Imagem: TingTing Huang
Você fez de novo.
Eu tô ouvindo a sua história, palavra por palavra, e aí você diz essa coisa, essa coisa familiar que me faz pensar
"Here we go again".
E isso me assusta.
Eu não quero isso de novo.
Eu quero e não quero estar de novo em uma montanha russa, sentir frio na barriga, borboletas no estômago, eu quero segurar a sua mão, eu quero tocar suas sobrancelhas,
mas eu não quero te machucar.
Eu não posso ser essa pessoa.
Eu não posso ser quem vai te machucar dessa vez
e eu não sei se posso ser quem não vai.
Tenho medo das brigas que ainda não tivemos,
de que não valha a pena,
tenho medo da sutileza no final das suas frases e do jeito como é confortável passar a noite com você,
eu tenho medo da textura do seu rosto e da estranheza de um nós dois.
Eu gosto de mim.
eu gosto de só.
Do caos, eu não preciso de heróis,
eu não preciso de você,
eu posso passar sem isso.
Sem saber o gosto da sua boca,
sem me tornar uma história que você vai contar pra alguém em uma noite fria,
uma das pessoas que espero que uma garota um dia respeite e reverencie,
não com ciúmes, não pra se sentir insegura
pra pensar
uau, elas trouxeram você aqui.
Elas trouxeram você agora, assim, meu.
Eu me encosto no banco do carro, escuro,
tão escuro,
e eu não tenho certeza se vale a pena.
Talvez eu tenha medo de que seja bom,
que beijar você seja uma estrada sem volta,
talvez eu esteja com medo de admitir que finalmente segui em frente,
talvez eu esteja com mais medo de me machucar do que de te machucar,
talvez eu esteja com medo de quem eu me torno quando gosto de alguém
tantas possibilidades,
tantas razões lógicas pra ficar assustada
e a minha cabeça rebate todas com a sua voz, dizendo "Foda-se", do seu jeito extremamente infantil e bizarro.
Eu não sei o que fazer,
eu não quero ter que decidir sozinha,
não me deixe decidir sozinha.
Digo isso, mas tô com a impressão estranha:
já tá tudo decidido.
Você também acha isso?
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40x10 Dando moral
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Sim.
Ele fica de pé na minha frente.
É você?
Eu tô sentada na minha mesa cativa, não pedi nem água pra beber porque não sei se consigo segurar alguma coisa no estômago além de borboletas.
Trouxe comigo esse livro que não é muito pretensioso, nem muito tosco, do Doctorow (ok, um pouco pretensioso), tô vestida de azul, olhando pela porta feito uma maluca, mas você nunca entra.
Entram esses dois caras e é claro que você não traria um amigo. Porque não. Certo? Traria? Eu não sei.
Mas eles se sentam juntos, falam sobre garotas, milhões de garotas de coração partido e eu tô bem feliz por não ser uma delas.
Acho que tô adiantada.
Olho meu relógio de bolso, e ele tiquetaqueia como quem diz "ele não vem", mas aí o sininho da porta faz barulho de novo e entra esse cara, esbaforido, eufórico, ele começa a contar mil coisas, pede uns doces, e eu acho que é você, mas ele é tão, eu não sei, tão
enfim, tem algo de errado e eu não sei bem o que é, então eu o deixo ir e me sinto muito estúpida por isso.
Aí entra esse cara e ele ri muito alto, ele é incrível, brilhante e eu realmente gosto de vê-lo aqui, mas é isso? É essa a sensação certa? Por que eu estou na dúvida se é? Não era pra eu saber de imediato, simplesmente me jogar de cabeça, ou não é assim que funciona? Já funcionou assim alguma vez ou eu é que tô tentando enfiar regras novas no jogo mais antigo do mundo?
Sei lá, só sei que ele também vai embora, mas eu já tô me acostumando a olhar as costas das pessoas.
Aí de novo, ele, mas a gente já passou por isso, não?
Já? Tem certeza? Porque pode ter esse pequeno detalhe, essa coisa que você não percebeu e que vai fazer toda a diferença, que vai ser exatamente o que falta pra funcionar.
- Me conta uma história
E outra
E outra.
Mas não é isso,
o que eu quero é outra coisa.
E eu realmente queria que fosse fácil de verdade.
Mas também prefiro que não seja.
Tiro o relógio do bolso, vejo que você tá atrasado,
mas não dá pra esperar, sabe?
Eu tô faminta.
