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42x11 Amortentia ou coisas nas quais eu penso enquanto dirijo pra casa sozinha

Imagem: TingTing Huang

(Quem me conhece, sabe)

Não.

Eu amo você.

Você me diz que isso tem cura,
e me dá remédios, me dá comprimidos pra dormir, pra acordar, pra pensar,
mas você não me dá amor.

E eu só quero amor.

Eu só quero amor, o seu.
Fugir pras colinas, correndo, largue tudo, seu marido e sua vida,
eu sei o que você quer.

Eu sei que você me quer.

Mas você me diz que não. Que não me quer. Que não vai deixar seu marido.

Ele te mandou dizer isso?
Ele está tentando nos separar?

Eu aperto seus braços com força, e te machuco.
Mas não foi minha intenção, eu só
Eu só quero que você saiba que eu me importo.

Mas você me diz que não podemos mais nos ver.
E o que é que eu vou fazer se eu não puder mais te ver?
Eu morro.
Eu morro.
E eu sei que você também.

Não, não,
isso não é uma ameaça, meu amor.
Eu jamais
jamais
te machucaria.

Eu te amo.

Desde a primeira vez em que te vi.
Você lembra daquele dia?

Como eu te perguntei pra onde você ia
e você sorriu.
E você me amou também.
À primeira vista, como nos filmes.

Eu nunca acreditei em amor, mas eu acredito agora.
Eu sinto.
Intenso,
Queimar cada pedaço do meu corpo.
Você queima.
Você machuca.

Eu sonho acordado com seu corpo,
eu não consigo trabalhar,
eu não consigo dormir,
eu não consigo me concentrar.

Eu só consigo pensar no momento exato em que ficaremos juntos,
longe daqui,
longe desses remédios que você me diz pra tomar e eu só finjo que tomo,
porque eu sei o que é melhor pra nós dois,
eu sei.
E você também sabe.

Eu te amo.

Você me diz,
que isso tem cura,
mas eu leio seus pensamentos,
eu decifro suas expressões
e eu sei que você tem medo de que tenha cura.

Não se preocupe, meu amor,
não tem.

Porque não é doença.

Não tem cura,
eu vou te amar pra sempre.

Talvez até depois disso.

42x10 10mg

Imagem: TingTing Huang

Sobre saber e coisas que podemos escolher.

Faço ânsia de vômito,
você faz cara de preocupado.

Tá tudo bem, né?
Isso é bom?
É isso mesmo?

Não sei,
a gente não sabe.

O homem na farmácia não sabe,
nenhum de nós pode saber.
Só podemos esperar.

Dá vontade de jogar tarô,
mas tenho medo.

Quero ser otimista,
quero ser como você,
full-on Pollyanna mode,
me dizendo que tá orgulhoso,
que tá vendo os efeitos.

Então sinto vontade de vomitar,
mas sinto prazer nisso,
tá acontecendo.
Alguma coisa tá acontecendo.

Alguma coisa vai acontecer,
aqui dentro,
de dentro pra fora,
tá tudo aqui, dentro dessa coisinha minúscula e branquela,
a solução pra tudo,
o pedacinho ínfimo que ficou na caixa de pandora quando tudo escapou

Esperança.

10mg de esperança.

É muito pouco.
É muito pouco pra tanto sofrer, pra tanto enjôo e dor.
É muito pouco, amor.

Mas já é alguma coisa.

Esperemos.

42x09 Mother!

Imagem: TingTing Huang

E então ela se ergue sobre a cabeça da Caçadora ferida, e ela sabe,
ela sempre soube,
que essa hora chegaria.

Foi pra isso que ela caminhou sob o sol, saiu de casa caminhando no escuro de um dia de verão, quente e seco,
foi pra isso que ela reuniu tudo o que podia,
sangue, sêmen,
uma página em branco arrancada do caderno do karma,
uma armadura cheia de amor, com cheiro de azul e pequenas pintas pretas espalhadas feito uma constelação,

foi pra isso que ela correu, foi disso que ela correu por todos esses anos,
apenas pra ser trazida de volta ao começo,
seguindo o cheiro do seu próprio sangue.

Era chegada a hora de matar seu próprio monstro.

