Imagem: TingTing Huang
- Eu quero morrer. Eu só quero morrer - ela diz.
Conta uma história de ninar sobre viagens, idiomas, pais, filhos e o colchão.
Eu sei.
É a mesma história, de novo e de novo.
Eu quero morrer, mas nunca "me deixe morrer", por quê?
Por que você acha que tem escolha?
Nada aqui é real. Nada é seu. Nem mesmo você, sua vida, sua mente.
Nem as cores das cores ou o rosto das pessoas, seus olhos.
Ela caminha sobre a borda, quase cai, espero,
feito uma predadora.
"Venha"
E ele diz que me sente tocá-lo durante a noite, sente meu hálito queimar seu rosto e ouve a minha voz, minhas vozes.
Mas por que ele não vem?
Você não sabe quem sou?
Eu acordei ao seu lado e te dei o primeiro beijo do dia.
Fizemos amor, e você saiu pelas ruas, nu, gritando meu nome.
Eu decido se você pode ou não ser feliz.
E você está, não está?
Você é o dono do mundo. E eu sou sua dona.
Seus olhos pertencem a mim. E você sabe. Sempre soube. Antes mesmo de saber.
Eu estava lá quando você nasceu. Você não se lembra, mas eu te fiz dormir. Eu te fiz sonhar e sonhar até que você não soubesse mais acordar.
Eu te dei sede,
e a cura pra toda a dor.
Eu te dei amor e o calor necessário pra que você nunca mais queira ir embora.
Eu estou aqui.
Te dizendo que eles querem te ferir.
Eles querem te machucar,
mas eu não.
Tire suas roupas.
Corra, nu.
Livre.
Venha, venha comigo.
Você não é nada.
Você nunca será nada.
Você é lixo.
Doente, nojenta.
Você não serve pra nada.
Eu digo,
e te causo dor,
eu consigo sentir sua dor,
apertando,
roendo,
mas é o que eu faço.
Eu sinto muito, é o que eu faço.
Não tome seus remédios.
Você não precisa deles hoje.
Você está bem.
Você está curado.
Então eu escorro pela língua dela feito melado,
e ela se derrete,
está segura.
Todos estão seguros.
Você está segura.
A salvo do mundo
e das coisas ruins que ele pode fazer com você,
mas tem um preço,
pequeno,
você pode pagar,
é tão pequeno,
vá até o banheiro,
pegue gilete.
Eu não consigo dormir sem a minha mãe.
Existem monstros no escuro,
eu sou um monstro no escuro,
ela é.
Se eu acordar de manhã,
só não quero estar só.
Não pare de gritar,
ou elas vão te encontrar,
vão te encontrar onde quer que você esteja
e vão te fazer mal,
fuja
fuja
fuja
"me deixa ir embora
me deixa ir embora
me deixa ir embora, doutora
eu ja to bem. ", ela diz, enquanto eu acaricio seus cabelos brancos, com cheiro de suor , chuva e sabão e sussurro em seu ouvido cantigas de amor.
A médica levanta a cabeça, olha fundo nos olhos dela e diz
"Ainda não", e desvia o olhar
pra olhar pra mim.
Ela pode me ver.
Corre, prescreve pílulas e mais pílulas, tantas
pra que eu durma um pouco mais.
Mas aí ela vai pra casa, dirigindo,
fugindo de velhos fantasmas e medos absurdos de crianças,
e, quando chega,
eu estou lá esperando por ela,
feito uma predadora.
Mostrando postagens com marcador Mumford & sons. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mumford & sons. Mostrar todas as postagens
39x09 A moça
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Mas e se eu te amar? E se eu quiser continuar, e se eu quiser nunca dizer adeus?
Sinto aquela coisa ruim, aquela aflição doida, mas Otto segura a minha mão e eu não digo nada quando você se levanta e sai do café, colocando as mãos sobre a cabeça pra se proteger da chuva torrencial.
Espero você voltar correndo pro calor do café, pro gosto amargo, o cheiro de gordura e fumaça de cigarro. Mas você não volta e eu olho para Otto, que sacode a cabeça devagar.
Não, não não, não não não não, eu não sei o que fazer, eu não sei o que acontece agora, eu preciso sair daqui. Ele tenta me acalmar, mas eu não quero dormir, eu quero ficar acordada, eu quero amar de novo, eu quero amar agora, eu quero nunca mais fechar meus olhos, eu quero
Ele me segura e eu arranho seu rosto, eu tento morder seus braços e me desvencilhar do seu abraço firme, eu quero entender o que tá acontecendo comigo, mas eu não consigo parar de gritar, de espernear e de lutar
Alguém tenta ajudar, talvez Jack ou Berenice, mas eu não consigo me controlar, eu esperneio, eu dou uma cabeçada em alguém, alguém arranha meus braços, puxa meu cabelo, tenta me derrubar e eu tropeço e fico de quatro, engatinhando desesperadamente, e chutando pessoas às cegas, ouvindo ais e uis, sem nunca parar, enquanto me puxam as pernas e tentam rasgar minhas roupas.
Eu tento me levantar, mas alguém se joga em cima de mim, agarra minha cintura, arranha meu rosto inteiro e eu golpeio o ar sem conseguir enxergar, eu me sacudo inteira, até perceber que é com McCandless que estou lidando. Agarro os cabelos dele e puxo, puxo, até arrancar parte dos fios, e ele uiva, xinga e me larga, pra que eu possa continuar me arrastando.
Eu me arrasto até a porta e me levanto, ofegante, vitoriosa. Quase lá, eu agarro a maçaneta, abro a porta e quase meto a cabeça no rosto desse cara que acabou de chegar.
Acontece, a gente se olha nos olhos e eu não sinto absolutamente nada.
Ele olha meu cabelo bagunçado, minhas roupas rasgadas, rosto arranhado e emite um som curto e baixo de desaprovação.
- Com licença, ele diz, preparando-se para entrar.
Mas eu não saio da frente.
- Já estamos fechando, digo.
- Ah. Que pena.
Ele dá meia volta, indo na direção da chuva e vai se afastando devagar.
- Ei. - grito, e ele se volta pra olhar - Eu conheço um lugar. Fica perto daqui.
