Mostrando postagens com marcador The Weeknd. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The Weeknd. Mostrar todas as postagens

47x02 Afraid to be the greatest

 

Imagem: TingTing Huang

Não consigo.
Duas palavras que pesam uma tonelada. 

Não consigo ser quem eu sou. 
Não sei ser quem eu sou. 

Começa insidioso, um sussurro, uma ideia pequena e infeliz. 

Cresce, morde meus sonhos, faz com que eu me esconda em você. 

Sensação terrível, que se alimenta das horas do dia e da minha imagem no espelho. 
Desconstroi e não me deixa juntar as peças. 

Pequena e infeliz, tudo me assusta. 
Finjo. 
Começo a fingir, pra ver se acredito. 

A cabeça explode com a pressão do grito e do choro contidos que eu não sei de onde vem, eu não sei nomear. 
Eu tenho medo de reconhecer. 

Sinto como se fosse o desenho de uma silhueta. Oca. Despropositada. 
Um desenho cinza de uma pessoa cinza. 

Já houve eras em que senti que tinha mil anos. 
Essa sensação é diferente.
Quase sinto como se nem tivesse nascido ainda. 

Crua e nua, flutuando em líquido, ou gás. 
Ou presa na solidez dos dias, que se apresenta como um calor seco, entra pelas narinas e circula, por dentro e por fora, como se eu fosse nada. 
Como se eu fosse tudo. 

Sinto até um certo conforto, por breves segundos. Depois, só pavor.
Nem medo, pavor. 
Como uma criança olhando debaixo da cama e descobrindo o bicho-papão, o Coríntio. 
Como se eu não estivesse segura nunca. 
Como se eu não pudesse dormir. 


Como se ele estivesse não apenas debaixo da cama, mas em todos os lugares. Debaixo da mesa, armários. 
Nos rostos. 
Como se todos os dias eu acordasse envolvida no abraço apertado do meu próprio pesadelo psíquico, uma criatura mágica, que só desaparece se eu lhe der nome. 

E que, 
se eu errar,

27x02 Gasolina

Imagem: TingTing Huang

Fui pra casa, casa de nós dois, penumbra, telefones tocando, livros, tantas palavras e vozes, o ar denso e pesado, uma réplica de tudo e de nada.
Sinto dor. O tempo todo, uma dor que as características semiológicas não abarcam, em peso, pontada, queimação. Irradiada, referida.
Uma dor chata que não some, não vai embora com painkillers, álcool, drogas drogas drogas. Nem com seriados, livros, ou quando me divirto.
Deito na cama, na sua cama de agosto ou na sua cama de quando nos encontramos nas férias. Na minha cama depois do baile de inverno, em um colchão no chão. E olho pra mancha no seu teto, pras sombras que suas cortinas fazem.
Eu não quero ter paciência. Eu não quero esperar até que você me magoe mais. E eu não quero me habituar a essa dor.
Jogo gasolina em tudo.
Cuckoo's calling,
Edições diferentes de Harry Potter,
Mike,
Júlio Verne,
Sandman,
John Green,
Big bang,
a mesinha de madeira,
o tapete,
o sofá marrom,
Neil Gaiman,
Saramago,
Darth Vader,
Tardis,

encharco tudo, sem pensar,

tênis vermelhos,
lápis,
fios,
a TV,
mesa e cadeiras,
o banheiro,
sabonete líquido de morango,
camisetas,
cortinas,
calças pretas,
gato e galinha,
Marilyn e JFK,
Daniel Handler,
Moira Young,
Rick Riordan,
Audrey Niffenegger,
Chbosky,

tudo fica molhado, eu estou molhada e pretendo ficar mais.
O cheiro já não me incomoda, minha pele queima e eu nem acendi o fósforo.
A gasolina me devora a carne, mas eu mal sinto, eu não sinto.
Penso em acender o fósforo, jogá-lo em qualquer canto e sentir o fogo chegar até mim antes que eu pisque.
Até abro a caixa, pego o fósforo, mas desisto, guardo.
Quero que você o faça.
Tiro os sapatos no lugar de sempre, sento no sofá, no canto esquerdo, e fico te esperando chegar.
Eu não vou estragar tudo, dessa vez. Você vai.
Espero. Uma hora dessas você chega, cansado ou não, e explode a coisa toda.

Não vou precisar esperar muito.