Peço pizza e como,
acompanhada,
depois sozinha
e, se você correr, prometo guardar um pedaço pra você.
Sim.
Ele fica de pé na minha frente.
É você?
Eu tô sentada na minha mesa cativa, não pedi nem água pra beber porque não sei se consigo segurar alguma coisa no estômago além de borboletas.
Trouxe comigo esse livro que não é muito pretensioso, nem muito tosco, do Doctorow (ok, um pouco pretensioso), tô vestida de azul, olhando pela porta feito uma maluca, mas você nunca entra.
Entram esses dois caras e é claro que você não traria um amigo. Porque não. Certo? Traria? Eu não sei.
Mas eles se sentam juntos, falam sobre garotas, milhões de garotas de coração partido e eu tô bem feliz por não ser uma delas.
Acho que tô adiantada.
Olho meu relógio de bolso, e ele tiquetaqueia como quem diz "ele não vem", mas aí o sininho da porta faz barulho de novo e entra esse cara, esbaforido, eufórico, ele começa a contar mil coisas, pede uns doces, e eu acho que é você, mas ele é tão, eu não sei, tão
enfim, tem algo de errado e eu não sei bem o que é, então eu o deixo ir e me sinto muito estúpida por isso.
Aí entra esse cara e ele ri muito alto, ele é incrível, brilhante e eu realmente gosto de vê-lo aqui, mas é isso? É essa a sensação certa? Por que eu estou na dúvida se é? Não era pra eu saber de imediato, simplesmente me jogar de cabeça, ou não é assim que funciona? Já funcionou assim alguma vez ou eu é que tô tentando enfiar regras novas no jogo mais antigo do mundo?
Sei lá, só sei que ele também vai embora, mas eu já tô me acostumando a olhar as costas das pessoas.
Aí de novo, ele, mas a gente já passou por isso, não?
Já? Tem certeza? Porque pode ter esse pequeno detalhe, essa coisa que você não percebeu e que vai fazer toda a diferença, que vai ser exatamente o que falta pra funcionar.
- Me conta uma história
E outra
E outra.
Mas não é isso,
o que eu quero é outra coisa.
E eu realmente queria que fosse fácil de verdade.
Mas também prefiro que não seja.
Tiro o relógio do bolso, vejo que você tá atrasado,
mas não dá pra esperar, sabe?
Eu tô faminta.
Peço pizza e como,
acompanhada,
depois sozinha
e, se você correr, prometo guardar um pedaço pra você.
39x04 Rejoice
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Eu conto coisas que me fariam arrepiar os cabelos, fosse eu mais humana.
Tô morta por dentro, eu não sinto nada por mim, nem por ninguém, eu machuco as pessoas, eu vou te machucar, sem dó nem piedade, eu tiro meia máscara, eu te dou familiaridade suficiente pra você ir embora, mas você não vai.
Pior: você quer ficar, acha que somos iguais - e talvez sejamos.
Talvez a gente seja igualzinho, e o monstro em mim saúde o monstro em você, mas o que isso diz sobre nós?
Você quer se sentir em casa no meu escuro, me contar sobre a morte e pecados não expiados, mas não
Eu quero me alimentar de sangue puro, sentir o gosto de quem é feliz, eu quero me alimentar de inocentes, eu quero que me olhem como se eu pudesse ser salva.
É o que você quer também, pense um pouco.
Eu não quero me sentir um monstro o tempo todo, quero uma vida normal, uma família de margarina, vida corriqueira, brigar pela cor das paredes, eu quero o banal, o fútil, alguém que não tenha medo do que escondo, do que eu já fiz, do que eu sou capaz de fazer, não quero ser eternamente o brinquedo quebrado, eu quero mais.
Mas você olha minhas cicatrizes, me mostra as tuas como se fosse um jogo de "quem tem mais" e fica me olhando como se eu fosse uma nova aquisição pro teu clube secreto.
Eu conheço esse olhar, venho fugindo dele há 10 anos.
Eu não quero ser olhada assim, eu quero gente que me veja com olhos de quem quer que dê certo, como se eu não estivesse amaldiçoada, como se eu tivesse jeito.
Cartas na mesa, eu não tenho nada pra oferecer, e não quero nada que não seja ir embora pra casa, dormir um sono intranquilo no chão da sala, sonhar com as coisas que eu não tenho, com as pessoas que não conheci.
