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46x15 Maze Runners

 

Imagem: TingTing Huang

Encosto a caneta no papel e minha mente fica automaticamente vazia. 

Eu não me sinto vazia, me sinto derramando. 

Caminho pelo labirinto. Às vezes, é dia. Às vezes, é noite. às vezes, um meio termo, sem nunca passar pelo mesmo lugar duas vezes. 

Ou, talvez, sem jamais ser a mesma pessoa passando pelo mesmo lugar duas vezes. 
Complicado. 

Vou deixando migalhas, que os pássaros e as pessoas comem, me perco, 

Feito Ariadne, ou era Medeia?, ou eu sou Medéia, nem me lembro, desfio as roupas e amarro pelos galhos, deixo um rastro de fios pra trazer de volta alguém que já foi embora. 

(Às vezes, tenho a impressão de estar vivendo a história toda ao contrário. Não era pra eu estar lá fora? Quem é o herói dessa história, tô entrando ou tô saindo?)

Já nem me lembro. 

De vez em nunca, até me pergunto, olhando meus cascos brilhantes, patas peludas, se---
Não. 

Sacudo a cabeça, como se a ideia fosse uma mosca a fazer zoada no ouvido. 

Pra onde ir? 

Estou saindo, estou chegando. 
Onde fica o meu lar? 

Minha respiração solitária vai se adensando, quase um pequeno fantasma de névoa, uma companhia. 

Sinto falta da voz de alguém. Há meses, meses que não ouço, 1 ano já. Tudo agora me parece tão vago, cinza. 

Na minha mente, a voz de minha mãe, a bênção, o cheiro do ar e do mar. 
Sinto que andei tanto, que me distanciei tanto do centro, meu coração bate na goela, rápido. 

Sinto o gosto do meu sangue, o gosto do sangue de homens e mulheres que se sacrificaram pela minha divindade, pela minha sobrevivência. Eu os honro sob a lua negra, e sigo em frente, rasgo meus braços na sebe crescida, os galhinhos puxando meus cabelos e ricocheteando no meu rosto. 

Corro. 

Eu sinto como se pudesse sair voando, eu sinto o gosto do sal, eu sinto a textura da pele, da carne, eu sinto o cheiro do útero da minha mãe, eu sinto como se nada, absolutamente nada, pudesse me derrotar, eu sinto como se fosse eu a dona do meu próprio destino. 

Então eu corro, e corro e corro até

Antes de vê-lo, eu sinto o seu cheiro, de suor salgado, jasmim e menta. Eu ouço sua túnica e seus sapatos em contato com a pele, eu sinto sua hesitação pulsando nas minhas veias. Eu sinto o cheiro do seu medo, azedo. Ouço seu coração bater rápido como o de um beija-flor. 

Instintivamente, eu me escondo nas sombras pra vê-lo melhor, prendo a respiração. 

E ele aparece, parcialmente iluminado pela lua negra. Um homem, mas diferente. Empunhando uma espada e uma bola de fios carmesim, que brilha, pulsa. 

Um herói.

Um herói, como os das histórias dos homens, enviado pelo Pai pra me libertar das correntes do centro desse labirinto infernal. 
Um herói, pra me reconduzir ao trono. 

Quero avançar na direção dele, mas paraliso. Não consigo me mover, não consigo ir até ele. 
Não sei o que é isso que estou sentindo, mas espero um momento, um segundo, inundada por algo que nunca senti antes, que nem sei se sei nomear,

meu corpo todo, eletrificado, 
alerta, 
os pelos eriçados
coração explodindo no peito
vontade de correr e gritar

Ele se aproxima e eu só tenho um segundo pra decidir

se é amor ou medo,

antes que tudo se dê como era de se esperar. 


7x16 The Fear

Imagem por jessicafm

Me assusto com qualquer ruído. Os lençóis encharcados grudam nas minhas costas e pernas.
Não tive um pesadelo porque não dormi.Não consigo, não quero.
Colado às minhas pálpebras está o rosto dele, sorridente e assustador.
Seguro forte meu cotovelo e os ombros de uma garota feita de fumaça.
No silêncio do quarto, me concentro em McCandless. Mas, a essa altura das coisas, é mais provável que ele nunca tenha existido.
Ao contrário do medo, que lateja na minha cicatriz e segue meus passos.
Como sentir medo foi parte de não escolher ser o que eu deveria ter sido, me pergunto.
Quantas coisas ruins acontecerão por causa das minhas escolhas?
Pílulas pra dormir. Aqui se faz, aqui se paga.

3x09 The corner of First and Amistad


Eu não desmaiava há muito tempo. Mais ou menos 9 anos. É muito tempo, tanto que a primeira coisa - a segunda, na verdade- que eu senti quando acordei foi nostalgia.
Segundo o relógio do consultório, fiquei desacordada durante 40 minutos. Menos tempo do que da última vez, é verdade. Mas acho que desmaiei de verdade por pouco tempo, na verdade acho que acordei depois e dormi, afinal, quem trancou a porta?
A primeira coisa que eu vi, quando abri os olhos depois da nostalgia, foi o teto branco do banheiro de visitas. Eu odeio esse banheiro.
Gosto de sono na boca, as costas geladas do azulejo branco. Um pé embaixo da pia, outro do lado do vaso.
Me levantei e olhei meu rosto perfeitamente ajustado, como se eu tivesse acabado de dar um passeio no campo. "Está tudo bem, você está tão bem... Ninguém precisa saber"

David precisava. Vocês sabem como ele é -não, não sabem-

(David: Cabelos loiro escuros, olhos grandes e claros, num rosto de boneco bonito. Não é meu melhor amigo, nem eu sou a melhor amiga dele mas estamos unidos por um trauma comum por isso sabemos tudo, ou quase tudo um do outro. Ele só se preocupa com 3 coisas - Seu cabelo, beijar na boca e eu, por causa do trauma citado anteriormente.
Uma coisa sobre ele: Ele entra na minha cabeça.)

Ele contou a eles. Eles são as pessoas que eu mais vejo, as últimas que eu quero ver e as que eu jamais vi. E ele gritou aquilo que eu sabia mas não admitia saber. Ele sabia todos os motivos do meu desmaio, sabia o que se passava na minha cabeça, sabia sabia sabia...
Ele queria que eles me condenassem, que me perguntassem, que me castigassem. Mas ninguém disse nada. Eles sabem tanto quanto eu que cada um de nós tem um jeito de lidar com o nosso trauma em comum.
Eu quis dizer "apontem pra mim, vamos lá", só pra poder dizer "E você, Sofia? E você? Se esconde atrás de quê? Por que eu não posso me esconder atrás de mim mesma?"

E David me olhou, derrotado, porque passou esse tempo todo se escondendo atrás de mim. Só que eu não quero mais encarar, tanto é que fugi deles durante anos.

Por favor, só não me peça pra ser forte.