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Early Cuts: Togetherness

Imagem: TingTing Huang

É difícil escrever sobre o que é real. 
Imagens em close-ups, seus poros, o cabelo sujo, 
fios e bolotas de cabelo no chão. 

O real quase se torna irreal, dissolve entre os dedos e a tinta quando tento descrever essa sensação terrível que é te ver todo dia de manhã. 

Terrível, amarga feito o gosto do café matinal que você deixa pra mim. 

Tétrica, feito a visão do seu corpo seminu na penumbra quando me deito de madrugada. 

Absurdo tentar descrever a sensação de quando você sai. E de quando você volta. De não suportar estar junto e de morrer de medo de ficar só. 

Dos planos frustros e das neuroses em frangalhos, tentando emergir. 

Corações desenhados, beijo, queijo e compras, o lixo, a roupa no chão. 

A correria do dia, das ruas, das horas, do tempo, do meu e do seu que agora são nossos, 
que horror. 

Acho que te amo e te detesto e te amo ainda mais quando te detesto. 

48x12 Mom & Dad II

 

Imagem: TingTing Huang

Tá tudo ao contrário, tudo errado. 

Desmonto e me remonto, peça por peça, buscando o defeito que você não me diz qual é. 

Troco tantas peças que nem me reconheço mais. 

Navio de Teseu, eu cruzei todo esse estreito pra te encontrar. 
E você nem sabe quem eu sou. 
Percebo, também já não sei mais. 

Não consigo mais sentir o gosto das laranjas, de peixe. 

E não consigo chorar. 

Consigo guardar segredos e mágoas como ninguém. Não me lembro mais da história, ou do seu cheiro. Mas me lembro do nome do segurança de Getúlio, mas me lembro dos nomes dos dentes que roubei. 

Só consigo me sentir bem quando estou sendo útil. 

Desmonto e monto, até não sobrar mais nenhum resquício seu, do que é humano, do que dói, quero ser toda Dela, toda ela, e não quero mais ser ninguém, de ninguém. 

Desmonto, e remonto, angustiada, até virar uma coisa - essa coisa - disforme, metálica, inorgânica, 
o monstro de Frankenstein que vocês teimam em recriar. 

Sem nome, sem nada de meu, e eu não quero mais. 
Eu não quero mais.
(o quê?)

Eu não quero mais. 

48x09 Sharp Objects

 

Imagem: TingTing Huang

Ele desperta, no meio da noite (sim, ele também) e pensa, com calma e cuidado sobre a possibilidade de -

Feito um jorro de água, inicialmente fria, e depois morna, ele sente que é certo.

Lava o rosto e olha-se no espelho, toca o vidro. Gelado, ingênuo. 

E não se reconhece mais. 

Está cansado, cansou-se, da máscara, da farsa, da inverdade que pesa em casa passo e expressão dita ou não dita. 

Acendem-se as luzes, lá fora, ou amanheceu, e seus punhos continuam em riste, já não dorme, não come. 

Tem coisas, ele se lembra, que não tem mesmo jeito. 

Toma 01, 02 cps e mastiga, com força, até sentir o amargor, sob o olhar atento da esposa. Tão ansiosa, tão querida, tão (tola? crédula?). 

Respira fundo e força um sorriso, só mais um, ou outro, sentindo cada músculo rijo e dolorido, uma máscara aterradora. 

Pergunta-se se é possível mesmo viver dessa forma mais uns 30 ou 40 anos. Só mais um pouco, sem que ninguém saiba. 

A ideia causa taquicardia. Pensa nas noites insones e no medo. 
O medo é o pior. 

Engole comida quente sem sentir o gosto, sem prazer. Mastiga quantas vezes for preciso até engolir os pedacinhos. 

Mastiga. E sente medo. Mastiga. E sente medo. 

Medo que não passa nunca. 

Mastiga comprimidos. 
E sente medo. 

Ele só quer não sentir mais medo. 
As portas se abrem e fecham, e fecham, e fecham, até que não se abrem mais. 

Vira a chave na porta e, quando só, uma voz grita:

"Vai!"
"Coragem!"

Ouve baterem à porta, e sabe que o tempo urge, o corpo urge. 

Olha ao redor e se vê no espelho, aos 20 anos, mal se reconhece. Deixa de ser homem e se torna, de novo, bicho. Pronto para matar. 

"Coragem!"
Tenta lembrar o lema do príncipe do livro de contos de fadas que possuía quando era criança. A divisa do príncipe aventureiro. 
"Coragem!"

E, num rompante, ele finalmente insipira, expira, sangra e deixa cair no chão 
o caco de vidro,
o sangue,
o medo, 

a vida. 

48x08 Terrores Noturnos

 

Imagem: TingTing Huang

Durante a aula, me vejo nua. 

Sempre atrasada, sempre correndo. Fujo de homens e sombras e serpentes, em círculos, presa, num labirinto em Atlântida, me afogo.

E, de novo, ressuscito, a caminho de uma aula para a qual me atraso, ou entro na sala errada, completamente nua. 