Ela sentia o cheiro de terra da sua primeira casa,
seu primeiro cachorro,
a textura dos azulejos da casa da sua avó,
cheiro da fumaça de cigarros,
o gosto de sal das suas próprias lágrimas,
cada dor,
cada oração da sua voz de criança,
suas costas doendo, vergando sob o peso de vários mundos que não eram seus,
o sangue úmido de uma pessoa amada molhando suas pernas

Ela tinha medo.
E sabia.
Ela sabia.
E sabia que o medo não significava que ela não podia atacar.
Era só medo.

Então ela atacou com as mãos nuas,
usou toda a força guardada em cantos escuros da Brasília de baixo,
cada pedaço de medo,
até a Besta parar de lutar.

Ela emergiu do sangue, ofegante,
assustada,
triste,
doente,

vitoriosa.

Ela podia fazer o que quisesse, agora.

Ela podia até ser feliz.

42x08 Amor meu

Imagem: TingTing Huang

Olá
Eu acabei de me lembrar que te amo.
Que você é a coisa mais bonita e incrível de todo o universo.

Tudo bem?
Não fica triste,
eu tô aqui.
Vai ficar tudo bem.

Já comeu?
Tá com fome?
Por você eu como. E por mim. Pelo futuro de nós. E pelo meu.

Ando sempre na beira da calçada, na beira do abismo onde o mundo termina, mas não caio. eu volto pra casa, pra minha casa, pra sua casa, pra você.

Seus dentes surgem quando você sorri, infantil. E eu me apaixono por quem você vai ser em 10 anos.

Todos os dias, eu me apaixono pelas suas mãos. E me emociono com a textura da sua pele e com o tom da sua voz.

Amor meu, eu amo as manhãs na sua companhia, e a sua presença constante no silêncio e na solidão.

Eu amo o seu cheiro, a escuridão e a forma como você sempre sabe. O som do seu nome saindo da minha boca, o gosto das suas consoantes, o céu da sua boca.

Eu amo suas cores, intensas e vibrantes, e como o rosa colore seu rosto pálido de repente, de forma inesperada.

Amor meu, eu não acredito em pra sempre.
Eu não acredito em nada.
Mas eu quase
quase, muito quase,
acredito em todas essas coisas de uma vez

Nos seus planos mirabolantes,
nos seus fios de barba,
nas suas histórias,
nos remédios mágicos pra ficar feliz,
nas soluções práticas,
camas arrumadas,
não tomar banho de manhã haha,
fireballs,
carnaval,
em mim,
em tanta tanta tanta tanta coisa

Obrigada.

Obrigada.

Eu não sei mais o que dizer,
como descrever o que sinto,
então vou sair daqui por alguns momentos
e demonstrar.

E espero, quando os momentos difíceis chegarem,
conseguir te fazer acreditar também.

37x21 O terrível dia jamais descrito (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Estava organizando as temporadas, ao invés de estudar, de explicar pra minha irmã como é que uma camisinha vai parar no quarto de alguém, de ler meu livro ou fazer qualquer coisa útil, quando me deparei com o terrível dia jamais descrito. Eu decidi, há um tempão, que jamais escreveria sobre ele porque não sabia como.
Acho que doía, também.
Acho que incomoda, um pouco, o que quer que isso queira dizer.

Mas não tenho medo da dor ou do incômodo.
Vamos lá, vamos terminar essa temporada com bravura. Vamos quebrar regras.

24 de julho de 2015.

