Mostrando postagens com marcador Bat For Lashes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bat For Lashes. Mostrar todas as postagens

37x21 O terrível dia jamais descrito (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Estava organizando as temporadas, ao invés de estudar, de explicar pra minha irmã como é que uma camisinha vai parar no quarto de alguém, de ler meu livro ou fazer qualquer coisa útil, quando me deparei com o terrível dia jamais descrito. Eu decidi, há um tempão, que jamais escreveria sobre ele porque não sabia como.
Acho que doía, também.
Acho que incomoda, um pouco, o que quer que isso queira dizer.

Mas não tenho medo da dor ou do incômodo.
Vamos lá, vamos terminar essa temporada com bravura. Vamos quebrar regras.

24 de julho de 2015.

Eu estava lá.
Acordei cedo, voltei pra casa bem cedo, como nunca tinha voltado antes.
O dia todo era bonito, eu ouvia o álbum recém saído do forno da Florence, e fingia que não estava indo ver se a gente tinha volta.
Não me lembro da minha roupa naquela manhã.
Roupa de dirigir.
Lembro de usar meus óculos de coração, os cor de laranja, e de pensar que o mundo inteiro queimava.
Eu não sabia o que ia acontecer naquela noite. Sabia o que queria que acontecesse. Mas não tinha coragem de imaginar. Eu tinha muito medo.
Eu tinha muito medo de chorar.
Estava doente.
Digo isso porque agora me parece muito nítido, mas eu não percebia, então.
Trazia na bolsa um monte de sudokus e palavras cruzadas, que me acompanharam durante algumas das piores fases da vida, como um lembrete de que, quando tudo está ruim, eu sempre podia fugir pra dentro de mim.
Arrumei meu cabelo. Na época, estava em transição, meus cabelos estavam furiosos, eu me sentia a medusa, cachos tortos, em desalinho, como se alguém os tivesse dado vida própria e os congelado em seguida.
Eu usei azul.
Azul é a minha cor favorita, às vezes.
Blue.
Caiu bem.
Eu queria ficar bonita, mas bonita feito uma pessoa comum em uma tarde comum.
Penteei os cabelos, usei maquiagem, mas não tanta, porque queria parecer que estava ali só porque tinha que ir.
Fiz o caminho mais cedo, eu queria esperar, eu queria estar lá quando você chegasse.
Sentei no deck, e fiquei olhando o pôr do sol, esperando você chegar, com medo da sua chegada, com medo do futuro, com medo da falta de estrelas pra quem pudesse pedir, com medo de não saber o que pedir.
Você chegou e, olha, você estava lindo. Nossa.
Eu estava de novo, desajeitada, meio maluca, sozinha, escrevendo em papéis e nos cantos dos sudokus, trazendo um presente sem pacote, uma caixa cheia de mim e das coisas que eu não pude te dar. Cheia de amor sem sentido, sem destinatário.
Deixei que você lesse, eu queria que você lesse, era seu, não era? Mas não era mais.
E foi uma droga perceber que não era mais.
Porque ainda tinha amor ali, ainda tinha amor em mim, o que eu ia fazer com aquilo??
Pra quem eu ia dar, se não pra você?
Soco no estômago, saímos pra comer, de acordo com o que eu planejara.
Eu precisava de tempo, ficar estável, peguei meu carro e fui pelo caminho mais longo e mais familiar que conhecia.
Eu precisava ficar estável, eu precisava não sentir nada.
Eu precisava respirar fundo e não te querer mais, eu precisava que você me quisesse, eu precisava--
Chegamos ao shopping, mas não entramos de mãos dadas, não teve sorvete e nem você me deu bronca por alguma razão boba. Fingi que estava diferente, em uma tentativa desesperada de te fazer voltar, mas hoje acho que isso não fez, nem faz diferença.
Comi carne, e estava ruim, mas eu não reclamei.
Conversamos.
Sobre coisas amenas.
Coisas amenas, eu e você, conversando sobre coisas amenas, uma morte lenta.
"Não, não, não, tá errado. Me fala da tua casa, da tua vida, da saudade que você sente de nós dois, vamos pra minha casa, dorme comigo essa noite e a gente resolve tudo amanhã, volta pra mim, volta comigo pra sua casa, eu te faço o café da manhã e a gente começa do zero, a gente finge que nada aconteceu, eu nunca mais discuto por coisas pequenas, eu não vou mais brigar, eu não vou mais ficar indecisa, eu vou ser melhor, eu vou--", era o que passava pela minha cabeça. Mas eu nunca disse, eu nunca diria, eu sou a mulher mais orgulhosa que já andou por essa terra, e até isso me orgulha.
Então eu sorri, e falei com a minha voz estável. Eu fui estável. Porque era o que eu achava que deveria ser.
E tinha tanta coisa que eu queria dizer, que eu queria cobrar, que eu queria te dar, e a minha estrela, e tudo aquilo que a gente ainda ia fazer
mas eu não tinha voz, nem bravura
nem nada.
Eu só tinha o meu orgulho, pra me manter de pé, pra me fazer te soltar quando a gente se abraçou uma última vez, pra me levar pra casa, pra minha casa, não pra sua, pra me tomar o celular quando eu só queria escrever tudo o que estava entalado na minha garganta, me apertando o peito, pra colocar o colchão na sala porque entrar no quarto e ver as coisas de nós dois espalhadas doía, pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando eu sabia que não ia ficar, pra me fazer cafuné enquanto eu chorava pela primeira vez, oficialmente.
Meu Deus, como foi horrível aquele dia, terrível. Parece tolo, agora.
E nem de longe tão ruim quanto os que vieram depois.
Mas ruim.
E não sou insensível a ponto de dizer que o seu também não foi ruim. Deve ter sido, tão ruim quanto. Mas acho que nunca vou saber.

