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37x21 O terrível dia jamais descrito (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Estava organizando as temporadas, ao invés de estudar, de explicar pra minha irmã como é que uma camisinha vai parar no quarto de alguém, de ler meu livro ou fazer qualquer coisa útil, quando me deparei com o terrível dia jamais descrito. Eu decidi, há um tempão, que jamais escreveria sobre ele porque não sabia como.
Acho que doía, também.
Acho que incomoda, um pouco, o que quer que isso queira dizer.

Mas não tenho medo da dor ou do incômodo.
Vamos lá, vamos terminar essa temporada com bravura. Vamos quebrar regras.

24 de julho de 2015.

Eu estava lá.
Acordei cedo, voltei pra casa bem cedo, como nunca tinha voltado antes.
O dia todo era bonito, eu ouvia o álbum recém saído do forno da Florence, e fingia que não estava indo ver se a gente tinha volta.
Não me lembro da minha roupa naquela manhã.
Roupa de dirigir.
Lembro de usar meus óculos de coração, os cor de laranja, e de pensar que o mundo inteiro queimava.
Eu não sabia o que ia acontecer naquela noite. Sabia o que queria que acontecesse. Mas não tinha coragem de imaginar. Eu tinha muito medo.
Eu tinha muito medo de chorar.
Estava doente.
Digo isso porque agora me parece muito nítido, mas eu não percebia, então.
Trazia na bolsa um monte de sudokus e palavras cruzadas, que me acompanharam durante algumas das piores fases da vida, como um lembrete de que, quando tudo está ruim, eu sempre podia fugir pra dentro de mim.
Arrumei meu cabelo. Na época, estava em transição, meus cabelos estavam furiosos, eu me sentia a medusa, cachos tortos, em desalinho, como se alguém os tivesse dado vida própria e os congelado em seguida.
Eu usei azul.
Azul é a minha cor favorita, às vezes.
Blue.
Caiu bem.
Eu queria ficar bonita, mas bonita feito uma pessoa comum em uma tarde comum.
Penteei os cabelos, usei maquiagem, mas não tanta, porque queria parecer que estava ali só porque tinha que ir.
Fiz o caminho mais cedo, eu queria esperar, eu queria estar lá quando você chegasse.
Sentei no deck, e fiquei olhando o pôr do sol, esperando você chegar, com medo da sua chegada, com medo do futuro, com medo da falta de estrelas pra quem pudesse pedir, com medo de não saber o que pedir.
Você chegou e, olha, você estava lindo. Nossa.
Eu estava de novo, desajeitada, meio maluca, sozinha, escrevendo em papéis e nos cantos dos sudokus, trazendo um presente sem pacote, uma caixa cheia de mim e das coisas que eu não pude te dar. Cheia de amor sem sentido, sem destinatário.
Deixei que você lesse, eu queria que você lesse, era seu, não era? Mas não era mais.
E foi uma droga perceber que não era mais.
Porque ainda tinha amor ali, ainda tinha amor em mim, o que eu ia fazer com aquilo??
Pra quem eu ia dar, se não pra você?
Soco no estômago, saímos pra comer, de acordo com o que eu planejara.
Eu precisava de tempo, ficar estável, peguei meu carro e fui pelo caminho mais longo e mais familiar que conhecia.
Eu precisava ficar estável, eu precisava não sentir nada.
Eu precisava respirar fundo e não te querer mais, eu precisava que você me quisesse, eu precisava--
Chegamos ao shopping, mas não entramos de mãos dadas, não teve sorvete e nem você me deu bronca por alguma razão boba. Fingi que estava diferente, em uma tentativa desesperada de te fazer voltar, mas hoje acho que isso não fez, nem faz diferença.
Comi carne, e estava ruim, mas eu não reclamei.
Conversamos.
Sobre coisas amenas.
Coisas amenas, eu e você, conversando sobre coisas amenas, uma morte lenta.
"Não, não, não, tá errado. Me fala da tua casa, da tua vida, da saudade que você sente de nós dois, vamos pra minha casa, dorme comigo essa noite e a gente resolve tudo amanhã, volta pra mim, volta comigo pra sua casa, eu te faço o café da manhã e a gente começa do zero, a gente finge que nada aconteceu, eu nunca mais discuto por coisas pequenas, eu não vou mais brigar, eu não vou mais ficar indecisa, eu vou ser melhor, eu vou--", era o que passava pela minha cabeça. Mas eu nunca disse, eu nunca diria, eu sou a mulher mais orgulhosa que já andou por essa terra, e até isso me orgulha.
Então eu sorri, e falei com a minha voz estável. Eu fui estável. Porque era o que eu achava que deveria ser.
E tinha tanta coisa que eu queria dizer, que eu queria cobrar, que eu queria te dar, e a minha estrela, e tudo aquilo que a gente ainda ia fazer
mas eu não tinha voz, nem bravura
nem nada.
Eu só tinha o meu orgulho, pra me manter de pé, pra me fazer te soltar quando a gente se abraçou uma última vez, pra me levar pra casa, pra minha casa, não pra sua, pra me tomar o celular quando eu só queria escrever tudo o que estava entalado na minha garganta, me apertando o peito, pra colocar o colchão na sala porque entrar no quarto e ver as coisas de nós dois espalhadas doía, pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando eu sabia que não ia ficar, pra me fazer cafuné enquanto eu chorava pela primeira vez, oficialmente.
Meu Deus, como foi horrível aquele dia, terrível. Parece tolo, agora.
E nem de longe tão ruim quanto os que vieram depois.
Mas ruim.
E não sou insensível a ponto de dizer que o seu também não foi ruim. Deve ter sido, tão ruim quanto. Mas acho que nunca vou saber.