Feito Sísifo rolando a pedra, de novo e de novo, eu me afogo sem conseguir sair da água, sem nem ao menos entrar. E não me importo porque qualquer um desses pesadelos é melhor do que

Cassandra. 

Acordo, no meio da madrugada, apavorada. 
Sonhei que você morria. 
Mas sonhei,
ou previ?

Sou capaz de prever o futuro? 
Não era, mas isso era antes. Isso era ontem. 
Agora, talvez, eu seja. E se for? 
3h da manhã, escuridão total fora da janela. 

Mas posso ligar? Devo ligar? 
E dizer o quê?
E fazer o quê se a ligação não for atendida? 
Se não chega resposta?

Sinto um aperto no peito, não consigo dormir, caminho pelo labirinto, desesperada, em busca de respostas, fazendo preces até

Pouco antes do amanhecer, insone, me deparo com uma linha de lã vermelha, cor de sangue viva, cintilhante, que brilha mesmo no escuro. 
Sigo a linha, sem medo e ela me leva por corredores estreitos, claros, e escuros também, chão de grama e pedra. Eu a sigo pra fora da minha mente e saio já de manhã, só pra te encontrar, vivinha da silva, sã e salva. 


Fev/2024

47x06 Veil

 

Imagem: TingTing Huang

Chego em casa e lavo as minhas mãos, mas o seu sangue não sai. Mancha toda a pele, feito caneta permanente. 

Não sai nunca e eu esfrego as mãos até ficarem em carne viva, mas o seu sangue fica. 

***

Abro a sua cabeça com mil instrumentos inadequados, abridores de latas e facas de mesa, seu crânio duro entortando meus garfos.
Cacos de vidro, tesouras sem ponta e bigornas. 

Pregos e lixas de unhas pontudas, abro buracos e espio aqui e ali, sem fórmula, sem objetivos, sujo tudo com seu sangue, com meu sangue, até não saber mais qual sangue saiu de quem, quem sangrou mais, quem vendeu, se tem vencedores nessa história de brincar de sério. 

Faço uma sujeira, uma bagunça que não sei limpar, que me apavora ter que limpar sozinha, e eu quero parar e limpar. 
Eu juro que quero. 
Mas, como tudo na minha vida, deixo pra depois... 

E pego uma colher de sobremesa, uma chave, um grampo.
Debruço-me sobre o seu corpo - e me causa tremenda estranheza pensar nessa cena vista de fora - e me ponho a cavar, raspar e furar. 
Incessantemente. 
E eu não sei o porquê. 

Eu não sei o que eu quero encontrar, o que eu vou encontrar. 
Eu não sei o que fazer se achar. 

Por um momento, eu paro. 
Eu pauso o mundo inteiro e me sinto sozinha nele. 
Sozinha com você, o que é mil vezes pior. 

Por que? 

A ideia me sufoca e, no entanto, tornaria tudo tão mais fácil. 
Mas a coisa é:
essa não é uma história de amor. 

É uma história de criação, estamos criando algo, não estamos?, eu te pergunto. 
Mas não somos Adão e Eva, como você queria que fôssemos. 
Somos Pandora e Prometeu, somos Victor Frankenstein e seu monstro e eu tenho uma certeza quase que premonitória de que o que quer que criemos será tomado de nós. 

E seremos punidos pelos deuses modernos. 
É só uma questão de tempo.  

46x19 Male Fantasy

 

Imagem: TingTing Huang 

"Queria beijar sua boca"
4 palavras no papel, letra miúda, singela. 

Ele sorri com os olhos, como se pudesse ler a minha mente.
E eu quase tenho medo de que possa. 

Eu sou uma mulher.
Cor de café-com-leite, burro quando foge.
Nem de longe a primeira a ser chamada pra dançar. 

Ninguém me olha duas vezes ao passar por mim, nas ruas ou corredores.
Ninguém me busca nas fotos ou me escreve poesias.
Não olham meus seios e nem sussurram meu nome nos vestiários.
Não sonham sonhos eróticos, cheios de cores e sensações.
Ninguém quer o que eu vejo no espelho. 

Por um instante, você quase consegue me fazer pensar nisso. Quase consegue me fazer pensar que --

O que você quer?
O que você vê, com esses seus olhos fundos de contar degraus?
Vejo, refletido nos seus olhos, a imagem de um lago pra você se debruçar num dia quente.
Feito uma miragem. 

Dentro do lago, existe um oceano.
E você só quer o lago. 

Todo mundo só quer o lago. 

46x11 To kill a mockingbird

 

Imagem: TingTing Huang

Silêncio, mas não do tipo bom. 

Silêncio demais, dentro do quarto, na sala no jardim enorme, interno. 

Por um instante, ela se perguntou se estava mesmo viva. 

Palpou o pulso no pescoço magro, batendo no dedo, tum tá. 

Tinha sangue nas veias, a pressão adequada, um músculo pulsante, eletrizado, sinapses piscando sem ruído algum em meio à tarde quente de janeiro. 

Dentro dela, um turbilhão de células, neurotransmissores, segundos-mensageiros, um liga-desliga insistente, até irritante. 

Tinha vida ali. 