Você já experimentou algo assim? Alguém já te olhou assim? Como se você fosse normal, bonito de se ver, como se não fosse estragado, como se fosse
bom?
Eu posso estar confusa, posso não estar entendendo nada de nada, perdida no meio da bagunça do meu quarto, da bagunça da minha vida e dos meus sentimentos, eu posso não ter nada aqui pra ninguém.
Mas eu sei o que eu quero.
E é isso o que eu quero, o monstro dentro de mim bem amarrado e amordaçado, eu quero estabilidade, viver de fingimento, se for preciso, eu quero a sensação de normalidade, de não andar diariamente na beira do tal abismo, eu quero andar de bicicleta no domingo, eu quero acordar com o sol no rosto e me levantar de bom humor,
dar um sorriso involuntário, quero explicar uma coisa que não seja mórbida ou sombria, quero não querer assustar.
Você vai dizer
que eu quero não ser eu.
E é exatamente isso.
Eu conto coisas que me fariam arrepiar os cabelos, fosse eu mais humana.
Tô morta por dentro, eu não sinto nada por mim, nem por ninguém, eu machuco as pessoas, eu vou te machucar, sem dó nem piedade, eu tiro meia máscara, eu te dou familiaridade suficiente pra você ir embora, mas você não vai.
Pior: você quer ficar, acha que somos iguais - e talvez sejamos.
Talvez a gente seja igualzinho, e o monstro em mim saúde o monstro em você, mas o que isso diz sobre nós?
Você quer se sentir em casa no meu escuro, me contar sobre a morte e pecados não expiados, mas não
Eu quero me alimentar de sangue puro, sentir o gosto de quem é feliz, eu quero me alimentar de inocentes, eu quero que me olhem como se eu pudesse ser salva.
É o que você quer também, pense um pouco.
Eu não quero me sentir um monstro o tempo todo, quero uma vida normal, uma família de margarina, vida corriqueira, brigar pela cor das paredes, eu quero o banal, o fútil, alguém que não tenha medo do que escondo, do que eu já fiz, do que eu sou capaz de fazer, não quero ser eternamente o brinquedo quebrado, eu quero mais.
Mas você olha minhas cicatrizes, me mostra as tuas como se fosse um jogo de "quem tem mais" e fica me olhando como se eu fosse uma nova aquisição pro teu clube secreto.
Eu conheço esse olhar, venho fugindo dele há 10 anos.
Eu não quero ser olhada assim, eu quero gente que me veja com olhos de quem quer que dê certo, como se eu não estivesse amaldiçoada, como se eu tivesse jeito.
Cartas na mesa, eu não tenho nada pra oferecer, e não quero nada que não seja ir embora pra casa, dormir um sono intranquilo no chão da sala, sonhar com as coisas que eu não tenho, com as pessoas que não conheci.
Você já experimentou algo assim? Alguém já te olhou assim? Como se você fosse normal, bonito de se ver, como se não fosse estragado, como se fosse
bom?
Eu posso estar confusa, posso não estar entendendo nada de nada, perdida no meio da bagunça do meu quarto, da bagunça da minha vida e dos meus sentimentos, eu posso não ter nada aqui pra ninguém.
Mas eu sei o que eu quero.
E é isso o que eu quero, o monstro dentro de mim bem amarrado e amordaçado, eu quero estabilidade, viver de fingimento, se for preciso, eu quero a sensação de normalidade, de não andar diariamente na beira do tal abismo, eu quero andar de bicicleta no domingo, eu quero acordar com o sol no rosto e me levantar de bom humor,
dar um sorriso involuntário, quero explicar uma coisa que não seja mórbida ou sombria, quero não querer assustar.
Você vai dizer
que eu quero não ser eu.
E é exatamente isso.
38x09 Porque sim
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Estive pensando.
Por que a gente se apaixona por quem se apaixona?
Eu não tô falando de MHC, de química, das memórias, das células, dos astros.
Porque isso eu até entendo, entendo de seguir padrões, até acredito em destino.
Mas por que ele?
Por que eu?
Eu entendo a sua solidão, entendo tanta coisa,
mas não entendo essa ideia errada de que eu posso ser mais do que a menina estranha no fundo da sala.
Gosto do meu corpo, do meu cabelo, do meu beijo,
mas pelo amor de Deus,
você já me viu de manhã, em segundas feiras terríveis, muitos bad hair days.
Não sou eu essa sua garota dos sonhos, não tenho o corpo bonito, não sou sexy, não sei conversar.
