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46x15 Maze Runners

 

Imagem: TingTing Huang

Encosto a caneta no papel e minha mente fica automaticamente vazia. 

Eu não me sinto vazia, me sinto derramando. 

Caminho pelo labirinto. Às vezes, é dia. Às vezes, é noite. às vezes, um meio termo, sem nunca passar pelo mesmo lugar duas vezes. 

Ou, talvez, sem jamais ser a mesma pessoa passando pelo mesmo lugar duas vezes. 
Complicado. 

Vou deixando migalhas, que os pássaros e as pessoas comem, me perco, 

Feito Ariadne, ou era Medeia?, ou eu sou Medéia, nem me lembro, desfio as roupas e amarro pelos galhos, deixo um rastro de fios pra trazer de volta alguém que já foi embora. 

(Às vezes, tenho a impressão de estar vivendo a história toda ao contrário. Não era pra eu estar lá fora? Quem é o herói dessa história, tô entrando ou tô saindo?)

Já nem me lembro. 

De vez em nunca, até me pergunto, olhando meus cascos brilhantes, patas peludas, se---
Não. 

Sacudo a cabeça, como se a ideia fosse uma mosca a fazer zoada no ouvido. 

Pra onde ir? 

Estou saindo, estou chegando. 
Onde fica o meu lar? 

Minha respiração solitária vai se adensando, quase um pequeno fantasma de névoa, uma companhia. 

Sinto falta da voz de alguém. Há meses, meses que não ouço, 1 ano já. Tudo agora me parece tão vago, cinza. 

Na minha mente, a voz de minha mãe, a bênção, o cheiro do ar e do mar. 
Sinto que andei tanto, que me distanciei tanto do centro, meu coração bate na goela, rápido. 

Sinto o gosto do meu sangue, o gosto do sangue de homens e mulheres que se sacrificaram pela minha divindade, pela minha sobrevivência. Eu os honro sob a lua negra, e sigo em frente, rasgo meus braços na sebe crescida, os galhinhos puxando meus cabelos e ricocheteando no meu rosto. 

Corro. 

Eu sinto como se pudesse sair voando, eu sinto o gosto do sal, eu sinto a textura da pele, da carne, eu sinto o cheiro do útero da minha mãe, eu sinto como se nada, absolutamente nada, pudesse me derrotar, eu sinto como se fosse eu a dona do meu próprio destino. 

Então eu corro, e corro e corro até

Antes de vê-lo, eu sinto o seu cheiro, de suor salgado, jasmim e menta. Eu ouço sua túnica e seus sapatos em contato com a pele, eu sinto sua hesitação pulsando nas minhas veias. Eu sinto o cheiro do seu medo, azedo. Ouço seu coração bater rápido como o de um beija-flor. 

Instintivamente, eu me escondo nas sombras pra vê-lo melhor, prendo a respiração. 

E ele aparece, parcialmente iluminado pela lua negra. Um homem, mas diferente. Empunhando uma espada e uma bola de fios carmesim, que brilha, pulsa. 

Um herói.

Um herói, como os das histórias dos homens, enviado pelo Pai pra me libertar das correntes do centro desse labirinto infernal. 
Um herói, pra me reconduzir ao trono. 

Quero avançar na direção dele, mas paraliso. Não consigo me mover, não consigo ir até ele. 
Não sei o que é isso que estou sentindo, mas espero um momento, um segundo, inundada por algo que nunca senti antes, que nem sei se sei nomear,

meu corpo todo, eletrificado, 
alerta, 
os pelos eriçados
coração explodindo no peito
vontade de correr e gritar

Ele se aproxima e eu só tenho um segundo pra decidir

se é amor ou medo,

antes que tudo se dê como era de se esperar. 


Early Cuts: Horcrux

Imagem: TingTing Huang


(Esse texto faz um ano no dia 20 de julho. Quanta coisa mudou, quanta coisa aconteceu... Ainda bem)


Caro Otto, 

Sei que estive sumida e peço desculpas. Eventualmente, falaremos sobre isso. 

Mas hoje, eu precisava falar com alguém. Eu precisava que alguém entendesse, mas ninguém entende. Então, talvez, você entenda, onde quer que esteja. 

Eu perdi um paciente. Outro paciente. E estou tão cansada de perder pessoas, Otto. Ultimamente, parece que só tenho perdido pessoas. 