No entanto, todavia -

Sentiu dor. Uma fisgada no céu da boca. Dor. Outrora lancinante, intensa. Agora, só dor. 

Correu a pegar o comprimido e colocou sobre a língua úmida, foi chupando como se fosse bala, sentindo o gosto amargo até o fim. Nem tinha ainda acabado de derreter e já se sentia melhor. 

No que era mesmo que estivera pensando? 
Ah, sim. 

Paro, na frente do espelho e examino meu rosto sem vaidade, digo a mim mesma, vaidade pra quê? 

Pra quem? 

Eu sou mesmo uma mulher partida em pedaços. 42. Um número cabalístico. 42 pedaços, talvez. Eu pauso, pra me ajuntar, mas não tenho como colar o que sobrou. 
Faltam peças, tantos pedaços, o septo e palato, ossos e células boas, bem feitas, receptores bem postos. 

Mãos pálidas, dedos artríticos, a mil anos luz de quem eu realmente fui. 

Uma artista. 

O substantivo me machuca feito um soco que levei entre as costelas, machuca feito traição. 

Artista. 

Eu fui, eu sou. Eu era. 

Agora, estou. Eu não sou nada. 

Silencio a dor com mais um comprimido amargo a derreter. 
Conto comprimidos. 
Um pra dor, 
outro pra outra dor. E mais essa e aquela. 

Manhã, tarde e noite passam feito a memória dos sussurros de velhos amantes, gélidas e cinzentas, fugazes, nubladas. 

E mais um dia e outro. 

Ouço um pássaro cantar. Longe, bem longe. 
Dentro de mim. 

Há muito tempo que não o ouvia. 

Fecho os olhos e aprecio a melodia. 
Talvez, seja a última vez. 

Espero que seja a última vez. 

46x09 The fire that I started in me

 

Imagem: TingTing Huang

"Eu me sinto -- como uma pira funerária acesa na chuva (...) uma fogueira na chuva"

E se eu te disser
Sim
?

É quase madrugada, o que quer que isso queira dizer. Não é tarde demais pra dormir, mas também não é cedo. 
É quase. 

Aqui dentro eu juntei tudo, folhas secas de cadernos e diários com teu nome, e gravetos, mil gravetos como em um livro que li uma vez, gravetos com teu nome gravado, carvão, ervas perfumadas, tecidos, combustível que roubei do tanque do seu carro, do meu carro. Tanta coisa pequena, inflamável, uma pilha enorme de desenhos, livros, lembretes, letras, letras, letras e mensagens confusas. 

Pra acender uma fogueira enorme, gigantesca. 

Veio a chuva de verão, dessas chuvas fugazes, intensas, que molham os amantes em filmes, que deixam o vestido branco e florido da mocinha quase transparente, grudado no corpo prestes a ser beijado e acariciado, molhou tudo. 

Mas eu esperei, pacientemente, até secar. 

E agora, é hora de acender. Acender e queimar. Hoje, não esqueci o isqueiro. Nem álcool. Tudo certo, tudo pronto, tudo limpo. Chego perto, e é hora de acender a pira e queimar --

Queimar o quê? 

Eu tô pronta. Tenho o fogo que falta, a centelha, eu tô pronta pra queimar. Mas eu não sei mais o que queimar. Eu não sei se essa é a grande pira funerária do nós que é, do nós que nunca foi. Se é uma fogueira pra fazer sinais de fumaça e te fazer entender como eu me sinto. 

Eu não sei o que eu quero tanto queimar, eu só sei que eu quero acender, eu quero ver o fogo, eu quero sentir calor. 
Eu tô cansada de sentir frio. 

Mas eu também sinto medo de desperdiçar tudo isso, todo esse tempo, só pra ver, por uns segundos, as chamas coloridas transformando tudo em cinza. 

Eu quero acender. Eu quero queimar. 

Mas é cedo, ainda. 
Eu preciso de tempo. 

Preciso de mais tempo. 

46x07 'Til forever falls apart

 

Imagem: TingTing Huang

Eu amo você, e eu não quero dormir essa noite. Quero uma noite, só essa noite. Uma noite longa, que dure muitos e muitos dias, quero te ler uma história tão longa que você a ouça por um período equivalente a 1001 noites. 

Vamos não dormir, hoje não. Essa noite não. 

Vamos ler um pro outro, e ver todas as séries abandonadas pela metade. 

Vamos, essa noite, contar todos os segredos e resolver todos os dilemas morais, vamos explorar nossos inconscientes, vamos fazer todos os planos virarem realidade. 

Vem, mas tem que ser agora, tem que ser essa noite, vamos fugir. Vamos pra bem longe, comer doce, andar de mãos dadas, vamos fazer um filho, vê-lo nascer e crescer essa noite, vamos envelhecer juntos. 

Vamos ser padrinho e madrinha das crianças nascidas em todo o estado, ler todas as histórias e ver todos os filmes de amor. 

Vamos não dormir, 
vamos nos amar com pressa, com intensidade, como se essa fosse a última noite,

porque talvez seja. 

45x01 Por um triz

 

Imagem: TingTing Huang

Quase 2 anos, nem sei mais se sei como fazer isso. Mesmo assim, vou fazendo. 

