Imagem: TingTing Huang
Estamos sentados, cada um com a sua cerveja.
Eu, já bêbada, mas nem tanto. Só o suficiente pra estar zonza e feliz, rir alto de tudo o que você diz, passar mais segundos do que deveria olhando pras suas sobrancelhas, seus dentes, e seu pescoço. Não estou bêbada o suficiente, não tanto quanto eu gostaria de estar.
E você -- você nada. Sempre, sempre nada.
Sinto aquela vontade, infelizmente controlável, absurda, de dizer:
- Você não sabe, não faz ideia, do que você faz com a minha cabeça. Do efeito que você causa em mim.
Eu diria isso olhando nos teus olhos, imagino, e você ficaria apenas momentaneamente desconcertado.
Considero, calmamente, causar o seu desequilíbrio, enquanto tomo mais um gole.
Mas não.
"O que você faz com a minha cabeça".
tolice.
Como se você, só um homem, pudesse fazer algo com a minha cabeça.
Eu sou a feiticeira verde, eu dou poder e o tiro. Eu tenho o poder de fazer queimar, chover, de adormecer os homens e acordar as mulheres.
Eu, não você.
Seu poder sobre mim é o poder que eu te dou.
Não é seu, e eu o quero de volta.
Sou eu, a de muitos nomes, eu sou o espírito da água, eu sou a rainha de mil faces, eu transformo homens em porcos, só eu sei os segredos dos cervos e das fogueiras de Beltane.
Eu sou a mãe de Édipo, sou a que chora a morte após tirar a vida. Sou eu quem habita as sombras dos desejos no seu coração, sou o som dos seus sonhos e aquela que chama o seu nome nos ruídos das primeiras horas da manhã.
Eu te dou o meu amor, e você, você me dá tudo, sem saber o que existe no final.
Eu sinto em você, o cheiro de morte, juras de amor, aventuras, terra molhada de sangue e metal, saliva e suor. Uvas e framboesas.
E eu sei, eu sei. Você também sente o cheiro.
Grãos, sangue, incenso, chuva, fumaça, sacrifícios. Uvas e framboesas.
Bebemos.
Você espera -- pelo quê?
Eu espero, pacientemente, aquele momento em que você me olha nos olhos e diz
- Você não sabe, não faz ideia, do que você faz com a minha cabeça. Do efeito que você causa em mim.
Esperamos, em guerra.
Alguém tem que ceder,
certo?