Ele me olha, intrigado, como se estivesse se certificando de que foi com ele que falei e, depois do que parece uma eternidade, acena com a cabeça.
Eu não sei o que isso quer dizer, só sei que é assim que acontece.
Deseje-me sorte.
Acho que vou precisar.
- Mas e se eu te amar? E se eu quiser continuar, e se eu quiser nunca dizer adeus?
Sinto aquela coisa ruim, aquela aflição doida, mas Otto segura a minha mão e eu não digo nada quando você se levanta e sai do café, colocando as mãos sobre a cabeça pra se proteger da chuva torrencial.
Espero você voltar correndo pro calor do café, pro gosto amargo, o cheiro de gordura e fumaça de cigarro. Mas você não volta e eu olho para Otto, que sacode a cabeça devagar.
Não, não não, não não não não, eu não sei o que fazer, eu não sei o que acontece agora, eu preciso sair daqui. Ele tenta me acalmar, mas eu não quero dormir, eu quero ficar acordada, eu quero amar de novo, eu quero amar agora, eu quero nunca mais fechar meus olhos, eu quero
Ele me segura e eu arranho seu rosto, eu tento morder seus braços e me desvencilhar do seu abraço firme, eu quero entender o que tá acontecendo comigo, mas eu não consigo parar de gritar, de espernear e de lutar
Alguém tenta ajudar, talvez Jack ou Berenice, mas eu não consigo me controlar, eu esperneio, eu dou uma cabeçada em alguém, alguém arranha meus braços, puxa meu cabelo, tenta me derrubar e eu tropeço e fico de quatro, engatinhando desesperadamente, e chutando pessoas às cegas, ouvindo ais e uis, sem nunca parar, enquanto me puxam as pernas e tentam rasgar minhas roupas.
Eu tento me levantar, mas alguém se joga em cima de mim, agarra minha cintura, arranha meu rosto inteiro e eu golpeio o ar sem conseguir enxergar, eu me sacudo inteira, até perceber que é com McCandless que estou lidando. Agarro os cabelos dele e puxo, puxo, até arrancar parte dos fios, e ele uiva, xinga e me larga, pra que eu possa continuar me arrastando.
Eu me arrasto até a porta e me levanto, ofegante, vitoriosa. Quase lá, eu agarro a maçaneta, abro a porta e quase meto a cabeça no rosto desse cara que acabou de chegar.
Acontece, a gente se olha nos olhos e eu não sinto absolutamente nada.
Ele olha meu cabelo bagunçado, minhas roupas rasgadas, rosto arranhado e emite um som curto e baixo de desaprovação.
- Com licença, ele diz, preparando-se para entrar.
Mas eu não saio da frente.
- Já estamos fechando, digo.
- Ah. Que pena.
Ele dá meia volta, indo na direção da chuva e vai se afastando devagar.
- Ei. - grito, e ele se volta pra olhar - Eu conheço um lugar. Fica perto daqui.
Ele me olha, intrigado, como se estivesse se certificando de que foi com ele que falei e, depois do que parece uma eternidade, acena com a cabeça.
Eu não sei o que isso quer dizer, só sei que é assim que acontece.
Deseje-me sorte.
Acho que vou precisar.
38x11 Solo
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Não dá.
Eu tento, levanto da cama, escolho uma roupa. Não dá, não dá.
Eu não quero ver ninguém.
Quero ficar sozinha no apartamento vazio, quero todo esse ar só pra mim e, ainda assim, não é o bastante. Nunca tem ar suficiente.
Eu grito pras pessoas se afastarem, chegarem pra trás, mas elas não chegam e o ar não é suficiente.
Alguém me pede algo, e eu dou. E de novo, e de novo. Mas eu não tenho mais nada pra oferecer.
Eu não tenho nada pra oferecer. Digo isso, repetindo as exatas palavras que você me disse em janeiro, e sinto nojo de mim mesma. Não por tua causa, mas porque eu me deixei adoecer. Eu, logo eu, a mulher mais forte de todo o universo. Todos os socos na cara que você me deu, as suturas que eu mesma fiz sentada no chão do banheiro de madrugada, quando ninguém podia ver e, mesmo assim
você levou a melhor.
Porque eu não tenho nada pra oferecer.
Mas eles não acreditam em mim, ninguém me escuta, presta atenção, prestem atenção
Eles não me escutam.
Elas não me escutam.
Eu não posso, hoje não.
Mas ele precisa de uma amiga, ela precisa de alguém responsável, alguém precisa de mãe, de tempo, de um documento, roupa limpa, espaço, consolo, companhia, conselhos, amor.
Não, não.
Não pode ser outra pessoa?
Tanta gente no mundo com tanto pra oferecer e você bate à minha porta no meio da noite
mas eu não tenho nada pra oferecer.
E eu tento, eu juro que tento.
Eu pego a sua mão, eu digo o que você quer ouvir, eu digo o que você quer saber, eu cumpro o meu papel, eu abro a porta, eu lavo a louça, tomo um banho, eu finjo que tá tudo bem, eu sigo o protocolo dos últimos 15 anos, mas você quer mais.
Você quer mais.
E eu não tenho mais.
Você quer o meu bem, me quer saudável, limpa, sóbria, quer beijar a minha boca, dormir de conchinha, quer que eu ouça, quer que eu seja alguém, quer que eu tenha tempo, quer que eu tenha amor pra dar e eu não
eu não posso.
Eu não posso.
Então eu ajo impulsivamente, te chamo pra sair e
me falta o ar
dou pra trás
invento desculpas
e eu sei que tô te afastando, que tô te magoando de novo
Mas eu não tenho nada pra oferecer
Presta atenção
Me escuta
Eu não tenho nada pra oferecer
Seguro a sua cabeça entre as minhas mãos e tento gritar
Mas não consigo respirar
E eu sei que você entenderia se eu te explicasse
Eu sei que você daria o seu melhor
e tentaria me curar
e tentaria cuidar de mim
Mas eu não quero melhorar,
eu não quero a tua ajuda
eu quero espaço
eu quero ar
quero quebrar minhas costelas e deixar que meus pulmões se expandam até que eles explodam
Isso é tudo o que eu quero.
