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33x13 Princess of Hearts

Imagem: TingTing Huang

"The card also appears to indicate a woman falling in love"

 Feito Alice, caí no buraco do coelho branco, cabeça cheia de gummy, tonta, feliz. "siga o coelho branco"
Andamos, Elspeth e eu, e eu o vi, na penumbra, atrasado, sempre atrasado, um timing terrível feito o meu.

Estou preocupada, relógio parado, minha vida está uma zona, corações batendo em descompasso, desordem, caos, sem tempo pra levar o lixo pra fora.
As horas nos relógios dos outros batem, iguais, 10:10, 07:07, 13:13, 19:19, 18:18
Meu celular inunda de mensagens, minha cabeça inunda de romance, ressignificando o universo, os eclipses, a sua existência.
Mal entendidos.
Eu não sei o que quero.
E admitir isso também traz uma certa paz.
Algo relacionado à certeza de que não sei e, portanto, a pressão de não conseguir não pode me afetar. A pressão de conseguir não pode me afetar.
Eu não preciso saber.

Gosto disso.

Já me sinto capaz de amar, andar de mãos dadas. Talvez até conhecer pai e mãe.
Não me sinto mais quebrada, destruída, pela metade,
incapaz de oferecer mais do que migalhas.

Não, estou mais forte.
Gosto de quem sou.
e você também vai gostar, quem quer que você seja.

Venha.
Eu gosto de vampiros, de dançar na ponta dos pés, de chuva e de camarão.
Não gosto de ficar doente, nem de arrumar meu quarto.
Setembro tá acabando e eu já quero desistir de você,
já tô ficando assustada com os mal entendidos, com medo de que você seja quem eu não quero que seja.
Então, espero, sem dizer nada.

De pé, no escuro, esperando o último ônibus passar, coração na mão, sem ter certeza da hora, da vida, do futuro.
E quase consigo te sentir,
juro,
quase consigo ouvir seus passos chegando junto com o último ônibus que parte de setembro,
a mão estendida fazendo sinal pra que ele pare.
Me distraio com seu rosto,
te reconheço,
meu corpo todo te reconhece, sussurra empolgado,
e eu sinto vontade de chorar de emoção
porque você veio.
Eu nem sei se você me reconhece, olha,
mas isso não importa ainda.

- Você vem?
é o que a tua voz - cujo tom eu nem consigo imaginar - diz

E eu vou.

Eu vou.
Vamos juntos.

30x02 Market Guy

Imagem: TingTing Huang

Estava no mercado comprando bombril, sem necessidade.
Vestia minha roupa de garota bonita e séria, uma discrepância gigante entre o estilo e meu rosto, meu dia.

Ele comprava água em garrafas grandes (mas nem tanto), e outras coisas das quais não me lembro. Rosto cansado, aquelas camisas que gritam rapaz trabalhador, cara de cansado.

CPF na nota, saiu com o andar cansado, de quem não vê a hora de chegar em casa.

Pra onde é que você vai? Onde é que você se esconde? O que é que você faz?
Por que a gente não se conhece?
Por que é que a gente não sai pra tomar café, ou comer alguma coisa?

Por que não?

Eu não quero ficar junto,
eu não consigo lidar com outras pessoas,
eu não consigo lidar comigo,

mas a ideia das oportunidades perdidas não me sai da cabeça.

E você tá aí bebendo sua água de garrafas médias, vestindo suas camisas de rapaz trabalhador, indo e vindo pelas mesmas ruas que são minhas,
e nem sabe
que eu quis muito amar você.

Que bom.
Boa sorte.

30x01 Desfecho

Imagem: TingTing Huang

Uma homenagem a um amigo que nunca tive, cujo nome não sei, mas que já persigo há um tempão: Tom.

Cadê você?
Some, não me responde.

E eu fico aqui sem saber o fim dessa história, que não é minha nem é mais só sua.

Me conta sobre o rosto dela, sobre o cheiro dela e os cabelos recém-lavados.
E eu te conto sobre--
Eu te conto sobre ele, mesmo que você não queira saber.

Vamos falar dessas músicas cheias de significado e eu te mostro minhas cicatrizes e os lugares onde meu coração se partiu.
Você escreve essa tua carta, eu escrevo as minhas,
e queimamos tudo na lixeira, pra que a gente nunca corra o risco de querer entregar.