O que sei é que esse foi o meu dia terrível.
Não o primeiro, não o último, mas especialmente terrível.
Como todos os dias terríveis.

Se eu teria feito algo diferente?
Tudo, eu diria, mas não tenho certeza.
Porque eu realmente gosto de azul.
E eu realmente gostava desse cara, mas
Eu sei que as pessoas imaginariam que eu diria que deveria ter deixado o orgulho de lado, mas ele me trouxe até aqui.
Ele me manteve de pé,
me fez comer quando eu não queria,
pentear meus cabelos, ir pra aula fingir que estava tudo bem, tirar notas boas,
falar com meus amigos, nem que fosse pra responder "Tudo bem sim :) e você?".
Ele me abraçou e me impediu de pedir ajuda, é, mas também me impediu de tomar atitudes drásticas, de dizer o que sabia que não adiantava ser dito e de ficar em casa chorando as pitangas.

Então, eu mudaria o dia terrível?
Talvez, possivelmente.

Mas provavelmente não.

37x13 Você podia vir

Imagem: TingTing Huang

A gente se senta na mesa de um café chamado Serendipity. Eu tenho uma luva e você outra.
Você ri.
E, alguns segundos depois, eu me esqueci de como era o seu sorriso.
Não sei nem se você realmente sorriu.
Ou se eu sonhei.

Você toma seu café e fica constrangido com o meu silêncio repentino, começa um assunto ameno, que eu respondo da melhor maneira, sem conseguir parar de pensar em te beijar.

Oh, fuck.

Puta complicação, você tá me contando uma história sobre futebol, sobre essa garota de quem gosta, e eu não tô entendendo nada, não tô me entendendo.
A garçonete me traz um suco de laranja, te olha por tempo demais e eu sinto um puta ciúme, quero tirar satisfação, mas você nem percebe e volta a me dizer essas coisas que não entendo.

Você abre a boca, diz algo que rima com
eu te amo
mas era só uma coisa qualquer,
fico toda arrepiada à toa
porque você só tá tentando me explicar essa história que aconteceu em um filme,
sem nem saber que eu tô aqui pensando
se eu te amo,

se sou capaz de amar alguém,
no meio dessa dor do caralho,
nessa confusão de letras, rimas e com essa minha falta de foco.

Dou risada de algo que você diz,
mesmo sem ter entendido,
e você parece satisfeito
e isso me deixa feliz.

Mas não quer dizer nada.