E, admito, parece mesmo como andar de bicicleta. Meus dedos reconhecem as teclas, os comandos. Os sons, a sensação de estar finalmente em casa de novo. 

Olá, querido leitor. Estou aqui. 

Estou viva. 

Você está?


Tem tanto que eu quero dizer. Aconteceu tanta coisa. Eu quero explicar a razão de não ter voltado. Mas eu não tenho razão.
Por que agora? Por que hoje? 


É que hoje acordei de propósito.
E fazia muito, muito tempo, que só acordava por puro instinto. 

Hoje eu queria começar de novo. Hoje eu acreditei que realmente conseguiria se quisesse. Eu queria um ano novo, com a B. antiga, a que eu amo, respeito. Hoje eu quis encher a minha parede de cores e lembretes. 

Hoje eu queria escrever sobre Otto e Chuck. Hoje eu queria beber água e comer vegetais. Hoje eu queria fazer yoga. Hoje eu queria querer estar aqui pro ano que vem. Hoje eu queria ser quem eu não sou ainda. 

Hoje eu queria esquecer que tudo na vida é quase. Quase lá, mais um pouco. Tudo é esforço, trabalho duro. Tudo é por um triz. Tudo é na hora certa, quando você estiver pronta. Se Deus quiser. Um dia desses, quando se menos espera. 

Hoje eu queria esquecer que eu quero.
Agora. 
Pra ontem. 

Hoje eu queria fácil. Descomplicado. 
Queria sorte, do tipo que a Lindsay Lohan tinha em "Just my luck", daquele tipo de fazer parar de chover.  Usar uma calça branca que nunca se suja. 

Hoje eu queria ser a primeira opção. Ter a primeira opção. 
Hoje eu queria não aceitar menos que o melhor. 

Hoje eu queria saber o que fazer. 


Mas eu não sei. 

Por enquanto, tudo é quase. 
Tudo é por um triz. 

Por enquanto, só quero, quem sabe, 
acordar de propósito amanhã. 

43x21 Dinâmica uterina

Imagem: TingTing Huang

Ela estava chorando, gritando, me implorando pra deixá-la sair correndo.
Mas não tinha mais como fugir.

- Ele vai te dar um remédio agora. Vai fazer mágica. A dor vai desaparecer como se nunca tivesse existido.

Eu disse, sem perceber, percebendo
que queria que ele fizesse o mesmo por mim.

Que minha dor era como a dela,
regular,
intensa,
dessas que não melhoram com os remédios comuns.

Que eu precisava estar no lugar dela.

- Relaxe, relaxe os ombros, abaixe a cabeça

E, de repente, as mãos de Houdini, me fazendo massagem, destruindo a tensão com os dedos,
com amor,
com otimismo,
mas sem bupivacaína.

Parecia suficiente,
mas não,
não é.

Ainda dói,
fundo,
surdo.
Dói, rasga, vai e volta,
mas nunca some, nunca melhora.

"Quanto pior a dor, mais perto do fim estamos chegando", eu prometo.
Mas quanta dor eu consigo aguentar?
Minha verdade é verdade pra tudo,
pra todas?

- Eu só quero que tirem isso de mim,
34 semanas e diabetes me diz.
E eu digo a ela pra ter paciência, esperar mais um pouco,
mas eu também só quero que tirem isso de mim.

Agora,
agora.
Eu não quero mais sentir dor.

Mas tudo o que eles sabem - eles sabem de alguma coisa? -
é fazer perguntas,
sangue ou líquido ou contrações, queixas urinárias, se ele se mexe,
e então desaparecem e não me dizem nunca quando passa a dor.

Mulheres gritam, mulheres choram,
aqui e em outros lugares,
no escuro,
em casa,
na igreja,
paradas de ônibus,
no meio do nada,
sem poder pedir ajuda.
E eu posso,
eu posso,
mas pra quem?

Tem sangue,
e líquido escuro nas minhas mãos,
ele não se move,
eu sei que tem algo errado.
Quando o mundo está em silêncio,
eu quase posso ouvir seu coração bater.

Mas caminho,
caminho,
está chegando a hora,
mas dói,
dói tanto,
que eu não sei se consigo aguentar,
que eu não sei se quero aguentar.

mas eu queria tanto.

Deus
é bom e justo

e o interior do meu corpo é quente, febril,
me diz
quantos centímetros?

Quantos centímetros de dor eu preciso aguentar até que você decida que não preciso mais aguentar?

Então a hora chega e eu grito seu nome,
eu quero segurar a sua mão,
eu não quero passar por isso sozinha,
me dizem pra prender a respiração,
fazer força,
mas eu não tenho forças sem você aqui.
Só que você não vem,
você não consegue me encontrar,
e eu tenho, mais uma vez, que fazer tudo sozinha.

Sempre sozinha,
mas agora eu tenho isso,
então eu seguro o grito entalado na garganta e faço força,
minhas últimas forças,
depois de tanta dor,
tanto medo,
tanta procura,
eu não vou mais ter que ficar sozinha.

