Imagem: TingTing Huang
Penteio os cabelos, eu jogo estrelas no chão onde piso, estrelas pra cima, estrelas no rosto, no corpo todo:
eu tô feliz.
Tô feliz, sem remédio, sem droga, sem horóscopo.
Um amor me traz um bolo,
salgadinhos pra comer,
e todo esse amor contido, todo esse sentimento escondido, tanto, que eu nem sei direito o que fazer com ele.
Daí elas entram feito musas, feito ninfas, me tiram do prumo, me colocam no rumo, me deixam doida.
Eu sinto dor,
mas ela não é maior do que eu.
Então, eu tomo um remédio
E saímos pela cidade atrás de bolas de gude, um cinema e uma estátua.
Rapazes de chapéu me cumprimentam quando chego,
e meu melhor amigo de arco íris me dá morte, sentimentos ocultos e uma foto pra guardar com carinho.
Eu tô a 1000 por hora, tô enlouquecendo com a alegria que me dá cada toque,
abraço tanta gente que meus braços doem, abraço até quem já me magoou,
abraço esse cara e digo a ele que ele tem uma puta coragem,
conheço essa garota que já povoou essas histórias das quais nunca fiz parte, das quais nunca mais farei parte,
e eu gosto da ideia
de sentar no colo do meu melhor amigo
e de secar as lágrimas do amor da minha vida
de tocar as pessoas e de nunca me sentar, não comer nada a noite inteira,
de dar risada disso e daquilo, de reencontrar amores antigos
e ouvir as pessoas disputando a minha atenção, insanas,
uma mulher me liga e eu percebo que a amo, e que ela me ama.
Assim como a minha mãe, que demonstra seu amor por mim limpando meu fogão, sem me conhecer nem um pouco, mas me conhecendo muito mais do que eu me conheço.
Eu tô bebendo cerveja e vodka, só porque quero passar um tempo com essas pessoas que estão aqui me dando seu tempo, cada uma delas, cada vez que eu jogo um dado, que eu toco um braço, que eu digo um adeus,
eu quero dizer
eu te amo
e David tinha razão, eu não posso amar ninguém enquanto não deixar de amar todo mundo
e eu não quero deixar de amar todo mundo.
Porque, no final da noite,
eu cheguei em casa
cobri os pés do meu melhor amigo,
li essa carta incrível,
e percebi
que eu passei uma noite inteira
sem ter medo.
Nem um pouco.
Que eu não tive que parar pra respirar nem um segundo, nem tive que fugir de tudo em busca de um ar que não dava pra puxar, simplesmente.
Obrigada, obrigada
Porque eu sei que terei medo de novo quando a manhã chegar, quando algo acontecer.
Mas foi quase como se tudo estivesse normal, como se nada tivesse acontecido
E foi incrível,
selvagem.
Existe um lugar onde não somos julgados, onde podemos ser livres. Um lugar nas nossas cabeças, disse Alessia.
Mas o meu é aqui.
É onde vocês estão.
Onde eu posso ser eu mesma, me vestir como quiser, dizer o que quiser, ouvir segredos e amar todas as pessoas, sem precisar me esconder ou dosar, sem precisar me curar, sem precisar chorar ou gritar.
Ou parar pra respirar.
Se eu pudesse, colocaria essa noite em um frasco e levaria comigo por aí, pra tomar sempre que eu tivesse medo, muito medo
de ser quem eu sou.
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37x11 Wild Things
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37x08 Filhas de Ananse
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Imagem: TingTing Huang
Sinto um palpitar diferente no peito, cheiro de mato e animais molhados.
- Papai está vindo, digo a ela.
Ela me olha, inexpressiva, pega seu pão e seu café e vai se trancar no quarto.
Uma aranha entra pela janela, sobre na pia, cria uma teia bonita, bem rápido, e fica se balançando nela, me hipnotizando.
Alguém bate à porta.
Não me levanto da mesa para abrir. Batem novamente.
Eu continuo sentada, comendo.
- Não vai abrir? - diz a voz de meu pai, atrás de mim.
Levanto da cadeira e o abraço. Ele cheira a sol, terra seca, resina, mato, talco.
- Senti sua falta.
Ele sorri e me dá a mão, que eu beijo "bença, pai", e ele sorri mais, satisfeito, e me abençoa. E eu me sinto abençoada, sinto o cheiro da terra molhada do lugar onde nasci, e o gosto das palavras do povo.
Pego um prato no armário, uma xícara lascada, mas bonita, e me viro pra entregar pra ele. Mas ele já está comendo, croissants e suco de laranja.
- Trouxe da viagem, explica.
Comemos.
Ele seu croissant, eu meu pão.
Meu pai é a única pessoa que gosto de olhar enquanto come. Tudo nele conta ou remonta a uma história.
Laranjas, seu cabelo rareando, suas camisas, os fios brancos de sua barba, seus jeans antiquados, seu chapéu - porque, sim, é claro que ele tem um chapéu -, seus olhos castanhos que já viram o mundo inteiro, ele já foi todas as coisas do mundo.
