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Early Cuts: Tapete

 

Imagem: TingTing Huang

Tô sentada, sozinha, no quarto de hotel mais silencioso de Curitiba. 
Tô pensando. 
Quem foi que te machucou?

E eu tenho essa sensação de que tudo o que sinto talvez se deva ao fato de que passo a maior parte do tempo tentando não sentir. 
Deixando pra daqui a pouco, só que não há tempo. 

Hoje tem compromisso, aula, série, viagem, mensagem. 

Mas não tem como sentir. 

Meu estômago pesa, eu comi tanto, e mesmo assim, continuo.

Se eu pensar, vai doer. 

Hesito (se vocês soubessem quanto tempo existe entre uma palavra e outra)

36x16 Sexual Healing

Imagem: TingTing Huang

Respire fundo, pense.

Às vezes, coisas boas vêm disfarçadas de coisas ruins. Às vezes só.

Penso, engulo o orgulho e penso na dor que a coisa toda há de me poupar.

Sim.
Sim!

E, de repente, estou salva, ilesa, intacta. Salva, por uma noite só, e isso é quase inebriante demais pra conter dentro de mim, quer dar amor a todo mundo, mordidas e sinais trocados, abrigo da chuva, do frio, de corações partidos.

Homem, eu estou segura hoje, e nem a sua sinceridade pode me magoar, nem a certeza da minha tolice, nem os ruídos do mundo, o medo ou as regras universais impostas há milênios.

Deito, olhando pra lona úmida enquanto você fala, Dragon Maker, sobre essa garota de olhos verdes que representa todas as coisas que acredito desconhecer e fico feliz por você, por nós, extasiada, e viajo, como quando era criança, nas costas de um dragão, pra um lugar possivelmente melhor.

31x08 The leaves of possibilities

Imagem: TingTing Huang

Éramos três em um carro, noite escura, luz artificial piscando na estrada, eu enjoada de suco de uva (de novo), Elspeth e Adam.

Eles me dizem que você superou, seguiu em frente.
E eu não tô surpresa, não tô sem ar.
Eu tô assustada, um pouco incerta.
Eu tô com medo do futuro.
Tô com medo de sentir dor, e espero que ela venha, intensa, rasgando meus braços e arrancando meus cabelos.

Mas bate só aquela saudade, aquela incerteza.
Aquela saudade, aquele ciúme, aqueles pensamentos obsessivos de gente que terminou namoro, nada de anormal. Adquiro essa mania de pegar uma lembrança aleatória e me perguntar se você vai fazer a mesma coisa, de novo e de novo.
E me respondo: Sim e não.
Eu fiz certas coisas, as mesmas. Mas também deixei de fazer coisas, eram nossas. E eu gosto que seja assim. De criar coisas novas, com pessoas novas.

Saio do carro, te encontro na estrada, te deixo pra trás. Aliás, você me deixa. Você vive me deixando pra trás, e isso já nem dói. Ou dói e eu já me habituei.

Sinto saudade de Otto.
Sento no chão, abro meus diários. E eu sei. Fecho os olhos e espero que ele esteja bem. Quentinho, chocolate pra comer, uma garota qualquer pra fazer cafuné.
Amor que eu não consegui dar, que eu não tive coragem pra dar.
Sinto saudade da cor da pele dele, dos dedos,
sentados na escada da festa de alguém, ele de moletom preto, eu de jeans e camisa xadrez, nós dos dedos frios, geladíssimos, e eu quis tanto. E eu o quis tanto.

Prendo os cabelos, saio dirigindo por aí,
e percebo que sempre acaba em Holden.
Tem sempre um empecilho, tem sempre eu, tem sempre a busca incessante de alguém pra gostar, tem sempre um sinal confuso, e a gente sentado, no fim do dia, você tem aquele cheiro de gente e nada, de outro muito.
E eu poderia gostar de você, eu poderia amar você, eu poderia ter devaneios insanos nos quais você simplesmente não consegue mais viver sem mim, e a gente se beija e aí -- e aí nada, porque a história acaba aí, a gente não tem futuro, eu podia sair correndo e bater na sua porta, te roubar um beijo, te deixar confuso, te fazer me empurrar, me rejeitar ou me amar. Mas a gente não tem futuro, a gente nunca teve. Ainda bem, porque eu amo você. E não estragaria isso só pra descobrir se a gente poderia dar certo.