Senta aqui do meu lado na janela, e a gente toma sorvete e chora as pitangas, como deve ser.
A gente enche o saco, você me explica as etiquetas nas suas roupas, e me diz se ainda dói, me diz quando para, até outubro chegar e passar.

Me explica aquela foto,
aquela música,
noite,
cabelos
e pizzas.

e eu te explico também, eu te mostro minha cicatriz,
e meus livros,
eu te conto sobre a grama e aquelas coisas que chamo de pinhas,
me dá tua mão que eu vou te levar e te contar como foi que eu fiquei assim,
eu vou te falar sobre esse cheiro, e sobre aquele momento em que a gente se olha e faz sentido.
Eu vou te explicar toda essa insegurança e essa falta de conexão, só me deixa demonstrar colocando a cabeça no teu braço.

Vou colocar a mão na tua e não vai ser a mesma coisa, pra você entender que eu entendo.
Que eu entendo
E que eu também tô torcendo


Pra que ele pense um pouquinho em mim.

Mas ó, venha. A gente sabe o que importa,
e não é isso.
Mesmo que eu já tenha digitado o número dele

Duas vezes.

22x17 The Following

Imagem: TingTing Huang

Na delicada tapeçaria recém tecida pela Mãe tem uma imagem de nós dois.
Estamos sentados em uma mesa, rodeados de gente que vem e vai, aparecendo e desaparecendo de acordo com as próprias escolhas.
Vocês está de costas para o observador, o eu presente. Não posso ver seu rosto, não reconheço nada em você.
Não posso nem ver como estarei vestida, como estará o meu cabelo, você está tampando meu corpo, deixando apenas meu rosto a mostra.
Tudo bem, eu odiaria saber. Acho que acabaria usando essa roupa todos os dias.
Também odeio não saber.
Questiono a Mãe: "Quando vou encontrá-lo? Quando ficaremos juntos?"
- Conhecê-lo. Todos são estranhos, mesmo quando convive com eles, quando acha que os conhece. Talvez, se tornem estranhos a partir do momento em que passamos a conhecê-los. Vai tê-lo, menina, no exato momento em que a frieza e a independência de um encontrar a lucidez, o ceticismo e a tristeza do outro. 

Vai acontecer quando as promessas forem falhas, quando a ajuda do outro for necessária. Quando houver liberdade.
"Como ele é?"
- Tem muita inteligência nos olhos, e angústia também. Ele é bom, mas incompreendido. Age com prudência e sabedoria, mas desperdiça seu tempo repetindo seus erros. Sente-se estagnado, mas não é infeliz. Ele está livre, está se desenvolvendo, mas há algo a caminho, desequilíbrio, infortúnio.
"Eu? E o que eu faço? Como o encontro?"
- Sua confiança , sua alegria, te impedem de encontrá-lo. Já disse: a objetividade deve encontrar a tristeza. Use sua inteligência e sua paciência, sua hesitação. Use o confronto a seu favor. O hoje é a finalização natural, a conclusão de algo. Você precisa aceitar as perdas, criança, o fracasso e a decepção. Está repetindo seus erros também. - Ela aperta meus pulsos, machuca - Eles, seus erros, te levarão até ele. Erre. Você precisa ser amarga, egoísta e infeliz. 
- Continue, acredite nas mesmas coisas. Você precisa acumular mágoas, se decepcionar. Precisa rejeitar oportunidades e sentimentos. Desanime, fique infeliz, não é difícil. É o único jeito. Você precisa, é o destino.

Acontece que estou feliz. Não eufórica, feliz. Estive triste há uns dias e não me vejo ficando daquele jeito de novo. Só sei que não quero forçar as coisas.
Se é o destino, então só me resta fazer o que faço de melhor: esperar. 

12x11 A story of death meets girl

Imagem: gedtee

(...)Alguém que possa te proteger de si mesma (...)

