Imagem: TingTing Huang
(Um aviso: não é pessoal. Se eu não colocasse isso no papel, enlouqueceria. Eu juro, eu acho, não é pessoal)
Você se lembra daquela tarde, daqui a uns 30 anos, nós dois mais velhos, mais sensatos (ou menos), almoço em um café - talvez eu finalmente peça uma salada, talvez eu esteja preocupada com minha própria mortalidade, minha beleza, meu cabelo, as rugas sob meus olhos, uma aplicação de botox.
E você? Cabelos rarefeitos, umas entradas, cabelos brancos, não te imagino ganhando peso, fumando, pulando a entrada.
Você se lembra daquela noite, um milhão de anos atrás, ou daqui a um milhão de anos. O silêncio, as luzes e esta coisa, cujo nome me escapa agora, porque meu cérebro já não é o mesmo, eu não sou a mesma, mas
ainda assim
apesar de tudo de que não em lembro,
eu me lembro de você, uma proteína qualquer, estímulo elétrico, íons que entram e saem e caminham, e sangue ou um pedaço de substância negra, cinzenta, branca, uma meleca grosseira que dá contorno ao seu rosto onde quer que eu vá. Posso amar você sem te amar?
Você checa o relógio. É tarde, no seu fuso horário. Mas, ainda assim, você está acordado.
Esperando.
Esperando pelo quê?
Assustado.
Você sente medo, e nem sabe do quê, nunca vai saber.
Não te assusta não saber?
Não te assusta passar a vida inteira olhando as luzes pela janela sem entender o porquê, ou se poderia ser diferente?
O telefone toca.
É ela.
Ela. Ela quem?
Você não consegue se lembrar. Era pra ser alguém, alguém importante. Era pra você atender. Era pro seu coração bater mais forte, era pra ser diferente de todo o resto, de todas as outras, era pra ser bom, era pra ser incrível e arrebatador, mas
Você não atende.
Deixa tocar.
Tá confuso.
As palavras que ela diz não fazem sentido.
- O que você quer de mim?
Mas você não pergunta.
Ela quer você.
Ela só quer você, inteiro, cada centímetro do seu corpo, entender sua mente e conhecer seus segredos, mas é mais complexo do que isso.
Então você fica em silêncio.
É agora.
Agora ou nunca,
o que você tá esperando?
Você pode fazer isso.
E você sabe que pode
mas você não pode.
Tem algo de errado na cena final do filme.
A música, a luz, o local, o timing. Tudo confere.
Ela é o problema.
Ela simplesmente não está
disponível.
É algo no tom esganiçado da voz, o tremor leve dos dedos inquietos,
e você quer pedir que ela se acalme, pra que você possa pensar, mas ela voa.
E tudo bem.
Certo?
Normal.
Mas estranho, tão estranho.
Ele acorda, suado, sem saber que horas são.
Pega pão, café, um pedaço de queijo e olha pela janela.
Ela sabe.
Todo mundo sabe.
Mas ela
será que ela sabe?
Lavo o rosto,
bebo meia garrafa de água em um gole só,
e me passa pela cabeça dizer algo.
Ignoro a ideia quase que imediatamente.
Há tempo de sobra.
Abro uma fresta na cortina, e a luz entra, machuca meus olhos desacostumados.
Tem uma mulher na janela, estendendo as roupas no varal.
Há tempo de sobra.
Cubro as frestas,
deito na cama e volto a dormir, a sonhar.
Há tempo de sobra.
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44x10 Mistletoe
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.
Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.
Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.
O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.
Eu sou invencível.
Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem
Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e
amendoim
Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.
Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.
E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo
e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças
corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.
Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.
Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.
E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.
E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:
não tenho medo.
Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.
Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.
Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.
O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.
Eu sou invencível.
Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem
Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e
amendoim
Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.
Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.
E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo
e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças
corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.
Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.
Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.
E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.
E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:
não tenho medo.
36x18 Hollaback Girl
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Stephanie.
E foi assim eu beijei uma garota pela primeira vez.
Hollaback girl, minha juba esvoaçando, eu suava com o esforço e ansiava pelo fim da festa, por beijos há muito esperados.
Ela surgiu do meio das luzes, etérea, magra, pequena, cabelo escuro, roupas pretas, me perguntou sobre beijos e eu tinha um beijo pra dar. Dois. Estava guardando.