Alguém me pergunta o que tô esperando que aconteça, de que provas preciso
da conformação perfeita das estrelas
a previsão exata no zodíaco me dizendo "VOCÊ ESTÁ APAIXONADA PELO CARA DE CAMISETA BRANCA"
a cura pra essa doença que é viver numa fantasia antiga
uma carta do tarô que signifique "ANDA, CARALHO"
um sonho que signifique que é você quem eu quero, sem dúvidas
uma mensagem, uma ligação no meio da noite
você, dizendo com todas as letras, sem hesitar,
que sou eu.

Você podia vir,
arrancar o chão sob os meus pés,
me beijar,
tirar meus livros da ordem,
deitar comigo pra ver as estrelas,

e, mesmo assim,
eu não acreditaria.

Então, termino meu suco de laranja, peço a conta, você me abraça, me deseja sorte, e vai embora, de volta pro seu mundo organizado e silencioso, meio mágico demais
e eu fico te olhando ir embora, sem saber se tô triste
sem saber se tô feliz

sem saber se te amo.

36x02 Press Coverage

Imagem: TingTing Huang

Neruda me disse, em segredo, sério, delicado, que amava Matilde, feia Matilde, e seus cabelos.
Na época, eu nada sabia, ou nem sei se já sei, sobre amor.

Sei que dói.
Dói?
Não, não dói.

Amar é querer bem, querer melhor, o melhor que se pode querer.
É querer abrigo, da chuva, do frio, das noites e dos perigos que se escondem na Augusta. Querer que beijos aconteçam, se beijos tiverem que acontecer, sem que se precise saber.

Amor é diferente dessa coisa química de injetar nas veias, desse gosto de sujeira na boca. Amar é apoiar, colo, comida, cavalo, cão de caça.
Amor é essa manhã linda na avenida de nome gringo a me dizer que, B., vai ficar tudo bem.
A me dizer que eu mereço mais, muito mais do que só isso.
Mereço pessoas, histórias boas de se ouvir e bocas boas de beijar, gente gostosa de abraçar.

Merece o mundo, diz a rua, disse a lua.
Digo eu.

32x20 Pieguice

Imagem: TingTing Huang

Preciso de pieguice.
Músicas de amor.
Filmes dos anos 90.

Eu sou pisciana, ora essa.

Mas também não quero que isso me defina.
Esqueço romance, me desapaixono, endureço a casca e trabalho o dia inteiro.
À noite, me exercito, medito.
Quando quero, beijo a boca de quem não amo, de quem não quero amar.
Não leio livros de amor.
Ou leio, e interpreto tudo da forma mais cínica possível.
Enxergo o relacionamento dos outros no maior aumento, com óleo de imersão e percebo que isso não é pra mim.
Eu acordo de manhã, planejo meu dia inteiro, passo a passo.
Chego em casa no fim de um dia cheio de vozes, de palavras difíceis,
olho as mensagens no celular e nenhuma delas me causa arrepios ou frio na barriga.
Eu leio meu livro e as cenas de amor são secas, então eu leio rápido, pra poder fazer outra coisa.
Assisto seriados e nenhum deles me comove.
Lavo meus cabelos, cuido da pele, faço exercícios, estudo, medito e durmo.
Assim, no piloto automático.

Mas existem esses pequenos momentos.
Depois de lavar o cabelo, enquanto passo pela cozinha, eu paro na frente da janela e me pergunto se isso é tudo.
Quando estou em um encontro, enquanto mexo o gelo no meu copo com um canudo, me pergunto se é assim que quero me senti pra sempre.
Pequenos momentos, pensamentos mínimos que espanto com as mãos.