Estava grogue na hora, não sei se pelo seu súbito retorno a lá Edward Cullen ou pelos barbitúricos. Fechei os olhos, irritados pelas lágrimas de raiva, frustração e alívio, e dormi.
Sonhei que vivia no País do Verão e dormia sob a luz das estrelas. Sonhei que não era dona da minha própria vontade, que sempre havia algo me incitando. Sonhei que tinha um lugar ao qual deveria ir e, no caminho, me puxaram pelos dedos pra um buraco na grama, onde eu caí feito Alice. Ouvi meus ossos se partirem quando toquei o chão. Tentei dizer alguma coisa, gritar. Mas engasguei com a terra e os ossos. Eu soube que ia morrer e chorei, transformando em lama a terra no meu rosto.
No escuro do buraco algo tocou a minha mão e foi se entrelaçando nos meus dedos. Tentei falar, saiu um som rouco da minha garganta. "Shh", ouvi. Senti acariciarem meu rosto de leve. Ali, no escuro, sentindo que existia a possibilidade de estar na presença da própria morte, me senti em casa.
A morte começou a soltar minha mão e, como eu resmungasse, acariciou-lhe as costas e ergueu-a, cuidadosamente, na sua.
Pensei que era a hora de ir, de encontrar naqueles que amava, de me redimir.
Ao invés disso, senti uma leve cosquinha, quase nada: um beijo. Menos que isso, um roçar de lábios, tão cheio de significados e de hesitações, me fez sentir que tinha minha vida de volta. A morte se afastou, me deixando entregue a novos pensamentos, novos sonhos.
Acordei tarde, naquele dia, a boca seca de sono. A primeira coisa que vi foi você, sério, esperando.
- Ficou aí a noite toda?
Você assentiu com a cabeça.
- Veio mais alguém? Gideon?
- Ele já foi embora. Ninguém mais esteve aqui.
Então, tinha sido só um sonho. Fiquei tão infeliz que chorei, as mãos escondendo o rosto. Chorei sem me importar com você e com seu desconforto. Chorei muito, por minha vida e por minha covardia, até que acabassem as lágrimas. Enquanto secava os olhos com as costas da mão, reparei naquele fio de cabelo, grudado entre o anular e o mínimo. Um fio de cabelo nitidamente loiro, feito os seus.
Me lembro de olhar pra você e pensar que, talvez, você fosse diferente.

Que tola eu era, então.

4x04 Easy Conversations


E ontem me ligaram. Pra se certificar de que não me esqueci de nossos traumas comuns.
"Falar com você", ela disse. E eu ouvi "Ver se você é feliz pra que a gente possa arruinar isso".
dentro dos [ ], o que realmente queremos dizer uma à outra.
Eu: Oun, que legal [Não, não sou feliz]
Ela: E os estudos? [Espero que você estude muito ainda, sua idiota]
Eu: Estou fazendo o que posso. [Eu vou, não se preocupe]
Ela: Se você quiser sair... [Se quiser sair, não me ligue!]
Eu: Vida Social 0, sabe como é... [Sem chance, sair com você]
Ela: Ok, a gente se vê... [No inferno]
Eu: beijo [Espero que não tão cedo]
Ela: Errr... Eu sinto sua falta [*Ela realmente quis dizer isso.]
Eu: Eu também [*Eu não quis dizer isso. Eu a odeio]
Ela: Você me odeia, não é?

Sim, porque ela lê minha mente.

Eu: E você, me odeia?
Ela: Todas as vezes. Todas as vezes que ele fala comigo sobre você.

Ela desliga.

Ele fala com ela sobre mim.
Ele fala com ela sobre mim.
Ele fala com ela. Sobre mim. Sobre mim.

Eu me lembro dele frequentemente (que me perdoem as aspas). Dedos correndo soltos pelo papel, cabelos enrolados. Me lembro do assovio dele, do peso da cabeça dele no meu colo.
"Vou me casar com você", eu disse. Foi uma das poucas certezas que eu tive na vida.
"Você vai se casar com o AL, eu não quero me casar com você"
"Eu espero você querer"
Espero, eu disse. Eu disse olhando nos olhos dele, nos olhos do cara que me fez amar a espera.
Olhei nos olhos dele, tive certeza e menti.
"The heart will break, yet brokenly live on". Byron também foi um mentiroso. Eu não estou viva. E, onde quer que ele esteja, sei que ele está vivo. Tanto quanto eu estou.