Ele já foi até meu pai, e ainda é, em dias como esse.
- Pai?
- Hmm?
- Tá tudo bem?
- Sim.
E ele sorri e me deixa entrever por baixo da pele, das histórias, seus muitos olhos, me olhando, brilhando, feito um céu estrelado. Meu pai.
Ele termina de comer, limpa a boca e o bigode sujos, pega a minha mão e a beija.
Levanta-se, pega o chapéu, aponta na direção da porta do quarto da minha irmã e eu sacudo a cabeça
"Ainda não"
Ele dá de ombros, sorri, pisca pra mim e, sem dizer adeus, desaparece, mais uma vez.
Eu o amo, meu pai.
Mas eu não posso deixar de me perguntar, às vezes, em dias como esse,
como seria ter um pai normal, sem tantas histórias guardadas num baú, como seria um pai sem tantos inimigos, sem tantas confusões, que voltasse pra casa todos os dias sem falta
Um pai mais humano, menos Ananse.
Penso nisso, retiro a louça da mesa e, por impulso, bebo o resto de suco no copo dele.
E o gosto me atinge feito uma carícia de um amante, faz com que meu coração dispare e me acalma, ao mesmo tempo.
Divino.
Sento na cadeira, saboreando o gosto na boca e, percebo
ter um pai normal,
bom,
talvez não fosse tão bom.
Sinto um palpitar diferente no peito, cheiro de mato e animais molhados.
- Papai está vindo, digo a ela.
Ela me olha, inexpressiva, pega seu pão e seu café e vai se trancar no quarto.
Uma aranha entra pela janela, sobre na pia, cria uma teia bonita, bem rápido, e fica se balançando nela, me hipnotizando.
Alguém bate à porta.
Não me levanto da mesa para abrir. Batem novamente.
Eu continuo sentada, comendo.
- Não vai abrir? - diz a voz de meu pai, atrás de mim.
Levanto da cadeira e o abraço. Ele cheira a sol, terra seca, resina, mato, talco.
- Senti sua falta.
Ele sorri e me dá a mão, que eu beijo "bença, pai", e ele sorri mais, satisfeito, e me abençoa. E eu me sinto abençoada, sinto o cheiro da terra molhada do lugar onde nasci, e o gosto das palavras do povo.
Pego um prato no armário, uma xícara lascada, mas bonita, e me viro pra entregar pra ele. Mas ele já está comendo, croissants e suco de laranja.
- Trouxe da viagem, explica.
Comemos.
Ele seu croissant, eu meu pão.
Meu pai é a única pessoa que gosto de olhar enquanto come. Tudo nele conta ou remonta a uma história.
Laranjas, seu cabelo rareando, suas camisas, os fios brancos de sua barba, seus jeans antiquados, seu chapéu - porque, sim, é claro que ele tem um chapéu -, seus olhos castanhos que já viram o mundo inteiro, ele já foi todas as coisas do mundo.
Ele já foi até meu pai, e ainda é, em dias como esse.
- Pai?
- Hmm?
- Tá tudo bem?
- Sim.
E ele sorri e me deixa entrever por baixo da pele, das histórias, seus muitos olhos, me olhando, brilhando, feito um céu estrelado. Meu pai.
Ele termina de comer, limpa a boca e o bigode sujos, pega a minha mão e a beija.
Levanta-se, pega o chapéu, aponta na direção da porta do quarto da minha irmã e eu sacudo a cabeça
"Ainda não"
Ele dá de ombros, sorri, pisca pra mim e, sem dizer adeus, desaparece, mais uma vez.
Eu o amo, meu pai.
Mas eu não posso deixar de me perguntar, às vezes, em dias como esse,
como seria ter um pai normal, sem tantas histórias guardadas num baú, como seria um pai sem tantos inimigos, sem tantas confusões, que voltasse pra casa todos os dias sem falta
Um pai mais humano, menos Ananse.
Penso nisso, retiro a louça da mesa e, por impulso, bebo o resto de suco no copo dele.
E o gosto me atinge feito uma carícia de um amante, faz com que meu coração dispare e me acalma, ao mesmo tempo.
Divino.
Sento na cadeira, saboreando o gosto na boca e, percebo
ter um pai normal,
bom,
talvez não fosse tão bom.
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29x03 Quase sem querer
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Deixa eu te falar,
acabei de me dar conta de que andei ouvindo só a estática no rádio. Andei não ouvindo a estática.
Estava longe, longe, num futuro em que eu sei o gosto da sua boca, você me passa o braço pelos ombros, me aquece, e não ficamos estranhos quando estamos muito próximos.
Estava longe, tomando café com você, sentada em cadeiras num jardim de pedra, lendo meus livros em cadeiras de armar, num fim de semana que nunca vai acontecer.
Estava sentada contando como a gente não se conheceu e resolveu não namorar, como a gente dá certo, como a gente fica bem junto.
