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36x21 Ar (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Eu preciso de ar.
Tento respirar, mas essas paredes me apertam, você aperta.

Então eu saio, descalça, na chuva e respiro. Meu Deus, eu respiro.

Milhares de pessoas dentro de mim colocam as cabeças pra foda d'água e respiram, levantam e saem da água.

Uma sereia tenta desembaraçar o meu cabelo duro e sujo de glitter,eu ouço ruídos de trovão, mas é só o barulho do colchão quando me movimento durante a noite.
Chuck rosna pras tuas mãos e pras mãos dela e eu sinto que vou vomitar, então uma garota asiática segura meu rosto no escuro, beija meus dedos,
mas Alex me diz que não tem nada a oferecer.

Dimitri me olha nos olhos, toca a minha pele, alguém me abraça e eu sinto uma vontade incontrolável de cantar, mas eu não consigo respirar, eu não consigo respirar porque os cabelos de Sofia estão presos em um coque, porque ela está sentada e eu não estou.

Eu preciso de ar, e tremo de frio, e quero morrer de frio, no meio da calçada suja, com os pés sujos, então Annabelle me dá um abraço gelado, e me toca como se me amasse, como se eu fosse especial, ela me diz coisas, me dá as costas e um menino chamado Vincent não beija a minha boca, por que ele não beija a minha boca?, eu preciso de ar, mas você não sopra, você não sopra
Um dos irmãos Edson chora na minha frente e
Por que?
Pippa me segura forte pra que eu não caia de joelhos no meio da rua, eu não consigo entender porque é que ele chora, então ela tapa meus ouvidos
mas eu posso ouvir, Pippa
eu posso ouvir, e meus ouvidos sangram mesmo que eu não entenda o que Augustus está dizendo para Annaliese. Ele a beija, e ela muda de cor e forma, é Annaliese, Henrietta, Helen, Maurício, Maria, Otto.
É mágica.
Sinto vontade de vomitar e procuro uma lixeira, meu telefone toca e eu percebo que não o trouxe.
Não é pra mim,
Marcella atende e
Ulrika fala comigo, ela fala comigo, ela fala comigo sem mover os lábios
Mas eu só quero beijá-la, eu só quero beijá-la.
Ela abre a boca e sopra fumaça no meu rosto, tanta fumaça que ela precisa de coragem,
e eu me lembro que tô sozinha no frio, na chuva, que tô enlouquecendo, de novo.
Então, misericordiosa, L. arranca meu coração todo fodido, sangue coagulado aos montes, e eu vomito, sem saber onde estou.

Eu preciso de ar, e o trem do metrô traz uma lufada de vento, e eu quero, eu quero ir com ele, eu preciso de ar, seguro a tua blusa, sem saber quem você é, e puxo, e peço
sopre ar em mim, sopre ar em mim.

Mas você se desvencilha, dizendo que só quem sopra vida é Deus,
e Deus não existe.

36x20 Women

Imagem: TingTing Huang

Ela me deu a mão,
eu dei a minha mão,
e a fila foi crescendo, demos as mãos umas às outras e éramos muitas, estávamos juntas, em uma dessas conexões difíceis de se encontrar por aí.

Eu estava em casa, amazona perdida num mundo que não era meu, com pessoas que não eram minhas, e prédios e homens partindo meu coração que era meu, que não podia ser partido.

Não, eu sou meu próprio conquistador.
Elas gritaram e minha pele ficou arrepiada, pensei em você, tão distante, do outro lado do seu mundo, e me senti um pouco mal por não ter sido o bastante pra mim.
Alguém me ouviu pensar e gritou mais alto,
por mim, por ela e por todas as garotas do mundo que acham que estão sozinhas.

Por todas as garotas no mundo que acreditam que a vida é só isso, só esse constante apanhar de tudo e de todos, eu abri minha boca e gritei de verdade, mesmo sem conhecer as palavras, só pra que elas ouvissem o som da minha voz.
De cada cama, de cada cativeiro, em cada sonho, em cada pesadelo,
eu gritei,
tão alto quando pude,
pras garotas sem rosto das histórias que escutei.

Somos muitas aqui, somos muitas mais.

Não é sobre poder, é sobre poder fazer coisas.
Coisas que pessoas fazem.

Gritei bem alto, com toda a força dos meus pulmões, pra
você
pra você entender, pra você saber
que pode discordar dessa luta, pode cuspir na minha cara, pode dizer o que quiser
e eu ainda vou gritar por você.
E eu vou gritar dobrado pra cobrir o teu silêncio com mais luta.

