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47x11 Ophelia, parte 1

 

Imagem: TingTing Huang

Ophelia drowns in a pool of possibilities, eu repito, feito uma louca, feito uma prece. 

Tenho um sonho recorrente, no qual me encontro e te encontro, morto, ambos mortos, afogados numa piscina enorme e cheia de possibilidades infinitas, sem bordas. 

Confundo mitologias, sinto como se um encanto de Merlin me pusesse completamente louca, eu ouço a sua voz e eu sei, eu consigo lutar contra irmã-irmão, mas eu não consigo lutar contra Morfeu no seu próprio reino. 

Então, eu acordo, noite após noite, no mesmo sonho, ou do mesmo sonho. 

Se me pergunto o que é real, já não sei. 

Tudo o que sei é que Ophelia de afoga numa piscina de possibilidades e eu não posso. 

Eu não posso, não posso, me afogar nessa piscina, 


mas eu não sei nadar. 

46x10 Estrabismo e outras tempestades

 

Imagem: TingTing Huang

Vou te contar um segredo, um que eu nem mesmo sei. 

(Tapo um pouco os olhos com as costas da mão. A luz no seu ombro incomoda meus olhos, sabe? Meus óculos não tem lentes antirreflexo)

O que eu tô tentando dizer é bem simples, na verdade. Mas, ao mesmo tempo, é complicado. 

Tem a ver, como tudo na vida, com a minha mãe. Não, na verdade, talvez com o meu pai. 

Quero dizer, tem o bigode, as laranjas e um cheiro peculiar de toalha molhada, critérios de um DSM que ainda nem sequer foi escrito, critérios nos quais você não se encaixa. 

Ele gostava de discursos, de política, de gente. 

E eu gosto de brigadeiro branco, cogumelos e desse devaneio que tenho com a sua boca.

Olha, não me leve a mal, eu estou tentando te contar que 

Eu não me lembro direito, mas sei que tem a ver com a forma como meu coração parece sair pela boca quando você chega, ou com meus atos falhos, ou com minha dificuldade imensa de controlar esse impulso que sinto de te dizer o que me vem à cabeça, a sensação de me afogar no silêncio entre a gente. Tem a ver com a vontade de tocar a sua mão e a sensação rascante de que eu vou morrer se não invadir seu espaço pessoal no meio da noite. 

Sabe, eu não sei do que se trata isso tudo, mas talvez tenha a ver com a sensação de que vou enlouquecer longe de você e perto de você também, ou talvez isso também já seja parte de um quadro psicótico. Não sei, pode até ser. 

Eu quero te falar que tem essa coisa, essa alguma coisa, que eu quero saber o que é, que eu te analiso inteiro e procuro dentro e fora, que eu quero arrancar ou quero, que eu nem sei o que eu quero. 

O que eu quero te explicar é que você faz chover dentro de mim, transborda tudo, destrói o que eu tenho de meu, de seguro, de certo, escorre feito cera de vela acesa pra dentro dos meus sonhos, dos meus dias bons, contamina tudo e eu nem sei mais como tenho conseguido silenciar o animal que ruge seu nome. 

Tô aqui contando carros na varanda e pensando se isso mata, se se morre disso,

vontade. 

Se der pra morrer de vontade, 
meus dias estão contados. 

46x03 A friagem

 

Imagem: TingTing Huang

Deita.

Vento quente, sufocante, sua perna, seu corpo, quente, sua por baixo do tecido grosso. 

Estende os dedos e enrola, fio a fio, rápido, ligeiro. 

Por fora, dormente, atenta. 
Por dentro, a mulher é um turbilhão. 

Ventania gelada, sopra, congelando as veias, o estômago afunda, caos e

Para, respira. Tenta se concentrar em movimentos lentos e propositalmente curtos. Um balé, uma dança. 
Enrola os cabelos com os dedos. Não consegue não fazer algo. 

A angústia, a friagem interna avançam, inexoravelmente. 
Ela, em contrapartida, luta como pode, senta, deita perto do sol, queima os pés e enrola, enrola os fios até que se quebrem e caiam, murchos, no estofado escuro.

Dói feito pesadelo, mais do que os pesadelos até, porque não para, não passa. 
Aos poucos, ela sufoca, gelada por dentro, quente por fora. 

Sente a friagem consumir tudo, seus sonhos, a manhã, o conceito de cadeiras, a ideia de verdade, corta em pedaços quem ela quer ser. 
Agulhas geladas, perfurando o peito enquanto ela, como num ritual, enrola e enrola e enrola os cabelos. 