Então,
força
força
força
não para
assim
empurra meu dedo
força de coco
prende a respiração
descansa
ele precisa nascer

mas eu não consigo
você consegue
e eu dou tudo de mim
tudo de mim pra você,
mas você não vem
você não sai,

não é seguro aqui
e você sabe
e sofre

alguém te empurra,
te obriga a sair
e você sai,
em silêncio,
se recusa a chorar,
se recusa a respirar,
se recusa a viver

se recusa a ficar

e me deixa só.

- A dor vai passar assim que ele nascer, ela disse.

Mas não passou.
Não passou.

E agora?

- Alta.

42x15 Flatliner

Imagem: TingTing Huang

Vazio.

A mãe dela bate em seu rosto com a mão tão fria que parece a chuva forte cortando a noite.

Ela acorda, no silêncio.
É noite.
É sempre noite.
Quando acorda, quando sai, quando volta.

- Eu estou triste, -  ela diz, para o espelho - Eu estou feliz.
Ela está.
Trança os cabelos bem devagar enquanto a lua muda de fases, e ela abre a porta no meio da noite sem saber que dia é.

O telefone toca,
ela sai,
e come,
e beija,
e ama,
tudo tão normal, então ela dorme e acorda no meio da noite.

E a morte chama, mas ela não ouve, ela não pode conversar porque ela está.

Abre um rombo no próprio peito e quase morre sufocada, mas não dói.
E tudo bem,
porque não dói.

- Você ri do que é engraçado?
- O que é engraçado? O que é bom?

Ela morde os lábios, amarra a boca, arranha os dentes uns nos outros, tem algo. Tem algo lá dentro, crescendo, crescendo e morrendo, em desespero,
mas ela respira fundo,
busca uma distração,
mais uma,
e outra,
e outra,
e outra.
Até a sensação passar.

Então, ela dorme, no escuro, sem medo.
E acorda, no escuro,
segura.

Ela está.

Por que não pode ser o suficiente?

42x10 10mg

Imagem: TingTing Huang

Sobre saber e coisas que podemos escolher.

Faço ânsia de vômito,
você faz cara de preocupado.

Tá tudo bem, né?
Isso é bom?
É isso mesmo?

Não sei,
a gente não sabe.

O homem na farmácia não sabe,
nenhum de nós pode saber.
Só podemos esperar.

Dá vontade de jogar tarô,
mas tenho medo.

Quero ser otimista,
quero ser como você,
full-on Pollyanna mode,
me dizendo que tá orgulhoso,
que tá vendo os efeitos.

Então sinto vontade de vomitar,
mas sinto prazer nisso,
tá acontecendo.
Alguma coisa tá acontecendo.

Alguma coisa vai acontecer,
aqui dentro,
de dentro pra fora,
tá tudo aqui, dentro dessa coisinha minúscula e branquela,
a solução pra tudo,
o pedacinho ínfimo que ficou na caixa de pandora quando tudo escapou

Esperança.

10mg de esperança.

É muito pouco.
É muito pouco pra tanto sofrer, pra tanto enjôo e dor.
É muito pouco, amor.

Mas já é alguma coisa.

Esperemos.

42x03 Karma Police

Imagem: TingTing Huang

Chove.
Elação de humor, chuva.
Boca pra beijar, amigos, saio mais cedo do trabalho e

o karma me para na estrada com um trombolhão, tem metal e água espalhados pela pista, misturados com os cacos do meu dia bom.

Gritam.
Eu não grito.
Eu não choro.

Estou em choque e um homem me desperta.
A chuva pinga fina e tímida no meu rosto, lavando os resquícios de toda a coisa boa, que eu agarro pra não escorrer. Eu tento me concentrar no presente, aqui e agora,
mas ela me sussurra coisas sobre o passado e o futuro e não me deixa pensar.

Se eu tivesse ficado.
Se eu tivesse voltado.
Se eu tivesse seguido adiante
Se eu tivesse ido.
Se eu tivesse conversado.

Minha cabeça enche de se's soltos ao léu
até que eu deixo de ser eu pra ser apenas

"se".

41x09 Gobi ou a mãe que não era mulher

Imagem: TingTing Huang

Eu acordo cedo, lavo meu rosto e a tinta  branca escorre pelo ralo, sujando a pia.

Acordo meu filho, uma bolinha pequena de cabelos raspados e olhos tão castanhos quanto a cobertura de chocolate do meu sundae favorito.
Ele resmunga e se levanta, sonolento.

Lavo seu rosto até que a tinta escorra inteira, raspo os pequenos chumaços de cabelo da sua juba de leão, eu repinto seu corpo inteiro, pedaço por pedaço, com a paciência de uma artista, pinto com carinho, temor, eu me lembro de um homem que amei e que me disse que, um dia, os Lordes Negros tomariam o poder do mundo e nós poderíamos parar de nos esconder no escuro.

Fazemos uma pequena prece e meu filho, com sua voz infantil, pede a bênção dos Lordes Negros, pede um futuro, pra ser confundido com os outros meninos brancos, pra não ser morto, pra não ser pego pela polícia, pra não ser notado, pra não ser preso, pra ter algumas oportunidades minimamente equivalentes às dos outros garotos, pra não precisar correr, pra não sentir medo, pra não se sentir pequeno, pra sentir orgulho de ser quem é, pra voltar pra casa no fim do dia, pra poder entrar em
uma loja sem ser confundido com um ladrão.