Eu tento te explicar, eu tento te contar
mas você não me escuta
ninguém me escuta,
eles continuam esperando, me tocando, me chamando,
me ligando
Você não entende,
ninguém entende.
Então eu me sento, abraço meus joelhos e tento respirar.
Mas não consigo.
Não com todos vocês em volta.
E eu sei que preciso fazer alguma coisa.
Mas eu
eu não tenho nada a oferecer.
nem mesmo pra mim
Não dá.
Eu tento, levanto da cama, escolho uma roupa. Não dá, não dá.
Eu não quero ver ninguém.
Quero ficar sozinha no apartamento vazio, quero todo esse ar só pra mim e, ainda assim, não é o bastante. Nunca tem ar suficiente.
Eu grito pras pessoas se afastarem, chegarem pra trás, mas elas não chegam e o ar não é suficiente.
Alguém me pede algo, e eu dou. E de novo, e de novo. Mas eu não tenho mais nada pra oferecer.
Eu não tenho nada pra oferecer. Digo isso, repetindo as exatas palavras que você me disse em janeiro, e sinto nojo de mim mesma. Não por tua causa, mas porque eu me deixei adoecer. Eu, logo eu, a mulher mais forte de todo o universo. Todos os socos na cara que você me deu, as suturas que eu mesma fiz sentada no chão do banheiro de madrugada, quando ninguém podia ver e, mesmo assim
você levou a melhor.
Porque eu não tenho nada pra oferecer.
Mas eles não acreditam em mim, ninguém me escuta, presta atenção, prestem atenção
Eles não me escutam.
Elas não me escutam.
Eu não posso, hoje não.
Mas ele precisa de uma amiga, ela precisa de alguém responsável, alguém precisa de mãe, de tempo, de um documento, roupa limpa, espaço, consolo, companhia, conselhos, amor.
Não, não.
Não pode ser outra pessoa?
Tanta gente no mundo com tanto pra oferecer e você bate à minha porta no meio da noite
mas eu não tenho nada pra oferecer.
E eu tento, eu juro que tento.
Eu pego a sua mão, eu digo o que você quer ouvir, eu digo o que você quer saber, eu cumpro o meu papel, eu abro a porta, eu lavo a louça, tomo um banho, eu finjo que tá tudo bem, eu sigo o protocolo dos últimos 15 anos, mas você quer mais.
Você quer mais.
E eu não tenho mais.
Você quer o meu bem, me quer saudável, limpa, sóbria, quer beijar a minha boca, dormir de conchinha, quer que eu ouça, quer que eu seja alguém, quer que eu tenha tempo, quer que eu tenha amor pra dar e eu não
eu não posso.
Eu não posso.
Então eu ajo impulsivamente, te chamo pra sair e
me falta o ar
dou pra trás
invento desculpas
e eu sei que tô te afastando, que tô te magoando de novo
Mas eu não tenho nada pra oferecer
Presta atenção
Me escuta
Eu não tenho nada pra oferecer
Seguro a sua cabeça entre as minhas mãos e tento gritar
Mas não consigo respirar
E eu sei que você entenderia se eu te explicasse
Eu sei que você daria o seu melhor
e tentaria me curar
e tentaria cuidar de mim
Mas eu não quero melhorar,
eu não quero a tua ajuda
eu quero espaço
eu quero ar
quero quebrar minhas costelas e deixar que meus pulmões se expandam até que eles explodam
Isso é tudo o que eu quero.
Eu tento te explicar, eu tento te contar
mas você não me escuta
ninguém me escuta,
eles continuam esperando, me tocando, me chamando,
me ligando
Você não entende,
ninguém entende.
Então eu me sento, abraço meus joelhos e tento respirar.
Mas não consigo.
Não com todos vocês em volta.
E eu sei que preciso fazer alguma coisa.
Mas eu
eu não tenho nada a oferecer.
nem mesmo pra mim
37x20 Trick or treat
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Diga. Diga de novo.
Tô sentada chorando no meio desse quarto escuro, e o barulho me irrita, pela primeira vez. O ruído da tesoura, implacável, cortando o tecido, me enlouquece.
Eu não deveria ter vindo.
Porque existem coisas que não estou pronta pra saber.
- Não era isso o que você queria? - pergunta a donzela, me observando com seu único olho.
- Eu não sei.
E não é mentira.
Eu não sei.
- Diga de novo, por favor.
E ela diz.
Ela me conta sobre um homem atraente, fútil, me fala sobre ilusões. Diz que ele é alegre, passa essa impressão de sorte e realização, mas que age com desamor e de forma desorientada. Nada de novo. Eu pergunto a ela sobre seus sentimentos e ela me diz que são efêmeros, desejo, alegria, prazer. E eu me preparo para a bordoada a que estou acostumada, tô esperando que ela me diga que não, mas ela diz, repete
que vamos ser felizes.
- Você tá me zoando.
Se ela tivesse arrancado meu coração do peito a dentadas, eu sentiria menos dor.
- Eu odeio vocês. Vocês estão brincando comigo, eu não sou um brinquedo. Vocês estão me machucando.
Todas se voltam na minha direção, mas é a Donzela quem responde
- Você faz as escolhas, B. Você escolheu vir aqui, você escolheu passar por isso e, pelo que vejo, vai fazer muitas escolhas parecidas. Mas são escolhas. Existem outras opções. Lembre-se disso.
Eu não quero me machucar.
Tô olhando pra elas sem saber como explicar, como dizer, como fugir, como
- Seja leal, honesta. Cumpra com sua palavra. Você não vai se machucar, se fizer isso.
Eu quero fazer perguntas, eu quero entender quando é que isso aconteceu, o que foi que mudou, o que vai mudar, mas tô muito enjoada pra abrir a boca.
Além disso,
não tô pronta ainda pra saber o que mais acontece no próximo episódio.
Acho que odeio spoilers.
- Diga. Diga de novo.
Tô sentada chorando no meio desse quarto escuro, e o barulho me irrita, pela primeira vez. O ruído da tesoura, implacável, cortando o tecido, me enlouquece.
Eu não deveria ter vindo.