Porque eu tô lutando pra que você possa me criticar
pra que você possa falar
e fazer sexo com quem quiser, quando quiser
ganhar dinheiro pra satisfazer as vaidades que você diz que não tenho
viajar sozinha
e se casar e ter filhos quando e com quem quiser, mesmo que você diga que eu nunca serei capaz disso.

Eu vou gritar
e tirar minha blusa
e brigar com quem tiver que brigar
eu vou apanhar por cada uma delas, se tiver que fazer isso
porque somos muitas
porque eu sou muitas

e estamos juntas.

36x19 Take Responsibility

Imagem: TingTing Huang

Eu me recuso a enlouquecer.
Eu me recuso a chorar mais uma lágrima sequer, pela penumbra, teu riso ou o ruído tardio dos teus passos.

Eu tomo a responsabilidade pela minha dor.
A minha dor é causada por mim, não por você, pela sua boca ou sua rudeza.

Magoar as pessoas é impessoal,
não tem rosto, não tem meu corpo o alvo dos teus golpes.

Mas o meu alvo tem meu rosto, minha boca e minha voz e eu teimo em me deixar magoar e ruir e sussurrar fatos e mentiras, canções e sonhos em meus ouvidos sujos e doloridos.

Eu me responsabilizo pela dor que cativei pra mim, que me corta e me assusta, queima e embaraça.
Eu tenho deixado a dor me consumir, vermelha e azul, queimar minhas asas grandes.

Eu assumo a minha dor, eu grito, eu grito "MAGOAR AS PESSOAS É IMPESSOAL.

Mas será que é?

36x18 Hollaback Girl

Imagem: TingTing Huang

Stephanie.

E foi assim eu beijei uma garota pela primeira vez.
Hollaback girl, minha juba esvoaçando, eu suava com o esforço e ansiava pelo fim da festa, por beijos há muito esperados.

Ela surgiu do meio das luzes, etérea, magra, pequena, cabelo escuro, roupas pretas, me perguntou sobre beijos e eu tinha um beijo pra dar. Dois. Estava guardando.
Eu tinha amor, o toque das minhas mãos, eu tinha dois mundos e muita dor pra oferecer.

Beijei-a.

Não era a garota certa, a que esperei durante anos, Berenice, Ulrika, mas era o certo naquela hora, sua boca macia, ascendente em Peixes, vida em Macaé, beijei sua boca porque sim, não porque a amava.

Eu guardei esse beijo, esse dedal, por muitos e muitos anos. E ela nem sabe. Nunca vai saber. Guardei pra uma garota que eu amei, que eu viesse a amar. Que me desse vontade de fazer cafuné, cujo corpo eu admirasse todos os dias, sem falta.
Eu guardei pra essa garota que eu quisesse ouvir falar da vida, do mundo, da morte, da mãe.
Pra alguém pra quem eu não quisesse mais mentir.
Que me fizesse querer voltar pra casa, uma pessoa a quem eu fizesse sentir bem, que me chamasse de lar.
Uma garota pra quem eu escreveria poesias, quebraria pratos, bateria portas, levaria flores e abriria as janelas pra arejar a casa.

Mas essa garota não existe, existe?
Não, eu a inventei.
Assim como invento as pessoas que quero amar e tento enfiar pessoas reais nesses moldes, causando dor e sofrimento pra gente que não tem nada a ver com as minhas loucuras.

Eu a beijei. Seu beijo era bom, sua boca macia, seu corpo tão frágil que eu tive medo de quebrá-la, que eu não sabia onde pegar, o que fazer.
Foi bom.

Não era a garota certa,
mas era o momento certo,
ou talvez isso nem exista e eu só esteja tentando enfiar significado em coisas que não o possuem.

Beijos,
Rejeições,
Amor.

Bom, garota certa, onde quer que você esteja, caso você exista:
não venha.
Fique onde está. A salvo.
Fique onde está,
e vai ficar tudo bem.

O mundo é grande,
você não tem que passar por isso.
Ninguém tem.

36x17 Whispers

Imagem: TingTing Huang

Dor de barriga, ando sozinha pelo piso frio desse lugar incrível, em busca de banheiros.
Subo escadas, desço escadas, e o único som de passos além dos meus é o som dos passos de um eventual transeunte.

Um homem me olha e eu digo boa noite. Estamos sozinhos num longo corredor e, subitamente, me lembro de que estou no cenário de vários filmes de horror.

Essas paredes me sussurram pedidos de socorro, me tocam os cabelos. Fico arrepiada ao ouvir o som dos encanamentos antigos e me tranco no banheiro, olho por debaixo da porta, torcendo pra não ver sapatos.