Mais uma vez, sinto uma ânsia triste de pedir desculpas a ele. De me desculpar por não ser mais clara. Por não ser branca.
Mas me lembro de que eu amo a cor da minha pele e minha juba de cabelos, eu amo a minha história e a dor que corre nas minhas veias.

Enquanto ele come, eu conto as histórias do mundo, como foram contadas por meu pai, e no nosso sangue vivem um milhão de almas, um milhão de heróis, homens e mulheres correndo descalços, assustados, mas que jamais serão derrotados por grilhões ou açoites, que vão viver pra sempre através dos olhos castanhos do meu filho, na cor da pele e nos cabelos que enrolam e formam pequenos anéis.

Conto a ele sobre o Tigre e a Aranha, e os animais que vivem na floresta do fim do mundo, e ele me diz que quer ser um pássaro ou uma aranha.
Eu digo a ele que ele pode ser quem quiser.
Mas ele sabe que não é verdade, porque ele não pode ser quem ele é.

Chega a hora de ir e ele me abraça forte
"Mãe, quando os Lordes Negros vão vir buscar a gente?"
- Logo, logo. Enquanto isso, seja um bom menino, sim? Obedeça. Mantenha a cabeça baixa. Não corra. Não ande sozinho. Não pegue nunca as coisas dos outros. Não dê motivos pra que eles olhem pra você. Ok?
Ele faz que sim com a cabeça, me beija e vai embora na direção do mundo cruel.

Eu volto pro banheiro, lavo todo o meu corpo, fazendo escorrer toda a tinta, arranco minha peruca e solto meus cabelos, deixo-os livres pra voar e se enrolar em todas as direções.
Você abre a porta e me observa, em silêncio, com aquela admiração muda, seu rosto branco do jeito certo, o nariz do meu filho, as pintas do meu filho, o sangue do meu pequeno mestiço brincando de correr pelas suas veias.

Você sabe.
Eu também sei.
Mas ele ainda não precisa saber.

Ainda há tempo,
certo?

40x17 Throwaway

Imagem: TingTing Huang

"Isso não é real. Nada disso é real. Você não é real. Eu não sou"

Estamos sentados, esperando, no centro do mundo.
O vento sopra as cortinas, fresco, cortando o dia quente e o silêncio da manhã, o sol ilumina o quarto apenas o bastante pra que possamos olhar um pro outro.
Estamos assustados, mas eu tô feliz aqui.
Vai acabar logo.
Estou ouvindo.
Os sons de risada, as vozes das pessoas.
Ele aperta a minha mão.
Tenho 36 anos.


Acordei cedo e fiz o café.
Era domingo.
Eu olhei para o jardim e pensei que, talvez, devesse aprender jardinagem.
Plantar flores e algumas ervas. Tomates. Definitivamente, tomates.
Ele poderia me ajudar, quando estivesse melhor.
Suspirei.
Provavelmente, seria mais um dos nossos projetos inacabados.

Sacudi a cabeça.
Eu deveria estar escrevendo.
Mas o dia estava tão bonito, parecia até um dia de mentira.
Mentira.
Todos aqueles dias eram de mentira, ele dizia.

Subi as escadas e fui até o quarto do bebê.
Ele dormia chupando o dedo, inocente, não sabia de nada sobre o que acontecia ao redor.
Movia as pernas como se sonhasse.
Com outras vidas, talvez.

Fui para o nosso quarto e as janelas já estavam abertas.
Você estava lá. Acordado, esperando, sempre esperando.
Sentado, quieto, magro, sujo, barbudo, despenteado, assustando nossos amigos e familiares, me assustando.
Você me olhou quando entrei e vi que estava envergonhado.
Eu te peguei no pulo, de novo, e nós dois sabemos, sem precisar dizer, que você está torcendo pra que tudo acabe.
- Você tomou seus remédios?
Você sacode a cabeça, não tomou. Não tem tomado.
- Você não vai tomar?
De novo, você sacode a cabeça. Suspiro e me sento na cama, de costas pra você.
- Você não pode tentar de novo?
- Tentar?
- Tentar. Tentar ser feliz. Éramos felizes. Ainda podemos ser.
- Não consigo. Não quando eu sei que nada disso é real, não quando eu sei que vai acabar a qualquer momento.
- Talvez não acabe. Talvez só acabe quando --
Desisto.
Já tivemos essa conversa.
Já argumentei tantas vezes. Sobre vida e morte.
Além disso, o médico já me disse para parar de dizer a palavra morte. Risco de suicídio, ele dissera. E, mesmo assim, contra as ordens médicas, contra toda a lógica, eu te trouxera pra casa, onde você podia delirar a vontade.