Ele, silêncio.

Ela, tempestade de verão, chuva fria na terra quente, inundando, lavando tudo.
Destruindo o que quer que esteja no caminho. 

45x21 Teleborianism II

 

Imagem: TingTing Huang

Ela olhou nos meus olhos. 

Magra, parda, os olhos úmidos de chorar. Ela me pediu que a deixasse morrer. 

E eu, que já matei tanta gente, logo eu, disse que não. 

Ela argumentou, me jurou que já tinha feito de tudo. Jurou que já tinha aproveitado a vida, que 21 anos tinham sido mais do que suficientes. 

Ela me prometeu que lorazepam, clomipramina, amitriptilina e venlafaxina,
que seu problema não era a serotonina. Seu problema, ela afirmou, era a vida. 

A vida era muito. 
A vida era demais. 

Me deixa morrer

Ela jurou que não queria mais sentimentos, não queria viagens, nem cores, nem músicas, nem os filmes novos da Marvel, nem beijar alguém que você sempre amou, nem primeiros beijos, nem sexo, nem a dor de perder ou de ganhar. 

Ela me disse, por favor, acredite, eu fiz tudo o que me pediram, mas não melhora nunca. E eu não quero que melhore. 
Eu só quero que acabe. 

E eu, intrometida, 
invasiva, 
salvadora não requisitada, 
prometi mundos e fundos, prometi que o lítio, prometi que a quetamina, prometi preencher o vazio de uma vida com singelos 300mg. 

Na batalha entre a autonomia e a obrigação, 
quem venceu foi o tempo. 
Não eu, não ela. 

"Sinto muito", 
saiu da minha boca, sem controle, antes que eu pudesse sair correndo, sempre correndo, 
como se algo estivesse me perseguindo. 


45x19 When tomorrow comes

 

Imagem: TingTing Huang

Querido (amado, adorado) Otto,

olá. 
Como vai você? 

Gostaria de mentir, gostaria que fosse mentira, mas
não tenho pensado em você. 

Acho até que não tenho pensado.

Tentei um exercício, um velho velho exercício, aquela coisa que vivi muitas vidas atrás. 

(Penso em você quando despelo uma laranja, etc etc.)

Eu queria te escrever uma carta de amor. Mesmo não sabendo mais se ainda te amo. 
Quero dizer, eu te amo. 
Mas, você sabe,
Aqui vai.

Eu sinto a sua falta. Isso não é mentira. 
Quando ando de elevador, no frio e no calor, existe uma ausência, um vazio, palavras não ditas e o silêncio dos segredos sagrados das mulheres e dos padres. 
Sinto a sua falta, da maturidade que desconheço, dos seus dedos e do cheiro do seu couro cabeludo, mesmo quando nem sei. 

Afundo no sofá no meio da madrugada, insone, alerta - às vezes, eu espero ouvir a sua voz no apartamento silencioso, mesmo aqui, a quilômetros e universos de distância. 

Sinto falta do seu silêncio, suas cores. 

Elas não existem aqui, suas cores, Otto, elas são só suas. 

Se eu pudesse escolher um lugar do mundo pra me teletransportar, aqui, agora, por segundos que fossem, eu iria agora me sentar na sua frente em um café escuro, pra te ver comer sua fatia de torta sem prestar atenção a ela, girando o garfo entre os dedos enquanto mexe no celular, como quem tem ou quer ter todo o tempo só pra si. 

Eu quero te ver. 
Eu quero respostas, Otto. Sobre mim, sobre nós, quem sou eu e os mistérios do universo. 

Sinto que tô perdida e, sempre que me sinto assim, 
te encontro 
dentro de mim. 

Curioso, não? 

Fique bem. Fique vivo. 

Com amor, 

B. 

45x17 Kindred (evil) spirits

 

Imagem: TingTing Huang

Era minha. 

Ela veio, trazida ao templo. Eu podia ouvir os gritos, mesmo de longe, do meu quarto. 

Calcei as sandálias e prendi os cabelos. Tentei parecer calma, mas, como sempre, o coração vinha à boca. 
Tenho urgência em ir, medo. Ao mesmo tempo, uma certa calma. 

Há tempos que o sofrimento não me parece urgente, como pareceu outrora. 

Acendo as tochas e faço uma prece a Apolo, secreta e única, pra que ele me guie, me tranquilize. 

Os gritos da família irritam meus ouvidos sensíveis, eu peço silêncio. 

