais uma dessas manhãs enlouquecedoramente iluminadas.
A verdade. A verdade vai acabar com tudo. Mesmo que cause algum dano.
Considerando os tipos de danos que isso pode causar, prefiro nunca mais vê-lo.
Talvez seja mesmo melhor eu amá-lo pra sempre.

14x06 Dos pés as pontas

Imagem: TingTing Huang

Fico na ponta dos pés, danço de olhos fechados o som da chuva tocando no telhado.
Os braços levantados, pause na minha própria musicalidade, o que quero é dançar a música lá fora.
Porque é uma dança pra mim, de mim, é um espetáculo meu, que ninguém compreenderia.
É uma ode ao movimento, aos sentidos.
Eu toco, cheiro, ouço, provo, vejo pra dentro as minhas pernas limpas de cicatrizes, a liberdade na lisura delas.
Meu coração bate tresloucado.
Eu sou uma fera, presa num apartamento minúsculo, um leopardo.
Sou um puma, uma libélula. A dança me liberta de uma forma exclusiva, de um recipiente. Nada líquido, nunca.
Eu me torno gás, eu sublimo e ressublimo.
Danço sem parar a música infinita do mundo, sinto o som do gelo se partindo, do fundo do mar, dos peixes voadores, das sebes crescendo, da digestão, das contrações do útero.
A vida pulsa, grandiosa, grita, como no quadro de Munch. Apodrece e renasce, enquanto danço, de dentro pra fora e morro um pouco no final, após caminhar por todas as vidas possíveis.
Então me torno eu de novo, cansada, mas viva.

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