O silêncio nos corredores quase machuca meus ouvidos, antes que os sussurros recomecem, vozes de homens e mulheres contando histórias, justificando atos, gritando em meus ouvidos, me tocando e puxando, fantasmas e vultos escondidos entre os livros, nos banheiros, debaixo das escadas, me mordendo, rasgando minhas roupas, jogando meus livros no chão.

Começo a correr, e alguém me empurra, me chuta, soca meu rosto, enquanto eu imploro que pare, que parem, parem, parem, parem, acabem logo com isso, todos os pesadelos juntos, o medo, a raiva e a dor me consumindo e machucando, sem direção, sem sentido, até que ouço passos vindo na minha direção.

Levanto-me do chão, me recomponho e continuo a andar, deixando pra trás todos aqueles sussurros que nunca serão escutados por ninguém.

"Mas você ouviu", sussurra uma voz feminina, que eu reconheço de um pesadelo recorrente.

É, eu ouvi.

36x16 Sexual Healing

Imagem: TingTing Huang

Respire fundo, pense.

Às vezes, coisas boas vêm disfarçadas de coisas ruins. Às vezes só.

Penso, engulo o orgulho e penso na dor que a coisa toda há de me poupar.

Sim.
Sim!

E, de repente, estou salva, ilesa, intacta. Salva, por uma noite só, e isso é quase inebriante demais pra conter dentro de mim, quer dar amor a todo mundo, mordidas e sinais trocados, abrigo da chuva, do frio, de corações partidos.

Homem, eu estou segura hoje, e nem a sua sinceridade pode me magoar, nem a certeza da minha tolice, nem os ruídos do mundo, o medo ou as regras universais impostas há milênios.

Deito, olhando pra lona úmida enquanto você fala, Dragon Maker, sobre essa garota de olhos verdes que representa todas as coisas que acredito desconhecer e fico feliz por você, por nós, extasiada, e viajo, como quando era criança, nas costas de um dragão, pra um lugar possivelmente melhor.

36x15 Dead Hearts

Imagem: TingTing Huang

N.A.: Escrito em uma noite de chuva, depois de uma puta bebedeira, a leitura de certas mensagens sem sentido e mais do mesmo.

Pra que serve um coração?
Quem diz que é bom?

Ela parte meu coração todos os dias, dezenas de vezes. O meu, e também o dela.

Fala com ele a se inclinar, a voz muda, as mãos suam: ela derrete.
Mas ele não.

Já dizia Pégaso, "ninguém é obrigado a gostar", frase dura, levei pra vida, percebo.
Ninguém é obrigado a ser.
Acho bonito o meu pensar e repito para o coração partido ao lado, ela derrete, a quilômetros de distância.
Ele não.

Todo mundo morto, todo mundo perdido.

De que me serve isso?
Isso não é o que eu quero
(é o que eu quero)
mas não é o que eu preciso,
coração partido e bordô,
que me dá vontade de comê-lo.

É o que eu quero,
não o que preciso.
Eu não preciso ser dilacerada diariamente, das formas mais vis (porque não intencionais, eu acho),
eu não preciso,
mas eu quero.

E, mesmo sendo capaz de compreender,
de aceitar,
cada sombra me traz sobressalto,
cada passo me traz esperança.

Fui Alice,
e não no bom sentido.

36x14 Bird Song

Imagem: TingTing Huang

Pássaro descontrolado, pia sem parar, bate as asas, revolta-se, enlouquece.
Eu peço calma, o mundo é tão grande.
Olho pela janela e vejo o mundo inteiro quieto, ágil.

Meu coração quer sair do peito, explodir as costelas, despedaçar-se, manchar o chão com sangue escuro.

Calma.

Respiro fundo, fundo, minha expiração parece movimentar as árvores lá fora.
Mas meu coração não se acalma, bate mais rápido e as veias parecem doer quando o sangue chega até elas.
"B, você precisa de terapia"

Como é que eu posso explicar isso pra alguém?

Todos os dias, todos os dias, mesmo depois que cheguei, eu preciso, em algum momento do dia, sentar no sofá e respirar fundo, respirar fundo.
Porque meu coração quer sair do peito.
Explodir costelas.
Despedaçar-se.
Manchar o chão com sangue escuro.

Quando meu telefone toca
quando alguém me chama pra sair
quando penso em voltar
quando tô feliz
quando tô triste
antes de dormir
e depois de acordar
quando leio meu caderno
e quando leio um livro

Como é que eu posso explicar isso pra alguém?
Como é que eu conto essa história?
Como é que eu explico essa sensação de estar permanentemente sufocando?
Como é que eu começo a falar nisso, se toda a vez em que penso no assunto, toda a vez que escrevo um texto, que pego uma caneta pra escrever, que digito algo que escrevi há séculos (é o que parece, às vezes), eu ainda tenho que parar na metade pra respirar fundo?