Eu estava lá.
Acordei cedo, voltei pra casa bem cedo, como nunca tinha voltado antes.
O dia todo era bonito, eu ouvia o álbum recém saído do forno da Florence, e fingia que não estava indo ver se a gente tinha volta.
Não me lembro da minha roupa naquela manhã.
Roupa de dirigir.
Lembro de usar meus óculos de coração, os cor de laranja, e de pensar que o mundo inteiro queimava.
Eu não sabia o que ia acontecer naquela noite. Sabia o que queria que acontecesse. Mas não tinha coragem de imaginar. Eu tinha muito medo.
Eu tinha muito medo de chorar.
Estava doente.
Digo isso porque agora me parece muito nítido, mas eu não percebia, então.
Trazia na bolsa um monte de sudokus e palavras cruzadas, que me acompanharam durante algumas das piores fases da vida, como um lembrete de que, quando tudo está ruim, eu sempre podia fugir pra dentro de mim.
Arrumei meu cabelo. Na época, estava em transição, meus cabelos estavam furiosos, eu me sentia a medusa, cachos tortos, em desalinho, como se alguém os tivesse dado vida própria e os congelado em seguida.
Eu usei azul.
Azul é a minha cor favorita, às vezes.
Blue.
Caiu bem.
Eu queria ficar bonita, mas bonita feito uma pessoa comum em uma tarde comum.
Penteei os cabelos, usei maquiagem, mas não tanta, porque queria parecer que estava ali só porque tinha que ir.
Fiz o caminho mais cedo, eu queria esperar, eu queria estar lá quando você chegasse.
Sentei no deck, e fiquei olhando o pôr do sol, esperando você chegar, com medo da sua chegada, com medo do futuro, com medo da falta de estrelas pra quem pudesse pedir, com medo de não saber o que pedir.
Você chegou e, olha, você estava lindo. Nossa.
Eu estava de novo, desajeitada, meio maluca, sozinha, escrevendo em papéis e nos cantos dos sudokus, trazendo um presente sem pacote, uma caixa cheia de mim e das coisas que eu não pude te dar. Cheia de amor sem sentido, sem destinatário.
Deixei que você lesse, eu queria que você lesse, era seu, não era? Mas não era mais.
E foi uma droga perceber que não era mais.
Porque ainda tinha amor ali, ainda tinha amor em mim, o que eu ia fazer com aquilo??
Pra quem eu ia dar, se não pra você?
Soco no estômago, saímos pra comer, de acordo com o que eu planejara.
Eu precisava de tempo, ficar estável, peguei meu carro e fui pelo caminho mais longo e mais familiar que conhecia.
Eu precisava ficar estável, eu precisava não sentir nada.
Eu precisava respirar fundo e não te querer mais, eu precisava que você me quisesse, eu precisava--
Chegamos ao shopping, mas não entramos de mãos dadas, não teve sorvete e nem você me deu bronca por alguma razão boba. Fingi que estava diferente, em uma tentativa desesperada de te fazer voltar, mas hoje acho que isso não fez, nem faz diferença.
Comi carne, e estava ruim, mas eu não reclamei.
Conversamos.
Sobre coisas amenas.
Coisas amenas, eu e você, conversando sobre coisas amenas, uma morte lenta.
"Não, não, não, tá errado. Me fala da tua casa, da tua vida, da saudade que você sente de nós dois, vamos pra minha casa, dorme comigo essa noite e a gente resolve tudo amanhã, volta pra mim, volta comigo pra sua casa, eu te faço o café da manhã e a gente começa do zero, a gente finge que nada aconteceu, eu nunca mais discuto por coisas pequenas, eu não vou mais brigar, eu não vou mais ficar indecisa, eu vou ser melhor, eu vou--", era o que passava pela minha cabeça. Mas eu nunca disse, eu nunca diria, eu sou a mulher mais orgulhosa que já andou por essa terra, e até isso me orgulha.
Então eu sorri, e falei com a minha voz estável. Eu fui estável. Porque era o que eu achava que deveria ser.
E tinha tanta coisa que eu queria dizer, que eu queria cobrar, que eu queria te dar, e a minha estrela, e tudo aquilo que a gente ainda ia fazer
mas eu não tinha voz, nem bravura
nem nada.
Eu só tinha o meu orgulho, pra me manter de pé, pra me fazer te soltar quando a gente se abraçou uma última vez, pra me levar pra casa, pra minha casa, não pra sua, pra me tomar o celular quando eu só queria escrever tudo o que estava entalado na minha garganta, me apertando o peito, pra colocar o colchão na sala porque entrar no quarto e ver as coisas de nós dois espalhadas doía, pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando eu sabia que não ia ficar, pra me fazer cafuné enquanto eu chorava pela primeira vez, oficialmente.
Meu Deus, como foi horrível aquele dia, terrível. Parece tolo, agora.
E nem de longe tão ruim quanto os que vieram depois.
Mas ruim.
E não sou insensível a ponto de dizer que o seu também não foi ruim. Deve ter sido, tão ruim quanto. Mas acho que nunca vou saber.

O que sei é que esse foi o meu dia terrível.
Não o primeiro, não o último, mas especialmente terrível.
Como todos os dias terríveis.

