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36x18 Hollaback Girl

Imagem: TingTing Huang

Stephanie.

E foi assim eu beijei uma garota pela primeira vez.
Hollaback girl, minha juba esvoaçando, eu suava com o esforço e ansiava pelo fim da festa, por beijos há muito esperados.

Ela surgiu do meio das luzes, etérea, magra, pequena, cabelo escuro, roupas pretas, me perguntou sobre beijos e eu tinha um beijo pra dar. Dois. Estava guardando.
Eu tinha amor, o toque das minhas mãos, eu tinha dois mundos e muita dor pra oferecer.

Beijei-a.

Não era a garota certa, a que esperei durante anos, Berenice, Ulrika, mas era o certo naquela hora, sua boca macia, ascendente em Peixes, vida em Macaé, beijei sua boca porque sim, não porque a amava.

Eu guardei esse beijo, esse dedal, por muitos e muitos anos. E ela nem sabe. Nunca vai saber. Guardei pra uma garota que eu amei, que eu viesse a amar. Que me desse vontade de fazer cafuné, cujo corpo eu admirasse todos os dias, sem falta.
Eu guardei pra essa garota que eu quisesse ouvir falar da vida, do mundo, da morte, da mãe.
Pra alguém pra quem eu não quisesse mais mentir.
Que me fizesse querer voltar pra casa, uma pessoa a quem eu fizesse sentir bem, que me chamasse de lar.
Uma garota pra quem eu escreveria poesias, quebraria pratos, bateria portas, levaria flores e abriria as janelas pra arejar a casa.

Mas essa garota não existe, existe?
Não, eu a inventei.
Assim como invento as pessoas que quero amar e tento enfiar pessoas reais nesses moldes, causando dor e sofrimento pra gente que não tem nada a ver com as minhas loucuras.

Eu a beijei. Seu beijo era bom, sua boca macia, seu corpo tão frágil que eu tive medo de quebrá-la, que eu não sabia onde pegar, o que fazer.
Foi bom.

Não era a garota certa,
mas era o momento certo,
ou talvez isso nem exista e eu só esteja tentando enfiar significado em coisas que não o possuem.

Beijos,
Rejeições,
Amor.

Bom, garota certa, onde quer que você esteja, caso você exista:
não venha.
Fique onde está. A salvo.
Fique onde está,
e vai ficar tudo bem.

O mundo é grande,
você não tem que passar por isso.
Ninguém tem.

25x04 The Switch

Imagem : TingTing Huang

Cara Ulrika, 
eu quero te fazer perguntas. Um só, na verdade. 
Eu tô cansada, maquiagem escorrendo pelos olhos, alma escorrendo pelos dedos. Em algum lugar, em algum momento, ontem ou hoje, estou dançando feito louca, feito uma possuída, tentando me livrar de todo esse peso, de todo esse medo. 
Em algum lugar, eu ainda estou cansada, ofegante, mas não paro de dançar. Meus pés doem, mas eu não me sento. Eu danço de olhos fechados no meio de um monte de gente. 
Eu não sei dançar, você sabe. 
Mas não existe saber dançar, você me disse isso. Existe dançar pros outros. Existe dançar pra mim. 
Danço pra mim mesma, giro e pulo, não sinto vergonha, eu só quero ficar cansada e dormir ali mesmo, no chão sujo e escorregadio de terra e álcool. 
Não bebi. Dessa vez não. Eu quero sentir toda a dor, todo o som, quero ver as luzes e as pessoas. Tudo nítido, tudo como deve ser. 
Eu não sei que dia é hoje, que hora é hoje, que dia é agora. Eu não preciso saber. 
Uma garota, eu não consigo me lembrar de onde a conheço, me diz algo e eu não entendo. Mas ela se parece com você. Todas as garotas do mundo se parecem com você, menos eu. 
Andei tentando te substituir, como você previa. Andei machucando gente que só precisava da minha amizade. Andei guardando segredos. E abandonando as pessoas quando achava que não podia mais ficar calada. 
Tá ficando pesado demais. 
Eu tô crescendo, mas o peso cresce junto. 
Por isso eu danço. Pra mim, em um lugar onde ninguém me conhece, cheio de gente que não me interessa. 
Eu preciso me desligar disso, me desligar de tudo, como você me ensinou, como fazíamos. 
Sentir o básico, o crucial. 
Talvez eu jogue fora esse guardanapo, talvez te envie, junto com os milhares de outros. Eu só precisava que você, de todas as pessoas, soubesse: estou voltando, aceitando as coisas como são, como devem ser. 
Estou desistindo de lutar.
E é por isso que estou te escrevendo isso, mesmo sabendo que você nunca vai ler, porque sabíamos que esse dia chegaria, que, um dia, eu teria a coragem de perguntar, sem ter medo de que você responda:

Onde você está?

24x20 Atlas

Imagem: TingTing Huang

Ossos fracos, achatados. Eu não sou a mesma.
Me olho no espelho, me vejo derreter um pouco a cada manhã.
Estou perdendo estabilidade.
Desenho números. Mãos, pés, pernas, braços, abdome.
Não funciona.
Continuo derretendo.
Deixei de ser sólida. Envelheço, me dissocio.
Às vezes, sinto que sou capaz de me sentir espalhar pelo vento, me misturar às partículas dos livros, das cadeiras, às roupas.
Estou me tornando algo. Desconhecido e conhecido, ao mesmo tempo.
Estou me tornando.
Não há nada que eu possa fazer pra parar.

24x18 Let it bleed

Imagem: TingTing Huang

- Deixe sangrar - disse uma mulher, um dos fantasmas azuis, debruçando-se sobre o meu corpo.
- Por que deixar sangrar se eu posso fazer parar com um estalar de dedos? - disse o outro.
- Deixe sangrar, já disse.