Você me manda mensagem, Dragon Maker, senhor dos dragões, e eu sinto falta da sua pele. E eu me deixaria dormir no seu ombro, eu ficaria até o amanhecer, coisa que eu não faria com mais ninguém, no momento. Gosto do seu cheiro, da sua cor, da sua mão.
Mas eu não gosto de nós dois, eu não gosto desse apego, não gosto da insegurança. Eu não gosto.

Cara novo, manda mensagem, e antes de pensar já digitei minha desculpa da vez.
Eu não quero mais, simples assim.

King. Bom rapaz, beija bem. Dou de ombros. Deixa vir. Se for, então vai ser.

E tem ele. Sem nome, só um cara com quem nunca terei nada, bom de olhar, bom de abraçar, bom de ver abrir aquele sorrisão quando me vê, um desses caras criados pra paixões unilaterais. Bom pra te fazer levantar da cama e pentear o cabelo.

E tem você. Quem quer que você seja, um desses ou alguém completamente diferente, inédito. Sentado em algum bar, bebendo em uma festa, estudando pra alguma prova, enquanto eu te espero, sem te esperar. Tomo decisões, as mais estranhas, e fico me perguntando se são elas que vão me levar até onde você vai estar.

Desço do carro. Olho pra rua, pra lua, o vento frio acariciando o rosto de leve.
Possibilidades.
Tantas, tantas.
E eu escolhi ficar sozinha.
Eu escolhi me conhecer melhor, me entender. É, saber se ainda gosto dele (Aquele-que-não-foi-propriamente-nomeado), saber se gosto desse cara novo que me faz querer usar cremes cheirosos no cabelo pro caso de ele me abraçar (:, se quero sair com o King, dormir com o Dragon Maker, se vou viver de migalhas de Holden. Eu decido.
Eu decido que não preciso de ninguém agora, nesse exato momento.
Que eu gosto, de verdade, desse hiato.
Das surpresas, de quem quer que você seja.

Eu não sei quem você é, ou quando vai chegar.
Mas não se apresse.
Eu quero que você me encontre na minha melhor forma.
Eu quero te amar também.

Olho pro céu lindo da cidade mais linda, e sussurro baixinho, só pros seus ouvidos, onde quer que você esteja, quem quer que você seja
- Boa noite (:
Até logo.

E subo as escadas sem medo,
vai ficar tudo bem.

É só Maio, eu chegarei ilesa ao final -
De novo.

28x17 Something missing

Imagem: TingTing Huang

James me disse "falta alguma coisa".

Mas falta o quê?

Falta poesia, falta o coração bater mais forte e a vontade de ficar junto, falta ter algo em comum, falta querer ficar até mais tarde sem fazer nada, falta paixão, falta vontade de matar aula, falta chegar em casa e escrever sobre amor, falta ouvir músicas de amor e pensar no seu nome primeiro, falta te colocar como primeira opção, falta querer ser amada, falta imaginar seu rosto nos protagonistas dos livros, falta aquela coisa que deixa as pernas bambas, borboletas no estômago, falta deixar de querer que você se sinta bem a qualquer preço.

Entre outras coisas,

Mas disso você já sabia, porque é o que venho dizendo desde o começo.
Aquilo era tudo o que eu tinha pra oferecer.

Boa sorte.

28x13 Feel Good Inc.

Imagem: TingTing Huang

- Natal é uma bela bosta,
digo a ela.
Tô cansada.
Tô triste.
O Natal vai levar a melhor, de novo, aquela solidão que não sai, que não desgruda, que parece uma criança pesada demais te subindo nas costas o tempo todo, gritando nos ouvidos, pedindo atenção.

Deito no sofá e fecho os olhos, um cover de Hotline Bling vindo leve, invadindo o corpo todo como só a música pode fazer, me deixando vulnerável como ninguém nunca fez, como ninguém nunca vai ser capaz de deixar.