Eu tinha amor, o toque das minhas mãos, eu tinha dois mundos e muita dor pra oferecer.
Beijei-a.
Não era a garota certa, a que esperei durante anos, Berenice, Ulrika, mas era o certo naquela hora, sua boca macia, ascendente em Peixes, vida em Macaé, beijei sua boca porque sim, não porque a amava.
Eu guardei esse beijo, esse dedal, por muitos e muitos anos. E ela nem sabe. Nunca vai saber. Guardei pra uma garota que eu amei, que eu viesse a amar. Que me desse vontade de fazer cafuné, cujo corpo eu admirasse todos os dias, sem falta.
Eu guardei pra essa garota que eu quisesse ouvir falar da vida, do mundo, da morte, da mãe.
Pra alguém pra quem eu não quisesse mais mentir.
Que me fizesse querer voltar pra casa, uma pessoa a quem eu fizesse sentir bem, que me chamasse de lar.
Uma garota pra quem eu escreveria poesias, quebraria pratos, bateria portas, levaria flores e abriria as janelas pra arejar a casa.
Mas essa garota não existe, existe?
Não, eu a inventei.
Assim como invento as pessoas que quero amar e tento enfiar pessoas reais nesses moldes, causando dor e sofrimento pra gente que não tem nada a ver com as minhas loucuras.
Eu a beijei. Seu beijo era bom, sua boca macia, seu corpo tão frágil que eu tive medo de quebrá-la, que eu não sabia onde pegar, o que fazer.
Foi bom.
Não era a garota certa,
mas era o momento certo,
ou talvez isso nem exista e eu só esteja tentando enfiar significado em coisas que não o possuem.
Beijos,
Rejeições,
Amor.
Bom, garota certa, onde quer que você esteja, caso você exista:
não venha.
Fique onde está. A salvo.
Fique onde está,
e vai ficar tudo bem.
O mundo é grande,
você não tem que passar por isso.
Ninguém tem.
Stephanie.
E foi assim eu beijei uma garota pela primeira vez.
Hollaback girl, minha juba esvoaçando, eu suava com o esforço e ansiava pelo fim da festa, por beijos há muito esperados.
Ela surgiu do meio das luzes, etérea, magra, pequena, cabelo escuro, roupas pretas, me perguntou sobre beijos e eu tinha um beijo pra dar. Dois. Estava guardando.
Eu tinha amor, o toque das minhas mãos, eu tinha dois mundos e muita dor pra oferecer.
Beijei-a.
Não era a garota certa, a que esperei durante anos, Berenice, Ulrika, mas era o certo naquela hora, sua boca macia, ascendente em Peixes, vida em Macaé, beijei sua boca porque sim, não porque a amava.
Eu guardei esse beijo, esse dedal, por muitos e muitos anos. E ela nem sabe. Nunca vai saber. Guardei pra uma garota que eu amei, que eu viesse a amar. Que me desse vontade de fazer cafuné, cujo corpo eu admirasse todos os dias, sem falta.
Eu guardei pra essa garota que eu quisesse ouvir falar da vida, do mundo, da morte, da mãe.
Pra alguém pra quem eu não quisesse mais mentir.
Que me fizesse querer voltar pra casa, uma pessoa a quem eu fizesse sentir bem, que me chamasse de lar.
Uma garota pra quem eu escreveria poesias, quebraria pratos, bateria portas, levaria flores e abriria as janelas pra arejar a casa.
Mas essa garota não existe, existe?
Não, eu a inventei.
Assim como invento as pessoas que quero amar e tento enfiar pessoas reais nesses moldes, causando dor e sofrimento pra gente que não tem nada a ver com as minhas loucuras.
Eu a beijei. Seu beijo era bom, sua boca macia, seu corpo tão frágil que eu tive medo de quebrá-la, que eu não sabia onde pegar, o que fazer.
Foi bom.
Não era a garota certa,
mas era o momento certo,
ou talvez isso nem exista e eu só esteja tentando enfiar significado em coisas que não o possuem.
Beijos,
Rejeições,
Amor.
Bom, garota certa, onde quer que você esteja, caso você exista:
não venha.
Fique onde está. A salvo.
Fique onde está,
e vai ficar tudo bem.
O mundo é grande,
você não tem que passar por isso.
Ninguém tem.
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