O que sei é que esse foi o meu dia terrível.
Não o primeiro, não o último, mas especialmente terrível.
Como todos os dias terríveis.

Se eu teria feito algo diferente?
Tudo, eu diria, mas não tenho certeza.
Porque eu realmente gosto de azul.
E eu realmente gostava desse cara, mas
Eu sei que as pessoas imaginariam que eu diria que deveria ter deixado o orgulho de lado, mas ele me trouxe até aqui.
Ele me manteve de pé,
me fez comer quando eu não queria,
pentear meus cabelos, ir pra aula fingir que estava tudo bem, tirar notas boas,
falar com meus amigos, nem que fosse pra responder "Tudo bem sim :) e você?".
Ele me abraçou e me impediu de pedir ajuda, é, mas também me impediu de tomar atitudes drásticas, de dizer o que sabia que não adiantava ser dito e de ficar em casa chorando as pitangas.

Então, eu mudaria o dia terrível?
Talvez, possivelmente.

Mas provavelmente não.

25x01 Cuckoo

Imagem: TingTing Huang

A menina é a mãe da mulher.
Fico de joelhos, rosto à altura do rosto dela: conversamos.
- Ele não vem.
- Não, eu disse, você não sabe do que está falando. Ele sempre vem.
- Sempre vem, em seu cavalo, salvar a donzela de si mesma, como nos velhos tempos... Você nunca cresce?

Engraçado ouvir isso dessa criaturinha miúda e morena, de cabelos enrolados de molinha, com a cara mais séria do mundo. Engraçado e triste também.
- Não é assim. Eu não preciso ser salva. -digo.
- De que é que você precisa?
Eu sei o que ela está tentando fazer. Não vou cair dessa vez.
- Não é sobre isso.
- Eu fiz uma pergunta. De que você precisa? - Ela passa a mão no meu rosto e pergunta, de novo. - Me diga. É alguma coisa que eu não posso te dar? Você tem tudo o que precisa. Por que esperar mais? Por que insistir? Temos os lugares que você quer, os heróis, romance, pessoas, histórias...
- Mas nada disso é real, B.! Eu não quero mais isso, quero me sentir viva. Ver coisas, falar com as pessoas. Quero viver fora de mim.
Ela arregala os olhões de jabuticaba e sinto que está prestes a chorar.
- Você quer que eu morra.
- Se for preciso.
O interfone toca.
- É ele - digo, sem necessidade, me levantando para sair.
- Ele pode ter vindo hoje. Talvez venha amanhã e depois e depois. Mas, um dia, ele não virá mais. E eu virei. Você não é nada sem mim. Eu não sou nada sem você. Você pode negar, agora. Mas eu sei. Você sabe.
Destranco a porta.
- Por favor, não esteja aqui quando eu voltar.
Ouço-a soluçar um pouco, um soluço estranho, bem típico de mim até hoje.
- As you wish,

23x15 Jack of Hearts

Imagem: TingTing Huang

Que música tocava quando dançamos pela primeira vez?
Que horas eram quando voltei pra casa, depois do nosso primeiro encontro, do nosso último beijo?
Quais as palavras exatas que dissemos naquela noite?