Olhei para o seu rosto e você continuava em silêncio, observando o sapato.
O maldito sapato.
Olhei pra ele também, considerando finalmente te internar, jogar aquela coisa maldita fora,
aí percebi que algo estava errado.
Algo estava muito errado.
Eu olhei à minha volta, meu estômago afundou, eu senti algo, um pressentimento, um foi como se estivesse sendo sugada pra fora de casa, como se minha vida estivesse desaparecendo aos poucos.
Eu pude ouvir um barulho desconhecido e familiar de pássaros, panelas, carros. Cheiro de canela. O barulho de portas abrindo e fechando, passos na escada.

Tentei me recuperar, mas a sensação não passava.
Não era real.
"Existe outro lugar, além do aqui e agora", você dissera.
Olhei pra você, assustada, e você me olhava, ansioso.

- O que acontece agora?
- Esperamos.

Eu me sentei ao seu lado, apertei sua mão e ficamos juntos, olhando.

Em algum momento, o bebê acordou, chorando,
e nenhum de nós se mexeu.
Ele chorou,
chorou,
chorou

e então, afinal,
silêncio.

Esperamos.

36x09 Where does the good go?

Imagem: TingTing Huang

Cadê o povo pra defender a menina sem coragem de pegar a faca e matar o pai?
Cadê o povo que grita acusações, que chama esse (meu) Deus, quando essa menina é violentada todos os dias, quando é obrigada a sentar ao lado do seu estuprador?
Cadê sua lógica quando uma criança me diz, quando um amigo me diz que não se sente feliz no seu próprio corpo e você diz que isso não é normal? Fala sobre Deus, um Deus que você nem conhece, e que, se conhece, não é o meu. Não é o que eu quero.
Dor não é comparável, não é mensurável, não é engraçada.
Vê se me escuta, vê se olha as pessoas nos olhos e entende que o mundo muda, que homens beijam homens na boca e não é errado amar, e você não precisa beijar uma mulher na boca pra respeitar uma mulher que faz isso. Você só precisa ser humano.
Errado é reprimir, violar, aprisionar, ferir, entristecer.
Por que você não vê?
Quero te arrancar os olhos, te mostrar meu mundo, não tô tentando impor minha opinião, tô tentando te mostrar que existe outra opção, que o mundo não é só esse quarto fechado em que você se encontra, quero mostrar o mundo e a crueldade dele, a tua crueldade, a minha.
Cadê as pessoas boas, cadê o povo que alimenta os famintos, agasalha os pobres e dá as costas aos homossexuais pecadores?

Por que vocês não conseguem ver?
Isso não é guerra, frescura, fase,
isso é amor.
De um jeito que você não pode não sentir, mesmo sendo como eu.
É maior, mais bonito, incrível.

E é óbvio.
Mas você não consegue ver.
É óbvio.
Mas eu não consigo te mostrar.

Porque você não quer ver.

36x01 Aprendendo a ser negra

Imagem: TingTing Huang

Arrepio na pele, dor de meses, anos, séculos nas costas.
Dói.
Mas por que é que nem sempre dói,

Quem eu tô?
Quem me embranqueceu?
A cor da minha pele é quem eu sou ou quem eu vou ser?

Daí meu cabelo cresce em molinhas curtas e pretas.
Pretas.
Molas pretas.
Que eu tento conter porque tentam me conter.
Há meses, anos, séculos.

Mas ele cresce e eu cresço, ouço vozes nos meus ouvidos, meu sangue, meus pés
e sussurro de volta, no meio da noite, com medo de admitir as raízes, as palavras ferinas dos homens e o sangue dos filhos das mulheres que não sou.

Mas eu sou.

Quem eu sou?

E os cabelos continuam crescendo, me chamando de preta, preta, pretinha,
eu tô com medo da dor do mundo, da verdade, dos cabelos e do sangue que corre nas minhas veias e no chão das terras em que piso.

Chamam-me bonita, exótica, moreninha.
Sou PRETA, vó.
Sou preta, retinta, Não tá na pele, na boca, tá aqui dentro de mim, no que faço e no que vou fazer da vida.
"Mas esse sangue não é teu, essa luta não é tua, alisa o cabelo, embranquece e segue a vida"

Eu penso, e sento, enrolando nos dedos as minhas molinhas, meus amores.

Não tem volta, mãe, vó:
Eu sou.

Esse sangue não é meu, não tem que ser meu.
Mas entendam: esse sangue não tem que ser de ninguém e eu não vou dormir, não vou descansar e nem comer direito
até que ele deixe de existir.

Eu sou, vó.
Eu sou.

34x13 Redoma de vidro

Imagem: TingTing Huang

Demorei muito pra escrever sobre isso.
Mas, lá vou eu.

Eu fui assaltada. Eu, James, osGênios.
Levaram meu celular.
E levaram outra coisa, também.

eu tô com medo.
Levaram algo, algo

Levaram minha casa, minha Brasília, o único lugar em que me senti segura na vida.
Levaram

Levaram a beleza dos estranhos que se aproximam, e das noites escuras.
Levaram minha capacidade de ouvir.

Eu tenho medo,
do escuro, das janelas abertas, de voltar sozinha pra casa, de demorar pra entrar no carro, de sair das festas.
De dormir.

