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46x05 Queen of cups

 

Imagem: TingTing Huang


- Eu não sabia o que fazer. Eu só sabia que eu não sabia o que fazer.. Eu nem sei mais quem eu sou...

Sentada, no chão úmido da caverna, na penumbra, eu tento explicar, sem chorar tanto, mas nem eu entendo como vim parar aqui. Só sei que o som das tesouras e do tear me afligem e me acalmam, tão rápidos, tão perfeitamente sincronizados. 

- Eu preciso saber, Mãe. Eu preciso entender. Eu preciso saber quem sou. - mas a Mãe, ela não pode me ouvir. 
Seus dedos correm, velozes, tecendo sem parar, criando às cegas um desenho que ainda não consigo decifrar, que eu mal consigo ver, mesmo à meia luz. 

A luz vem da chama da vela que a Donzela segura firme, com as duas mãos. 
É através dela que eu consigo ver pequenas mudanças no ambiente, nos tons da tapeçaria, menos tons de cinza, mais cores brilhantes, verde musgo e pôr do sol, algumas silhuetas familiares.

Quase me distraio com as cores novas e deixo de ver Morta, em sua pequenez sombria, cortando fios em silêncio. Hoje, eu diria que ela realmente tem bilhões de anos. Frágil, exausta. 

A Donzela se aproxima de mim com a vela e o calor que ela emana, uma vela tão pequena, é quase insuportável. A luz incomoda meus olhos e quase não consigo abri-los. 
De pé, a Donzela tem quase o dobro da minha altura. Pernas longas, enormes, escondidas sobre um vestido escuro e dedos aracnídeos. Cabelos ruivos, lisos e igualmente longos. Ela se parece mesmo com um fantasma, o fantasma de alguma donzela de contos de fadas. 
Eu raramente vejo o seu rosto. Ela está quase sempre debruçada sobre a tapeçaria, sempre tecendo, sempre olhando, sempre sussurrando para si mesma ou cantando uma música que só ela conhece, mas que, eventualmente, ressoa nos meus sonhos. 

Mas não hoje. 

Hoje é a noite em que o sagrado deixa de ser secreto. 

- Venha - ela chama, e eu a sigo, em silêncio, com um pouco de receio, confesso. 

Ela me guia por um caminho amplo e escuro, com tapeçarias desbotadas que, ao serem iluminadas, magicamente retomam suas cores originais. 
E eu posso ver, de novo, o cinza e o amarelo, e as cores que eu nem me lembrava que existiam. 

Caminhamos em silêncio por alguns minutos, até parar em frente à tapeçaria que eu chamo, carinhosamente "Petrichor & spiders". 
E eu reconheço aquela cena, reconheço as cores e o cheiro de tecido, o frio, o amor, mas eu não sei mais me sentir assim. Ou, talvez, eu só saiba me sentir assim.

- Quem sou eu? - pergunto para a rua molhada, úmida e amarela. 
E a Donzela, ela responde, e eu sinto que a sua voz cresce em mim, dentro do meu coração, se é que isso é possível. 

- Você é alguém que perdeu a fé, que tem medo do amanhã. Você é aquela que tem medo de si mesma. Você sabe quem você é, criança, e tem medo dessa pessoa. 
Está negando e escondendo, mas eu vejo tudo que a luz ilumina e o que fica no escuro. Eu vejo o seu coração e eu vejo a dúvida. Eu vejo a solidão. 
E eu vejo um homem --

Ela sussurra, tão baixo que eu perco as palavras dentro de mim, escuro, trabalho, eu só não entendo, mas eu tento. 

Ela fala comigo e consigo mesma, murmura, suspira e grita, eu não consigo acompanhar.

- Antes, - ela diz - você controlava as suas emoções, você não deixava o medo tomar conta, você era disciplinada feito o homem, o homem na carruagem que esconde suas emoções e se defende atrás de esfinges e rasga o tecido dos seus sonhos e
Você quer o fim do conflito. Você quer tempos de paz. Mas você, meu amor, você é caos. Você usa o caos e a confusão. Você é o entrave. O que você quer?

- Eu quero... Eu quero ser feliz. 

- Não... Você não quer. Você tem medo de ser feliz. Sempre teve. - e então, ela começa a gritar, me assustando e fazendo meus pelos ficarem arrepiados - PARE DE LUTAR, PARE DE LUTAR. Você precisa esperar. E refletir. Existe amor, mas não agora, não. Não agora. Agora, você precisa entender quem você é. 
E você, você sabe a resposta, minha querida. Pense. Isso, pense. E ouça. 
Você está feliz? 
Pra onde, agora? 
Você sabe. Ouça. 

Fico em silêncio, eu me sinto mal. O calor da chama me causa desconforto, a luz me dá dor de cabeça. Ela volta a sussurrar e a gritar e eu me sinto cada vez pior. 