Porque existem coisas que não estou pronta pra saber.
- Não era isso o que você queria? - pergunta a donzela, me observando com seu único olho.
- Eu não sei.
E não é mentira.
Eu não sei.
- Diga de novo, por favor.
E ela diz.
Ela me conta sobre um homem atraente, fútil, me fala sobre ilusões. Diz que ele é alegre, passa essa impressão de sorte e realização, mas que age com desamor e de forma desorientada. Nada de novo. Eu pergunto a ela sobre seus sentimentos e ela me diz que são efêmeros, desejo, alegria, prazer. E eu me preparo para a bordoada a que estou acostumada, tô esperando que ela me diga que não, mas ela diz, repete
que vamos ser felizes.
- Você tá me zoando.
Se ela tivesse arrancado meu coração do peito a dentadas, eu sentiria menos dor.
- Eu odeio vocês. Vocês estão brincando comigo, eu não sou um brinquedo. Vocês estão me machucando.
Todas se voltam na minha direção, mas é a Donzela quem responde
- Você faz as escolhas, B. Você escolheu vir aqui, você escolheu passar por isso e, pelo que vejo, vai fazer muitas escolhas parecidas. Mas são escolhas. Existem outras opções. Lembre-se disso.
Eu não quero me machucar.
Tô olhando pra elas sem saber como explicar, como dizer, como fugir, como
- Seja leal, honesta. Cumpra com sua palavra. Você não vai se machucar, se fizer isso.
Eu quero fazer perguntas, eu quero entender quando é que isso aconteceu, o que foi que mudou, o que vai mudar, mas tô muito enjoada pra abrir a boca.
Além disso,
não tô pronta ainda pra saber o que mais acontece no próximo episódio.
Acho que odeio spoilers.
Marcadores:
Anathema,
Cover,
Future Sounds,
KD SPOILERS,
Mumford & sons,
them,
vontade
30x08 Gênesis, parte 1
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
O mundo começou nos cabelos da Bessie.
Tranças longas, escuras, e a voz dela me enlaçou como se eu fosse um bebê, uma criança assustada, fugindo do mundo, da dor, de você.
Ela me abraçou forte, e me comunicou que eu chegaria viva no final dessa estação também. Ela disse que eu iria sobreviver à tempestade.
Feito mágica, eu soube, eu soube,
que eu iria conseguir.
Então ela desapareceu, e eu tive medo, medo de voltar, medo de só conseguir ser forte ali.
Halsey.
Entrou no palco, dona de si e do mundo e me gritou bem alto que não é errado ser como sou, levante-se, levante-se e seja o que você tiver que ser.
Ela gritou, e eu gritei de volta, até ter certeza de que era verdade.
De que não era errado ser assim.
Aí fui embora, encarar meus medos, todo aquele amor que eu senti um dia, toda essa dor, todas as mentiras contadas antes de dormir.
Fiquei de pé, esperando o Mumford, coração saindo pela boca, rezando pra conseguir sobreviver à Babel, pra que não doesse, sentindo os joelhos tremerem, a vontade de ficar de joelhos.
E aí eles entram,
e eu ouço os acordes da nossa música
E espero a dor jorrar.
Mas ela não vem.
É só uma música. É só mais amor perdido, transformado em qualquer coisa.
E eu fui ganhando força, minha voz gritando mais alto do que qualquer outra, eu quis gritar pra que você ouvisse, pra que você ouvisse a força da minha voz, da última vez que eu canto pra você, pra nós, minha voz se transformando em garoa e vento, em amor, em fé.
E quando chegou naquele pedaço, naquele nosso pedaço, escrito na sua letra há milhões de eras, fechado no fundo da minha estante de livros por um laço preto, com um nó quase cego,
eu gritei.
Eu gritei
Eu gritei
E não foi pra você.
Bem na metade, eu percebi
Que eu estava gritando, que eu estava gritando tão alto como nunca gritei antes
Porque você não cumpriu essa promessa.
Você não fez o que disse que ia fazer.
E não é culpa sua.
Mas eu vou fazer.
Por mim ou por alguém, um dia.
Eu vou fazer o que você não conseguiu.
Eu vou derrubar paredes, e eu não vou desistir, não vou me cansar.
Então eu gritei.
I'll play my bloody part,
to tear, tear them down.
E eu não menti. Como sei que você não mentiu.
Mas é preciso mais que vontade, mais que amor.
Agora eu sei disso.
Saímos, multidão e calor.
Marina.
Quando ela finalmente surgiu, vestida de rosa, eu soube que eu nunca mais seria a mesma.
Porque eu queria ser daquele jeito.
Eu queria ser a Marina quando eu crescesse.
Eu queria usar o cabelo que eu quisesse, a roupa que eu quisesse, queria falar sobre o que eu quisesse.
Eu queria ser forte, e brilhante, e rosa, e me mover feito uma bailarina desajeitada.
Eu queria ser quem eu quisesse ser.
E quando ela cantou as músicas, as minhas músicas de ir ver o Otto, todos os dias, de ir embora pensando em nós dois. Quando ela cantou a própria evolução, eu senti que era hora de evoluir também.
De ser quem eu quiser ser.
De me vestir como eu quiser.
De agir como eu achar que devo e aceitar as consequências.
De não parar mais.
Fui embora com o coração batendo forte, alto, sem saber o que dizer, sem saber como explicar a insanidade, a certeza, a sensação de outra forma que não fosse cantarolando bem baixinho a letra que tinha ouvido pela primeira vez
I don't wanna feel blue,
anymore.
O mundo começou nos cabelos da Bessie.
Tranças longas, escuras, e a voz dela me enlaçou como se eu fosse um bebê, uma criança assustada, fugindo do mundo, da dor, de você.
Ela me abraçou forte, e me comunicou que eu chegaria viva no final dessa estação também. Ela disse que eu iria sobreviver à tempestade.
Feito mágica, eu soube, eu soube,
que eu iria conseguir.
Então ela desapareceu, e eu tive medo, medo de voltar, medo de só conseguir ser forte ali.
Halsey.
Entrou no palco, dona de si e do mundo e me gritou bem alto que não é errado ser como sou, levante-se, levante-se e seja o que você tiver que ser.