Se eu teria feito algo diferente?
Tudo, eu diria, mas não tenho certeza.
Porque eu realmente gosto de azul.
E eu realmente gostava desse cara, mas
Eu sei que as pessoas imaginariam que eu diria que deveria ter deixado o orgulho de lado, mas ele me trouxe até aqui.
Ele me manteve de pé,
me fez comer quando eu não queria,
pentear meus cabelos, ir pra aula fingir que estava tudo bem, tirar notas boas,
falar com meus amigos, nem que fosse pra responder "Tudo bem sim :) e você?".
Ele me abraçou e me impediu de pedir ajuda, é, mas também me impediu de tomar atitudes drásticas, de dizer o que sabia que não adiantava ser dito e de ficar em casa chorando as pitangas.

Então, eu mudaria o dia terrível?
Talvez, possivelmente.

Mas provavelmente não.

36x21 Ar (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Eu preciso de ar.
Tento respirar, mas essas paredes me apertam, você aperta.

Então eu saio, descalça, na chuva e respiro. Meu Deus, eu respiro.

Milhares de pessoas dentro de mim colocam as cabeças pra foda d'água e respiram, levantam e saem da água.

Uma sereia tenta desembaraçar o meu cabelo duro e sujo de glitter,eu ouço ruídos de trovão, mas é só o barulho do colchão quando me movimento durante a noite.
Chuck rosna pras tuas mãos e pras mãos dela e eu sinto que vou vomitar, então uma garota asiática segura meu rosto no escuro, beija meus dedos,
mas Alex me diz que não tem nada a oferecer.

Dimitri me olha nos olhos, toca a minha pele, alguém me abraça e eu sinto uma vontade incontrolável de cantar, mas eu não consigo respirar, eu não consigo respirar porque os cabelos de Sofia estão presos em um coque, porque ela está sentada e eu não estou.

Eu preciso de ar, e tremo de frio, e quero morrer de frio, no meio da calçada suja, com os pés sujos, então Annabelle me dá um abraço gelado, e me toca como se me amasse, como se eu fosse especial, ela me diz coisas, me dá as costas e um menino chamado Vincent não beija a minha boca, por que ele não beija a minha boca?, eu preciso de ar, mas você não sopra, você não sopra
Um dos irmãos Edson chora na minha frente e
Por que?
Pippa me segura forte pra que eu não caia de joelhos no meio da rua, eu não consigo entender porque é que ele chora, então ela tapa meus ouvidos
mas eu posso ouvir, Pippa
eu posso ouvir, e meus ouvidos sangram mesmo que eu não entenda o que Augustus está dizendo para Annaliese. Ele a beija, e ela muda de cor e forma, é Annaliese, Henrietta, Helen, Maurício, Maria, Otto.
É mágica.
Sinto vontade de vomitar e procuro uma lixeira, meu telefone toca e eu percebo que não o trouxe.
Não é pra mim,
Marcella atende e
Ulrika fala comigo, ela fala comigo, ela fala comigo sem mover os lábios
Mas eu só quero beijá-la, eu só quero beijá-la.
Ela abre a boca e sopra fumaça no meu rosto, tanta fumaça que ela precisa de coragem,
e eu me lembro que tô sozinha no frio, na chuva, que tô enlouquecendo, de novo.
Então, misericordiosa, L. arranca meu coração todo fodido, sangue coagulado aos montes, e eu vomito, sem saber onde estou.

Eu preciso de ar, e o trem do metrô traz uma lufada de vento, e eu quero, eu quero ir com ele, eu preciso de ar, seguro a tua blusa, sem saber quem você é, e puxo, e peço
sopre ar em mim, sopre ar em mim.

Mas você se desvencilha, dizendo que só quem sopra vida é Deus,
e Deus não existe.

36x03 Coisas que não se diz a ninguém

Imagem: TingTing Huang

N.A.:  Eu não tenho coragem de digitar o texto original, não por completo, seria desnecessário. É raiva pura, tristeza, decepção. Mas está aqui porque tem que estar aqui. Eu conto histórias. Mesmo quando não gosto delas. Esse texto é sobre mulheres que conheci, mulheres que seguraram caladas, seguraram o choro até quando deu pra segurar. Digam, mulheres, digam: viver assim dói.