- Muitas preocupações, muito muito medo. Tão pessimista, você não é feliz ou você não quer ser feliz? NÃO. AGORA NÃO. Depois, quando passar, depois. Quando o sol se por. Eu sei, você não quer machucar ninguém. E não quer perder. 

- Donzela, eu não entendo. Eu não fiz nada... Eu só não sei o que fazer. 

- Oh. - ela pausa, por um instante, suspira. Quase parece que ela está exausta - Não minta. 
Tem muita tristeza a caminho. Hurricane, thunderstorm. 
Você conseguia controlar, por que não consegue mais? 
Você precisa acordar. Essas coisas, essa mágica que você conjura, ela cobra um preço, um sacrifício. 
você sabe disso. 
Mas já aconteceu antes. Tem que acontecer de novo. 

E, de novo, aquele tom. Como se eu fosse destruir tudo. 

- Por que? - eu questiono, mesmo sem entender - O que tem que acontecer de novo? Por que? O que eu faço pra não acontecer de novo? 

- Você fica. 

- Onde? Onde eu fico?

- Você só fica. E espera. As coisas. A vida. Está tudo aqui. Se você olhar com atenção, vai ver. 

E ela coloca uma das mãos na frente da chama, diminuindo a intensidade da luz. 

Eu consigo ver, agora. 
Ou acho que consigo, dessa vez. 


Espero. 

45x07 Which Witch

 

Imagem: TingTing Huang

Não me lembro do seu nome, da bruxa no quarto, à beira da morte, da bruxa na jaula, esperando a fogueira. 

Não me lembro do seu rosto. 

- Não foi um feitiço, foi um milagre, ela disse. 
Mas eu não vim julgar, eu vim pra aprender. 

Ela me conta sobre as noites, cicatrizes, dedos quebrados e gritos, e ele, o demônio, um homem, e o medo e o terror. 

Conta, delirante, febril, sobre o pavor, a coragem, uma semente, um desejo, um
feitiço. 

- Mas eu não sou bruxa, ela disse, eu não sou bruxa. 

Peço que continue, não temos muito tempo. 

Ela me conta que decidiu que nunca mais sentiria aquilo.
Decidiu? Desejou? 
Naquela noite, ele saiu em meio à chuva torrencial. 
E não voltou pela manhã. 
Foi encontrado em um buraco, tetraplégico. 

- Mas não fui eu. Foi Deus. Ele me ouviu, Ele me ouviu. 
- O que foi que Ele ouviu?, perguntei, o que você disse? 

Ela chorou, só chorou sem parar, sacudindo o corpo inteiro. 
- O que? - eu quase gritei

Podia ouvir o barulho dos passos no corredor, próximos. 
Ela moveu os lábios, sem que saísse som. 
- O que? Fale mais alto. O que você disse, naquela noite, o que você desejou? 

Aproximei meu rosto do seu, queria ouvir, precisava ouvir, mas, quando cheguei meus ouvidos perto o suficiente dos seus lábios, a porta se abriu, o tempo acabou e eu desapareci no ar, infelizmente, muito mais rápido do que o som do seu murmúrio, como se nunca tivesse existido, um borrão de tinta e pequenos pontos de poeira. 

- Não sou uma bruxa, foi o que ela disse - contei a Lilith, que me esperava, pacientemente, bebericando café. 
- Ela tem razão. Bruxas não existem.

E, como se apenas para contradizê-la, como se viajasse atrás de mim em uma velocidade infinitamente menor,
ouço o feitiço-desejo, baixinho, 
um segredo.

- Sim, você tem razão. 
Bruxas não existem. 

44x10 Mistletoe

Imagem: TingTing Huang

Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.

Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.

Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.

O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.

Eu sou invencível.

Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem

Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e

amendoim

Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.

Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.

E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo

e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças

corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.

Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.

Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.

E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.

E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:

não tenho medo.

42x05 Fight like cancer

Imagem: TingTing Huang

Ela sangra.

Não, não, antes disso.
Ela caminha, fala, come, alheia à vontade de uma célula minúscula, sem rumo, sem casa, buscando morada em outros lugares.

Ela se apaixona.
E se desapaixona, mas não tem filhos. Por que?

E a célula cria raízes, se multiplica, cria cópias filhas de si e cresce, quentinha, oculta sob a pele, os desejos e o medo.

E então ela sangra.
1,2,3,4,5,6,7,20 dias seguidos.
Sangra e sangra, mas tão pouco que o cérebro se encarrega de arranjar desculpas.
Mas o sangue se torna secundário.

Ela está fraca, tão fraca, tão magra e pálida que --
"É anemia", diz o médico.
E ela volta pra casa e compra feijão, feijão e ferro e vitaminas complexas que eu não consigo enumerar.
Mas o sangramento não cessa, e a vida cresce, se desenvolve e se alimenta da vida dela, devagar, mas nem tanto.

Cresce, faminto, estende braços e pernas, infiltra-se em lugares escuros, íntimos, úmidos.
Ela sangra,
E incha.
E sabe
E luta.