Ela gritou, e eu gritei de volta, até ter certeza de que era verdade.
De que não era errado ser assim.
Aí fui embora, encarar meus medos, todo aquele amor que eu senti um dia, toda essa dor, todas as mentiras contadas antes de dormir.
Fiquei de pé, esperando o Mumford, coração saindo pela boca, rezando pra conseguir sobreviver à Babel, pra que não doesse, sentindo os joelhos tremerem, a vontade de ficar de joelhos.
E aí eles entram,
e eu ouço os acordes da nossa música
E espero a dor jorrar.
Mas ela não vem.
É só uma música. É só mais amor perdido, transformado em qualquer coisa.
E eu fui ganhando força, minha voz gritando mais alto do que qualquer outra, eu quis gritar pra que você ouvisse, pra que você ouvisse a força da minha voz, da última vez que eu canto pra você, pra nós, minha voz se transformando em garoa e vento, em amor, em fé.
E quando chegou naquele pedaço, naquele nosso pedaço, escrito na sua letra há milhões de eras, fechado no fundo da minha estante de livros por um laço preto, com um nó quase cego,
eu gritei.
Eu gritei
Eu gritei
E não foi pra você.
Bem na metade, eu percebi
Que eu estava gritando, que eu estava gritando tão alto como nunca gritei antes
Porque você não cumpriu essa promessa.
Você não fez o que disse que ia fazer.
E não é culpa sua.
Mas eu vou fazer.
Por mim ou por alguém, um dia.
Eu vou fazer o que você não conseguiu.
Eu vou derrubar paredes, e eu não vou desistir, não vou me cansar.
Então eu gritei.
I'll play my bloody part,
to tear, tear them down.
E eu não menti. Como sei que você não mentiu.
Mas é preciso mais que vontade, mais que amor.
Agora eu sei disso.
Saímos, multidão e calor.
Marina.
Quando ela finalmente surgiu, vestida de rosa, eu soube que eu nunca mais seria a mesma.
Porque eu queria ser daquele jeito.
Eu queria ser a Marina quando eu crescesse.
Eu queria usar o cabelo que eu quisesse, a roupa que eu quisesse, queria falar sobre o que eu quisesse.
Eu queria ser forte, e brilhante, e rosa, e me mover feito uma bailarina desajeitada.
Eu queria ser quem eu quisesse ser.
E quando ela cantou as músicas, as minhas músicas de ir ver o Otto, todos os dias, de ir embora pensando em nós dois. Quando ela cantou a própria evolução, eu senti que era hora de evoluir também.
De ser quem eu quiser ser.
De me vestir como eu quiser.
De agir como eu achar que devo e aceitar as consequências.
De não parar mais.
Fui embora com o coração batendo forte, alto, sem saber o que dizer, sem saber como explicar a insanidade, a certeza, a sensação de outra forma que não fosse cantarolando bem baixinho a letra que tinha ouvido pela primeira vez
I don't wanna feel blue,
anymore.
27x05 Traveller
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Caro David,
estou de volta.
Queria que você fosse o primeiro a saber.
Voltei a beber, hadcore fuckin'. Voltei a sentir aquela fome de sangue e dor, aquela vontade de sair por aí destruindo tudo em que acredito.
Ainda resisto, ou meu corpo resiste à velha B. Luta contra quem eu sou, mesmo agora, mesmo vulnerável.
Digo a mim mesma, antes de dormir, que sou isso. Que desejo isso, que toda a dor vai desaparecer quando eu começar a aceitar quem sou.
Bebo até abaixar minhas reservas, até alcançar a desinibição que me possibilita sair. Bebo e meu corpo vomita, grita e luta, me amordaça.
Mas eu sou quem sou.
E fiquei muito tempo presa, à espreita, pra simplesmente me deixar vencer.
Quero sangue, carne, ossos, saliva. Eu quero sugar das pessoas a força vital necessária pra ficar aqui.
Quero ficar forte o suficiente pra que números desenhados na pele não possam me conter, pra não sentir culpa, nem dor.
David, as coisas estão diferentes. Estão voltando a ser como deveriam. Volte. Volte, também.
Mas não tenha pressa:
estou aqui pra ficar.
Com amor,
B.
Caro David,
estou de volta.
Queria que você fosse o primeiro a saber.
Voltei a beber, hadcore fuckin'. Voltei a sentir aquela fome de sangue e dor, aquela vontade de sair por aí destruindo tudo em que acredito.
Ainda resisto, ou meu corpo resiste à velha B. Luta contra quem eu sou, mesmo agora, mesmo vulnerável.
Digo a mim mesma, antes de dormir, que sou isso. Que desejo isso, que toda a dor vai desaparecer quando eu começar a aceitar quem sou.
Bebo até abaixar minhas reservas, até alcançar a desinibição que me possibilita sair. Bebo e meu corpo vomita, grita e luta, me amordaça.
Mas eu sou quem sou.
E fiquei muito tempo presa, à espreita, pra simplesmente me deixar vencer.
Quero sangue, carne, ossos, saliva. Eu quero sugar das pessoas a força vital necessária pra ficar aqui.
Quero ficar forte o suficiente pra que números desenhados na pele não possam me conter, pra não sentir culpa, nem dor.
David, as coisas estão diferentes. Estão voltando a ser como deveriam. Volte. Volte, também.
Mas não tenha pressa:
estou aqui pra ficar.
Com amor,
B.
Marcadores:
Mumford & sons,
pra variar,
Rio-Vida,
runaway
27x03 Austenland
Postado por
garota solteira procura,
Ele diz que gosta de mim, e dou um aviso: Eu não gosto.
Ele diz que vai insistir, que podemos ter algo bom.
Respondo com cinismo, dou dois passos pra trás.
Chama pra ir ao cinema e eu digo não.
Não. Não. Não. Não.
Bebo.
Digo sim.
E depois não.
Tento assustá-lo, não falo, me afasto.
"Você está tentando assustar uma pessoa que não se assusta assim facilmente. Vai te dar um trabalhinho me assustar. Mas eu gosto quando você tenta".
