Imagem: TingTing Huang
- Eu quero morrer. Eu só quero morrer - ela diz.
Conta uma história de ninar sobre viagens, idiomas, pais, filhos e o colchão.
Eu sei.
É a mesma história, de novo e de novo.
Eu quero morrer, mas nunca "me deixe morrer", por quê?
Por que você acha que tem escolha?
Nada aqui é real. Nada é seu. Nem mesmo você, sua vida, sua mente.
Nem as cores das cores ou o rosto das pessoas, seus olhos.
Ela caminha sobre a borda, quase cai, espero,
feito uma predadora.
"Venha"
E ele diz que me sente tocá-lo durante a noite, sente meu hálito queimar seu rosto e ouve a minha voz, minhas vozes.
Mas por que ele não vem?
Você não sabe quem sou?
Eu acordei ao seu lado e te dei o primeiro beijo do dia.
Fizemos amor, e você saiu pelas ruas, nu, gritando meu nome.
Eu decido se você pode ou não ser feliz.
E você está, não está?
Você é o dono do mundo. E eu sou sua dona.
Seus olhos pertencem a mim. E você sabe. Sempre soube. Antes mesmo de saber.
Eu estava lá quando você nasceu. Você não se lembra, mas eu te fiz dormir. Eu te fiz sonhar e sonhar até que você não soubesse mais acordar.
Eu te dei sede,
e a cura pra toda a dor.
Eu te dei amor e o calor necessário pra que você nunca mais queira ir embora.
Eu estou aqui.
Te dizendo que eles querem te ferir.
Eles querem te machucar,
mas eu não.
Tire suas roupas.
Corra, nu.
Livre.
Venha, venha comigo.
Você não é nada.
Você nunca será nada.
Você é lixo.
Doente, nojenta.
Você não serve pra nada.
Eu digo,
e te causo dor,
eu consigo sentir sua dor,
apertando,
roendo,
mas é o que eu faço.
Eu sinto muito, é o que eu faço.
Não tome seus remédios.
Você não precisa deles hoje.
Você está bem.
Você está curado.
Então eu escorro pela língua dela feito melado,
e ela se derrete,
está segura.
Todos estão seguros.
Você está segura.
A salvo do mundo
e das coisas ruins que ele pode fazer com você,
mas tem um preço,
pequeno,
você pode pagar,
é tão pequeno,
vá até o banheiro,
pegue gilete.
Eu não consigo dormir sem a minha mãe.
Existem monstros no escuro,
eu sou um monstro no escuro,
ela é.
Se eu acordar de manhã,
só não quero estar só.
Não pare de gritar,
ou elas vão te encontrar,
vão te encontrar onde quer que você esteja
e vão te fazer mal,
fuja
fuja
fuja
"me deixa ir embora
me deixa ir embora
me deixa ir embora, doutora
eu ja to bem. ", ela diz, enquanto eu acaricio seus cabelos brancos, com cheiro de suor , chuva e sabão e sussurro em seu ouvido cantigas de amor.
A médica levanta a cabeça, olha fundo nos olhos dela e diz
"Ainda não", e desvia o olhar
pra olhar pra mim.
Ela pode me ver.
Corre, prescreve pílulas e mais pílulas, tantas
pra que eu durma um pouco mais.
Mas aí ela vai pra casa, dirigindo,
fugindo de velhos fantasmas e medos absurdos de crianças,
e, quando chega,
eu estou lá esperando por ela,
feito uma predadora.
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43x21 Dinâmica uterina
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Ela estava chorando, gritando, me implorando pra deixá-la sair correndo.
Mas não tinha mais como fugir.
- Ele vai te dar um remédio agora. Vai fazer mágica. A dor vai desaparecer como se nunca tivesse existido.
Eu disse, sem perceber, percebendo
que queria que ele fizesse o mesmo por mim.
Que minha dor era como a dela,
regular,
intensa,
dessas que não melhoram com os remédios comuns.
Que eu precisava estar no lugar dela.
- Relaxe, relaxe os ombros, abaixe a cabeça
E, de repente, as mãos de Houdini, me fazendo massagem, destruindo a tensão com os dedos,
com amor,
com otimismo,
mas sem bupivacaína.
Parecia suficiente,
mas não,
não é.
Ainda dói,
fundo,
surdo.
Dói, rasga, vai e volta,
mas nunca some, nunca melhora.
"Quanto pior a dor, mais perto do fim estamos chegando", eu prometo.
Mas quanta dor eu consigo aguentar?
Minha verdade é verdade pra tudo,
pra todas?
- Eu só quero que tirem isso de mim,
34 semanas e diabetes me diz.
E eu digo a ela pra ter paciência, esperar mais um pouco,
mas eu também só quero que tirem isso de mim.
Agora,
agora.
Eu não quero mais sentir dor.
Mas tudo o que eles sabem - eles sabem de alguma coisa? -
é fazer perguntas,
sangue ou líquido ou contrações, queixas urinárias, se ele se mexe,
e então desaparecem e não me dizem nunca quando passa a dor.
Mulheres gritam, mulheres choram,
aqui e em outros lugares,
no escuro,
em casa,
na igreja,
paradas de ônibus,
no meio do nada,
sem poder pedir ajuda.
E eu posso,
eu posso,
mas pra quem?