É mais um caso de espírito maligno aprisionado no corpo de mulher, se alimentando dos seus sonhos, da sua força vital. É uma sombra e eu sou a sacerdotisa da luz, a portadora da centelha. Eu trago a cura. 

Trago-a para o centro do círculo, onde ficamos sentadas, uma de frente para a outra. 
Peço à sombra que me conte sua história e ela conta, com calma e zelo, e febre, e sonho, delicadeza, medo, raiva, angústia. Sem lágrimas, sem gritos, a sombra me explica o mundo, e as histórias dos livros, a fantasia das almas, a união dos corpos, e que a morte não é a escuridão. Ela me olha nos olhos e arde, e queima, e eu posso ver
ela dança uma música que só nós duas ouvimos. 

Ela quer sair, mas não quer sumir, não quer desaparecer. 
Quer morrer, mas quer viver. 

Estendo a mão na sua direção e vejo o medo, insisto, e ela agarra. 

Meu coração bate tão forte que parece que vai explodir no peito. Ao invés de alívio e certeza, 
sinto medo e não sei o que isso quer dizer.
Sinto uma angústia brutal, um cansaço. Uma dor. 

E acaba. Ela se levanta, sã,
um milagre. 
A família me agradece e chora, deixa oferendas, beijam minhas mãos. 
E eu atordoada, gelada. 
Ela me olha, e arde e queima, 
e dançamos em silêncio uma música, 
aquela música
que só nós duas ouvimos. 

Não sei o que isso quer dizer, 
não sei. 

45x12 Into the rabbit hole

 

Imagem: TingTing Huang

Ela me conta um segredo e eu sinto que tenho um milhão de anos. Ela me conta que está esperando.

Eu envelheci à espera. E eu não posso mais esperar. Eu sei o que eu disse, sei que fizemos uma espécie de pacto antigo, com sangue e ossos, eu me lembro.

Eu me lembro da sua voz rouca sussurrando um feitiço, eu me lembro da tinta preta da caneta no papel que assinamos, eu me lembro do ruído que seus cabelos fizeram enquanto cresciam, cheios de promessas. 

Eu me lembro do pavor dos seus dedos. Cada cláusula, cada desejo, cada noite insone, cada sonho. Eu me lembro do seu cheiro de dia nublado. Eu me lembro do chão. Eu me lembro daquela noite. E das outras. Do tapete, da manhã. 

Eu me lembro, mas eu também não me lembro, quando foi isso? Quando foi que eu percebi que eu não podia mais? Quando foi que eu comecei a dizer pra mim mesma que você me destruiria, quando a verdade é: eu destruiria você. 

A verdade é, e eu só vou dizer isso mais essa vez, embora não seja mentira, e embora eu possa dizer em voz alta, mas - eu amo você. Tanto, mas tanto, que me machuca. Machuca minhas convicções, machuca quem eu também amo. Eu te amo tanto que me assusta, que te assusta, eu sei. Você não sabe como isso funciona, sabe? 

Eu te amo tanto que mataria nós dois. Você, de medo, de pavor. E eu, de solidão. 

Eu te amo tanto que criei na minha mente essa bolha, essa realidade alternativa em que isso poderia, talvez, funcionar. Eu te amo tanto que sei que não vai. 

Eu te amo tanto que vou te deixar nunca sentir isso, essa intensidade, esse terremoto, tempestade, eu nunca vou te deixar molhar os pés em mim, se afogar no oceano do que eu tô sentindo agora. 

Eu te amo tanto que vou te deixar dançar sozinho, ou acompanhado, e não vou interferir. Eu te amo tanto que vou brindar à sua felicidade. Eu te amo tanto e eu estou tão apavorada, paralisada de medo, de nunca sentir o gosto da sua boca e o seu coração batendo perto do meu peito, com tanto medo como se minha vida dependesse disso pra continuar. Mesmo assim, eu brindarei e desejarei felicidade, de verdade. 

Eu te amo tanto que estou te deixando ir - o que não quer dizer que vou deixar de te amar.
Eu te amo tanto que vou te deixar sozinho, na sua própria escuridão, pra achar seu próprio caminho. 

E mesmo que meus ossos estremeçam, mesmo que meu sangue cante seu nome e mesmo que eu encontre seu rosto em um estranho na floresta, mesmo assim, 
apesar das juras, e do pacto, e das profecias tecidas em tapeçarias e mesmo se seus pés sangrassem de tanto andar pelas encruzilhadas do submundo até o meu templo, e mesmo que você seguisse o fio de lã vermelho até o centro do labirinto, mesmo que você voasse sob o oceano, mesmo se você enfrentasse novamente os ciclopes, feiticeiras, tempestades, donzelas amaldiçoadas e pretendentes, nem mesmo assim

Não.
Nem mesmo assim.