Eu podia sentir meu corpo inchar feito um balão sendo enchido de água.
- Deixe-me abrí-la. - ele disse
- Espere.
- Ela está sangrando por dentro há bastante tempo. Deixe-me abrir.
- Ela vai sobreviver. Ela sempre sobrevive.
- Eu posso ajudar. Eu posso consertar. Posso drenar o sangue e curar os cortes. Posso fechar as feridas e ela nunca vai saber o que houve.
A mulher, o fantasma azul que, durante o diálogo havia estado debruçado sobre mim, se levantou de uma vez.
- Quem você pensa que é? Com seu conhecimento de corte e costura, de sangue e dor. Você acha que pode consertar tudo? Você não é o Deus de que ela precisa. Você não sabe de nada.
- Deus não existe.
Ela puxou-o pelos cabelos e empurrou o rosto dele de encontro ao meu,vulto azul cheirando a travesseiro.
Os olhos dele eram estranhamente sólidos, tão sólidos. Muros enormes.
- Eu posso ajudar, ele disse, eu sei que posso.

E eu tirei minha voz de algum lugar obscuro, juntei as sílabas aos poucos, com calma, e deixei que tudo escorregasse pra fora da goela:
- Deixe sangrar.

24X15 Beloved Deirdre

Imagem: TingTing Huang

Quem está lá pra você, querida? Você se sente segura? O mundo é um lugar seguro?
Quem vai te amar quando você não se lembrar mais como é que se levanta dessa cadeira?
Ninguém vai amar sua loucura e decrepitude, as rugas e a degeneração, o murchar dos seus neurônios. Ninguém além de mim.
Quando o seu nome deixar de ser conhecido, quando só a morte souber seu verdadeiro nome, eu vou te reconhecer e te chamar pra conversar.
Quando sua boca secar e a vida se tornar insossa, quem vai te descrever o gosto das maçãs?
E quando o cansaço chegar, a fraqueza e o peso, quem vai te admirar por entre as grades da prisão do seu corpo?
Quem vai levar adiante a sujeira dos seus genes, quem vai velar pelo seu sangue e sua carne?
E quem vai te tocar mais forte até que você sinta, quem vai gritar seu nome no meio do dia?
Quem vai enxergar em você aquela que você foi? Quem vai saber sobre os seus cabelos rebeldes, sobre a firmeza da sua pele e a cor dos seus olhos por inteiro?
Quando a sua luz se apagar, quando você não souber mais quem é, quando não tiver mais nenhum interesse em ser, quando seu mundo se tornar mais real do que todos os outros.
Eu vou estar lá. Pode ir sem medo. Quando a hora chegar, estarei lá.
Não vou me atrasar.

24x12 Blindness

Imagem: TingTing Huang

Se você não fosse um rosto, seria o cheiro da sua pele ou do seu perfume, da combinação única dos dois.
Ou. talvez, fosse o gosto de ptialina, água e mucina. O gosto que meus neurônios sentem.
Talvez fosse toque, dedos na pele, o contato das roupas e dos ossos. Aferências.
Talvez fosse luz e sombra. Som.
Uma voz, vibrações, ar, ossos e membranas.
Você entende, agora?
Não é só o seu rosto. É você inteiro, as interações das quais você é capaz.
E meus genes, meus neurônios.
Você me diz que não tenho coração, que não sou capaz de amar ninguém.
Mas, amor, eu te amo com meu cérebro. Minto, com meu sistema nervoso central. E periférico. E autônomo. Definitivamente.
Coração não tem nada a ver com isso.
Ou quase nada, pelo menos.

24x08 Strangers on a train

Imagem: TingTing Huang

Então, eu matei alguém. De novo.
Era Julho, e eu não me orgulho disso.
Acalme-se,  eu não matei alguém, propriamente dizendo. Mas não matamos pessoas o tempo todo?
Não é o mesmo que matar quando você esquece alguém? Não é o mesmo que desrespeitar a memória de alguém? Não é matar quando se deseja muito a morte de alguém?
Bom, eu estava em um trem que viajava de volta a Dublin, ou em um carro que voltava de uma casa onde pensei que não pisaria mais.
Ou talvez, eu estivesse em um trem, sentada ao lado de um estranho que eu talvez tenha amado, que eu talvez ame. E estávamos conspirando a morte de alguém que nem mesmo conhecíamos. Porque os assassinatos mais fáceis são aqueles onde não se conhece a vítima. Sai-se impune. Quem poderia suspeitar de você se você não conhece a vítima, certo?
Então, nos sentamos nesse trem, ou nesse carro, onde quer que estivéssemos e conspiramos.
Nós falamos em línguas diferentes e não nos entendemos. Ao final, cada um tinha uma vítima diferente a quem achava que deveria matar. Nós pensávamos de maneiras diferentes porque éramos estranhos, porque somos estranhos que não são capazes de se entender, que nunca vão entender um ao outro.
Temos pensamentos completamente opostos.
Então, naquele dia, quando decidimos envenenar nossa vítima, afogá-la em sangue, afogá-la antes mesmo que ela pudesse tomar consciência do afogamento e da morte, eu decidi que o mataria, ele decidiu que a mataria.
Apertamos as mãos e nos separamos.

Ele me deu o veneno, eu o envenenei e nós observamos, esperamos, eu rezei, enquanto ele morria, lentamente, sem nunca ter me levantado a voz, sem nunca ter sabido meu nome ou sugado meu sangue.

E eu sinto muito, diariamente. Mas não saí impune, juro que não.
Não sou a mesma.
Nunca mais vou ser.