E cada uma delas, mesmo quando desconheço seu nome ou quando me falta a oportunidade de falar com sua família, cada uma delas parece levar consigo um pedaço da minha alma. 

E eu não sei quantos restam, Otto. 

Eu não sei se posso mais perder pedaços. 

Eu quero ser o melhor que puder pra salvar todo mundo, mas não consigo. Eu não consigo salvar a mim mesma. 

Cada vez que eu volto pra casa chorando por alguém que não é mais, alguém que poderia ser seu pai, seu avô.
Sua mãe.
Minha mãe.
Você. 

Eu sinto como se morresse um pouco. Como se o mundo tivesse ficado diferente, mais leve e mais pesado. O ar mais denso. As pessoas em suas rotinas diárias, como elas podem não sentir? 

Por um instante, uma luz se apagou como se apaga com um desiluminador. E as pupilas dilatam, escuras feito um abismo no fundo do oceano, perpetuamente silencioso. 


De repente, não se é mais. 


E eu? Quem sou eu nisso tudo? Um conduíte da morte, um anjo?
Eu tento, e eu preciso tentar, mas eu não quero mais. 

E diariamente alguém a me colocar o laringo na mão e a dizer que ele precisa, ele vai morrer, ele vai morrer se você não fizer nada, vai morrer se você fizer alguma coisa, ele vive e morre aqui e agora. Eu tento decidir e fazer o certo, eu tento dizer que não, mas ainda assim canto a hora do óbito. 

E que hora é essa? 

Chamo o pulso e ele não vem, o ar e ele não vem, chamo a alma, mas eu não sei se isso existe. Se existe mais. Se eu devo mesmo me desculpar, aos prantos, na volta pra casa, como se alguém pudesse me ouvir e me perdoar. Ou me punir. Me punir por tentar. 

Eu não quero mais errar, Otto. 

Eu não suporto mais errar. 

Mas eu não sei como acertar. 


Então, talvez, eu deva parar de tentar. 

O que você acha? 


Espero que esteja bem. Use máscaras. Fique em casa. Fique vivo. 


Com amor, 

B. 

43x14 At last

Imagem: TingTing Huang

Tem esse sol enorme, desaparecendo rápido, as nuvens flutuando nesse céu que parece um domo. Tem esse gosto na minha boca, de chocolate e feijão, talvez um pouco demais de cominho, tem grama, mosquitos, tem o zumbido das pessoas em volta.

Tem você.

Tem essa sensação de paz, segurança e felicidade que eu não sei se já senti antes.

Estamos.

Dorme comigo.
Acorda comigo.
Mora comigo.
Casa comigo.

Sim,
estamos.

Eu caminho nas pontas dos pés pra não te acordar,
e você me deixa dormir até mais tarde.
Coloca as pontas dos dedos no meu cabelo,
acho que somos alguma coisa estranha, estranha feito esse texto.
Uma massa colorida, cheirosa e macia.

Eu te amo.
Eu fico.

Guardo seus segredos,
lavo suas roupas,
seguro sua mão.

Eu fecho meus olhos e é só você.
É sempre você.

"Fui eu quem escolhi", você diz,
e eu não me ofendo.
Você me escolheu.
Você me escolheu.

E eu escolhi você.
Eu escolhi ficar.

E vou ficando,
de manhã,
depois da aula - minha ou tua -,
na cama depois que você sai,
na festa até você vir me buscar.

Eu vou ficando,
sem planos, sem prazos.

Se o pra sempre vai chegar ou não,
a gente só vai saber sabendo.

29x12 This is not a sad song

Imagem: TingTing Huang

Minha cara, minha amada, minha adorada eu de setembro de 2016,

oi.
Queria te dizer que entendi, numa conversa deveras surpreendente com o Dragon Maker, que isso não é pra ser assim.

A gente ama, a gente desama. E a gente chora. Wallow. 

Mas não deu pra gente. Tinha prova, Saúde da Mulher. E a gente arrasou, porque não queríamos que ninguém dissesse que tínhamos ficado mais fracas. Daí a gente trabalhou, a gente estudou, a gente fez rir, a gente decidiu que não tinha tempo pros filmes da Julia Roberts. A gente decidiu que era grande o suficiente pra não precisar de Häagen-Dazs com sabor de torta.

Rory Gilmores, andamos por aí, e o tempo foi passando, as coisas indo e vindo, e a gente só não tinha mais tempo pra sentar e chorar. Então os fatos foram se apagando, as memórias foram desbotando e a gente de repente não conseguia mais se lembrar o porquê daqueles socos repentinos no estômago. 