Ando entediada.
Tanto pra fazer, tanto pra escolher, e eu não dou a mínima.
Bagunço os cabelos, hábito recente, de que gosto muito. e fico assim, quieta.
Outro dia, me disseram "Eu gosto muito, muito mesmo de você".
Outro dia, me olharam de um jeito que eu nem achei que fosse mais possível, tão bom, tão ruim, deu medo, deu um milhão de calafrios.
Me disseram que esperavam muito de mim.
Tenho deixado pessoas a espera. É uma sensação nova. Incômoda, pesada.
No entanto, não quero fazer nada.
Não quero apressar nada, não quero magoar ninguém.

Eu não quero mais ter que pedir desculpas.
Quero só usar maquiagem pesada e sair por aí com minhas roupas repelentes de homens haha, dançar até parar de sentir esse tédio, essa coisa que não sai - blasé is back, diria Elspeth - , beijar quem quer que precise de beijos meus e não me preocupar mais com o que outras pessoas querem, ou pensam, ou sentem.

- Não tô gostando, não trabalho mais com isso. Trabalho com desculpas e horários que nos impossibilitem de nos ver, com ficar sozinha em casa quando você está disponível, com saídas rápidas do carro quando o ambiente é extremamente propício pra primeiros beijos, com aquele tremor na voz quando não sei exatamente o que você está pensando, com passar o dia inteiro pensando sobre nós dois e, quando a hora de te ver chega, eu só quero sair correndo de volta pra baixo das cobertas pra não dizer nada estúpido e, ao mesmo tempo, quero ficar porque você me faz bem.
Você me dá vontade, um pouco só.

Não é o suficiente, por enquanto.

28x01 Take Care

Imagem: TingTing Huang

Sinto que estou velha.
Velha demais pra esperar, pra perder tempo.
Velha o suficiente pra me sentar e pensar em todas as coisas que não posso desfazer.
Velha, suja e triste.
Sento no chão, velha e sábia, digo a Holden com os olhos "Eu sei, eu também. Vamos esperar que passe", quero dizer em voz alta, mas não tenho tempo.
Não dá tempo, amigo. Envelheço, decaio, morro aos poucos, não passa rápido o suficiente.
- Eu te odeio - digo, sem dizer, a meu querido, amado e adorado ex-namorado.
Te odeio porque te odeio, não sei fazer de outro jeito, é tão mais fácil do que tentar superar, ser amigo. Dói menos.
Mas não te odeio, é claro. Odeio a mim mesma, odeio meu corpo, meu rosto, minhas coisas, minhas roupas, casa, comida e tudo o mais.
Vomito.
Tenho medo de ficar só.

Mando mensagem para o Dragon Maker, que vem voando por debaixo da terra, me dá a mão, me dá a boca e o corpo todo, sem reservas, enquanto me dou a conta gotas.
Olho pra ele, decoro suas pintas, sua pele lisa e quente. Tô velha, vá embora, quero ficar só.
Não tô em condições de cuidar.
Quero ficar só.

27x11 Ghost Protocol

Imagem: TingTing Huang

Entramos no carro, repassamos o cronograma e ele me beijou, como sabíamos que faria.
Me puxou pra mais perto, como sabíamos que faria.
E, de repente, ele não era mais o mesmo, aquele momento poético e tétrico em que uma pessoa se torna puro instinto.
Ele esqueceu a hora, a vontade de ser compreensivo e calmo, o juízo.
Levou o meu junto, vazando pelos poros, saindo pela respiração curta, ruidosa.
Ele me segurou como quem diz "Não me importo com mais nada agora", como se só aquilo existisse, sem amanhã, sem juízo, sem ninguém.
Trocamos calor, átomos, pele lisa, febril, o ar tão quente que era quase impossível tolerar.
Toquei seu rosto e ele suava, derretia, febril, delirante, sem luz, sem penumbra, mas, ainda assim, poético, cru, humano, vivo.
Tão cru e tão bonito. Pele pura, lisa, úmida, quente.
Achei linda e perturbadora toda aquela vontade, e eu ali, sem saber exatamente o que fazer, o que querer, até onde ir.
Fiquei com medo, "eu nem te conheço", e o que é que você sabe de mim? Esse corpo é meu, isso é meu?, dei dois passos pra trás e nos perdemos um pouco, ele longe demais dos limites entre certo e errado, tentando me dizer com dentes, peles e movimento, "there's no need to complicate".
Mas já era tarde, já estava tudo complicado.
Já está tudo complicado,
E eu não sei como descomplicar.