Continuo tentando, ferozmente, mas confesso:
às vezes, tenho vontade de parar de tentar e ver no que é que dá.
Marcadores:
Mumford & sons,
um cara que fazia dragões
24x14 Lost in Translation
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Eu preciso de ajuda.
Minha boca tem gosto de sono e leite, meu estômago está embrulhado e eu tenho medo de dormir e acordar do mesmo jeito.
Meu braço dói, eu também tô cansada, eu só preciso de mais tempo.
Eu só preciso do seu tempo.
Eu não tenho forças pra escrever números, pra sentir o roçar da caneta na pele da mão, pra me sujar de tinta, pro raciocínio familiar da colocação de números.
Eu estou me dissolvendo.
Tem uma mulher na janela em frente à minha. Ela está lá há horas, desde que me sentei aqui.
Ela é real?
Eu sou?
Eu peguei livros e eles não tinham cheiro. Tinham ordem, mas não tinham cheiro.
Eu não sei nada sobre memória.
O doce que comi não tinha gosto.
Não me lembro qual é o cheiro de cabelo queimado e nem sei como cheguei ao outro lado da rua.
Eu não te vi o dia inteiro e não me preocupei com isso.
Meu braço dói, mas não deveria.
O bebê tinha cabelos escuros e sua mãe era ruiva.
A mulher da triagem não devolveu meu cartão, os calcanhares de uma outra mulher tinham uma cor amarela. Sífilis é uma palavra estranha.
Por que não ouvem quando bato à porta?
O que eu fiz antes de dormir? Por que não vi razão pra me demorar? Por que hoje de manhã estava tudo bem, mas ontem não estava?
Fica comigo. Não me deixe dormir, por favor.
Fica comigo. Fica comigo. Fica comigo. Só alguns minutos, eu tô com medo, tanto medo. Eu preciso de você, preciso que você seja real.
Termino de falar, no meu próprio idioma, e você já dormiu, ou já quase dorme, e é tarde demais, eu já te perdi.
Agora sou só eu contra o que quer que seja.
- Boa noite, até amanhã :)
(Por favor, fique. Por favor, volte)
- Até.
- Eu preciso de ajuda.
Minha boca tem gosto de sono e leite, meu estômago está embrulhado e eu tenho medo de dormir e acordar do mesmo jeito.
Meu braço dói, eu também tô cansada, eu só preciso de mais tempo.
Eu só preciso do seu tempo.
Eu não tenho forças pra escrever números, pra sentir o roçar da caneta na pele da mão, pra me sujar de tinta, pro raciocínio familiar da colocação de números.
Eu estou me dissolvendo.
Tem uma mulher na janela em frente à minha. Ela está lá há horas, desde que me sentei aqui.
Ela é real?
Eu sou?
Eu peguei livros e eles não tinham cheiro. Tinham ordem, mas não tinham cheiro.
Eu não sei nada sobre memória.
O doce que comi não tinha gosto.
Não me lembro qual é o cheiro de cabelo queimado e nem sei como cheguei ao outro lado da rua.
Eu não te vi o dia inteiro e não me preocupei com isso.
Meu braço dói, mas não deveria.
O bebê tinha cabelos escuros e sua mãe era ruiva.
A mulher da triagem não devolveu meu cartão, os calcanhares de uma outra mulher tinham uma cor amarela. Sífilis é uma palavra estranha.
Por que não ouvem quando bato à porta?
O que eu fiz antes de dormir? Por que não vi razão pra me demorar? Por que hoje de manhã estava tudo bem, mas ontem não estava?
Fica comigo. Não me deixe dormir, por favor.
Fica comigo. Fica comigo. Fica comigo. Só alguns minutos, eu tô com medo, tanto medo. Eu preciso de você, preciso que você seja real.
Termino de falar, no meu próprio idioma, e você já dormiu, ou já quase dorme, e é tarde demais, eu já te perdi.
Agora sou só eu contra o que quer que seja.
- Boa noite, até amanhã :)
(Por favor, fique. Por favor, volte)
- Até.
24x13 All dreams come true in Palmdale
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Ele me abraçou, sentado no banco do passageiro do meu carro, vindo de um futuro distante ou de um passado que nunca aconteceu.
Limpou minha boca, suja de sangue, meu próprio sangue, com as costas da mão.
- O que aconteceu?
Ele tocou meu rosto, tirando meus cabelos dos olhos.
Eu não me lembrava de ter chegado ali, de ter me ferido.
E ele não dizia nada, me abraçava enquanto eu tremia e me contorcia.
As lembranças chegaram em flashes curtos, luz e salas e pessoas e ele, seus olhos e dentes e mãos.
- Me diz o que tá acontecendo, por favor
E ele me contou.
Uma história sobre loucura, sobre devaneios e pesadelos, sonhos. Sobre números e uma vida que não era minha.
Sobre gritos e nomes, sobre ser chamado por um nome que não era o dele, sobre o chão xadrez de uma casa em que nunca vivi.
- Foi só um sonho, ok? Só um sonho.
Ele me ajudou a descer, a me limpar. Me fez o jantar.
Conversamos sobre amenidades, sobre casamento e sucessão. Sobre computadores e livros. Sobre o fato de que ele se recusava a comer o lado esquerdo do sanduíche primeiro, superstição ou costume.
- Sabe de uma coisa engraçada? Já ouviu falar sobre estereognosia?, eu disse, encarando a taça de vinho, como se, lá dentro, tivesse visto alguma coisa estranha.
Levantei os olhos e ele se dissolvia, a mesa, a sala, a sujeira nas minhas unhas.
Acordei e era hoje, o sangue todo dentro do corpo.
Sem saber se o hoje é hoje, se vai se dissolver assim que eu mencionar aquela outra realidade que talvez seja sonho.
Tô com medo de falar demais. Medo do que é real e do que não é.
Não me deixe acordar. Ou não me deixe dormir.
Eu não sei mais.
Ele me abraçou, sentado no banco do passageiro do meu carro, vindo de um futuro distante ou de um passado que nunca aconteceu.
Limpou minha boca, suja de sangue, meu próprio sangue, com as costas da mão.
- O que aconteceu?