As músicas mudaram, o cabelo mudou, as roupas, os amigos, mas o gosto amargo, a náusea, o vazio estavam ali.

E o semestre passando, e a gente sem saber o que estava errado, se a gente tinha tudo, absolutamente tudo, ao alcance da mão. Era só pegar. Só não dava pra pegar de volta.
Ficamos com raiva do mundo, uma raiva que não passava, que sangrava, de tudo e todos, cada frase era um ataque pessoal, e a gente não sabia controlar. A gente perdeu o controle de vez.
E parou.

Você deve se lembrar de como a gente simplesmente parou de sair pra aula. 
De como a gente teve um medo, de leve, de não querer mais aquilo.
De como a gente teve que fingir que era aquilo que a gente queria, só pra que a gente acreditasse.

Foi difícil, mas a gente fingiu que não era. A gente fingiu que tudo bem. 
Mas não estava tudo bem. 
Se eu pudesse falar comigo mesma, aquela B., eu diria a ela pra chorar. Pra matar uma porrada de aulas, pra chorar e andar por aí de camisola. Eu diria a ela pra parar de se maquiar como se estivesse tudo ok, pra não beber tanto, pra parar um segundo. 
A gente ama. A gente desama. E a gente chora.

Na vida, a gente não pode ficar pulando fases assim, sem consequências. 
Mas não podíamos parar.
Aconteceu tão rápido e, quando nos demos conta, já era dezembro e não tínhamos parado pra pensar. No meio de todo aquele sudoku, álcool, milhões de coisas, meu eu já tinha perdido toda a noção de tempo e de responsabilidade, esquecia minha irmã nos lugares, esquecia minhas tarefas, acordava às 5 da manhã com minha tarefa de casa pela metade e não queria mais participar de nada, me irritava que esperassem de mim mais do que o mínimo.

Tentei sair da liga - mas não pude, tive muito medo de que pensassem que era por outra razão -, parei de aceitar projetos, de responder mensagens, de levar meus materiais para as aulas, de estudar, de escrever, de planejar. Cada vez que alguém me pedia um favor, eu sentia vontade de vomitar, de correr pra bem longe e não voltar mais.

Fui desmoronando aos poucos e, nas últimas semanas de aula, eu só conseguia torcer pra morrer enquanto dormia. De qualquer coisa, pra doer ou não. Eu só não queria mais ter que me levantar.

Eu poderia ter parado, chorado até minha cabeça explodir. Mas eu me achava tão melhor do que isso, melhor do que uma heroína chorona de um filme adolescente.

Eu tive tantas oportunidades de chorar, de conseguir colo, de pedir ajuda. Amigos incríveis, sempre me dizendo pra falar, e eu não conseguia. Eu preferia morrer do que mostrar fraqueza. Mesmo naquela noite terrível que nem importa mais, eu poderia ter chorado, eu poderia ter arrancado fora os olhos, mas fui assistir Downton Abbey, sem conseguir pregar os olhos durante quase 30 horas, só porque eu não queria pensar. 

Você deve estar se perguntando "Por que agora? Por que você está escrevendo isso pra mim, justo pra mim?". Chame de intuição, ou crendice. Mas acho que vai acontecer de novo, em breve. Talvez com você. 

Então, preste atenção:
Pare. Chore. Chorar não resolve nada mesmo, mas não é pra isso que serve. E não tem nada de errado em sentir alguma coisa. 
Dói. E você chora. Não vai ficar mais fraca pra isso, não vão te achar pior por isso.
Não finja que está tudo bem. Porque só vai doer mais, cada vez mais. E não vai passar, vai te estragar de tantas maneiras, acho que você já deve saber, você vai se lembrar.

E é, dá medo.
Medo de chorar, medo de sentir isso de uma vez só, ao invés de deixar sair em doses controladas.
Mas ei,
nem sempre é uma música triste.
Às vezes, você para pra ouvir direito a letra e percebe que a resposta estava ali o tempo todo.
Que é você quem torna as músicas felizes ou tristes.
E que você só precisa ouvir com atenção.

Ouça com atenção.
Pode até doer, mas passa.
Esse vazio passa.
Foda-se Drummond. 
Tô te afirmando que passa.
Acredite em mim.

Com amor, muito amor, todo o amor que eu tenho pra dar hoje e sempre,
Você.