27x10 Parks and recreation

Imagem: TingTing Huang

Parque, rodas gigantes, vento frio, chuva. Começamos clichê.
Te expliquei neuro, Merkel e Meissner, te beijei a boca, você me beijou, debaixo de chuva, tempestade e ímpeto.
Caminhamos pelo parque escuro, sem saber onde íamos chegar (e ainda não sabemos), sua boca longe da minha, sem saber o que fazer, o que era permitido dizer, o que era permitido pensar.
Kartódromo, música, psicopatas em potencial, deixamos tudo pra trás e nos sentamos na beira de uma lagoa, no meio do nada, no meio de tudo; Dentes e boca, lábios, sua língua de textura diferente de todas as outras, seus dentes me mordendo e não me mordendo.
Fiquei com medo. De ser velha demais pra tanta irresponsabilidade, de ter medo demais pra deixar as coisas acontecerem.
E você derrubando muro atrás de muro, abrindo caminho com os dentes, enquanto eu os erguia de volta, sob seu olhar atônito, com o gesto simples de colocar a alça da roupa no lugar.
Você me olhou daquele jeito, daquele jeito que a gente olha quando quer alguém, respirou do jeito que a gente respira quando quer alguém, me tocou do jeito que a gente toca em alguém que a gente quer.
E isso também me deu medo.
De mim, das coisas, de mudanças, de um coração inflado, murcho em cima do guarda-roupa, das pessoas, da vida, do amanhã, do meu corpo e do seu, da percepção súbita de que eu estava apavorada e, por isso mesmo, era tudo tão fascinante.
Sentei na grama, respirei fundo, sem querer ir pra casa, sem querer evitar esse medo.
Eu precisava sentir isso.
E tudo o que viesse com ele.

"Let it be", eu disse pra noite, dragões, grama e corpos, "vamos sair daqui".

27x09 Are we there yet?

Imagem: TingTing Huang

Ele mordeu meu nariz.
E aí você veio jorrando de todos os lados, memórias de nós, penumbra, Coppolla, minha mão no seu rosto, parada, paralisada, será que eu vou amar alguém assim de novo?, o jeito como você sorri em diferentes situações, suas cuecas, o jeito como você dorme, como você acorda, sua boca, seu cheiro que senti na minha pele ainda outro dia.
Poderia ter estragado a noite. Mas não.
Eu já entendi que você vai estar em todos os lugares, vou te encontrar em cada canto da minha vida.
E tudo bem.

"Não morda meu nariz", pedi.
Te afastei pra um canto da mente, trouxe a boca dele pra mais perto e pronto.
Acho que estou quase lá.

Just you wait.

27x03 Austenland

Imagem: TingTing Huang

Ele diz que gosta de mim, e dou um aviso: Eu não gosto.
Ele diz que vai insistir, que podemos ter algo bom.
Respondo com cinismo, dou dois passos pra trás.
Chama pra ir ao cinema e eu digo não.
Não. Não. Não. Não.
Bebo.
Digo sim.
E depois não.
Tento assustá-lo, não falo, me afasto.

"Você está tentando assustar uma pessoa que não se assusta assim facilmente. Vai te dar um trabalhinho me assustar. Mas eu gosto quando você tenta".

Continuo tentando, ferozmente, mas confesso:
às vezes, tenho vontade de parar de tentar e ver no que é que dá.