Seu nariz tá sangrando, eu tô sangrando, minto, esse sangue não é meu, largo a pedra no chão e corro pra casa, tranco a porta do banheiro e tomo banho, longo, pra me sentir limpa.
Mas continuo sangrando, um sangue que não é meu escorre das minhas unhas com esmalte descascado, gosto ruim na boca. Por que?
Porque sim, porque a vida é sim.
Ou não é? Como é que se diz, como é que eu grito as coisas que não se diz a ninguém? Se eu não consigo dizer pra mim, se eu não consigo traduzir e entender, eu tô pensando, eu tô me esforçando, mas não quero passar os dias a colocar e tirar máscaras de mulheres, crianças e monstros. Eu quero dizer as coisas que não podem ser ditas.

Mulher, diga. Diga.
Precisa doer se dói, mas ela tá com medo, tá com medo de, tá com medo de quê? Diga, mulher, diga.
Não digo. Me queima a boca, me queima a boca, me queima, não digo. Diga, mulher, só diga o que precisa ser dito.
Não dá, não dá.
Filha da puta, abra a boca e diga o que tem pra se dizer, você tem tanta gente junta lutando pra sair, diga o que não se diz.

Pois bem.
Eu tô chateada, eu tô me sentindo vilipendiada, enganada. Porque ninguém é obrigado, mas eu faço o que é preciso. E não é só hoje, nem até amanhã, por um ano ou 500 dias. Demora a passar, fica grudado feito o suor em dias quentes.
Não me machuque. Eu não quero me machucar. Nem antes, nem durante, nem depois. E eu tô machucada, eu tô triste com essa porra de ferida que não sara nunca, que vai e volta (às vezes, até pior do que antes). Vá tomar no cu.
Filho da puta, escroto, fodido, nojento, porco maldito, eu odeio você.
Porque você está me machucando e ninguém pode fazer nada sobre isso. E eu não consigo deixar de ser isso, você não consegue deixar de viver porque, bom, você já sabe o porquê.
Essas coisas não devem ser ditas a ninguém, mas eu te odeio. Você é nojento e revoltante, te falta tato, senso ou qualquer coisa que me obriga a tentar ser sempre ok, que me faz não te apedrejar nas ruas e rasgar seu peito. A falta disso me faz ter nojo de mim mesma, da minha pele, do meu passado, das minhas palavras e da minha voz.
Eu odeio você.
Odeio odeio odeio, e isso não se diz, talvez nem seja verdade. Mas alguém tinha que dizer.
E eu disse.
E quero continuar dizendo, dizendo e dizendo que não quero magoar ninguém, que eu digo a verdade, que eu não machuco as pessoas, que eu amo e sou capaz de amar as pessoas sem machucá-las. Você não é. Eu sou capaz.
E mesmo quando não pareço ser, eu tento e tento o quanto posso, e vou continuar tentando.
Eu te odeio.
Tanto, tanto que machuca e confunde.
E eu não deveria dizer isso a ninguém, mas você não vai mais me queimar, cortar minha língua e me partir em pedaços.
Eu te odeio e não sinto muito
por sentir tanto.

(Queria ter te dito isso, mas não por telefone. Eu precisava voltar. Colocar as coisas sob uma perspectiva diferente. Entender, fazer sentido. E percebi que, realmente, essas coisas não devem ser ditas a ninguém. E nem sentidas por ninguém)

35x13 All the pretty girls

Imagem: TingTing Huang

Então, ela me abraçou.
E eu a abracei de volta.

Estou ferida, no queixo, nas costas, costelas, pernas e pés.
Mas vai passar.

Ela me conta uma história, que é a minha história, a nossa história, a história de tantas garotas por aí, mas eu não acho clichê.
Porque eu não me sinto sozinha.

Nós somos tantas, e tão incríveis,
tão cheias de música, poesia e curvas, histórias pra contar.
Por que é que a gente deixa que as pessoas nos digam quem somos e qual é o nosso valor?

Fico de joelhos e olho nos olhos dessa filha que eu quero ter um dia
"Nunca deixe que ninguém te diga o que você tem que ser, o quanto você vale ou quem você é, baby, nem mesmo eu".
E ela assente, sem entender nada.

A minha dor é minha, e dói, dói, dói, dói.
E DÓI.
Dói porque é minha.
E ninguém vai me dizer quando deve passar ou como devo fazer ou pra esquecer.