Eu te amo tanto, que acabou. 

45x10 That feeling

 

Imagem: TingTing Huang

Eu não sei mais me expressar feito uma menina tocando piano no escuro da própria dor, eu não sei dizer o que tô sentindo. 

Uma velha, a mais velha do mundo, grasna, irritada e infeliz. 
É um mal estar. 

Mas não é. 

É uma sensação, um sentimento que não melhora, nem mesmo com a venlafaxina. 

É uma coisa aqui dentro, nem fome, nem sono, nem dor de viver. 
Ou talvez seja. 
Talvez seja eu, finalmente entendendo e querendo viver tudo isso. 

Tem uma coisa acontecendo comigo, uma coisa em mim, uma saudade que não sei nomear, intensa, profunda, marcante, que morde, belisca e pinica. 
Tá na ponta da língua o nome, eu quase posso tocar a palavra

É aquela sensação de que 
Sabe quando...? 

Tem uma coisa batendo, uma inquietude e o silêncio e a sua demora em dizer, e as HQs e o seu cheiro que eu já esqueci, e o medo de que um dia eu já não te tenha mais. 

Uma mistura disso e sono. 

Você sabe o que quero dizer, certo? 

Não? 

Então tá bom.
Amanhã, já esqueci. 

45x09 Estou querendo acabar com tudo

 

Imagem: TingTing Huang

Não. 

Tem uma pequena semente plantada num canto claro e cheio de sol, uma flor de pétalas bem finas, que floresce em climas mais frios, sob o sol gelado de uma cidade cheia de ladeiras. 

Uma frase curta, sem sentido, um sussurro em forma de sinapse

não existe amanhã

Acordo, ofegante. Sonhei, mas não me lembro dos detalhes, tento agarrar os elementos e eles se perdem, escorregam pelas beiradas da realidade imposta. 

Que dia é -
hoje. 

Hoje é hoje. 
E amanhã é hoje. Mês que vem é hoje. Semana que vem é hoje. 

Eu me deixo cair direto no abismo da rotina, na escuridão das horas, 
Que dia é
hoje? 

Hoje é hoje. 
E isso me faz feliz. Só preciso ficar hoje. Hoje é aqui. Amanhã é hoje, e isso me tranquiliza, de um jeito que você não consegue mais. 

Às vezes, eu ainda penso em acabar com tudo, 
mas não hoje. 
Hoje não, amanhã. 
E amanhã não existe, 
só hoje. 
Entende? 

Amanhã é hoje. 
Mas hoje não é amanhã. 
E é aí, meu amor,
que reside a magia dos dias e a razão pela qual eu não posso acabar com tudo, 
mesmo querendo,
hoje. 

Amanhã, quem sabe? 
Veremos. 

45x01 Por um triz

 

Imagem: TingTing Huang

Quase 2 anos, nem sei mais se sei como fazer isso. Mesmo assim, vou fazendo. 

E, admito, parece mesmo como andar de bicicleta. Meus dedos reconhecem as teclas, os comandos. Os sons, a sensação de estar finalmente em casa de novo. 

Olá, querido leitor. Estou aqui. 

Estou viva. 

Você está?


Tem tanto que eu quero dizer. Aconteceu tanta coisa. Eu quero explicar a razão de não ter voltado. Mas eu não tenho razão.
Por que agora? Por que hoje? 


É que hoje acordei de propósito.
E fazia muito, muito tempo, que só acordava por puro instinto. 

Hoje eu queria começar de novo. Hoje eu acreditei que realmente conseguiria se quisesse. Eu queria um ano novo, com a B. antiga, a que eu amo, respeito. Hoje eu quis encher a minha parede de cores e lembretes. 

Hoje eu queria escrever sobre Otto e Chuck. Hoje eu queria beber água e comer vegetais. Hoje eu queria fazer yoga. Hoje eu queria querer estar aqui pro ano que vem. Hoje eu queria ser quem eu não sou ainda. 

Hoje eu queria esquecer que tudo na vida é quase. Quase lá, mais um pouco. Tudo é esforço, trabalho duro. Tudo é por um triz. Tudo é na hora certa, quando você estiver pronta. Se Deus quiser. Um dia desses, quando se menos espera. 

Hoje eu queria esquecer que eu quero.
Agora. 
Pra ontem. 