Eu não me lembro, Jack, e eu deveria me lembrar, deveria me importar.
Você tem razão em não falar comigo, em me ignorar.
Eu já quebrei suas pernas tantas vezes, meu querido.
Não me dê mais oportunidades.
Eu faria tudo de novo.

17x20 (Maybe, probably) You only live once

 Imagem: TingTing Huang

(Não é difícil entender de que ou de quem trata esse post. O porquê é que está escondido)

"Me leva pra casa, me leva pra casa", era tudo o que você dizia. E eu dirigia, passando rápido pelos buracos, o coração batendo forte de medo, de amor, fui dirigindo por um caminho paradoxal e a sua casa parecia nunca chegar.
Meu coração doía e você nem via nada, só pedia que te levasse pra casa, os olhos miúdos fechados, um cheiro forte de álcool me embriagando junto.
"Não dorme, Mikael, por favor", eu pedi.
"Me leva pra casa"
(Eu não entendia, então, Mikael, eu não queria entender)

Naquela noite, você sorriu pra mim, através de mim, uísque em mãos. Te abracei e segurei seu rosto entre as mãos. "Fica", eu disse. E você rodopiou e cantou, cheirando a uísque e suor.
Entrou no carro e eu ,"fica", mas você me puxou pela mão e eu fui. (As risadas não saíram dos meus ouvidos ainda, sabe?) "Vamos voltar", pedi, mas você só encostou a cabeça no meu ombro. No que é que você pensou? Eu não tive tempo de perguntar. De repente, éramos uma confusão de berros e baques, e eu te enlacei como se fôssemos um só, enquanto o carro voava, enquanto voávamos na direção da grama.
Você era sangue e carne no centro da manhã clara, fundido à grama, ao vidro, à terra. Tentei tirar o vidro do seu cabelo, do seu rosto, disse "Vai ficar tudo bem", mas não era verdade.
Ali, no meio de grilos e luzes de faróis e murmúrios de curiosos, você me viu, finalmente. Disse algo que não escutei, seu coração batia alto demais, me ensurdecia até. Cheguei mais perto, o nariz colado ao seu, pra olhar seus olhinhos escuros de sangue e noite, escutei apenas o final.
Mas eu entendo agora, Mikael, esteja onde estiver.

Deitei na grama, sobre o vidro e o sangue e segurei sua mão de leve, assistindo às lágrimas, gritos e ao nascer de outro sol, o seu último. Só mais um.

16x06 Long Kiss Goodnight

Imagem: TingTing Huang
Eu tinha só sete anos. Como coisas assim acontecem?
Eu entendo um homem e uma barra de ferro, mas não a menina e uma poça d'água.
É claro que era uma questão de tempo. Não fosse a poça, seria outra coisa - um acidente de carro aos 20, uma queda, um tapa, uma bolada - e talvez começasse tarde.
E se eu tivesse 20 anos quando aconteceu, uma vida toda pra trás, normal. Sem dor, sem mais, sem tudo isso.
Talvez,
Quem seria eu agora?
Existirá, talvez, numa outra dimensão se pá, alguém que eu deveria ser?
Eu quase posso vê-la: cabelos grandes, enormes e trançados, uma pessoa talvez um pouco -ou muito- mimada, de imaginação fértil. Ela ama o que acha que ama e tem muitas opiniões.

Mas ela não viu o que eu vi, e sabe disso.
Sente falta do que lhe é de direito.
Sinto pena de nós duas.

16x04 Kimchi for begginers

Imagem: TingTing Huang

Sou mesmo uma alienada.
A certeza disso não me incomoda. Não mesmo.
Gosto de amor. Não parece, eu sei, mas gosto.
Disseram (Y.K. disse) que só as garotas boas gostam de finais felizes.
Talvez eu seja como elas, ou um arremedo de garota má, quem sabe?
Tanto faz. O que importa é que o amor me agrada.
Também me apavora e eu o considero um tanto complicado.
Mas me agrada.
Não entendo mais a resistência das pessoas a essa alienação.
Não sei onde está, mas não acho o mal oculto em gostar dessas coisas de amor.
Caso encontre, por favor, não me mostre.

