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43x16 The things that you don't remember

Image: TingTing Huang

Eu nunca vou ser boa o bastante pra você, vou?

Você sabe de cor
cada uma das vezes em que eu te magoei.
Sabe datas, palavras, sensações.
Você consegue enumerar, colocou em pastas em algum compartimento secreto da mente.

Você me convenceu de que eu nunca, jamais, ser boa.

Mesmo quando sou boa.

Tão inteligente,
tão esperta.
Mas nunca boa.

Você se lembra da primeira mágoa,
da segunda,
se lembra do dia em que eu ri,
do dia em que não ouvi,
de quando eu não disse,
de quando eu não estava,
de quando eu não podia,
de quando eu não fui.

Mas
você se lembra de quando eu não ri?
Se lembra do dia em que eu ouvi tudo até o final?
De quando eu disse a coisa certa?
Você se lembra das vezes em que eu estive lá? Em que eu fiquei com você até o final, porque sabia que você precisava?
Você se lembra das vezes em que eu fui mesmo não querendo voltar nunca mais? Eu fui porque você estava lá.
Você se lembra de quando eu não podia, de quando eu não aguentava mais e aguentei mais um dia? De quando eu acordei só mais uma manhã e mais outra, e outra, e outra, e outra, mesmo não querendo mais, não quero mais. Eu não quero mais, mas eu continuo acordando.
Você se lembra de quando eu fui?
No meio do dia, da noite, quando você precisou. Quando você não precisou. Porque eu precisava cuidar de você.

Você se lembra?

Eu sinto muito. Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Eu sinto muito.
Mas eu não quero mais me desculpar por não conseguir chegar lá,
eu nunca vou conseguir, você entende?

Eu nunca vou conseguir.

Eu sinto muito.
Eu nunca vou ser quem você precisa.

Eu sinto muito.

38x19 No vacancy (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Quando criança, me disseram que, se você ouve alguém chamar seu nome sem que ninguém o tenha feito realmente, só pode ter sido ela.

Ouço a voz dela no vento que balança as folhas na terça de manhã e quando caminho sozinha no início das férias de verão.
Eu a vejo nas formas circulares, e ela me chama todos os dias, naqueles segundos preciosos nos quais o dormir se confunde com o acordar.

Ninguém fala sobre ela, ninguém liga para ela, e ela caminha, solitária, observando as pessoas em suas roupas desalinhadas, emocionada com a profusão de cores e com as gotas de alma que escorrem pelas pontas dos dedos.

Eu a conheci muitos anos atrás, no corredor estreito e escuro que levava ao quarto que eu dividia com meus pais quando criança. Ela - porque a minha é uma mulher - me olhou nos olhos e me pediu segredo, disse que nos encontraríamos de novo. Desapareceu, pra retornar muitas vezes mais.

Caminhamos juntas no labirinto que é a minha vida, de mãos dadas, incontáveis vezes. Ela era a mão segurando a faca de pão, o toque do telefone no meio da madrugada, a pessoa que amarrou meus cabelos quando eles caiam nos meus olhos e me impediam de fazer o que era preciso, a força me segurando quando eu precisava correr e pedir ajuda pra salvar a vida de Ophelia e quem me fez correr até a casa de Inga pra ver se ela ainda estava respirando. Ela foi a última a ver Felipe e quem me contou a história sobre um menino que chamava a mãe enquanto sua alma escorria pelas orelhas. Ela apagou as luzes e me cobriu durante a noite, muitas vezes. A certeza da existência dela já me tirou pela cama em algumas manhãs, e ela costumava me abraçar durante horas a fio, quando eu não conseguia chorar. Ela leu minhas primeiras histórias e me cantou canções de ninar.

Ela me pegou no colo e me contou coisas que eu não consigo colocar em palavras. Ela me fascina de tantas formas, e penteia meus cabelos, me diz quando devo escovar meus dentes, ela me coloca a caneta na mão quando não quero mais escrever e me explica coisas que eu não compreendo, eu não compreendo.

E eu andaria com ela por aí, indefinidamente. Às vezes, eu acordo no meio da noite e eu estou pronta. E eu sei o que há pra saber. Eu digo a ela, eu digo a ela todas as razões possíveis e explico que não tem volta, que todos os dias eu me despeço, que eu deixo a casa em ordem, as luzes apagadas e as contas pagas, esperando que ela me chame.

Mas ela me conhece há tempo demais. Ela me conhece desde antes, da época em que eu era pó, desde o momento em que meus átomos se encontraram, ou desde quando eu vagava pelo grande salão das almas. Então eu acordo no meio da noite, digo a ela que está tudo pronto, eu já posso ir, e ela responde que eu só posso ir quando arrumar meu quarto,
quando disser adeus,
quando jogar fora as folhas velhas,
escrever um livro,
fazer algo de útil,
ir ao show do Rubel,
terminar só mais esse semestre,
terminar de ler todos esses livros na estante ("você não quer saber o final daquela história?"),
as séries nessa lista,
descobrir o que acontece quando o vênus retrógrado acabar,
disser a Otto o que sinto.