Tô oficialmente fodida, é.
Quebrada.

Parafraseando Byron (ou não):
Vida que segue.

36x13 The view from the cheap seats

Imagem: TingTing Huang

Compro pipoca, tô sentada esperando o momento certo pra abrir meus mentos, mas o filme não começa, as cortinas não se abrem.

Pandemônio, o filme sumiu, o projetor quebrou, ou a atriz coadjuvante simplesmente decidiu que queria o papel principal e, birrenta, trancou todos os atores no camarim.

Tem uma garota na minha frente, olhando pro encosto da cadeira à frente dela, sentindo-se como lixo, só e suja.
Não sei como é seu rosto, mas conheço seus cabelos e seus pensamentos.

Mais alguém grita, revoltado, que o filme já começou para as cadeiras lá de cima, que lá a pipoca é amanteigada e as pessoas não precisam se sentar no chão pra assistir ao espetáculo.
Percebo, então, que muita gente se espreme no chão, entre os espaços de passagem, entre as poltronas. Mulheres e homens negros, gente faminta, alguém me acena, mas eu desvio os olhos, encolho os pés, abro espaço, ou acho que abro, mas me agarro à poltrona, com força. Não quero descer daqui.

Olho pro lado e alguém checa o celular, esperando uma mensagem que nunca chega.
Uma mulher dialoga com a pessoa sentada a seus pés, e outra coloca os pés sobre ela, que não reclama.
Do meu outro lado, um rapaz decide pegar na mão de uma moça bonita, e eu desvio o olhar e mastigo.
Mais gente chega, pisando nas pessoas nos corredores, e aquilo me machuca. Fecho os olhos, mas não consigo, não consigo não olhar.

Atrás de mim, as pessoas se levantam aos poucos, brigam e xingam, até conseguirem sentar, dividindo a cadeira com outra pessoa, que xinga, empurra e bate, enquanto a pessoa que conseguiu forçá-las a dividir o espaço aguenta firme, e espera que as coisas comecem.
Agarro-me aos braços da poltrona com força, ocupando meu espaço inteiro, sem aperto, meu espaço, MEU espaço,
aí a vejo, sentada no chão, aos meus pés, olhar firme, desafiadora como quem diz "eu não preciso das tuas migalhas".
Tô aqui em cima e tenho medo, mas não quero mais ter, quero ser forte assim, uma vez na vida.

Chego pro lado, dou espaço.
"Vem", eu chamo.
Ela olha pra mim, olho pra ela, a gente se entende.
De forma surpreendente, a poltrona é grande o suficiente pra nós duas.
Faço as contas, olho pros lados.
Como é que ninguém percebeu que, se todo mundo dividir o lugar, ceder o espaço, vai ter pra todo mundo?

E foi assim, pensando assim, que comecei a ver o espetáculo que já acontecia há muito tempo.
Sem spoilers, caro leitor,
mas não é preciso muito.
Você pode vê-lo também.

Abra os olhos.

36x12 Out Loud

Imagem: TingTing Huang

Medo.
Eu me lembro do medo, do gosto, do cheiro, do toque.
Fiquei lá no meio de um mundo de pessoas, carros e prédios, um céu enorme. Meu Deus, como sou pequena.

Senti medo da dor, da morte (um medo contínuo e familiar), dos passos, da perda.
Senti medo dos movimentos da tua mão e meu coração parou cada vez que a perdi de vista, a cada movimento a favor do vento.
Camisetas vermelhas, pretas, brancas, azuis gritavam em meus ouvidos e eu tinha medo.
De onde vem, onde fica guardado tanto medo?
Freud explica, ele sabe de tudo, afinal.
Sabia até que eu tinha medo de estar com medo, abri a boca pra pedir casa e trégua, mas gritei palavras rimadas, manifestei meu descontentamento. E isso me deu força, ombros novos: eu estava ali pra lutar.
Pra apanhar, pra morrer, pra sentir dor.
Aquilo era maior do que eu, infinitamente maior do que afetos mesquinhos, centavos e brigas.
Meu coração gritava e se desfazia em pedaços murchos de carne, mas minhas pernas continuavam, também meus pés, e a boca gritava.
Eu quero passe livre, eu quero. Eu quero. Eu não quero pra mim, eu sou só um pontinho, eu quero pra eles, quero, quero agora, e não paro de gritar.
Mas parei.
Senti medo, um medo súbito de que alguém se machucasse.
Olhei pra eles, sentados nos seus carros grandes com gás e balas de borracha pra acertar em crianças, em gente que só queria ganhar pra todo mundo, prontos pra machucar, carregar, reprimir.
E me deu medo.
Não por mim, eu já não era eu, tirei a blusa da cintura e esperei o momento de usá-la pra tapar meu rosto.
Deu medo por uma menina pequena, toda feliz, olhos castanhos clarinhos com dois pontinhos na íris esquerda, quatro pintinhas estrategicamente plantadas em lados opostos do olho esquerdo e que tem covinhas no queixo quando sorri.
Não era pra ninguém se machucar, vambora.
E eu até fui,
mas não podia ir.