16x03 Kate and I

Imagem: TingTing Huang
Ouça.
Consegue ouví-Lo?
Ele fala?
Vou sentí-Lo?
Vai doer?
Estou próxima Dele?
Eu não sei.

16x02 Órbita

Imagem: TingTing Huang

Você sonha?
Eu não sei.
O que acontece se você fechar os olhos?
Eu não sei.
Onde você vai quando dorme?
Eu não sei.
Qual delas é você?
Eu não sei.

(A verdade é que sou todas elas, e nenhuma delas sou eu. Não existe separação, mas não existe junção)

15x20 Motion Sickness (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Eles saíram e eu soube que ia surtar. Liguei o som bem alto e enfiei na boca um pedaço de bolo que vomitei depois.
Isso não conteve a raiva que sentia. Peguei a faca do bolo e tentei.
Uma, duas, três vezes. Faca cega.
Enlouqueci, fúria pura.
Rasguei o braço a unha, soquei as pernas, bati no meu rosto, com toda a força que pude reunir.
Não bastasse isso, mordi as mãos, rasguei as costas, gritei de fúria com o punho na boca.
Chamei por Gideon, a única pessoa que não me deixaria.
Chamei-o até que os gritos morressem. Queria que ele me fizesse forte de novo.
Esperei no quarto escuro que a loucura passasse.
Peguei o telefone e disquei o primeiro número que me veio a mente, algo que me inspirasse realidade.
Quis falar, mas acabei ficando em silêncio.
Desliguei, fui pro espelho.
"Mundo real. Você tá viva.", pensei.
Mas eu não sentia nada, nem dor. Só vergonha.

15x19 Old friends

Imagem: TingTing Huang

Outubro de 1998

- Você ficou velho.
- Acontece. Quando se vive muito em tão pouco tempo.

Não digo nada. Às vezes me esqueço dessa nossa diferença.
Olho em volta. A brancura do quarto de hospital quase fere meus olhos. É um quarto simples, mas caro.
O soro goteja e eu sinto  como se pudesse ouvir a gota viajar até a veia.
- Você parece doente, diz.
- Não. Você é quem parece.
Ele ri, jogando a cabeça pra trás, e eu sinto um arrepio gelado. Tremo e ele percebe.
- Ela chegou, não? - pergunta. Sua voz nem treme, nunca tremeu.
- Ela sempre esteve por perto.
- Assim como você.

Ele estende sua mão, cheia de manchas senis, sua mão firme, e toca meu queixo. Eu toco sua mão.
- Não me deixe. Não me deixe de novo.
Beijo a palma de sua mão, cada um dos dedos, "por favor"
Ele retira sua mão e segura meu rosto.
- Eu preciso descansar. Eu preciso que você me deixe descansar.

E eu me levanto, derrotada. Mais uma batalha perdida. Tudo o que eu tive que fazer pra chegar a tempo, e ele nem sequer vai lutar. Dessa vez pode dar certo, pode ser a nossa hora.
Eu aceno e ele não levanta a mão, apenas fecha os olhos. E eu sei, mesmo antes de escutar a máquina gritar, que essa não é a hora.
Ainda.

7x11 Camarão, por favor

Imagem por TheQ!

Eu não quero mais ser esse tipo de garota, o tipo que deixa alguém à espera. Eu não quero ser McCandless e seu salmão.
E agora, estou aqui parada entre quem eu queria ser -  e se não o sou é porque não está sob meu controle -, quem eu não quero ser e quem eu poderia ser.
Eu posso, facilmente, optar por quem não quero ser. Porque é fácil. Porque é bom. Mas, quando se vive de fazer pessoas felizes, se habitua. Eu não sei me deixarem fazer feliz, Jack.
E eu poderia ser a garota metida num vestido branco, a quilômetros de casa, com seu cabelo impecável, ensinando aos filhos uma canção de ninar e dando aula para crianças. Morar numa casa de cerca branca e fazer o jantar e esperar que ele volte - se voltar - sujando meu chão limpíssimo de barro e sangue.
Eu costumava querer isso. Mais que tudo. Pequenas crianças mimadas e passivo-agressivas. Por causa desses filhos que poderia pôr no mundo é que prefiro escolher o pior caminho.
Eu sou Hércules e me deixo ficar nessa estrada cheia de pó, sabendo que no final não vai haver nada além de migalhas.
Continuo andando, pra parar de machucar Jack, pra não criar monstros, pra sangrar, se preciso.
Pra, finalmente, dizer que fiz minhas próprias escolhas.