Hoje eu queria fácil. Descomplicado. 
Queria sorte, do tipo que a Lindsay Lohan tinha em "Just my luck", daquele tipo de fazer parar de chover.  Usar uma calça branca que nunca se suja. 

Hoje eu queria ser a primeira opção. Ter a primeira opção. 
Hoje eu queria não aceitar menos que o melhor. 

Hoje eu queria saber o que fazer. 


Mas eu não sei. 

Por enquanto, tudo é quase. 
Tudo é por um triz. 

Por enquanto, só quero, quem sabe, 
acordar de propósito amanhã. 

44x10 Mistletoe

Imagem: TingTing Huang

Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.

Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.

Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.

O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.

Eu sou invencível.

Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem

Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e

amendoim

Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.

Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.

E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo

e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças

corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.

Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.

Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.

E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.

E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:

não tenho medo.

43x20 There is a road

Imagem: TingTing Huang

Onde é minha casa?

Minha casa sou eu, preciso entender.
Minha casa, meu cavalo, meu cão de caça.

Onde quer que eu esteja, estarei em casa.
Ainda assim, tenho medo.

Tenho medo da responsabilidade, de ser adulta, de estar só no mundo, dos ruídos lá fora, dos olhos e mentes.

Tenho medo de querer chorar. De querer voltar.
Medo de ir.

Medo de sair de um lugar onde estou só de passagem.
Minha casa sou eu.

E eu tenho medo do mundo.
Dos estranhos nas esquinas, da noite brilhante, das luzes.
Medo do portão entreaberto,
medo de não ter pra quem ligar.

Onde é minha casa?
Minha casa sou eu.
E ela é forte. Ela aguenta furacões, tempestades e o sopro do lobo.
Calor infernal, gritos, verdades e mentiras.
Aguenta pesadelos.
Aguenta a incerteza do futuro.

Onde é minha casa?

Minha casa sou eu,
e eu sou capaz de qualquer coisa.
Vou ficar bem sozinha.

Estarei em casa, se precisar de mim.

43x07 Small victories

Imagem: TingTing Huang

Olho pra câmera, arrumo o cabelo, tô nervosa.

- Diz umas coisas boas sobre você. Vai lá.

-- ON --

Mas

Aperto no peito: eu não tenho nada de bom pra dizer.
Você sabe.
Por que tá me forçando a fazer isso?

Você desliga a câmera por um segundo.

- Pensa. Tem tanta coisa boa sobre você.

Tanta.

Eu consigo enumerar de 1 a 1 trimilhão, coisas ruins sobre mim.
Mas hoje não, hoje não.

Ele me encoraja a dizer, com aquela cara de preocupado, ele só quer que eu diga em voz alta, eu só preciso dizer, preciso expressar

Eu sou boa.
Meu deus,
eu sou boa.
E amada.

Mais, mais.

Eu passei na porra da prova, e não foi acaso ou destino ou chute, como eu insisto em dizer pra me desmerecer.
E eu posso até não ter ido tão bem--- (ele desliga a câmera. "Não. Não". E eu entendo, apago, volto)

Eu passei na prova.

Eu tenho estudado.
E eu me importo. Parece que não me importo, mas eu me importo.

E eu sou boa.
Eu sou boa.

Eu estava lá.

Eu consigo fazer qualquer coisa.
Foi assim que eu cheguei aqui.

Eu ouço.

Eu sou boa.
Eu sou boa.

às vezes,
eu me sinto bonita.

Eu sou boa.

E você pode não entender porque é que eu preciso tanto repetir isso pra mim mesma todos os dias, todo segundo, feito um mantra,
eu sou boa
eu sou boa

pra poder respirar,
e entender,
pra poder aceitar

(eu sou boa)

pra acreditar,
pra não deixar as vozes me enterrarem no escuro,

(eu sou boa)

não importa.

Se você soubesse o quanto é difícil entender,
prender a respiração,
ouvir o que ela diz,
dormir,
acordar,
saberia o quanto é importante ser boa.

Eu não preciso de mais nada,
só de tudo.

Só preciso ser boa.
Eu sou boa.

Eu sou boa.
Eu sou boa.

-- OFF --

43x05 A mulher mais bonita da cidade

Imagem: TingTing Huang

Era uma vez uma mulher, a mulher mais bonita da cidade.
E também a mais friorenta.

Ela tinha o sorriso mais bonito do mundo inteiro.
E tinha nascido em fevereiro.