28x17 Something missing

Imagem: TingTing Huang

James me disse "falta alguma coisa".

Mas falta o quê?

Falta poesia, falta o coração bater mais forte e a vontade de ficar junto, falta ter algo em comum, falta querer ficar até mais tarde sem fazer nada, falta paixão, falta vontade de matar aula, falta chegar em casa e escrever sobre amor, falta ouvir músicas de amor e pensar no seu nome primeiro, falta te colocar como primeira opção, falta querer ser amada, falta imaginar seu rosto nos protagonistas dos livros, falta aquela coisa que deixa as pernas bambas, borboletas no estômago, falta deixar de querer que você se sinta bem a qualquer preço.

Entre outras coisas,

Mas disso você já sabia, porque é o que venho dizendo desde o começo.
Aquilo era tudo o que eu tinha pra oferecer.

Boa sorte.

28x16 Caribou

Imagem: TingTing Huang

"Eu não sei como consertar,
nem se tem conserto".

Aperto enviar.

Acho que tenho dito essa frase quase que automaticamente nos últimos anos.

Eu me lembro do dia anterior à sua grande viagem. Suas malas estavam todas prontas, armários vazios, paredes nuas, tudo vazio e você indo embora, pra deixar minha vida vazia.
Eu me deitei no chão, no tapete azul velho e te perguntei se a gente ia ter conserto.
E você, sentado na ponta da cama, mexendo nas coisas da caixa de velharias que eu tinha trago, disse mais ou menos isso -e, por favor, volte e me corrija se for mentira-:
- Se você precisar tanto assim consertar, então não é pra gente ficar junto. Não dá pra se amar tapando buraco, Bels. Eu não quero te capturar num momento só e saber tudo o que há pra saber, ou mudar sua mania irritante de deixar um vazio entre as frases que não tem tradução pro meu idioma. Eu não quero nada diferente disso, mas eu me adaptaria. Sem conserto. Amor não precisa de conserto, de mudança. Amor precisa de adaptação. Eu não quero voltar e ficar com outra pessoa. Eu quero voltar e ficar com você. Crescida, sabe-tudo, mais violenta, mais experiente, talvez menos descabelada, mais adulta, mais ou menos tudo isso. Você. Adaptada pelo tempo e pela distância entre nós dois, pelo medo de não ter mais certeza, que eu sei que vai chegar daqui a uns meses.
Não é pra me esperar sentada, não é pra fingir que está tudo bem, não é pra nunca mais amar ninguém.
Vai doer. Já dói pensar que você vai olhar pra alguém assim, que você pode até nunca mais me olhar assim de novo. Eu só quero te pedir pra nunca mais sair de casa ou pra pensar só em mim todos os dias, até que eu volte.
Mas eu quero ver o que o tempo vai fazer com você. Com a gente.

Nada nunca nunca nunca nunca teria me preparado pra te ver puxando a mala na minha direção, pro braço mais gostoso do mundo, pra essa saudade contida de quantos milhões de anos, pra essa tarde só antes de você ir ver sua família "um dia antes, pra te ver". Biscoitos de chocolate, sua mão na minha, minha histeria e você dizendo "Relaxa, sou só eu", mas não era, não depois de todos esses anos, não com aquela confusão toda na minha cabeça. "Me conta", você disse, enquanto eu me escondia atrás da minha caneca gigante de chá de capim cidreira, e eu balancei a cabeça "Hoje não, só hoje não". Porque eu queria você, cada segundo antes que você sumisse de novo, nesses lugares de nome complicado, eu queria te perguntar o que aconteceu com seu cabelo, que roupas são essas, eu queria tomar sorvete, quero te mostrar meus lugares favoritos e tomar milkshake de morango, queria te deixar quieto, não te deixar quieto, te mostrar o que estava lendo, te levar pra tomar café, pra comer hambúrguer, como se você não fizesse essas coisas todos os dias. Eu queria te levar por aí, feliz e assustada, apavorada. Com medo de que a gente acabasse precisando de conserto também.
Não falamos de amor, você disse "me escreve" pro meu pescoço e eu disse "Tá", mas a gente sabe que não vou e nem você, que é só isso, aqui e agora, talvez nunca mais, e vamos voltar pras nossas vidas onde o outro não existe. Você encostou a boca na minha de leve, "até logo", e foi andando na direção do portão
E eu já comecei a sentir saudade, a pensar "Tudo bem, vai ficar tudo bem de novo"
Você voltou, largando mala e tudo, "Só queria sentir seu cheiro de novo", me fazendo dar risada pra encobrir aquele medo, aquela coisa crescendo "Cê acha que a gente tem conserto?", perguntei, sem perguntar.

e você, depois de todos esses anos, traduziu meu dialeto de vazios da melhor forma possível, me apertou com força
"Ainda é você. Sempre vai ser"

:) é bom saber.