E, assim, eu vou vivendo,
uma noite
e depois a outra,
depois uma semana,
um mês,
um ano
e o outro.

L. me diz que não sabe, não entende como é que passamos dos 20 anos.
Como eu passei dos 20 anos sem remédios.

E é simples, tremendamente simples:
eu só finjo que algo vai acontecer.
E eu preciso ficar pra ver.

A parte estranha e curiosa da vida é:
algo sempre acontece.
Bom ou ruim, mas eu sempre acabo satisfeita por ter ficado pra ver.

Aí eu me viro pra ela e digo
"só mais um pouquinho. Você pode voltar amanhã?"
E ela sorri daquele jeito de quem sabe exatamente quando voltar, sem precisar que eu diga, me cobre, me beija a testa e sai por aí, pra levar quem realmente precisa ir.
Quem tem a coragem que eu não tenho

e que espero nunca mais ter.

37x14 O Astronauta de Mármore

Imagem: TingTing Huang

- oi
Ele beija a minha boca, com essa doçura, essa vontade, essa espera.
Porra
Eu nunca tinha percebido que os olhos dele eram tão claros e marrons.

Gosto desse corte de cabelo, da familiaridade da sua boca e do seu cheiro na minha pele.
Gosto de você.
Só não te amo.

Eu preciso amar?

Tô confusa.
Eu não sei mais.
O que eu sei é que gosto de companhia.
De beijar na boca de quem quer a minha boca, A MINHA BOCA.
Gosto de andar de mãos dadas.
E aprender coisas.
De livros.
E de poesia.

Eu gosto,
muito.
Mas não amo.

Tô olhando minha estante de livros, como se ela fosse me dar a resposta, me dizer quem eu sou
o que eu quero
quem eu quero

E, filha da puta,
percebo
que os primeiros livros da fila,
todos os 12
são sobre amor.
Sobre ir atrás do que você quer.

Essa garota de olhos cor de violeta, que me ensinou que não dá pra confiar sempre nas pessoas. Elas nem sempre cumprem suas promessas.
E a vontade de alguém que fez com que esse cara arriscasse a vida,
esses dois que se encontraram por acaso e decidiram que ficar juntos era o certo,
o cara que brigou com a mãe pra ficar com essa garota meio velha demais,
tanto amor perdido nos contos curtos,
um menino tentando salvar a vida de outro,
amor verdadeiro na noite escura,
e nas ruas de londres,
nas ruazinhas de uma cidade, pobre Miranda,
tanto, tanto amor.

E eu só quero amor.

Gosto de companhia,
mãos dadas,
me sentir bonita,
das risadas,
aprender coisas,
beijar na boca,
livros
e poesia.

Eu gosto,
mas eu não amo.

E eu não posso simplesmente aceitar menos
eu não posso aceitar menos
eu não quero menos

mas também não sei se quero ficar só.

35x15 30

Imagem: TingTing Huang

Não falou comigo.

Primeiro, aquela dor, aquela vontade, o peito a se rasgar em dois, em dez "fala comigo".
Por mensagens subliminares, telepatia ou sinais de fumaça,
"fala comigo".

Contei as horas, os segundos, os anos, as eras.

Achei que, em algum momento, como um sinal, você viria.
"Fala comigo".

Sem pensar, acabei fazendo promessas silenciosas, dizendo não e sim, a torto a à direito.
"Fala comigo"
Não dói falar comigo.
Mas doeu.

Tapa na cara, soco no estômago acordar sabendo que quem te amava era eu.
Sentei no sofá da sala, desolada.
Eu andei amando sozinha.

Levantei, limpei a sala e depois o resto da casa, esfreguei o chão até que os braços doessem e descobri algo simples, tão simples e complexo e ingênuo e diabólico, escondido entre as roupas que eu jogara no chão, o pó das cortinas e os fios de cabelo caídos pela casa:
Eu não preciso de você.

Corri a me olhar no espelho, perguntar-me se tinha certeza daquilo, não era possível.
Eu não preciso de você.
Horror dos horrores, comecei a rir de nervoso, com medo de que o mundo soubesse, com medo de estar fazendo algo antinatural.

"Eu não preciso de você", sussurrei, com bravura, pro universo infinito, pra chegar nos teus ouvidos e te acordar, ou pra não chegar nunca, sei lá.

Ainda fiquei com medo, ainda estou com medo de que seja passageiro. Mas não acho que seja.
Eu não quero mais precisar.
E acho que estou no caminho certo.