Imagem: TingTing Huang
Quero morrer.
Existe perigo debaixo do tecido, por fora do tecido, no meu rosto, minha pele e meu nome.
Eu não tiro, eu luto, eu tiro, eu temo por mim, meus irmãos, esse mal que nem existe dentro de mim.
Meu Deus, o que há de errado com quem eu sou?
Deito na praça de uma cidade que me deixou ficar e que me manda embora, no centro de um sonho americano e dos meus pesadelos mais frequentes, debaixo de uma cama num porão, sem saber o que acontece quando a manhã chegar. Eu quero morrer. Não porque estou triste, não crescem em mim baobás, eu quero morrer porque não sei mais sobreviver sem lutar. E porque a luta parece vã, estúpida.
Quero lavar com sangue o tecido da minha roupa e o chão da minha casa, da terra que não é minha, eu quero morrer, eu quero viver, eu quero sair de casa mostrando quem sou, ter filhos e falar francês, eu não quero o fim do mundo como conhecemos, eu quero fazer parte do mundo e da história, quero não ter medo, nunca mais ter medo
Não é o que todo mundo quer?
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30x13 Witchcraft
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Por que você me ama?
Olho pro céu incrivelmente azul dessa Brasília louca. Matei mais uma aula e tô aqui, deitada no meio de tudo, na grama, feito louca.
- Porque você não existe.
- É claro que eu existo. Você está falando comigo. Você acredita em mim. Portanto, eu existo.
Reviro os olhos.
- Já falamos sobre isso. Você não é real. Você só existe na minha cabeça. Eu estou ciente disso, e você também.
- Mas o doutor disse --
- Disse que não teria problema desde que eu entendesse que você não existe.
Ele se deita do meu lado, segura minha mão.
- Como é que eu posso não ser real? Eu estou aqui, eu sempre estive aqui.
- Eu sei. Mas você é só um reflexo do meu subconsciente. Você não está aqui de verdade.
- Como você sabe?
Olho nos olhos dele, todos os argumentos médicos na ponta da língua, textos repetidos e decorados desde sempre, escritos e reescritos, um monte de palavras difíceis que só faz sentido pra quem não pode estender a mão e tocar o rosto dele, sentir fios de cabelo finos e curtos, quase invisíveis a olho nu, roçarem as pontas dos dedos, a textura do pescoço, o jeito como as pupilas dele se dilatam com uma rapidez impressionante.
- Eu não sei. Eu só sei.
- Talvez, só talvez, já pensou na possibilidade de eu ser real,
e você não?
Fecho os olhos, enquanto ele me fala de um mundo no qual eu sou só um eco. Eu não sinto dor, eu não me importo, eu só existo sem existir, sem ter que decidir, eu só preciso ser.
E eu sinto--
Eu me sinto bem.
- Ei. Volte. Não faça isso. - ele aperta minha mão de mansinho - Sabe por que eu te amo, B.?
- Hm --
- Porque você existe. Não é simples. Dói muito. Mas você consegue, você existe. Levanta daí, vamos pra casa. Você vai dormir um pouco e tudo vai parecer melhor. Eu prometo.
Fecho os olhos de novo.
- Mas e se eu --
- Por favor. De novo não.
Não digo nada, dobro minha blusa de frio, guardo minhas coisas e vamos pra casa, imersos em diferentes tipos de silêncio.
Tento ler a mente dele, desse reflexo do meu subconsciente e não consigo.
Não me surpreendo, afinal
existem coisas sobre as quais não penso.
- Por que você me ama?
Olho pro céu incrivelmente azul dessa Brasília louca. Matei mais uma aula e tô aqui, deitada no meio de tudo, na grama, feito louca.
- Porque você não existe.
- É claro que eu existo. Você está falando comigo. Você acredita em mim. Portanto, eu existo.
Reviro os olhos.
- Já falamos sobre isso. Você não é real. Você só existe na minha cabeça. Eu estou ciente disso, e você também.
- Mas o doutor disse --
- Disse que não teria problema desde que eu entendesse que você não existe.
Ele se deita do meu lado, segura minha mão.
- Como é que eu posso não ser real? Eu estou aqui, eu sempre estive aqui.
- Eu sei. Mas você é só um reflexo do meu subconsciente. Você não está aqui de verdade.