28x15 Mimi-Rose Howard

Imagem: TingTing Huang

Acordei assustada, talvez nem tenha dormido, sentia essa dor pelo corpo todo, esse peso nos ombros, gigantesco, que o verso de nenhuma música aliviava. Nó na garganta, eu no sofá com pavor de levantar e acender as luzes.
Depois de meses caminhando no meio-fio, entre conselhos dOsGênios, aquele gosto de vinho barato e depois sono, entre soundtracks confusas, mensagens desconexas, entre as noites que passei desejando que alguma coisa viesse e levasse tudo embora (alguém, que alguém viesse), entre toda aquela dor que não é física (mas também não pode não ser física), aqueles acessos de raiva, minhas amigas explodindo e todo mundo levando a vida como se a vida fosse algo que se pudesse levar adiante, enquanto eu sentia cada vez mais que tinha perdido a capacidade de enxergar cores, de sentir gostos, de ter gostos, de escrever, de sentir qualquer emoção simples;
Depois de meses pensando, considerando, rebobinando, reescrevendo, consertando, apagando, pintando por cima, demolindo, experimentando, pausando, rasgando e colando;
Sem conseguir saber quem eu era, sem saber pra onde ir e o que esperar, mudando de todos os jeitos possíveis e inimagináveis, gritando e rasgando pra me recuperar, pra não me perder de vez, sem Otto dessa vez pra juntar os pedaços soltos e me ensinar a levantar e brigar;
Totalmente perdida, sem saber pra quem correr, pra quem ligar quando tudo dava errado;
Acordei com essa sensação horrível de perda, de vergonha, de estupidez, de tempo perdido, de estar confusa demais, de ter que parar de esperar sempre o próximo e depois o próximo e depois o próximo

E eu gostaria de dizer, Mimi-Rose, que foi aí
que foi nesse momento que a cena acabou, o momento em que você me ofereceu o que eu desejei pros grandes gênios das horas por todos os últimos meses, o momento em que eu dei as costas pra sua estupidez, o momento em que a câmera mostra minhas costas indo embora entre ultrajadas e desejosas;
Aquele último momento em que eu ainda não sei.

Talvez tenha sido, e só agora eu percebi.
A luz se apagou, Mimi-Rose.
E, o que quer que você faça daqui pra frente, bom,
I don't fucking care.

(:

28x14 Safe to shore

Imagem: TingTing Huang

Eu me apaixonei, pela primeira vez, aos 7 anos.
Eu olhei nos olhos dele, apertados, e pr'aqueles chinelos do Senninha haha.
Eu sobrevivi à dor da primeira carta de amor que escrevi ser descoberta e reprimida, à dor das palavras que nunca chegam ao destinatário.

E aí ele apareceu. Mas ele não cabe aqui, porque esse eu não pretendo superar. Pro bem ou pro mal.

Me apaixonei aos 9 e gastei minha primeira mesada comprando pra ele um jogo de futebol de botão.

Me apaixonei aos 11. E sobrevivi à terrível tarefa de ser a melhor amiga, garota de recados. De saber sobre cada beijo, cada sentimento. E de chorar sozinha em casa, sem ter um melhor amigo equivalente.

Aos 15, minha primeira declaração de amor oficial foi rejeitada com silêncio puro e simples. "Ele não queria te constranger". Obrigada, obrigada mil vezes! Minhas sextas-feiras não seriam as mesmas sem você. Eu te amo, mil vezes mais.

16, logo após meu primeiro beijo, eu soube que estava pronta pra você, eu soube na primeira vez que nos abraçamos, desde o primeiro sorvete na praça de alimentação, soube quando te vi no museu, sentado, me esperando. Eu soube, pelas nossas conversas malucas que eu pretendo revisitar um dia, soube pelo quanto seus cabelos eram escuros e bagunçados, soube desde o nosso primeiro beijo, soube desde a nossa primeira briga, ou quando menti pra te encontrar, ou quando você me levou embora pela mão: soube que te amava. E soube que você era um babaca. Mesmo assim, obrigada.