Ele tocou meu rosto, tirando meus cabelos dos olhos.
Eu não me lembrava de ter chegado ali, de ter me ferido.
E ele não dizia nada, me abraçava enquanto eu tremia e me contorcia.
As lembranças chegaram em flashes curtos, luz e salas e pessoas e ele, seus olhos e dentes e mãos.
- Me diz o que tá acontecendo, por favor
E ele me contou.
Uma história sobre loucura, sobre devaneios e pesadelos, sonhos. Sobre números e uma vida que não era minha.
Sobre gritos e nomes, sobre ser chamado por um nome que não era o dele, sobre o chão xadrez de uma casa em que nunca vivi.
- Foi só um sonho, ok? Só um sonho.
Ele me ajudou a descer, a me limpar. Me fez o jantar.
Conversamos sobre amenidades, sobre casamento e sucessão. Sobre computadores e livros. Sobre o fato de que ele se recusava a comer o lado esquerdo do sanduíche primeiro, superstição ou costume.
- Sabe de uma coisa engraçada? Já ouviu falar sobre estereognosia?, eu disse, encarando a taça de vinho, como se, lá dentro, tivesse visto alguma coisa estranha.
Levantei os olhos e ele se dissolvia, a mesa, a sala, a sujeira nas minhas unhas.
Acordei e era hoje, o sangue todo dentro do corpo.
Sem saber se o hoje é hoje, se vai se dissolver assim que eu mencionar aquela outra realidade que talvez seja sonho.
Tô com medo de falar demais. Medo do que é real e do que não é.
Não me deixe acordar. Ou não me deixe dormir.
Eu não sei mais.
24x07 Ameixa
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Me beija, sem medo do meu gosto, sem medo do meu rosto e do que acontece amanhã.
Esqueço os donos dos colchões, todos os freios e medos e a dor.
Só o que importa é seu gosto, seu rosto, o que acontece agora.
Minha pele e sua pele e a tarde escura e vazia, a curva sutil que as pontas dos seus dedos fazem, a cor das suas pálpebras.
Espero pelo momento em que seus dentes surgem, a respiração em suspenso.
Eles vêm e eu não fujo.
Eu fico, quero saber até onde podemos ir, quero saber quem somos, quero saber o que acontece no final do filme.
Eu quero, eu quero saber.
Mas aí vêm os freios e minha mania de ser um exemplo e meu medo e meu futuro brilhante e te empurram pra longe.
E não importa mais seu gosto, seu rosto, só meu medo e o que acontece amanhã.
Você molha meu rosto e o seu e eu tento derrubar os muros que acabei de construir entre nós.
Quero seu gosto, seu rosto, quero o amanhã impune.
Quero os azulejos frios, quero o cheiro de xampu, quero não desaparecer dentro de mim sempre que estivermos juntos.
Viro as costas e fecho os olhos, peço, imploro, pros deuses dos azulejos e das ameixas, da pele e das tardes ociosas pra que eu volte pra você, pra que eu fique.
Eu quero saber mais sobre nós dois e sobre a capacidade da nossa pele de trocar calor, sobre a sua respiração e a textura das suas costas.
Mas aí já é tarde.
É meu corpo, minha boca, meu gosto, meu rosto.
Mas eu já fui embora e você não consegue me alcançar.
E eu te deixei esperando de novo, atrás dos muros, atrás dos meus olhos. Sozinho com seu gosto e eu sozinha sem seu rosto.
Grito, do meu lado do muro - Não desista, não desista
E não sei se você ouve.
Mas não desista, eu quero.
Só não me acostumei ainda ao gosto, ao rosto.
A não saber o que acontece amanhã.
Me beija, sem medo do meu gosto, sem medo do meu rosto e do que acontece amanhã.
Esqueço os donos dos colchões, todos os freios e medos e a dor.
Só o que importa é seu gosto, seu rosto, o que acontece agora.
Minha pele e sua pele e a tarde escura e vazia, a curva sutil que as pontas dos seus dedos fazem, a cor das suas pálpebras.
Espero pelo momento em que seus dentes surgem, a respiração em suspenso.
Eles vêm e eu não fujo.
Eu fico, quero saber até onde podemos ir, quero saber quem somos, quero saber o que acontece no final do filme.
Eu quero, eu quero saber.
Mas aí vêm os freios e minha mania de ser um exemplo e meu medo e meu futuro brilhante e te empurram pra longe.
E não importa mais seu gosto, seu rosto, só meu medo e o que acontece amanhã.
Você molha meu rosto e o seu e eu tento derrubar os muros que acabei de construir entre nós.
Quero seu gosto, seu rosto, quero o amanhã impune.
Quero os azulejos frios, quero o cheiro de xampu, quero não desaparecer dentro de mim sempre que estivermos juntos.
Viro as costas e fecho os olhos, peço, imploro, pros deuses dos azulejos e das ameixas, da pele e das tardes ociosas pra que eu volte pra você, pra que eu fique.
Eu quero saber mais sobre nós dois e sobre a capacidade da nossa pele de trocar calor, sobre a sua respiração e a textura das suas costas.
Mas aí já é tarde.
É meu corpo, minha boca, meu gosto, meu rosto.
Mas eu já fui embora e você não consegue me alcançar.
E eu te deixei esperando de novo, atrás dos muros, atrás dos meus olhos. Sozinho com seu gosto e eu sozinha sem seu rosto.
Grito, do meu lado do muro - Não desista, não desista
E não sei se você ouve.
Mas não desista, eu quero.
Só não me acostumei ainda ao gosto, ao rosto.
A não saber o que acontece amanhã.
Marcadores:
Horses,
Mumford & sons,
SUPERHIPERMEGADELAYED,
this guy I love
24X06 Caleidoscópio
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Caro Otto,
uau. Os últimos dias, os últimos meses passaram rápido demais. Penso neles como um borrão colorido cheio de vozes, cheiros e sons,
Achei que nunca mais te escreveria. Não, minto. Eu sempre soube que te escreveria de novo.
Mas é diferente agora. Isso não é uma carta de amor. Eu não escrevo mais cartas de amor pra você, como sabíamos que aconteceria, como esperávamos que acontecesse.