Fazia mágica com as panelas, mágica que só ela conseguia fazer, que ninguém nunca vai conseguir copiar.

Doce de pauzinho.

Ela costumava se sentar na sua poltrona, feito uma matrona, uma rainha, e ouvir gente de todo o mundo contar problemas e discutir besteiras.

E me deixava sentar do seu lado e segurar sua mão, colocava a mão em cima da minha e me dava um sorriso de quem sabe de tudo o que há pra saber.

Ela sabia quem eu era, mesmo quando eu não sabia.

Sabia bem o que queria e o que não queria, contrariando ordens, contrariando homens e mulheres, sem distinção.
Teimosa e incrível, de um jeito que eu nunca vou ser, ela venceu a todos, venceu a raiva, o machismo e acho que até a morte, que provavelmente vinha de vez em quando pra se sentar no sofá e assistir novelas, comer peta e apreciar o jardim.

Ela distribuiu tanto amor, tanto amor, que não coube na gente, que a gente teve que sair por aí distribuindo também, tanto amor que não coube na família, que tivemos que espalhar e fomos agregando tanta gente que mal cabe nos lugares.

Ela me amava.
Ela me amava.

E eu quero, mais do que tudo, que haja algo de bom lá pra frente.
Que ela não esteja sozinha.
Que seja bem recebida, do jeito que ela merece.
Que haja um lugar pra sentar e assistir TV.
Que não seja frio.
Que ela possa cozinhar.
Que haja gente pra conversar.
E mãos pra segurar.
Quero que não seja escuro, que seja bonito.
E seguro.

Por favor, que seja seguro.

Era uma vez uma mulher incrível,
que deu origem a uma família incrível e cuidou dela por trimilhões de anos.
Ela era forte e incrível e linda, e mil coisas que eu nem sei, que eu não tive tempo de saber, que eu queria ter perguntado e agora não posso mais, porque nossos dias são contados.

Mas acho que o que importa é que eu a amava.
E ela me amava.

O resto a gente conserta um dia,
se houver um dia.

Amo você, vó.

Espero que a gente se encontre de novo, em um lugar especial e lindo,
do jeito que a senhora merece.

42x10 10mg

Imagem: TingTing Huang

Sobre saber e coisas que podemos escolher.

Faço ânsia de vômito,
você faz cara de preocupado.

Tá tudo bem, né?
Isso é bom?
É isso mesmo?

Não sei,
a gente não sabe.

O homem na farmácia não sabe,
nenhum de nós pode saber.
Só podemos esperar.

Dá vontade de jogar tarô,
mas tenho medo.

Quero ser otimista,
quero ser como você,
full-on Pollyanna mode,
me dizendo que tá orgulhoso,
que tá vendo os efeitos.

Então sinto vontade de vomitar,
mas sinto prazer nisso,
tá acontecendo.
Alguma coisa tá acontecendo.

Alguma coisa vai acontecer,
aqui dentro,
de dentro pra fora,
tá tudo aqui, dentro dessa coisinha minúscula e branquela,
a solução pra tudo,
o pedacinho ínfimo que ficou na caixa de pandora quando tudo escapou

Esperança.

10mg de esperança.

É muito pouco.
É muito pouco pra tanto sofrer, pra tanto enjôo e dor.
É muito pouco, amor.

Mas já é alguma coisa.

Esperemos.

42x09 Mother!

Imagem: TingTing Huang

E então ela se ergue sobre a cabeça da Caçadora ferida, e ela sabe,
ela sempre soube,
que essa hora chegaria.

Foi pra isso que ela caminhou sob o sol, saiu de casa caminhando no escuro de um dia de verão, quente e seco,
foi pra isso que ela reuniu tudo o que podia,
sangue, sêmen,
uma página em branco arrancada do caderno do karma,
uma armadura cheia de amor, com cheiro de azul e pequenas pintas pretas espalhadas feito uma constelação,

foi pra isso que ela correu, foi disso que ela correu por todos esses anos,
apenas pra ser trazida de volta ao começo,
seguindo o cheiro do seu próprio sangue.

Era chegada a hora de matar seu próprio monstro.

Ela sentia o cheiro de terra da sua primeira casa,
seu primeiro cachorro,
a textura dos azulejos da casa da sua avó,
cheiro da fumaça de cigarros,
o gosto de sal das suas próprias lágrimas,
cada dor,
cada oração da sua voz de criança,
suas costas doendo, vergando sob o peso de vários mundos que não eram seus,
o sangue úmido de uma pessoa amada molhando suas pernas

Ela tinha medo.
E sabia.
Ela sabia.
E sabia que o medo não significava que ela não podia atacar.
Era só medo.