Mas sim, eu quero ouvir que pode passar.

Não quero condescendência,
quero respeito.
Quero respeito pela minha tristeza,
pela minha alegria
e pelos meus sentimentos.

Não quero compaixão, não quero palavras vazias que você acha que possuem significado.

Eu quero lutar por mim mesma,
pra ser o quanto eu achar que devo ser.
Não quero seguir os caminhos de quem acha que sabe quais são os melhores caminhos,
eu não ligo pro seu futuro.

Não, e
você não faz ideia de como é difícil admitir isso,
mesmo aqui,
mesmo sabendo que isso não é realmente dizer pra você.

Mas é que existe tanta coisa que eu quero fazer
e você está desperdiçando meu tempo,
consumindo meu tempo.
Que é meu.
Meu tempo,
pra ser quem eu acho que devo ser.
Eu não quero ser a sombra de alguém,
e estou constantemente sentindo que é só o que sou.

E eu também não quero mais migalhas
e nem pessoas que me fazem mal, mesmo que a culpa seja minha.
E você pode até achar que não estou tentando o bastante, e acreditar que eu posso mais
obrigada,
mas só me importa o que eu acredito que posso fazer.

E acho que falo por muitas de nós quando digo
que vai passar
e que ainda vamos cometer muitos erros,
mas vamos juntas.
Cada uma pro seu próprio caminho, mas juntas.

Eu preciso de um tempo.
Pra pensar, sozinha,
sem sua interferência.
Pra entender quem eu sou, sozinha.

Eu tô aqui, jogando fora alguns papéis e organizando a vida, pedaço por pedaço,
redescobrindo quem sou,
fazendo planos
e entendendo que eu quero ser
que eu posso ser
cada vez melhor.
Talvez não pra você, talvez você nem veja a diferença,

mas eu verei.

E é só o que importa.

35x12 Mississipi

Imagem: TingTing Huang

Eu não sei flertar.
Não tenho coragem de te olhar pelos tais segundos mississipi.
Vou te comer com os olhos, é. Mas só quando você não estiver olhando.

Não sei jogar esse jogo,
não vou falar com você, pura e simplesmente.
Muito embora eu queira muito falar.
Sobre o gêmeo do Elvis, serial killers e essa história em quadrinhos pela qual estou apaixonada.
Eu quero falar sobre música, pegar na sua mão e me sentar num cantinho, pra conversar.

Não sei ser sedutora, ou chamar sua atenção,
nem chegar de mansinho.
Eu só sei esperar, que horror.

E é, eu adoraria puxar sua mão e te trazer pro meu mundo,
pro meu canto,
gêmeo de Elvis,
e realidades alternativas,
ser honesta e te falar sobre um conto da Clarice que não sei se entendi,
e sobre essa música maravilhosa e uma vontade que tenho de aprender certas coisas.
Mas eu não sou assim.

Eu espero, Jane Austen to the core.
Eu espero,
e não tem nada de errado em esperar.
Eu gosto de tanta coisa, eu penso em tanta coisa, mórbida ou não,
e eu tenho certeza de que
mesmo que eu não consiga sustentar esse olhar por esses segundos mississipi,
ou dançar sedutoramente,
ter conversas amenas adequadas,
mesmo que eu não me aproxime de você no momento oportuno como aquela garota foi capaz de fazer,
mesmo que

Isso não importa.
Porque eu sou assim, é parte da mágica haha.
Eu vou olhar pra você, e arregalar meus olhos,
desviar o olhar
e tentar te ignorar
dizer sempre as piores coisas nos piores momentos
e falar muito sobre morte, porque é do que falo quando estou nervosa

Eu não vou, nunca vou seguir as regras certas,
e gosto disso.
Se você for legal, se for a pessoa certa
vai gostar também.

Então, é
eu quero falar sobre coisas de gente velha,
sobre um livro que eu li,
um filme que eu vi,
e comer torta,
te explicar as coisas da maneira mais confusa possível.
E ouvir o que você tiver pra dizer.

Dê uma chance pra garota mais estranha da festa,
seja legal,
seja agradável
e sensato.
Tá todo mundo procurando alguma coisa,
às vezes a gente nem sabe o quê.
E pode ser incrível.

Então, esqueça as regras, só por esse minuto,
não tenha medo,

Vai ser incrível.