Imagem: TingTing Huang
Não consigo.
Tá pesando.
Todo dia uma coisa nova,
um texto,
e eu tenho que estudar,
eu tenho que fazer as compras,
eu tenho que arrumar as malas,
achar um lugar pra morar.
Eu tenho que pagar uma conta,
eu tenho que arrumar um emprego,
eu tenho que não me sentir mal por ser adulta, porque é assim que é a vida,
eu tenho que passar a roupa e arrumar as coisas, e dirigir pra todo o lado da cidade, eu não posso esquecer desse compromisso,
e de estar em casa às 19h,
de mandar essa mensagem, fazer essa reserva,
ler esses artigos,
conversar com o senhorio,
estudar neurotrauma,
tirar as roupas do varal,
comprar um guarda-chuva,
arrumar dinheiro,
ir ao hospital,
dormir e beber água,
Eu tenho que não cair de sono antes de tomar os remédios, lavar o rosto, tirar a maquiagem, escovar os dentes, passar creme nos pés, cortar as unhas
Eu tenho que tomar banho
e lavar os sapatos
sempre ter calcinhas limpas,
enquanto sei tudo sobre comunicação de más notícias
Pôster e artigos,
eu preciso nunca esquecer de prescrever todas as pacientes,
abastecer o carro,
trocar a bateria,
arrumar os relógios e encher as garrafas de água,
eu preciso não parar pra jogar ou ler ou assistir filmes e novelas,
e fazer exercícios,
e arrumar meu quarto, e manter meu quarto arrumado,
limpar a geladeira
e o banheiro,
e mandar mensagem pro meu pai,
e pros meus amigos,
e pentear os cabelos, hidratar os cabelos, matizar os cabelos,
limpar minha bolsa, mandar os boletos pro e-mail,
ir ao banco,
ir à faculdade,
comprovante de endereço,
ir à papelaria, comprar um creme e um repelente,
e não gastar dinheiro.
Tenho que lembrar de não bater o carro - de novo - e de não levar multas.
De trancar a porta, fechar as janelas, tirar as coisas da tomada,
não esquecer o carregador, blusa de frio, comida,
sapatos,
o estetoscópio.
nem os jalecos limpos.
Não posso esquecer as toalhas, de limpar as cortinas,
jogar o lixo fora.
Eu nunca posso esquecer nada,
nem fazer nada de errado,
nem parar.
Tenho que lembrar de não ficar triste,
nem chorar porque isso me faz perder tempo.
Lembrar de comer,
de dormir,
de meditar,
de respirar.
Eu só quero colo.
Que me digam que dá pra fazer, que dá pra lembrar, que dá pra esperar, que melhora.
Mas não melhora.
Só piora.
Preciso me lembrar disso também,
só piora.
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43x16 The things that you don't remember
Postado por
garota solteira procura,
Image: TingTing Huang
Eu nunca vou ser boa o bastante pra você, vou?
Você sabe de cor
cada uma das vezes em que eu te magoei.
Sabe datas, palavras, sensações.
Você consegue enumerar, colocou em pastas em algum compartimento secreto da mente.
Você me convenceu de que eu nunca, jamais, ser boa.
Mesmo quando sou boa.
Tão inteligente,
tão esperta.
Mas nunca boa.
Você se lembra da primeira mágoa,
da segunda,
se lembra do dia em que eu ri,
do dia em que não ouvi,
de quando eu não disse,
de quando eu não estava,
de quando eu não podia,
de quando eu não fui.
Mas
você se lembra de quando eu não ri?
Se lembra do dia em que eu ouvi tudo até o final?
De quando eu disse a coisa certa?
Você se lembra das vezes em que eu estive lá? Em que eu fiquei com você até o final, porque sabia que você precisava?
Você se lembra das vezes em que eu fui mesmo não querendo voltar nunca mais? Eu fui porque você estava lá.
Você se lembra de quando eu não podia, de quando eu não aguentava mais e aguentei mais um dia? De quando eu acordei só mais uma manhã e mais outra, e outra, e outra, e outra, mesmo não querendo mais, não quero mais. Eu não quero mais, mas eu continuo acordando.
Você se lembra de quando eu fui?
No meio do dia, da noite, quando você precisou. Quando você não precisou. Porque eu precisava cuidar de você.
Você se lembra?
Eu sinto muito. Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Mas eu não quero mais me desculpar por não conseguir chegar lá,
eu nunca vou conseguir, você entende?
Eu nunca vou conseguir.
Eu sinto muito.
Eu nunca vou ser quem você precisa.
Eu sinto muito.