Então ela atacou com as mãos nuas,
usou toda a força guardada em cantos escuros da Brasília de baixo,
cada pedaço de medo,
até a Besta parar de lutar.

Ela emergiu do sangue, ofegante,
assustada,
triste,
doente,

vitoriosa.

Ela podia fazer o que quisesse, agora.

Ela podia até ser feliz.

Early Cuts: Rio

Imagem: TingTing Huang

O céu tem gosto de sal.
A praia gelada me deixa louca, faz cócegas.

Gaivotas.
Gaivotas são reais.

E a espuma do mar vem, triste, me beijar os pés.

Eu sou filha de Iemanjá.

A sua boca me queima de saudade dentro do peito, mas eu preciso ficar.

41x08 O medo da coisa, a coisa do medo

Imagem: TingTing Huang

Abro as cartas, uma a uma, leio o seu nome, me assusto, mas continuo.

Tenho medo. Medo da coisa, medo do medo, medo do que quer que aconteça nas manhãs de setembro.

Eu tenho medo de não saber, de não ter dinheiro, do quarto vazio, dos escorpiões que saem do ralo e do amor.

Danço nua, no escuro, faço preces, mas meu futuro é incerto, as cartas me confundem, o som do mundo me canta canções divergentes e eu só não sei.

Sento no chão do apartamento sob a não luz de um eclipse e não choro, meu corpo rejeita as lágrimas, repele o fracasso e me corta e empurra pra que eu me levante e ande, e eu cambaleio até o banheiro, vômito preto cobre o chão e os meus pés, suja as paredes e as portas dos meus mundos.

Eu tô assustada e me escondo na curva do pescoço do homem que eu amo, e não durmo, não durmo e nem aceito que o tempo passe e que a vida continue lá fora, que ele vá embora, que o futuro se descortine de maneira imprevisível.

A coisa do medo, o medo da coisa é que me coloca próxima de quem eu era antes, de quem eu não quero mais ser, e ela me sussurra palavras que não compreendo, que não quero compreender, que não posso mais compreender, mas que eu tenho medo de voltar a compreender, então eu me afasto de você por medo de me afastar de você.

Loucura, é.

Eu sei.
Agora, eu sei.

Não pretendo cometer os mesmos erros.

40x12 Tennessee Honey

Imagem: TingTing Huang

Cheguei em casa, tranquei as portas, abri as janelas, cobertas pelas cortinas que te impedem de entrar.
Respirei fundo.
Livre.

Coloco o colchão no chão, eu já posso sentí-la acordando, se espreguiçando dentro de mim, como quem dormiu por anos e agora sente fome, uma fome que não cessa, de contato humano, de ouvir a própria voz, tocar os próprios cabelos.

Abro e fecho as mãos, tentando entender o movimento desse corpo que não é mais só meu,
onde eu não vivo mais só,
eu nunca estive só.

Tem um vento sutil soprando, quente, e eu danço ao som dele, passos lentos, e depois rápidos demais pra parar.

Meu corpo se move, ocupa espaços, faz uma dança bizarra e ilógica, elétrica, enquanto meu coração bate rápido, sem saber
que agora tudo pode acontecer

Eu me deito no chão e respiro,
deixando o ar entrar e sair dos pulmões,
eu sinto as pernas dela se esticarem dentro das minhas,
seu rosto tomando forma por debaixo da minha pele
enquanto eu deixo de ser eu.

Sem paixões ou sonhos,
personalidade
ou lucidez,
eu vou me apagando aos pouquinhos,
sem querer outra coisa.

Ela segura meu coração devagarinho, contém meus pulmões
e então aperta e solta,
aperta e solta
devagarinho
até que eles aprendam e repitam
até que meu coração bombeie o sangue todo do meu corpo no ritmo da canção do vento,
até que minha respiração se torne uma música assoviada

E todo o meu corpo
desliga

E reinicia
Ela abre meus olhos, os olhos dela
sorri um sorriso que não é meu
e cantarola uma canção, mais antiga do que eu,
mais antiga do que todos que já conheci,
que me lembra um sonho que tive quando ainda nem existia

E só então, quando a canção chega ao fim,
ela se espreguiça, usando meus braços
e se encolhe feito uma bola
e dorme

pra que eu finalmente possa acordar.

40x11 Uma incansável tapeação

Imagem: TingTing Huang

Então, dia dos namorados.
Faltam exatamente 12 minutos pro final do meu 24º dia dos namorados nesse mundo maluco.