Porra, B., minha cabeça gritou
Seja Alice.
Uma vez na vida, seja Alice.

355, dê as costas pra tua mania de segurança e volte.
Eu não podia nem hesitar ou parar pra raciocinar.
Tinha que voltar, pra apanhar, pra bater, chorar.
E isso não faz de mim uma pessoa melhor, não faz de mim uma heroína, a super B.
Eu só estava cansada, eu tô cansada de ir e vir nas escolhas que faço.

Seja Alice, porra.

36x11 Time has come

Imagem: TingTing Huang

Querida B.,
respire fundo, porque isso vai doer feito o soco mais doído.

A burrice da coisa toda, a simplicidade da coisa. Vai doer junto.
Tô avisando porque quero que saiba: vai doer.

A Alice tá ali na mesa, dando tudo de si pra fazer o certo, sendo honesta, sendo forte, alterando pra sempre o significado de "ser Alice".
Seja Alice, B.
É hora de ser Alice.

A vida é pra doer, a dor é pra sentir. Sentir é ser Alice.

Seja Alice e tome a bordoada quando ela vier. E ela vai vir, amor.

Seja Alice hoje, B.
Sem medo, a hora chegou.

A cura, amor, é tomar veneno.

Abra a boca, respire fundo:
vai doer.
Eu prometo.

36x10 Repetições

Imagem: TingTing Huang

VÁ TOMAR NO CU
(é um mantra, minha maneira de extravasar, me olho no espelho ao acordar de manhã, penteio meus cabelos para mais um dia horrível, torcendo, ansiosa, pra que seja um pouco menos horrível)

Começo.
Repetições.
Galeano disse que a vida acontecia em círculos.
Somos padrões, vivemos padrões.

Isso não é novo, não me surpreende, mas me enoja, me machuca, me humilha, me fere fundo.

Círculos, padrões, repetições.
Aperto replay na eterna cena da minha vida, essa.
Aqui, agora.

Círculo, padrão, repetição.
Minha cabeça lateja, eu anoto no braço que posso ir embora.
Eu anoto "B, vá pra casa".
Eu anoto milhões de vezes, nos braços, nas pernas
355
355
355
355
355
355

É quebrar um padrão, um círculo, uma repetição.

Vá pra casa, B.
Vá pra casa, B.

Vá pra casa.


(não deu)

36x09 Where does the good go?

Imagem: TingTing Huang

Cadê o povo pra defender a menina sem coragem de pegar a faca e matar o pai?
Cadê o povo que grita acusações, que chama esse (meu) Deus, quando essa menina é violentada todos os dias, quando é obrigada a sentar ao lado do seu estuprador?
Cadê sua lógica quando uma criança me diz, quando um amigo me diz que não se sente feliz no seu próprio corpo e você diz que isso não é normal? Fala sobre Deus, um Deus que você nem conhece, e que, se conhece, não é o meu. Não é o que eu quero.
Dor não é comparável, não é mensurável, não é engraçada.
Vê se me escuta, vê se olha as pessoas nos olhos e entende que o mundo muda, que homens beijam homens na boca e não é errado amar, e você não precisa beijar uma mulher na boca pra respeitar uma mulher que faz isso. Você só precisa ser humano.
Errado é reprimir, violar, aprisionar, ferir, entristecer.
Por que você não vê?
Quero te arrancar os olhos, te mostrar meu mundo, não tô tentando impor minha opinião, tô tentando te mostrar que existe outra opção, que o mundo não é só esse quarto fechado em que você se encontra, quero mostrar o mundo e a crueldade dele, a tua crueldade, a minha.
Cadê as pessoas boas, cadê o povo que alimenta os famintos, agasalha os pobres e dá as costas aos homossexuais pecadores?

Por que vocês não conseguem ver?
Isso não é guerra, frescura, fase,
isso é amor.
De um jeito que você não pode não sentir, mesmo sendo como eu.
É maior, mais bonito, incrível.