Esse é um desses momentos:

Eu quero pieguice e não acho feio, não acho triste.
Não sou uma dessas garotas assim tão independentes do século XXI.
Quero cenas ao som de Sixpence None The Richter,
dançar com o mocinho no final do filme.
Eu não quero esse seu relacionamento moderno que envolve não nos envolvermos.
E nem quero começar um relacionamento e me apaixonar no decorrer dele.
Não quero ter que me acostumar.
Eu quero luzes e mais luzes de Coppolla, quero não parar de pensar em você, quero desenhar corações em folhas de papel avulsas, quero querer matar aulas pra te ver, quero a irresponsabilidade de se estar apaixonado.
Eu não quero um relacionamento adulto, quero promessas que você não pode cumprir.
Eu quero aquela cena final em que eu largo tudo pra correr atrás de você, quero te escrever poesias e detestar cada momento em que brigamos.
Eu quero olhar as estrelas. Eu quero sentir vontade de olhar as estrelas.
Eu quero uma única declaração de amor que valha por todas.
E rir do seu rosto, lembrar dele antes de dormir.
Quero uma música que seja nossa, uma só, pra guardar no bolso e levar por aí.
Eu não quero que você dê sentido a isso tudo, só quero que você faça parte disso tudo.

Quero Meg Ryan e Tom Hanks,
Ashley Judd e Hugh Jackman,
Molly Ringwald e Andrew McCarthy
Rachael Leigh Cook e Freddie Prinze Jr.
Drew Barrymore e Michael Vartan
Amanda Peterson e Patrick Dempsey
Julia Stiles e Heath Ledger
Julia Roberts e Harrison Ford - todas as vezes!
Meg Ryan e Hugh Jackman
Audrey Hepburn e Rex Harrison
Audrey Hepburn e Humphrey Bogart
Audrey e Fred Astaire
Debra Messing e Dermot Mulroney
Meg Ryan e Tim Robbins
Sandra Bullock e Hugh Grant
Sandra Bullock e Keanu Reeves
Sandra Bullock e Bill Pullman
Sandra Bullock e Aidan Quinn

Eu quero pieguice,
eu quero gostar de alguém que não tenha medo de dizer, de gritar - se preciso for -
porque eu não tenho mais medo de dizer - embora tenha medo de gostar.

Então não,
eu não quero seu relacionamento adulto.
Eu não quero suas migalhas,
eu não quero passar uma tarde legal,
eu não quero colocar relacionamento sério no Facebook
e não preciso de companhia para as sextas à noite,
não gosto tanto assim de dormir junto
e muito menos de acordar junto.
Não quero alguém pra escrever sobre, quero alguém pra não escrever sobre.
Quero sim, loucura, quero um vendaval, um furacão,
que é muito melhor do que essa forma de amor morta que você me oferece do teu lado da mesa.
Que é muito melhor do que aceitar alguém pra não viver mais só.
Eu já vivi sozinha estando junto e, deixa eu te dizer,
não é bom.
Você quer me ouvir falar, contar da vida,
mas eu não quero contar pra você.
E nem você quer saber
das minhas loucuras. Você só quer achar bonita essa excentricidade, e gostar de mim enquanto dá pra gostar de mim.
Mas não é isso o que eu quero.
Eu quero me perder. E me encontrar de novo.

Setembro tá chegando e eu tô com medo de me apaixonar por um idiota qualquer que vai me machucar.
Mas eu prefiro me apaixonar e me machucar
do que aceitar nunca mais sentir isso.
Essa estabilidade me deprime.
Esse romance cheio de etiquetas.
Sem necessidade de declarações, em que a gente sai e eu não me impressiono.
E te esqueço assim que fecho a porta atrás de mim.

Eu vou estudar, e ler, e escrever e planejar meus dias.
E esquecer a importância de toda essa pieguice.
Sair com você mais uma, duas, dez vezes até enjoarmos um do outro.

Mas aí, nesses momentos
vou parar na frente da janela,
olhar as estrelas
e pensar se a gente não merece mais do que isso,
se era mesmo pra ser assim.

Mais dia, menos dia
eu descubro a resposta.

32x12 Something to wait for

Imagem: TingTing Huang

Acordei com essa melodia na cabeça.
Loucura, é.
Mais uma dessas canções que me faz despertar.

Me fez pensar em você.
Quem quer que você seja.

Senti uma coisa boa, intensa, nos braços, e no estômago.
Quase como se pudesse te ouvir chegar.