17-18. Uau. Tô tentando escrever sobre você. E não sai nada. Não quero te resumir em um parágrafo. Eu estava em pedaços. Juntando meus pedaços, tudo o que McCandless tinha deixado, me recuperando desse mesmo limbo de agora. Sobrevivendo. E você estava, sei lá, vivendo sua vida, parado na rua, à espera. Consigo imaginar o momento em que eu descobri que te amava ao som de Moon River, que loucura. Eu te amei de uma maneira tão verdadeira e tão estúpida. Tão estúpida e doentia. Obrigada por ficar. Obrigada por tudo.

21. Ei. Cedo demais, talvez, pra dizer que cheguei segura. Mas acho que cheguei ou estou quase lá. Enfim. 21, e eu não consegui sobreviver à mim mesma, mas tenho boas lembranças, mais uma playlist pra evitar por um tempo. Acho que sobrevivi à fase de auto-recriminação, de me sentir menor ou incapaz de muitas coisas. Infelizmente, acabei buscando por aí a resposta pra muitas dúvidas, e magoei ou estou prestes a magoar algumas pessoas. Mas sobrevivi.

22. Cat Power na playlist, devaneios enquanto lavo louça e antes de dormir, conversas de madrugada, as pessoas sabem seu nome porque não falo de outra coisa. Comprei um vestido novo. Limpo, sem história pra contar.

Ainda não quero me magoar.
Mas, uma pequena pequeniníssima parte de mim acredita que tudo bem,

Eu vou sobreviver. 

28x13 Feel Good Inc.

Imagem: TingTing Huang

- Natal é uma bela bosta,
digo a ela.
Tô cansada.
Tô triste.
O Natal vai levar a melhor, de novo, aquela solidão que não sai, que não desgruda, que parece uma criança pesada demais te subindo nas costas o tempo todo, gritando nos ouvidos, pedindo atenção.

Deito no sofá e fecho os olhos, um cover de Hotline Bling vindo leve, invadindo o corpo todo como só a música pode fazer, me deixando vulnerável como ninguém nunca fez, como ninguém nunca vai ser capaz de deixar.

Ando entediada.
Tanto pra fazer, tanto pra escolher, e eu não dou a mínima.
Bagunço os cabelos, hábito recente, de que gosto muito. e fico assim, quieta.
Outro dia, me disseram "Eu gosto muito, muito mesmo de você".
Outro dia, me olharam de um jeito que eu nem achei que fosse mais possível, tão bom, tão ruim, deu medo, deu um milhão de calafrios.
Me disseram que esperavam muito de mim.
Tenho deixado pessoas a espera. É uma sensação nova. Incômoda, pesada.
No entanto, não quero fazer nada.
Não quero apressar nada, não quero magoar ninguém.

Eu não quero mais ter que pedir desculpas.
Quero só usar maquiagem pesada e sair por aí com minhas roupas repelentes de homens haha, dançar até parar de sentir esse tédio, essa coisa que não sai - blasé is back, diria Elspeth - , beijar quem quer que precise de beijos meus e não me preocupar mais com o que outras pessoas querem, ou pensam, ou sentem.

- Não tô gostando, não trabalho mais com isso. Trabalho com desculpas e horários que nos impossibilitem de nos ver, com ficar sozinha em casa quando você está disponível, com saídas rápidas do carro quando o ambiente é extremamente propício pra primeiros beijos, com aquele tremor na voz quando não sei exatamente o que você está pensando, com passar o dia inteiro pensando sobre nós dois e, quando a hora de te ver chega, eu só quero sair correndo de volta pra baixo das cobertas pra não dizer nada estúpido e, ao mesmo tempo, quero ficar porque você me faz bem.
Você me dá vontade, um pouco só.

Não é o suficiente, por enquanto.

28x12 Spotless Mind

Imagem: TingTing Huang

Quando deixei de sair com McCandless, lembro de ter um devaneio recorrente no qual eu perdia a memória. Esse devaneio me acalmava, me fazia sentir melhor.
Hoje, acho graça.
Mas entendo.
E hoje, só hoje, queria dar esse devaneio de presente pra alguém.

Lá vai.