E é óbvio.
Mas você não consegue ver.
É óbvio.
Mas eu não consigo te mostrar.

Porque você não quer ver.

36x08 Akhmet

Imagem: TingTing Huang

Eu me lembro de um sonho.
Eu era.
Eu significava algo pra alguém, portanto, eu era.
Ou não?
Sim.
Eu era poesia pura, minhas pernas foram construídas dentro das canções de amor e das cores dos seus olhos.
Nas minhas costas podia-se ver a tua respiração e meus cabelos cresciam ao som da tua voz.
Eu era uma música que vivia no teu peito, sem ritmo e sem dor, eu era incrível, invencível e bonita, eu já fui bonita e eu sabia como criar mundos e estrelas.
Eu cheirava à grama e lençóis limpos, recém lavados.
No meu corpo, toda a existência consistia na cor marrom e na textura macia da sua boca.
Eu era.

Acordei, com aquele gosto horrível na boca, e me lembrava.
Eu me lembrava.
Virei pó.
Eu não era. Só carne, sangue, ossos, metal e a dor de ter que continuar sabendo de tudo o que eu não era mais.
Como viver sabendo?
Como conviver com a frustração de saber e não poder ser?
Guardei dentro de mim a sensação de ser até que a vida perdesse a graça, vida torpe, morosa.
Morro?
Não, não, eu luto.
Eu me levanto e enfrento a crueza da vida, sendo cruel, eu arranco a beleza dos ligares, roubo significados.
Eu quero significar.
Mas eu não sou.
Minha carne é ácida, meu beijo queima, entristece, entristeço, entristecemos e eu sinto muito, eu sinto tanto, eu só queria significar.
Eu só quero significar.

E eu queria terminar esse texto com uma puta mensagem positiva. Sim, sobre significar, sobre não precisar que alguém te dê significado.
Eu tô sentada aqui no meu quarto bagunçado, finalizando esse texto que comecei há quase um mês (dentro de um redemoinho de dor e frustração) e tentando entender porque é que eu acho que o meu significado tem que partir de alguém.
Se eu sou a mesma pessoa que escreve que detesta ser limitada, ser definida por pessoas que acham que me conhecem, por que é que estou choramingando sobre alguém que me dê significado?

Sim, sinto que estraguei um texto que poderia ter sido tão bonito e poético.
Mas essa nunca foi a minha intenção, caro leitor.
A começar pelo título, que é o nome de um homem nojento e revoltante, incrivelmente cruel: um ser humano podre (e fictício, ainda bem).
Esse não é um texto sobre amor, sobre querer ser amada.
É sobre a crueldade dos momentos bons. E sobre a bênção do esquecimento.

Como é que eu posso viver sabendo que já significo algo pra alguém, e que esse significado vai se perder com o tempo?

Eu não sei responder a essa pergunta, ainda.
Mas eu sei que está relacionada com meu próprio significado.
Eu tenho um, que não me foi dado por alguém.
Eu só preciso encontrar.

E aí,
eu respondo.
Se você quiser saber.

36x07 Por favor

Imagem: TingTing Huang

Por favor, Deus, por favor.
Por favor
Por favor
Por favor

Já fizemos isso antes, nós dois. Já estivemos aqui, eu sentada na Tua frente, pedindo, implorando.

Por favor
Por favor
Por favor, exista, por favor, me responda.
Por favor, me ajude.
Dessa vez também, mas não.

Só mais essa.
Hoje, por favor.
E amanhã.

Daí alguém diz, Ella diz, que minha dor é pequena quando comparada ----
E me sussurra histórias que me fazem ter medo de escuro, de dormir, de comer e de viver.

Por favor, só mais essa vez.
Só agora, só hoje.
Por favor.

E Ele cospe no meu rosto, Ele cospe no meu rosto como eu já cuspi no dEle e deseja que eu morra aos poucos, e eu estou, eu vou.

Seja feita a Vossa vontade.

36x06 Break Loose

Imagem: TingTing Huang

Algemada, fita na boca, venda nos olhos, mãos, pés e cabelos presos.
Eu quero ser livre.

Tô presa pelas regras da minha mãe, pelas palavras de pessoas que não me conhecem, que não me reconhecem, nem me olham nos olhos ou me beijam os lábios.
Presa às convicções antigas e terrores infantis, deito na minha própria urina. Estou presa há séculos, desde antes de nascer, a coisas ditas e feitas por gente que não conheci, amores que não passam de apego doentio, dinheiro, cor, gênero, poder, família, sociedade, medo, mídia, literatura, política, eu, você, Deus (o meu e os deles).