Não tá tudo bem.
A cidade era minha, minha cidade, minha casa. Uma mulher gigantesca de concreto e vidro a me segurar pela mão,
Sólida.

E eu quero isso de volta.
Quero de volta as sensações fúteis, o não me importar com quem vive e quem morre, ou com amor e outras bobagens.
Queria que o tutorial fosse a maior das minhas preocupações, e não tremer de medo quando tenho que descer pra levar o lixo.

Eu não sei quem você é. Eu não sei da sua vida, da sua história. O que nos separa são milhares de oportunidades, de privilégios invisíveis dentro dessa minha velha redoma.
Eu não sei como é ser você,
eu não sei o que sentir sobre você.

Mas eu peço encarecidamente que me devolva.
Pode ficar com o celular, as músicas, as lembranças, as conversas.
Eu quero minha inocência de volta,
eu quero me sentir segura,
eu quero não ter medo de cada homem e mulher que surge ao longe,
e quero voltar dirigindo sem rezar pela minha vida, pra ficar salva, pra ficar sã.

Eu só quero de volta a sensação de ser imortal,
de estar segura.
Pode ficar com o resto.
Eu só quero voltar a ser eu.

33x09 The Hangover, parte 1

Imagem: TingTing Huang

Tô tentando achar um jeito de escrever sobre ontem/hoje.
Tô tentando achar as palavras.
Não acho.
Encontro cores, imagens, sensações.
O gosto do álcool na minha língua, amargo, rude.

E me sentir segura no lugar mais teoricamente inseguro.

Bom, do início, pra variar.
Muitas noites em uma só.

16: 00 Sentei no sofá e escrevi. Escrevi, como não escrevia há muito tempo, com vontade, fé nas palavras que surgiam, como se Oliver estivesse me sussurrando as palavras certas. Ele foi tomando corpo, tomando forma, virando gente, andando pelas ruas de Brasília, com passadas incertas, em tardes quentes e brilhantes demais, irreais demais.

18:00 Mensagem no celular, me levanto e tomo banho, gelatinas prontas na geladeira, quero me parecer com uma princesa. Mas nem tanto assim. Eu só quero ser quem eu quiser, e quando quiser.
Visto minhas roupas, mas nada fica bom, nada nunca fica bom. Eu não me sinto feia, só me sinto estranha. É setembro, e eu não quero mais ninguém. Eu quero me achar bonita e me encontrar por aí, na minha escrita e nas minhas ações, quero fazer o que acho certo. E parece certo, soa certo ir hoje à noite. Não espero nada.
Só quero me sentir bem.

20:00 Elspeth. Milhões de coisas passam em minha cabeça, mas tudo me parece tão familiar.
Eu não me sinto mais doente.
E eu sei disso, eu percebo isso nas cores do suéter de Elspeth, o azul vivo, o branco brilhante, e pela maneira como nossa familiaridade não me assusta, me agrada e me deixa tranquila ao invés de acuada.
Observo pelas frestinhas das outras vidas que as pessoas têm e me agrada por demasiado a familiaridade das conexões que existem por aí, amor puro e simples. A noite é escura e quente e, quando me sento no banco de trás das pessoas mais teimosas do universo, eu me sinto inexplicavelmente abençoada pela oportunidade de estar ali.
Casa do homem-abacaxi, melhor amigo/pessoa que menos conheço no mundo inteiro, tudo parece inexplicavelmente comum. Nossa viagem até uma festa de aniversário sem aniversariante, as pessoas na cozinha, o gosto de guaraná e cerveja, vodka e cereja, os milhares de tons de verde na roupa da garota em quem estou acostumada a pensar como a melhor e mais bonita do mundo - palavras do aniversariante/melhor amigo.
(Sei que é confuso, mas é como se esses detalhes pequeninos constituíssem os pontos-chave de todas as lembranças)
88 descendo na garganta, queimando tudo por dentro, as cartas bonitas de um jogo chamado Coup, a sensação de blefar e de não blefar, e de não estar nervosa. Geralmente, não gosto de jogos. Fico excitada demais, nervosa demais e parece que meu coração vai explodir.
Não dessa vez.
Foi divertido.
Meus amigos gritavam, eu gritava, gritávamos e misturávamos nossos gritos sem nexo ao burburinho das conversas paralelas sobre assuntos que desconheço. Meu amigo dançava no chão, e o mundo parecia no lugar certo.
A comida parecia perfeita, a simplicidade da coisa era fascinante, a areia dentro da ampulheta parecia correr mais lenta e até a chatice ébria das pessoas parecia mais suportável.

2:00 Enxaguei a louça e fiquei feliz, inexplicavelmente feliz por estar fazendo algo tão banal. Parecia adequado. Jogamos as coisas no lixo e eu voltei a ser eu, o álcool escoando aos poucos, evaporando e me tornando mais focada.
Hora de ir embora, mas eu não queria realmente ir, queria?
Sim, queria. Queria minha cama bagunçada, lavar a louça suja na pia, minha roupa, estudar histologia e cumprir com minhas obrigações.
Eu queria ir pra casa.
Eu tinha que ir pra casa.
Eu deveria ir pra casa.

Não fui.
Ainda bem.