Eu nunca vou ser boa o bastante pra você, vou?
Você sabe de cor
cada uma das vezes em que eu te magoei.
Sabe datas, palavras, sensações.
Você consegue enumerar, colocou em pastas em algum compartimento secreto da mente.
Você me convenceu de que eu nunca, jamais, ser boa.
Mesmo quando sou boa.
Tão inteligente,
tão esperta.
Mas nunca boa.
Você se lembra da primeira mágoa,
da segunda,
se lembra do dia em que eu ri,
do dia em que não ouvi,
de quando eu não disse,
de quando eu não estava,
de quando eu não podia,
de quando eu não fui.
Mas
você se lembra de quando eu não ri?
Se lembra do dia em que eu ouvi tudo até o final?
De quando eu disse a coisa certa?
Você se lembra das vezes em que eu estive lá? Em que eu fiquei com você até o final, porque sabia que você precisava?
Você se lembra das vezes em que eu fui mesmo não querendo voltar nunca mais? Eu fui porque você estava lá.
Você se lembra de quando eu não podia, de quando eu não aguentava mais e aguentei mais um dia? De quando eu acordei só mais uma manhã e mais outra, e outra, e outra, e outra, mesmo não querendo mais, não quero mais. Eu não quero mais, mas eu continuo acordando.
Você se lembra de quando eu fui?
No meio do dia, da noite, quando você precisou. Quando você não precisou. Porque eu precisava cuidar de você.
Você se lembra?
Eu sinto muito. Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Mas eu não quero mais me desculpar por não conseguir chegar lá,
eu nunca vou conseguir, você entende?
Eu nunca vou conseguir.
Eu sinto muito.
Eu nunca vou ser quem você precisa.
Eu sinto muito.
40x12 Tennessee Honey
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Cheguei em casa, tranquei as portas, abri as janelas, cobertas pelas cortinas que te impedem de entrar.
Respirei fundo.
Livre.
Coloco o colchão no chão, eu já posso sentí-la acordando, se espreguiçando dentro de mim, como quem dormiu por anos e agora sente fome, uma fome que não cessa, de contato humano, de ouvir a própria voz, tocar os próprios cabelos.
Abro e fecho as mãos, tentando entender o movimento desse corpo que não é mais só meu,
onde eu não vivo mais só,
eu nunca estive só.
Tem um vento sutil soprando, quente, e eu danço ao som dele, passos lentos, e depois rápidos demais pra parar.
Meu corpo se move, ocupa espaços, faz uma dança bizarra e ilógica, elétrica, enquanto meu coração bate rápido, sem saber
que agora tudo pode acontecer
Eu me deito no chão e respiro,
deixando o ar entrar e sair dos pulmões,
eu sinto as pernas dela se esticarem dentro das minhas,
seu rosto tomando forma por debaixo da minha pele
enquanto eu deixo de ser eu.
Sem paixões ou sonhos,
personalidade
ou lucidez,
eu vou me apagando aos pouquinhos,
sem querer outra coisa.
Ela segura meu coração devagarinho, contém meus pulmões
e então aperta e solta,
aperta e solta
devagarinho
até que eles aprendam e repitam
até que meu coração bombeie o sangue todo do meu corpo no ritmo da canção do vento,
até que minha respiração se torne uma música assoviada
E todo o meu corpo
desliga
E reinicia
Ela abre meus olhos, os olhos dela
sorri um sorriso que não é meu
e cantarola uma canção, mais antiga do que eu,
mais antiga do que todos que já conheci,
que me lembra um sonho que tive quando ainda nem existia
E só então, quando a canção chega ao fim,
ela se espreguiça, usando meus braços
e se encolhe feito uma bola
e dorme
pra que eu finalmente possa acordar.
Cheguei em casa, tranquei as portas, abri as janelas, cobertas pelas cortinas que te impedem de entrar.
Respirei fundo.
Livre.
Coloco o colchão no chão, eu já posso sentí-la acordando, se espreguiçando dentro de mim, como quem dormiu por anos e agora sente fome, uma fome que não cessa, de contato humano, de ouvir a própria voz, tocar os próprios cabelos.
Abro e fecho as mãos, tentando entender o movimento desse corpo que não é mais só meu,
onde eu não vivo mais só,
eu nunca estive só.
Tem um vento sutil soprando, quente, e eu danço ao som dele, passos lentos, e depois rápidos demais pra parar.
Meu corpo se move, ocupa espaços, faz uma dança bizarra e ilógica, elétrica, enquanto meu coração bate rápido, sem saber
que agora tudo pode acontecer
Eu me deito no chão e respiro,
deixando o ar entrar e sair dos pulmões,
eu sinto as pernas dela se esticarem dentro das minhas,
seu rosto tomando forma por debaixo da minha pele
enquanto eu deixo de ser eu.