Early Cuts: Forgetfulness

Imagem: TingTing Huang

- Eu quero esquecer de tudo, - peço à lua azul - mas não sei como.
Me preparo pra mais uma noite longa de dor, preparo distrações, anestesia.
Chego em casa. Suja, vazia, cheia, cabeça zunindo, sem sono, sem vontade.
Resolvo sair. Fico bêbada, música, penumbra, lua, fumaça.
Esquecer é como desligar o interruptor, impedir a passagem do impulso.
- Você quer?
E, mesmo antes que eu possa raciocinar, um lábio encosta no outro, um só de cada, e me queima por dentro, feito ácido.
Fico com medo, mas passa rápido. Quero falar com ele, mas passa rápido, feito uma luz que pisca.
Nada.
Tenho acesso repentino a qualquer lembrança, mas nenhuma importa.
Nada.
Sou só eu, aqui, agora.
Meu celular pisca. Uma, duas. três vezes.

"B, vamos sair?"

Assim só, sem grandes discursos, sem histórias, sem rodeios.
Lua, fumaça, os gênios, amor, aventura, eu e a penumbra.
Soletro:
Q-U-A-N-D-O ?
Aperto enviar.

There's no need to complicate.

Early Cuts: Neon Lights

Imagem: TingTing Huang

James me levou pra dançar, me tirou de casa, da dor de ficar sabendo que acabamos.
Na noite escura, eu já tinha rasgado minha pele e queimado minhas mãos com o ácido que jorrava das minhas veias.
Eu estava com raiva, mas não era raiva. Era dor, mas eu não sabia como expressar. Não sei mais uivar, não queria falar.
Eu só queria silêncio, ficar debaixo das cobertas, não ver mais nada que significasse "nós".
Graças a Deus, James, camisas brancas, liguei o carro e fomos pra longe de tudo, pro centro de tudo, socar e cuspir - James foi enfrentar as próprias lembranças e eu fui fugir das minhas.
Dancei. 5 horas seguidas, até não conseguir mais andar. Eu dancei cada música, no meio de tantos estranhos. Dancei pra mim mesma, sem querer que ninguém me olhasse, sem querer parar.
Dancei pra não gritar, concentrei toda a minha fúria, músculos e ossos, vias neurais em chamas, o corpo todo gritando o seu nome, te mandando embora.
Eu gritei no escuro, no meio da fumaça, gritei tudo e nada porque eu não tinha nada pra te dizer.
E tinha tudo o que eu não disse, tudo o que escrevi em pequenas folhas coloridas, tudo o que nunca vou dizer porque nada vai mudar. Ou porque, talvez, tudo mude.
Então dancei minhas palavras não ditas, dancei minha nudez, nossa nudez, dancei toda a dor surda até que se tornasse física, até não conseguir ouvir, até não conseguir andar.
E, no final, quando eu já me sentia limpa, livre de toda a fúria, ele apareceu.
Mas já era tarde. Toda a fúria a ser convertida em algo já tinha se esvaído. Agora só tinha medo, que ele confundiu com timidez.
Era medo de toque, medo de ser rejeitada de novo, medo de superar, medo de gostar de alguém, medo de gente, de escuro, da proximidade da boca dele do meu ouvido, de qualquer proximidade.
Dei dois passos pra trás, mas teria dado dez, se houvesse espaço.
Eu deixei toda a raiva ali, fui pra casa mancando.
E é por isso que não sinto mais raiva.
Só sinto medo.

26x16 Rabo Córneo Húngaro

Imagem: TingTing Huang

Eu não estou pronta.
Ele se aproximou e dei dois passos para trás.
Não quero beijos, nem sei mais manter diálogos.
Sou um bicho doente, assustadiço.
Ele me tocou o cabelo e me enrolei feito lagarta. Tô com medo, não me olhe, não me toque.
Sou bicho que levou uma surra sem apanhar, e as memórias são fortes demais pra que eu me aproxime e coma a comida que você traz nas mãos.
Você se encosta em mim, inofensivo, e eu fico rígida, meu corpo todo responde em alerta, selvagem, posição de fuga.
Eu não quero te machucar. Eu não quero me machucar.
Sou melhor do que isso, mas talvez não seja mais.

Apague as luzes, quando sair.
Quero ficar só.