Eu não tenho namorado.
Eu não estou apaixonada por ninguém.
E isso é surpreendentemente ok.
Ok, só mais um desses dias em que eu acordo atrasada, levo mil anos pra pentear meu cabelo, passo horas em filas no mercado e em lojas, só porque o sistema caiu ou porque eu saí de casa meio tarde, eu faço meu próprio jantar, dou risada de algo que a minha irmã me diz.

Sei lá, eu tô feliz.
Feliz o bastante pra encher a barriga sem culpa, porque eu fiz esse frango assado maravilhoso,
pra dormir a tarde inteira,
falar com o melhor, pior e único ex-namorado do universo sobre nada,
assistir episódios de séries aleatórias,
dar risada das piadas terríveis do melhor amigo de arco-íris que se pode ter,
terminar um livro,
e não ficar obcecada com o fato de não ter feito algo que deveria ter feito.

Tô feliz e orgulhosa de mim mesma.
É, as coisas não estão saindo como eu gostaria.
Não tenho escrito nada relevante,
ou estudado tanto quanto gostaria,
ou sido a pessoa que gostaria de ser.
Mas eu tô me surpreendendo, de um jeito bom.

Tô surpresa com a força das minhas crenças,
com os movimentos que meu corpo sabe fazer,
e com as sensações que ele pode alcançar.
Surpresa com o final das histórias que eu nunca contei,
com as pessoas e suas histórias,
as cores do céu em uma tarde de domingo,
minha incapacidade de cantar no ritmo certo ou de me apaixonar,
com o fato de que, às vezes, pessoas são só pessoas,
músicas são só músicas,
e nem tudo o que eu escrevo aqui ou no papel está escrito em pedra.
Eu tô surpresa com o fato de que quebrar minhas regras pode não significar trair tudo em que acredito,
tô surpresa com a minha coragem de falar o que sinto.
Porra, eu tô falando o que sinto, quando eu sinto.

Tô surpresa com os meus cabelos se enrolando e desenrolando
formando nós que eu não consigo desembaraçar,
e com o fato de que isso me parece perfeitamente natural
bonito até
Tô surpresa com o fato de que eu até gosto de mim.

Não só da minha companhia, de me sentar na janela e ficar
gosto dos meus pensamentos,
da minha comida,
da maneira como eu digo "Pare, descanse",
e da minha própria proteção, dessas barreiras que eu criei, nem pra me trancar, nem pra deixar de fora quem eu amo,
só pra me proteger das coisas ruins da vida.

Gosto de tentar,
acertar ou errar.
Gosto de refletir antes de julgar (nem sempre é fácil, é difícil pra caralho),
gosto de ouvir a minha voz,
gosto dessa minha nova maturidade disfarçada,
de sair e me levar por aí, no meio da noite, sim sim sim
sem saber onde vai dar
do mistério no horóscopo,
gosto de desembaraçar meus cabelos no meio da noite, sem ter lugar pra ir,
sabendo que tudo é possível.

De fechar meus olhos antes de dormir e pensar
tem alguém por aí
e não pode ser qualquer pessoa, não é mais sobre gostos comuns, ou horóscopo ou destino ou declarações de amor
porque eu gosto de quem eu sou,
do meu rosto deveras estranho,
do meu jeito repelente de homens,
das coisas que eu digo e penso

E é, eu estou pronta,
pronta para passar de novo por essa tapeação que é estar apaixonada,
uma puta quantidade de dopamina solta,
mas não dá pra ser qualquer pessoa,
a qualquer momento.

E não é que eu queira ferrar com a espontaneidade da coisa,
é que não quero magoar ninguém e isso me parece importante,
o que eu quero me parece importante
e eu gosto dessa nova B.,
gosto de querer coisas
de querer pessoas,
de querer bem.

Então tudo bem, vai ficar tudo bem.
Eu desejo um dia dos namorados incrível pra todas as pessoas, com namorado ou sem. Espero que ninguém tenha se sentido amargurado por ver um casal de mãos dadas ou um homem comprando flores, espero que isso tenha sido banal ou bonito de ver.
Eu espero que tenha sido só mais um dia, ou um bom dia.

Eu espero que,
onde quer que você esteja,
quem quer que você seja,
onde quer que você se encaixe,
esteja bem.
Feliz.
Espero que tenha sido um dia engraçado, bonito, meio poético,
quente, rápido, azul, tranquilo.

Fique bem.

Feliz dia dos namorados.