Tem sangue,
e líquido escuro nas minhas mãos,
ele não se move,
eu sei que tem algo errado.
Quando o mundo está em silêncio,
eu quase posso ouvir seu coração bater.
Mas caminho,
caminho,
está chegando a hora,
mas dói,
dói tanto,
que eu não sei se consigo aguentar,
que eu não sei se quero aguentar.
mas eu queria tanto.
Deus
é bom e justo
e o interior do meu corpo é quente, febril,
me diz
quantos centímetros?
Quantos centímetros de dor eu preciso aguentar até que você decida que não preciso mais aguentar?
Então a hora chega e eu grito seu nome,
eu quero segurar a sua mão,
eu não quero passar por isso sozinha,
me dizem pra prender a respiração,
fazer força,
mas eu não tenho forças sem você aqui.
Só que você não vem,
você não consegue me encontrar,
e eu tenho, mais uma vez, que fazer tudo sozinha.
Sempre sozinha,
mas agora eu tenho isso,
então eu seguro o grito entalado na garganta e faço força,
minhas últimas forças,
depois de tanta dor,
tanto medo,
tanta procura,
eu não vou mais ter que ficar sozinha.
Então,
força
força
força
não para
assim
empurra meu dedo
força de coco
prende a respiração
descansa
ele precisa nascer
mas eu não consigo
você consegue
e eu dou tudo de mim
tudo de mim pra você,
mas você não vem
você não sai,
não é seguro aqui
e você sabe
e sofre
alguém te empurra,
te obriga a sair
e você sai,
em silêncio,
se recusa a chorar,
se recusa a respirar,
se recusa a viver
se recusa a ficar
e me deixa só.
- A dor vai passar assim que ele nascer, ela disse.
Mas não passou.
Não passou.
E agora?
- Alta.
Ela estava chorando, gritando, me implorando pra deixá-la sair correndo.
Mas não tinha mais como fugir.
- Ele vai te dar um remédio agora. Vai fazer mágica. A dor vai desaparecer como se nunca tivesse existido.
Eu disse, sem perceber, percebendo
que queria que ele fizesse o mesmo por mim.
Que minha dor era como a dela,
regular,
intensa,
dessas que não melhoram com os remédios comuns.
Que eu precisava estar no lugar dela.
- Relaxe, relaxe os ombros, abaixe a cabeça
E, de repente, as mãos de Houdini, me fazendo massagem, destruindo a tensão com os dedos,
com amor,
com otimismo,
mas sem bupivacaína.
Parecia suficiente,
mas não,
não é.
Ainda dói,
fundo,
surdo.
Dói, rasga, vai e volta,
mas nunca some, nunca melhora.
"Quanto pior a dor, mais perto do fim estamos chegando", eu prometo.
Mas quanta dor eu consigo aguentar?
Minha verdade é verdade pra tudo,
pra todas?
- Eu só quero que tirem isso de mim,
34 semanas e diabetes me diz.
E eu digo a ela pra ter paciência, esperar mais um pouco,
mas eu também só quero que tirem isso de mim.
Agora,
agora.
Eu não quero mais sentir dor.
Mas tudo o que eles sabem - eles sabem de alguma coisa? -
é fazer perguntas,
sangue ou líquido ou contrações, queixas urinárias, se ele se mexe,
e então desaparecem e não me dizem nunca quando passa a dor.
Mulheres gritam, mulheres choram,
aqui e em outros lugares,
no escuro,
em casa,
na igreja,
paradas de ônibus,
no meio do nada,
sem poder pedir ajuda.
E eu posso,
eu posso,
mas pra quem?
Tem sangue,
e líquido escuro nas minhas mãos,
ele não se move,
eu sei que tem algo errado.
Quando o mundo está em silêncio,
eu quase posso ouvir seu coração bater.
Mas caminho,
caminho,
está chegando a hora,
mas dói,
dói tanto,
que eu não sei se consigo aguentar,
que eu não sei se quero aguentar.
mas eu queria tanto.
Deus
é bom e justo
e o interior do meu corpo é quente, febril,
me diz
quantos centímetros?
Quantos centímetros de dor eu preciso aguentar até que você decida que não preciso mais aguentar?
Então a hora chega e eu grito seu nome,
eu quero segurar a sua mão,
eu não quero passar por isso sozinha,
me dizem pra prender a respiração,
fazer força,
mas eu não tenho forças sem você aqui.
Só que você não vem,
você não consegue me encontrar,
e eu tenho, mais uma vez, que fazer tudo sozinha.
Sempre sozinha,
mas agora eu tenho isso,
então eu seguro o grito entalado na garganta e faço força,
minhas últimas forças,
depois de tanta dor,
tanto medo,
tanta procura,
eu não vou mais ter que ficar sozinha.
Então,
força
força
força
não para
assim
empurra meu dedo
força de coco
prende a respiração
descansa
ele precisa nascer
mas eu não consigo
você consegue
e eu dou tudo de mim
tudo de mim pra você,
mas você não vem
você não sai,
não é seguro aqui
e você sabe
e sofre
alguém te empurra,
te obriga a sair
e você sai,
em silêncio,
se recusa a chorar,
se recusa a respirar,
se recusa a viver
se recusa a ficar
e me deixa só.
- A dor vai passar assim que ele nascer, ela disse.
Mas não passou.
Não passou.
E agora?
- Alta.
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