Eu mudei. E você também deve ter mudado.
Eu me apaixonei. É, como quem tropeça. Pisei em falso, meu coração pisou em falso numa dessas noites quentes demais. Quando acordei, já era junho, já tinha corrido mundo e voltado cheia de histórias e roupas novas na mala pesada. Cheia de expectativas, também.
Expectativas sobre o escuro e a capacidade que a ponta das línguas tem de dizer tudo o que há para ser dito, só de se encostarem.
Eu voltei pra casa, pra você, pra essa cidade de concreto em chamas, só pra descobrir que quem voltou não fui eu.
Voltou uma outra, louca, que queria mais do que amores unilaterais e a amargura de esperar e de amar sozinha. Sem voz, sem v oto.
E ela conseguiu isso, conseguiu mais.
Conseguiu luz de postes e sombra de carros, vozes, "eu te amo" em forma de sussurros no meio da noite, ela conseguiu pele e ossos, clavículas e pintas. Muito mais do que já sonhamos ter.
Essa louca, eu, amou. Ama.
Nenhuma surpresa, certo?
Mas, adivinhe só: estou me deixando amar. É difícil, muito. Mas eu deixo, aos poucos. Tento erguer menos paredes ao meu redor, ter menos segredos. Eu tento.
Mas erro muito, não aprendi a fazer isso.
Estou tentando, engatinhando.
Às vezes, me saio bem, sabe? Ele olha pra mim e acredito no que ele diz. Acredito, quando ele me chama de Amor, quando a ponta do nariz dele toca minha testa e ele fecha os olhos e fica quieto, como se tivesse parado todo o zumbido do mundo, como se só existíssemos nós dois.
Acredito, quando o machuco com minha frieza, minha loucura, e ele me diz com os olhos que dói.
Nem tudo é sempre bom, tem muito a ser feito.
Tivemos dias difíceis, em que me abriguei num casaco cinza e quis que o mundo me esquecesse , em que quis desistir. Dias em que eu estava fraca demais pra tentar.
E ele me pegou no colo e disse, com aquele tom de brincadeira, que ia passar, que era besteira minha.
De vez em quando, corro pra minha caverna, me escondo do mundo. E ele vem, me puxa, abre as persianas e deixa a luz entrar.
E eu deixo.
Então, Otto, onde quer que você esteja, com quem quer que esteja:
Deixe.
Abaixe as defesas, destrua os muros, permita que te magoem, permita que se aproximem.
Eu descobri que não somos invisíveis. São as paredes que erguemos, entende?
Deixe que entrem, prepare-se.
Eu sei que não é fácil. Mas você tem que saber que é possível.
É só abrir as persianas. Por um segundo só.
Alguém vai estar olhando.
Alguém vai te ver.
Deixe.
Com amor, sempre,
B.
Caro Otto,
uau. Os últimos dias, os últimos meses passaram rápido demais. Penso neles como um borrão colorido cheio de vozes, cheiros e sons,
Achei que nunca mais te escreveria. Não, minto. Eu sempre soube que te escreveria de novo.
Mas é diferente agora. Isso não é uma carta de amor. Eu não escrevo mais cartas de amor pra você, como sabíamos que aconteceria, como esperávamos que acontecesse.
Eu mudei. E você também deve ter mudado.
Eu me apaixonei. É, como quem tropeça. Pisei em falso, meu coração pisou em falso numa dessas noites quentes demais. Quando acordei, já era junho, já tinha corrido mundo e voltado cheia de histórias e roupas novas na mala pesada. Cheia de expectativas, também.
Expectativas sobre o escuro e a capacidade que a ponta das línguas tem de dizer tudo o que há para ser dito, só de se encostarem.
Eu voltei pra casa, pra você, pra essa cidade de concreto em chamas, só pra descobrir que quem voltou não fui eu.
Voltou uma outra, louca, que queria mais do que amores unilaterais e a amargura de esperar e de amar sozinha. Sem voz, sem v oto.
E ela conseguiu isso, conseguiu mais.
Conseguiu luz de postes e sombra de carros, vozes, "eu te amo" em forma de sussurros no meio da noite, ela conseguiu pele e ossos, clavículas e pintas. Muito mais do que já sonhamos ter.
Essa louca, eu, amou. Ama.
Nenhuma surpresa, certo?
Mas, adivinhe só: estou me deixando amar. É difícil, muito. Mas eu deixo, aos poucos. Tento erguer menos paredes ao meu redor, ter menos segredos. Eu tento.
Mas erro muito, não aprendi a fazer isso.
Estou tentando, engatinhando.
Às vezes, me saio bem, sabe? Ele olha pra mim e acredito no que ele diz. Acredito, quando ele me chama de Amor, quando a ponta do nariz dele toca minha testa e ele fecha os olhos e fica quieto, como se tivesse parado todo o zumbido do mundo, como se só existíssemos nós dois.
Acredito, quando o machuco com minha frieza, minha loucura, e ele me diz com os olhos que dói.
Nem tudo é sempre bom, tem muito a ser feito.
Tivemos dias difíceis, em que me abriguei num casaco cinza e quis que o mundo me esquecesse , em que quis desistir. Dias em que eu estava fraca demais pra tentar.
E ele me pegou no colo e disse, com aquele tom de brincadeira, que ia passar, que era besteira minha.
De vez em quando, corro pra minha caverna, me escondo do mundo. E ele vem, me puxa, abre as persianas e deixa a luz entrar.
E eu deixo.
Então, Otto, onde quer que você esteja, com quem quer que esteja:
Deixe.
Abaixe as defesas, destrua os muros, permita que te magoem, permita que se aproximem.
Eu descobri que não somos invisíveis. São as paredes que erguemos, entende?
Deixe que entrem, prepare-se.
Eu sei que não é fácil. Mas você tem que saber que é possível.
É só abrir as persianas. Por um segundo só.
Alguém vai estar olhando.
Alguém vai te ver.
Deixe.
Com amor, sempre,
B.
Marcadores:
Horses,
love,
Mumford & sons,
old friends,
Otto,
SUPERHIPERMEGADELAYED
Assinar:
Postagens (Atom)