Choro, berrando alto, pro escuro do meu peito e, primeiro, ninguém me ouve, ninguém vem.
Dias e dias, eles chegam, abrindo cadeados, soltando correntes, prendendo correntes, afrouxando nós, diminuindo o espaço pra andar. E, mesmo assim, sobrevivo.

Vou lutando, solto um braço, me soltam uma perna, depois me tiram a venda, a mordaça.
Daí chega o dia, afinal, e eu fico livre.
Pra pensar, sentir, opinar, amar, beijar, não comer, fugir pra bem longe, pra ficar, pra tentar, fracassar ou conseguir.
Deixo pra trás meus grilhões e, no escuro, tateio em busca da porta, trêmula, cansada, ansiosa.

Oh, céus, estou livre!

Eu poderia morrer, se quisesse. Um milhão de possibilidades, poderia fazer qualquer coisa, qualquer uma, qualquer uma,

mas qual?

Devo largar a faculdade, preciso mesmo de amor? Morrer, viver, acreditar em quê? Em quem? Lutar pelo quê?

Encontro a maçaneta e, óbvio, lógico,
eu a abro?
Ou não?

Nenhum dos dois, tudo é válido enquanto estou de pé, livre e não livre, presa em mim e na dúvida do que acontece atrás da porta, ou sem dúvida, porque nada me prende, mas será que isso quer dizer que qualquer coisa serve?

Considero sim, como você bem sabe, voltar e me prender toda, amordaçar e vendar.
Considero, considero, considero.
Não espero, considero.

Estou viva, estou livre,

estou considerando.

36x05 Ceiling

Imagem: TingTing Huang

Ir embora não é fugir, nem deixar de lutar,
não é feio não querer mais sofrer.
Tem algo de bonito em querer se tratar bem, se sentir bem, braços limpos, veias intactas, querer ir pra casa, limpa e enxergar além do que teima em te tolher.

Música espanhola, escrever sobre um menino que lê um livro, gente que teima em não se apaixonar, azuis de uma echarpe e o olhar distante de uma garota deitada no sofá.
Se tem um lugar pra onde posso ir é pra dentro da minha própria cabeça, nas sardas e na boca da menina ruiva de sapatos coloridos. Tem tanta gente no mundo, B. E as pessoas são tão lindas, tão lindas.
A frase de um cara que abriu a boca e não disse nada, e quem as pessoas procuram.
O que eu penso, o que eu procuro, isso é só meu.

Posso até não poder ir pra casa, posso estar aqui onde você vê
mas você nunca vai me alcançar.
Nesse lugar, dentro de mim,
você só me machuca
quando eu deixo.

36x04 Hijab

Imagem: TingTing Huang

Quero morrer.
Existe perigo debaixo do tecido, por fora do tecido, no meu rosto, minha pele e meu nome.
Eu não tiro, eu luto, eu tiro, eu temo por mim, meus irmãos, esse mal que nem existe dentro de mim.
Meu Deus, o que há de errado com quem eu sou?
Deito na praça de uma cidade que me deixou ficar e que me manda embora, no centro de um sonho americano e dos meus pesadelos mais frequentes, debaixo de uma cama num porão, sem saber o que acontece quando a manhã chegar. Eu quero morrer. Não porque estou triste, não crescem em mim baobás, eu quero morrer porque não sei mais sobreviver sem lutar. E porque a luta parece vã, estúpida.
Quero lavar com sangue o tecido da minha roupa e o chão da minha casa, da terra que não é minha, eu quero morrer, eu quero viver, eu quero sair de casa mostrando quem sou, ter filhos e falar francês, eu não quero o fim do mundo como conhecemos, eu quero fazer parte do mundo e da história, quero não ter medo, nunca mais ter medo

Não é o que todo mundo quer?

36x03 Coisas que não se diz a ninguém

Imagem: TingTing Huang

N.A.:  Eu não tenho coragem de digitar o texto original, não por completo, seria desnecessário. É raiva pura, tristeza, decepção. Mas está aqui porque tem que estar aqui. Eu conto histórias. Mesmo quando não gosto delas. Esse texto é sobre mulheres que conheci, mulheres que seguraram caladas, seguraram o choro até quando deu pra segurar. Digam, mulheres, digam: viver assim dói.

Seu nariz tá sangrando, eu tô sangrando, minto, esse sangue não é meu, largo a pedra no chão e corro pra casa, tranco a porta do banheiro e tomo banho, longo, pra me sentir limpa.
Mas continuo sangrando, um sangue que não é meu escorre das minhas unhas com esmalte descascado, gosto ruim na boca. Por que?
Porque sim, porque a vida é sim.
Ou não é? Como é que se diz, como é que eu grito as coisas que não se diz a ninguém? Se eu não consigo dizer pra mim, se eu não consigo traduzir e entender, eu tô pensando, eu tô me esforçando, mas não quero passar os dias a colocar e tirar máscaras de mulheres, crianças e monstros. Eu quero dizer as coisas que não podem ser ditas.