Lembrei até de uma noite que nunca aconteceu, em que a gente se beijou e você decidiu que queria continuar fazendo isso.
Aí acordei, rádio chiando alto, e dei risada, mudei de estação, sacudi você por um instante, sem sacudir a ideia de que, talvez, sabe, nós dois
talvez não seja má ideia
Aí a Zélia começa a cantar e, de repente, eu me dou conta de que não sei mais do que é que tinha medo, aquele medo sobre o qual só você sabe de forma palpável, aquele medo que não era de ficar só, mas era e eu não sei explicar.
Eu não entendo mais aquela sensação de só querer que a dor passasse, de implorar que alguém viesse e me levasse embora em um cavalo branco ou só me desse a mão e não soltasse, aquele medo de que ninguém mais fosse me amar,
"E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente
Estou tão tranquilo e tão contente"
E é exatamente isso. Eu ainda não quero amar ninguém, não quero mais brigar, não quero mais lutar. Eu não quero mais ferir ninguém, pelo menos não agora.
Eu tô bem, eu tô ficando bem. At last.
A música continua, me levando pros últimos meses, todo aquele esforço hercúleo, carregando toda aquele desamor e fúria, contendo em mim a dor de um milhão de oportunidades perdidas, tentando desesperadamente provar que eu não precisava provar nada. Provar que eu não sentia mais nada.
Eu não quero que a gente aconteça só pra ficar junto. Eu quero que a gente aconteça pra dar certo, e eu não quero dar certo agora.
Eu quero mais, eu quero tudo, eu quero qualquer coisa, e quero que você também queira mais do que isso, mais do que juntar a minha tristeza e a tua.
Eu quero dançar a madrugada inteira e chegar em casa com o joelho estourado, eu quero achar todos os garotos bonitos, quero me apaixonar por você de verdade, quero que meu coração bata mais forte um dia desses, descontrolado, furioso, eu quero querer te beijar a todo o instante, não quero amores calmos, quero tudo a que tenho direito, quero você por inteiro, não quero juntar pedaços, não quero migalhas.
Não quero mais me contentar com pouco.
E nem quero que você queira.
Deixa assim.
Vamos ver no que dá.
Deixa eu te falar,
acabei de me dar conta de que andei ouvindo só a estática no rádio. Andei não ouvindo a estática.
Estava longe, longe, num futuro em que eu sei o gosto da sua boca, você me passa o braço pelos ombros, me aquece, e não ficamos estranhos quando estamos muito próximos.
Estava longe, tomando café com você, sentada em cadeiras num jardim de pedra, lendo meus livros em cadeiras de armar, num fim de semana que nunca vai acontecer.
Estava sentada contando como a gente não se conheceu e resolveu não namorar, como a gente dá certo, como a gente fica bem junto.
Lembrei até de uma noite que nunca aconteceu, em que a gente se beijou e você decidiu que queria continuar fazendo isso.
Aí acordei, rádio chiando alto, e dei risada, mudei de estação, sacudi você por um instante, sem sacudir a ideia de que, talvez, sabe, nós dois
talvez não seja má ideia
Aí a Zélia começa a cantar e, de repente, eu me dou conta de que não sei mais do que é que tinha medo, aquele medo sobre o qual só você sabe de forma palpável, aquele medo que não era de ficar só, mas era e eu não sei explicar.
Eu não entendo mais aquela sensação de só querer que a dor passasse, de implorar que alguém viesse e me levasse embora em um cavalo branco ou só me desse a mão e não soltasse, aquele medo de que ninguém mais fosse me amar,
"E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente
Estou tão tranquilo e tão contente"
E é exatamente isso. Eu ainda não quero amar ninguém, não quero mais brigar, não quero mais lutar. Eu não quero mais ferir ninguém, pelo menos não agora.
Eu tô bem, eu tô ficando bem. At last.
A música continua, me levando pros últimos meses, todo aquele esforço hercúleo, carregando toda aquele desamor e fúria, contendo em mim a dor de um milhão de oportunidades perdidas, tentando desesperadamente provar que eu não precisava provar nada. Provar que eu não sentia mais nada.
Eu não quero que a gente aconteça só pra ficar junto. Eu quero que a gente aconteça pra dar certo, e eu não quero dar certo agora.
Eu quero mais, eu quero tudo, eu quero qualquer coisa, e quero que você também queira mais do que isso, mais do que juntar a minha tristeza e a tua.
Eu quero dançar a madrugada inteira e chegar em casa com o joelho estourado, eu quero achar todos os garotos bonitos, quero me apaixonar por você de verdade, quero que meu coração bata mais forte um dia desses, descontrolado, furioso, eu quero querer te beijar a todo o instante, não quero amores calmos, quero tudo a que tenho direito, quero você por inteiro, não quero juntar pedaços, não quero migalhas.
Não quero mais me contentar com pouco.
E nem quero que você queira.
Deixa assim.
Vamos ver no que dá.
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