Eu não consigo te ver.
Randomizo o destino, quero saber se seus olhos são verde-esmeralda, cabelo escuro, enrolado, de tamanho médio, se a tua pele é mesmo pálida, se você é baixo. Se é uma pessoa boa, que gosta de pop e correr no parque da cidade. Foi criado por pais que trabalham demais, já sofreu um acidente de carro, tem medo de andar de avião. Mora em uma casa espaçosa, com um jardim. Quer ser professor. Namora há dois anos e tem dois gatos: um cinza e um preto.
Quero saber quem você é.

Se gosta de livros ou da cor dos meus olhos, de sair por aí de vez em quando, de ficar em casa sem fazer nada o dia inteiro. Se podemos acordar mais tarde e dormir cedo.

É uma música. Talvez, a sua música. Fala sobre procurar uma coisa lá fora, uma coisa que está dentro de você.
Engraçado, talvez você nem exista. Talvez você seja só essa ideia que me salva do que quer que seja. Essa esperança estúpida, essa qualquer coisa.

Queria sair de casa e te encontrar. Dar uma olhada em você, de longe mesmo, ver você e sua namorada, felizes ou não, sentados em uma mesa, conversando sobre a vida.
Loucura, eu sei.
Será que é assim que funciona? Num minuto, você ama alguém e olha pra mim, e está condenado a fazer parte de uma tapeçaria que nem é a tua?

Ando na dúvida.
Como é que começa o amor?
Quando é que a gente planta isso?
Onde é que começa?
Eu estava só agindo do meu jeito, impensado, triste e tentando sobreviver à Maio e ao semestre e aos dias bons, e ele descobriu que gostava de mim.
Como é que isso acontece?
Por que?

Começo a olhar as pessoas de forma mais atenta.
Com medo de que uma delas seja você.
Me assusta ignorar as possibilidades,
e te perder quando você chegar.

Falo com Pégaso, por um motivo qualquer,
e eu sei que ainda gosto dele.
Tá virando uma espécie de medidor, como se eu só fosse saber que você chegou,
quando falar com ele parar de me fazer sentir assim.

Eu quero esperar.
Eu quero me sentar e não fazer nada.
Quero entrar no mercado um dia e pegar sua sacola sem querer.
Esbarrar com você nos corredores da faculdade.
Talvez te dar monitoria, te beijar numa festa.
Guardar minha bicicleta ao lado da sua, te ligar por engano, comprar o último exemplar do livro que você queria, sentar na sua mesa porque é o único lugar disponível, bater na traseira do seu carro quando dou ré, fazer sua história clínica, sentar ao seu lado no cinema vazio, puxar assunto na fila do McDonalds.

Pergunto à Donzela, enquanto tranço meus cabelos escassos,
como você é.
- Ele sempre parece cansado. Pêlos no rosto, barba ou como quer que aquilo se chame. Cabelo ondulado ou encaracolado.
- E onde é que vamos nos conhecer?
- Eu não sei dizer. É um local relacionado à vaidade, inconsistência, intrigas.
- Temos algo em comum?
- Sim. Vocês estão cansados. Acreditam em coisas, estão acumulando sentimentos negativos dentro de si. Sentem-se desapontados. E rejeitam oportunidades e sentimentos.
- Ele também?
- Sim.
Ficamos em silêncio, eu tranço meus cabelos, rápida e delicadamente, enquanto ela tece.
- Existe algo. Inflexibilidade ou unilateralidade. - ela quebra o silêncio.
- O que isso quer dizer?
- Eu não posso dizer. É algo que você vai enfrentar, ou algo que vai acontecer.
- Então, pode ser sobre Pégaso e eu ou pode ser sobre nós dois? Unilateralidade.
- Sim.
- E o que eu devo fazer?
- Tenha paciência, calma. Siga em frente. E conheça a si mesma.
Suspiro.
- Eu tô tentando.
- Então não pare.
Termino de trançar os cabelos, beijo o topo da cabeça cheirosa da Donzela e saio, na direção da porta.

- Só uma coisa: vamos ser felizes? - pergunto, baixinho.
Ela levanta a cabeça na minha direção.
- Isso importa?

Não.
Acho que não importa.

Eu estou esperando, ok?
Procurando seu rosto nas sugestões de amigos do facebook, na mesa de trás do bar, e no carro ao lado no semáforo.