- Como você sabe?
Olho nos olhos dele, todos os argumentos médicos na ponta da língua, textos repetidos e decorados desde sempre, escritos e reescritos, um monte de palavras difíceis que só faz sentido pra quem não pode estender a mão e tocar o rosto dele, sentir fios de cabelo finos e curtos, quase invisíveis a olho nu, roçarem as pontas dos dedos, a textura do pescoço, o jeito como as pupilas dele se dilatam com uma rapidez impressionante.
- Eu não sei. Eu só sei.
- Talvez, só talvez, já pensou na possibilidade de eu ser real,
e você não?
Fecho os olhos, enquanto ele me fala de um mundo no qual eu sou só um eco. Eu não sinto dor, eu não me importo, eu só existo sem existir, sem ter que decidir, eu só preciso ser.
E eu sinto--
Eu me sinto bem.
- Ei. Volte. Não faça isso. - ele aperta minha mão de mansinho - Sabe por que eu te amo, B.?
- Hm --
- Porque você existe. Não é simples. Dói muito. Mas você consegue, você existe. Levanta daí, vamos pra casa. Você vai dormir um pouco e tudo vai parecer melhor. Eu prometo.
Fecho os olhos de novo.
- Mas e se eu --
- Por favor. De novo não.
Não digo nada, dobro minha blusa de frio, guardo minhas coisas e vamos pra casa, imersos em diferentes tipos de silêncio.
Tento ler a mente dele, desse reflexo do meu subconsciente e não consigo.
Não me surpreendo, afinal
existem coisas sobre as quais não penso.
30x12 Lemonade
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Ele estava sentado na banheira. Água, álcool, gelo e limão, os cheiros se misturando no ar, fazendo arder meu nariz.
Me sentei no vaso sanitário, e comecei a desembaraçar seus cabelos.
- Você sente dor?
- Não.
- Medo?
- Não.
- Fome?
- Não.
-Você consegue sentir alguma coisa?
- Eu amo você, ele diz.
Mas é triste.
Amor nem sempre é bom.
Não desse tipo, não a esse ponto.
Passo a mão nos seus cabelos, no seu rosto frio.
- Você sente isso?
- Eu não sinto nada. Eu só-- Eu só amo você. É complexo. Eu tento pensar, eu tento entender o que você diz, o que sinto, o que quero, o que houve. Mas só consigo pensar em você. Não consigo me lembrar de como era antes de pensar em você, eu só sinto essa vontade incontrolável de estar com você, de falar com você, te ver, te ouvir.
- Era isso o que você queria?
Não respondo.
Ele segura minhas mãos, se vira pra me olhar, pra me ouvir, o rosto branco feito cera, as pupilas mais dilatadas do que achei que fosse ´possível.
- E você? Sente dor, medo? Fome? Consegue sentir alguma coisa?
- Eu amo você, digo.
- Espero que isso seja o suficiente, dessa vez.
É, eu também.
Ele estava sentado na banheira. Água, álcool, gelo e limão, os cheiros se misturando no ar, fazendo arder meu nariz.
Me sentei no vaso sanitário, e comecei a desembaraçar seus cabelos.
- Você sente dor?
- Não.
- Medo?
- Não.
- Fome?
- Não.
-Você consegue sentir alguma coisa?
- Eu amo você, ele diz.
Mas é triste.
Amor nem sempre é bom.
Não desse tipo, não a esse ponto.
Passo a mão nos seus cabelos, no seu rosto frio.
- Você sente isso?
- Eu não sinto nada. Eu só-- Eu só amo você. É complexo. Eu tento pensar, eu tento entender o que você diz, o que sinto, o que quero, o que houve. Mas só consigo pensar em você. Não consigo me lembrar de como era antes de pensar em você, eu só sinto essa vontade incontrolável de estar com você, de falar com você, te ver, te ouvir.
- Era isso o que você queria?
Não respondo.
Ele segura minhas mãos, se vira pra me olhar, pra me ouvir, o rosto branco feito cera, as pupilas mais dilatadas do que achei que fosse ´possível.
- E você? Sente dor, medo? Fome? Consegue sentir alguma coisa?
- Eu amo você, digo.
- Espero que isso seja o suficiente, dessa vez.
É, eu também.
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