E respira com dificuldade, me diz que tudo vai ficar bem. E eu torço por ela, eu torço.
Eu digo em voz baixa "Lute, lute como uma garota", mas ela não pode me ouvir.
Ele pode.
E luta, como fez desde o início, luta contra ela, e cresce, em útero, pronto, maduro, esperando por algo mais, luta pra sobreviver, sem se dar conta de que sua sobrevivência e a dela são forças opostas que brigam até o momento exato em que o fim chega,
e a luta termina,

para ambos.

41x14 Pantera

Imagem: TingTing Huang

Abro os olhos, e a luz invade o corpo todo, acorda as células e a boca seca. Umedeço a língua, sinto o gosto das bactérias da manhã.

Tento olhar pela janela, o pescoço duro.

Frio.
O corpo todo arrepia, contorcido. Enrijeço os dedos com raiva, pisco os olhos secos.

Penso.

A mulher no leito da frente pisca, senta, fala uma fala embolada. Me irrita. Enrijeço os punhos.

Desvio o olhar para o teto branco e olho fixo até os olhos lacrimejarem.
Sinto falta da música, o som dos tambores, o choro de minha filha e o seu ato de sugar minha força pelo seio.

Minha cuidadora me toca, mãos geladas, me despe sem pudor.
Sinto meu próprio cheiro, de fezes e urina, e me envergonho, olho para o teto.
Ela passa a toalha pelo meu corpo, me arranha com o tecido áspero.

Engasgo de raiva e o ruído da traqueo me irrita, o falatório no quarto, o esteto gelado do médico, os cumprimentos vazios.

Uma mulher se inclina sobre mim e ela cheira a xampu.
Eu sinto falta de xampu.

Sonho, às vezes, com um banho quente de chuveiro, estender minhas mãos e lavar meus cabelos, o cheiro da limpeza, andar descalça pelos azulejos.
Nos meus sonhos, sinto o cheiro da pele da minha filha, suada, de bebê. A textura, o cheiro do leire, saliva, urina e fezes.

Me acordam, me despem, e me deixam nua no centro da sala, sem a minha permissão.

Eu dancei no topo do mundo sob as estrelas, entre homens que me desejaram e eu escolhi dentre eles o pai de minha filha, e o amei e entreguei a ele o meu corpo, minha alma.
Eu sei segredos obscuros sobre a lua, e a deusa negra que mora nos oceanos. E meu corpo tem o poder de mover as marés.

Eu tento dizer, mas ela não se importa.
E eu choro uma só lágrima salgada que ela deixa escorrer e secar, sem compaixão pelo que fui.
Pelo que eu poderia ter sido.
Pelo que eu ainda sou.

Porque eu sou.

Eu estou aqui.

Eu estou aqui.

36x20 Women

Imagem: TingTing Huang

Ela me deu a mão,
eu dei a minha mão,
e a fila foi crescendo, demos as mãos umas às outras e éramos muitas, estávamos juntas, em uma dessas conexões difíceis de se encontrar por aí.

Eu estava em casa, amazona perdida num mundo que não era meu, com pessoas que não eram minhas, e prédios e homens partindo meu coração que era meu, que não podia ser partido.

Não, eu sou meu próprio conquistador.
Elas gritaram e minha pele ficou arrepiada, pensei em você, tão distante, do outro lado do seu mundo, e me senti um pouco mal por não ter sido o bastante pra mim.
Alguém me ouviu pensar e gritou mais alto,
por mim, por ela e por todas as garotas do mundo que acham que estão sozinhas.

Por todas as garotas no mundo que acreditam que a vida é só isso, só esse constante apanhar de tudo e de todos, eu abri minha boca e gritei de verdade, mesmo sem conhecer as palavras, só pra que elas ouvissem o som da minha voz.
De cada cama, de cada cativeiro, em cada sonho, em cada pesadelo,
eu gritei,
tão alto quando pude,
pras garotas sem rosto das histórias que escutei.

Somos muitas aqui, somos muitas mais.

Não é sobre poder, é sobre poder fazer coisas.
Coisas que pessoas fazem.

Gritei bem alto, com toda a força dos meus pulmões, pra
você
pra você entender, pra você saber
que pode discordar dessa luta, pode cuspir na minha cara, pode dizer o que quiser
e eu ainda vou gritar por você.
E eu vou gritar dobrado pra cobrir o teu silêncio com mais luta.

Porque eu tô lutando pra que você possa me criticar
pra que você possa falar
e fazer sexo com quem quiser, quando quiser
ganhar dinheiro pra satisfazer as vaidades que você diz que não tenho
viajar sozinha
e se casar e ter filhos quando e com quem quiser, mesmo que você diga que eu nunca serei capaz disso.

Eu vou gritar
e tirar minha blusa
e brigar com quem tiver que brigar
eu vou apanhar por cada uma delas, se tiver que fazer isso
porque somos muitas
porque eu sou muitas

e estamos juntas.