Não se atrase.

30x16 Lilac sky

Imagem: TingTing Huang

Abri a boca pra perguntar tudo o que eu sempre quis saber,
e a voz não saiu.

Pensei em te ver,
e fui pra casa.

Fui te pedir desculpas,
e joguei fora o papel.

Arrumei um assunto pra conversar contigo,
e me lembrei de que tinha outras pessoas com quem podia falar.

Acordei cedo pra te ver,
e dormi de novo.

Eu sabia que você estaria lá,
e preferi ficar em casa ouvindo música.

Tive tempo pra lavar o cabelo,
mas não ligo se você vai me achar bonita.

Eu queria te torturar ou ser torturada pela visão de você sabe o quê,
mas decidi que me importava bem mais com outras coisas.

Ia escolher a roupa mais sexy do meu guarda-roupa pra você,
mas resolvi escolher a mais confortável pra mim.

Aos poucos, guardei as armas,
guardei as mágoas no fundo da caixa de tudo, do oceano de nós dois,
toda a dor de querer e não querer ao mesmo tempo.
Dor de saber que não dá mais.

Aí hoje,
meus amigos me pegaram, me levaram, queriam o melhor pra mim, queriam outra pessoa pra mim.
E isso me fez perceber:
eu também quero.
Não agora, não amanhã, não um cara que nem me conhece e exige minha atenção - quando eu não dou atenção pra quase nada.

Mas é, eu quero.
Isso me chateia um pouco. Dá uma sensação ruim, bolo na garganta, frio na barriga.

Deito no chão, bagunço os cabelos. e percebo que a gente já deu faz tempo.
Que nem tem mais graça, mais gosto.
E que eu já perdi a textura da sua boca e o a vontade do seu cheiro.
Não sei se isso é aceitar, não sei se é Kübler-Ross Parte 5, se é só a vibe de sexta à noite ouvindo Halsey,
- e eu gosto muito de você -
mas acho que
aconteça o que acontecer - ou o que não acontecer - amanhã,
a gente acabou.

Sem armas, sem mágoas,
sem tortura pra nenhum dos lados.

Tudo bem,
afinal,

purple just wasn't for you.

Mas alguém vai gostar dessa mistura de cores,
alguém real,
sozinho por aí, comprando água no mercado,
parado no ponto de ônibus,
fazendo cálculos no caderno
tocando guitarra
ou lendo livros.

Alguém que está agora pensando em ir ao cinema,
gritando na torcida de um desses jogos - ou jogando, quem sabe -,
assistindo Demolidor ou qualquer coisa,
Comendo bolo ou falando alto,
Stalkeando a crush no facebook haha.

Gosto da ideia de que ele não sabe sobre mim ainda,
de que não sabemos um do outro.
E não, não posso vê-lo dessa vez, mas
não sei se quero.

Deixa vir.
Eu espero, quantas vezes tiver que fazê-lo.

Eu espero.

29x19 Apaixonar-se

Imagem: TingTing Huang

Ela me pergunta se tô apaixonada.

Eu tô.
É, eu tô.

Tô apaixonada por essa música que eu ouvi outro dia,
pela textura mágica do meu cabelo depois que seca,
pelos meus shorts,
pelo meu aplicativo novo.
Tô apaixonada por esse personagem de um livro,
por esse seriado adolescente.
Tô apaixonada pela chuva de madrugada, batendo no telhado enquanto eu considero não dormir nunca mais.
Tô apaixonada pela cor das canetas no papel,
pelo gosto de chocolate e água.
Tô apaixonada pelo meu fio dental com gosto de menta.
E pela cor dos meus sapatos quando estão limpos.
Eu tô apaixonada pela minha capacidade de levantar e ficar triste por ter tão pouco tempo num dia só. (:
Eu tô apaixonada por esse cara, é, esse cara que eu inventei aqui na minha cabeça e que quero nunca conhecer,
Eu tô apaixonada pela ideia de mim mesma vivendo, passando por Março, Abril, pelo famigerado Maio, Junho, Julho, apaixonada por esses planos a longo prazo.
Tô apaixonada pelos dias, pelas semanas que não passam, comida mexicana e um temaki de camarão empanado.
Tô apaixonada por um café que tomei, não pra impressionar alguém, pra agradar, mas porque eu quis.
Tô apaixonada pelos meus próprios gostos, pela minha capacidade de querer as coisas, de ESCOLHER coisas, sem esquecer de querer saber o que as pessoas querem.
Tô apaixonada, sim, L. Por essas poesias que andei lendo,
pela minha raiva de certas coisas, minha capacidade de escolher lados,
de opinar.
E de não fazer nada que eu nao queira fazer.