Sem paixões ou sonhos,
personalidade
ou lucidez,
eu vou me apagando aos pouquinhos,
sem querer outra coisa.
Ela segura meu coração devagarinho, contém meus pulmões
e então aperta e solta,
aperta e solta
devagarinho
até que eles aprendam e repitam
até que meu coração bombeie o sangue todo do meu corpo no ritmo da canção do vento,
até que minha respiração se torne uma música assoviada
E todo o meu corpo
desliga
E reinicia
Ela abre meus olhos, os olhos dela
sorri um sorriso que não é meu
e cantarola uma canção, mais antiga do que eu,
mais antiga do que todos que já conheci,
que me lembra um sonho que tive quando ainda nem existia
E só então, quando a canção chega ao fim,
ela se espreguiça, usando meus braços
e se encolhe feito uma bola
e dorme
pra que eu finalmente possa acordar.
38x06 Limpeza de outono
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Caro David,
eu não sinto dor.
Eu não sinto nada.
Sempre achei que fosse estar satisfeita quando esse momento chegasse, mas não estou, eu nunca estou.
Um homem me disse que o luto tinha acabado.
Me disse pra voltar pra casa, doar as roupas velhas do meu marido morto, pra jogar fora os papéis, sua escova de dentes, parar de dormir com suas camisetas. Pra tirar a aliança.
Ele me disse pra aceitar, e eu percebi que eu não tinha mais que aceitar nada. Tudo já me tinha sido imposto: aprendi pela pedra.
Casca grossa, dura. A vida andou me lixando e me deixou assim, não tenho como chorar, não tenho razão pra ficar ou pra responder a mensagem, eu não quero encontros furtivos, eu não quero migalhas e não quero uma tábua de ouija. Eu não quero não ouvir a verdade, eu não quero não encarar de frente o que eu não queria ver, o que eu não queria saber.
Eu não tenho força de vontade pra fechar a boca, e engulo seco o que suponho ser a exata dose que eu posso aguentar.
Fumo um cigarro, só um. Só um, pros dias ruins de verdade.
Pego um saco de lixo, e vou colocando as coisas dele, uma por uma, uma por uma.
Tá na hora de seguir em frente, de parar de achar que isso é tudo o que eu mereço.
Encho o saco, tô com o saco cheio, tô de saco cheio
e jogo tudo em cima do guarda-roupas, por receio de jogar fora.
Ainda não.
Não é que eu vá me arrepender, só tô dando um passo de cada vez, quero fazer tudo de caso pensado.
O verão tá chegando ao fim, e o luto também.
Mal posso esperar pela chegada do outono.
Entende o que quero dizer?
Com amor,
B.
Caro David,
eu não sinto dor.
Eu não sinto nada.
Sempre achei que fosse estar satisfeita quando esse momento chegasse, mas não estou, eu nunca estou.
Um homem me disse que o luto tinha acabado.
Me disse pra voltar pra casa, doar as roupas velhas do meu marido morto, pra jogar fora os papéis, sua escova de dentes, parar de dormir com suas camisetas. Pra tirar a aliança.
Ele me disse pra aceitar, e eu percebi que eu não tinha mais que aceitar nada. Tudo já me tinha sido imposto: aprendi pela pedra.
Casca grossa, dura. A vida andou me lixando e me deixou assim, não tenho como chorar, não tenho razão pra ficar ou pra responder a mensagem, eu não quero encontros furtivos, eu não quero migalhas e não quero uma tábua de ouija. Eu não quero não ouvir a verdade, eu não quero não encarar de frente o que eu não queria ver, o que eu não queria saber.
Eu não tenho força de vontade pra fechar a boca, e engulo seco o que suponho ser a exata dose que eu posso aguentar.
Fumo um cigarro, só um. Só um, pros dias ruins de verdade.
Pego um saco de lixo, e vou colocando as coisas dele, uma por uma, uma por uma.
Tá na hora de seguir em frente, de parar de achar que isso é tudo o que eu mereço.
Encho o saco, tô com o saco cheio, tô de saco cheio
e jogo tudo em cima do guarda-roupas, por receio de jogar fora.
Ainda não.
Não é que eu vá me arrepender, só tô dando um passo de cada vez, quero fazer tudo de caso pensado.
O verão tá chegando ao fim, e o luto também.
Mal posso esperar pela chegada do outono.
Entende o que quero dizer?
Com amor,
B.
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