Queria apagar sua memória. Deita aqui, meu bem, vou curar a sua dor.
Me dá sua boca. Feito um dOs Gênios, vou soprar esquecimento.
Vem, acabou.
Acabou a memória, a inteligência. Vamos ser só isso.
Sem palavras novas.
Sem mais significados.
Use o que você tem, use o que você sabe.
'Vem'. Eu te dou um pouco do que eu tenho. Não é muito.
Feche os olhos, eu vou te dar lembranças novas. Vou te fazer rir.
Eu sei rir, eu ainda sei rir, e você também sabe.
Dá aqui a mão, eu sei que é estranho, mas melhora.
Eu juro que melhora, que um dia você acorda e a dor nem faz sentido. E mesmo quando ainda dói, o que dói é ter que se redescobrir, é o esforço de ter que ser você mesmo.
Vem cá, eu também não quero ficar só.
Então a gente pode sim ficar acordado até quando for necessário, e esquecer aos poucos, e ir apagando aos poucos, e se curando aos poucos.
Deixa. Deixa.
O que a gente vai fazer daqui pra frente é que importa.

Onde é que você quer se sentar? Sabe como é, eu não gosto de escolher. (:

28x11 Simon Said

Imagem: TingTing Huang

Sobre pessoas que nunca dizem e pessoas que só entendem depois de muito tempo. Sobre velhos experimentos e novas paixões (:

Presa num quarto branco, cabelo em chamas, me concentro.
Sem mexer um músculo, mexo sua língua, num beijo que nunca vou dar.
- Eu te amo
Digo, e o som sai da sua boca, engrolado, ininteligível. Sai assim, do nada, te deixando confuso.
Minha cabeça explode, meu nariz sangra, mas eu preciso que você saiba.
Sua mão acaricia seu rosto de leve. Sou eu, sou eu.
Toco seus lábios usando seus polegares, seu queixo.
Sinto dor, tanta dor, mas eu preciso que você saiba.
Quero sua boca, tremo, com o esforço, e você treme junto.
Eu quero falar pela sua boca, saber te possuir sem te tocar. Dói.
Começo devagar.
Mexo meus dedos, seus dedos se movem.
Posso te imaginar olhando pra sua mão, como se um fantasma a estivesse movendo.
Devagar, aproximo a mão do meu rosto. Devagar, bem devagar, pra não te assustar. Devagarinho, tateio seu rosto, sentindo a textura única que ele tem, tão sua, tão minha.
Fecho seus olhos, meu gesto, o gesto do Nicolas Cage que resolvi roubar muito tempo atrás. Espero que você entenda.
Esse é o meu jeito de dizer.
Ouça. Ouça.
Ergo as mãos e as entrelaço, aperto sua mão na minha, esperando que você use a mesma quantidade de força, apertando sem apertar, com medo de soltar, com medo de segurar.
Toco seus pulsos, levo-os aos lábios.
Sou eu, sou seu.
Ouça. Ouça. Ouça.
Toco meu corpo, seu corpo, meu corpo e o seu se confundem distantes, como se confundiam quando próximos.
Toco meus braços e sinto os seus, a lisura, a penugem indo se esconder sei lá onde, suas costas lisas, a raiz dos cabelos.
E imagino que você esteja tocando seu corpo, mas sou eu. Mas sou seu. Me ouça.
Meu nariz jorra sangue, não tenho forças, Mas você tem que entender.
Que eu amo você, seu corpo com todas as cores possíveis, suas pernas brancas e braços negros, seu cabelo bagunçado de manhã, sua nudez na penumbra, seus pés, que eu só quero a sua boca e mais nada.
Ouça o que eu digo. Ouça.
Meu corpo todo treme, e eu perco a conexão, eu perco você, eu perco tudo, eu apago, eu me desconecto do mundo e eu não sou mais eu, eu não sou mais você, eu não sou nada.
A dor é imensa e eu me afogo nela, sem conseguir respirar, sem conseguir me mover.
- Eu te amo
Meu cérebro grita, num último esforço que, Deus sabe o quanto, eu queria que atravessasse todas as barreiras que existem entre nós, cada muro, cada mar, cada oceano no fim de cada caminho,  pele e ossos. Eu só quero que o sinal chegue até você, quero que o som saia da sua boca e volte pra minha.
Eu só quero me ouvir dizer, finalmente, dizer da sua boca, dizer do teu querer
- Eu sei.
Pra poder me afogar.
Pra poder sangrar de novo.

(Só um experimento provocado por um debate insano com Holden e um John Doe. Não leve a sério (: )