Eu tô me apaixonando por tudo de novo, tá me dando gosto de ver, de sentir.
Tô doente, tô sabendo,
tô surtando, e sei,
mas tô aprendendo a me apaixonar pelas pequenas coisas de novo.

Eu não disse nada disso, isso é meu.
Só balancei a cabeça e sorri,
como quem guarda um segredo.

Mas eu tô.

23x19 Horse and I

Imagem: TingTing Huang

"Liberdade", a voz delas me sussurrou naquela noite.
Achei que era de Holden que falavam. Não acho mais. Nem acho que falavam de Connor.
Não sou livre, nem estou triste.
Mas algo mudou, é inegável.
Não está relacionado só à coragem. É vontade.
A vontade mudou.
Me pego olhando incansavelmente as linhas das mãos como se fosse vê-las em uma conformação diferente, como se a história agora fosse outra.
Não é vontade de Connor, embora a vontade tenha chegado com ele, é vontade de ser diferente.
Eu quero penumbra, quero sombras e o contato entre as pontas dos dedos e o couro cabeludo, quero sussurros, quero o contato dos lábios com a pele.
Quero calor humano, quero descobertas ao som de música lenta.
Eu quero nudez. De corpo e de alma.
Quero ser honesta, quero os dois lados da história parecidos.
Quero arrepios e quero calmaria.

Tem algo de errado comigo.
Ou talvez, eu nunca tenha estado tão
Normal.

21x14 Phoenix

Imagem: TingTing Huang

- Por que é que você teima em não me deixar ir? - ele pergunta, enquanto me faz cafuné.
- Eu quero, eu preciso de você aqui. Se você for embora, eu morro por dentro. Morro de vez.
- Não morre não, acha outro e passa a se alimentar dele, como fez comigo. Me deixa ir. Me deixa viver.
- Viver o quê? Com quem? Por que? Eu sou quem você precisa. Só eu vejo a beleza em você. Eu sei dos seus segredos e medos. Eu te amo como ninguém vai, nunca mais.
- Você não me ama, B. Você quer me amar, quer achar que  me ama, só pra dizer que sente algo. Pare de fingir que não pode me deixar ir.
- Eu não sou ninguém se você não estiver aqui.
- E antes? Quando eu não estava aqui, você era alguém. Era livros, palavras e ordem e caos. Você sentia frio e tristeza e tinha essa insegurança exalando pelos poros. Era sangue, luta e medo. Esperava. Detestava gente e agora gosta, mas não por minha causa. Quem você era, quem você se tornou. Tudo apesar de mim. Eu sou só um detalhe, um efeito colateral da sua mudança de pensamento, uma vítima. Me deixa ir.
- Eu não sei como. Eu não quero começar tudo de novo com outra pessoa inocente e machucar mais gente. Eu tenho medo de nunca mais amar ninguém como eu te amo, de perder meu tempo. Tenho medo de amar alguém mais do que amo você. 
De que você tenha sido só mais um.
Tenho medo de te deixar ir de uma vez por todas e
E só.


5x29 Rimas Brancas


Imagem por Sidereal

Abandonando antigos hábitos e resfriados, estou. E fazendo planos, organizando meu exército.
Mas aí, feito um grãozinho de poeira no nariz, ele entra no meu cérebro, me torna defeituosa de novo.
Fico devaneando sobre ele, sem conseguir me concentrar. Vejo ele pelas ruas e o nome dele nos livros.
E suas rimas brancas, suas rimas livres.
Maldito século 21.