Mulher, diga. Diga.
Precisa doer se dói, mas ela tá com medo, tá com medo de, tá com medo de quê? Diga, mulher, diga.
Não digo. Me queima a boca, me queima a boca, me queima, não digo. Diga, mulher, só diga o que precisa ser dito.
Não dá, não dá.
Filha da puta, abra a boca e diga o que tem pra se dizer, você tem tanta gente junta lutando pra sair, diga o que não se diz.

Pois bem.
Eu tô chateada, eu tô me sentindo vilipendiada, enganada. Porque ninguém é obrigado, mas eu faço o que é preciso. E não é só hoje, nem até amanhã, por um ano ou 500 dias. Demora a passar, fica grudado feito o suor em dias quentes.
Não me machuque. Eu não quero me machucar. Nem antes, nem durante, nem depois. E eu tô machucada, eu tô triste com essa porra de ferida que não sara nunca, que vai e volta (às vezes, até pior do que antes). Vá tomar no cu.
Filho da puta, escroto, fodido, nojento, porco maldito, eu odeio você.
Porque você está me machucando e ninguém pode fazer nada sobre isso. E eu não consigo deixar de ser isso, você não consegue deixar de viver porque, bom, você já sabe o porquê.
Essas coisas não devem ser ditas a ninguém, mas eu te odeio. Você é nojento e revoltante, te falta tato, senso ou qualquer coisa que me obriga a tentar ser sempre ok, que me faz não te apedrejar nas ruas e rasgar seu peito. A falta disso me faz ter nojo de mim mesma, da minha pele, do meu passado, das minhas palavras e da minha voz.
Eu odeio você.
Odeio odeio odeio, e isso não se diz, talvez nem seja verdade. Mas alguém tinha que dizer.
E eu disse.
E quero continuar dizendo, dizendo e dizendo que não quero magoar ninguém, que eu digo a verdade, que eu não machuco as pessoas, que eu amo e sou capaz de amar as pessoas sem machucá-las. Você não é. Eu sou capaz.
E mesmo quando não pareço ser, eu tento e tento o quanto posso, e vou continuar tentando.
Eu te odeio.
Tanto, tanto que machuca e confunde.
E eu não deveria dizer isso a ninguém, mas você não vai mais me queimar, cortar minha língua e me partir em pedaços.
Eu te odeio e não sinto muito
por sentir tanto.

(Queria ter te dito isso, mas não por telefone. Eu precisava voltar. Colocar as coisas sob uma perspectiva diferente. Entender, fazer sentido. E percebi que, realmente, essas coisas não devem ser ditas a ninguém. E nem sentidas por ninguém)

36x01 Aprendendo a ser negra

Imagem: TingTing Huang

Arrepio na pele, dor de meses, anos, séculos nas costas.
Dói.
Mas por que é que nem sempre dói,

Quem eu tô?
Quem me embranqueceu?
A cor da minha pele é quem eu sou ou quem eu vou ser?

Daí meu cabelo cresce em molinhas curtas e pretas.
Pretas.
Molas pretas.
Que eu tento conter porque tentam me conter.
Há meses, anos, séculos.

Mas ele cresce e eu cresço, ouço vozes nos meus ouvidos, meu sangue, meus pés
e sussurro de volta, no meio da noite, com medo de admitir as raízes, as palavras ferinas dos homens e o sangue dos filhos das mulheres que não sou.

Mas eu sou.

Quem eu sou?

E os cabelos continuam crescendo, me chamando de preta, preta, pretinha,
eu tô com medo da dor do mundo, da verdade, dos cabelos e do sangue que corre nas minhas veias e no chão das terras em que piso.

Chamam-me bonita, exótica, moreninha.
Sou PRETA, vó.
Sou preta, retinta, Não tá na pele, na boca, tá aqui dentro de mim, no que faço e no que vou fazer da vida.
"Mas esse sangue não é teu, essa luta não é tua, alisa o cabelo, embranquece e segue a vida"

Eu penso, e sento, enrolando nos dedos as minhas molinhas, meus amores.

Não tem volta, mãe, vó:
Eu sou.

Esse sangue não é meu, não tem que ser meu.
Mas entendam: esse sangue não tem que ser de ninguém e eu não vou dormir, não vou descansar e nem comer direito
até que ele deixe de existir.

Eu sou, vó.
Eu sou.