Eu não sei ser boa.
Eu não sei fazer cafuné.
Olha cá, meu bem,
eu vou ser honesta,
não sei nem gostar.
Não entendo essa sua mania de gostar de mim porque sim.
Por que?
Digo que é vontade de companhia, de atenção, que é tudo o que eu tenho pra oferecer.
Porque é só o que posso dar.
Eu não tenho aquela coisa que as pessoas amam, não tenho aquela coisa incrível que as garotas bonitas e seguras têm.
Só tenho mesmo esse cabelo bagunçado, essas olheiras e minha mania de me vestir como eu quero. E essas unhas do pé pintadas de cor de rosa.
Eu sou cheia de regras, de mistérios
e ninguém sabe nada sobre mim.
Como é que você ousa gostar de mim?
Com todas essas dificuldades, meu quarto bagunçado e minha mania de não enxergar um palmo além do nariz?
Como é que você pode me amar sem me ler nas entrelinhas, sem saber que eu tô explodindo por dentro, incerta,
sem jamais ter ouvido a história de como eu um dia fiquei seminua em público. As histórias haha, porque sou dessas.
Como é que você pode me amar sem nunca ter me visto usando meu vestido azul? Ou sem que eu tenha te olhado do meu jeito estranho, sem que a gente tenha contado um pro outro sobre as coisas estranhas que a vida pode trazer?
Me perdoe, mas não entendo, não aceito.
Não existe gostar de mim porque sim.
Quero motivo, razão, circunstância pra essa insanidade, quero deitar vocês no meu divã e questionar cada pormenor dessa história, quando é que começou?
Eu disse algo que fez com que vocês pensassem que eu era normal, que eu era gostável?
Quero tirar essa ideia da cabeça de vocês, passar remédios pra esquecimento, pra anestesiar a dor que eu possa vir a causar.
Porque eu não consigo gostar de ninguém, eu não consigo nem me imaginar gostando de alguém, tocando alguém.
Eu só consigo me imaginar sozinha, quieta. Distante de tudo, de todos, insensível, civilizada.
E você pode até me perguntar
Por que?
Mas fique sabendo,
a resposta que tenho pra dar só pode ser
"Porque sim".
Porque sim.
Estive pensando.
Por que a gente se apaixona por quem se apaixona?
Eu não tô falando de MHC, de química, das memórias, das células, dos astros.
Porque isso eu até entendo, entendo de seguir padrões, até acredito em destino.
Mas por que ele?
Por que eu?
Eu entendo a sua solidão, entendo tanta coisa,
mas não entendo essa ideia errada de que eu posso ser mais do que a menina estranha no fundo da sala.
Gosto do meu corpo, do meu cabelo, do meu beijo,
mas pelo amor de Deus,
você já me viu de manhã, em segundas feiras terríveis, muitos bad hair days.
Não sou eu essa sua garota dos sonhos, não tenho o corpo bonito, não sou sexy, não sei conversar.
Eu não sei ser boa.
Eu não sei fazer cafuné.
Olha cá, meu bem,
eu vou ser honesta,
não sei nem gostar.
Não entendo essa sua mania de gostar de mim porque sim.
Por que?
Digo que é vontade de companhia, de atenção, que é tudo o que eu tenho pra oferecer.
Porque é só o que posso dar.
Eu não tenho aquela coisa que as pessoas amam, não tenho aquela coisa incrível que as garotas bonitas e seguras têm.
Só tenho mesmo esse cabelo bagunçado, essas olheiras e minha mania de me vestir como eu quero. E essas unhas do pé pintadas de cor de rosa.
Eu sou cheia de regras, de mistérios
e ninguém sabe nada sobre mim.
Como é que você ousa gostar de mim?
Com todas essas dificuldades, meu quarto bagunçado e minha mania de não enxergar um palmo além do nariz?
Como é que você pode me amar sem me ler nas entrelinhas, sem saber que eu tô explodindo por dentro, incerta,
sem jamais ter ouvido a história de como eu um dia fiquei seminua em público. As histórias haha, porque sou dessas.
Como é que você pode me amar sem nunca ter me visto usando meu vestido azul? Ou sem que eu tenha te olhado do meu jeito estranho, sem que a gente tenha contado um pro outro sobre as coisas estranhas que a vida pode trazer?
Me perdoe, mas não entendo, não aceito.
Não existe gostar de mim porque sim.
Quero motivo, razão, circunstância pra essa insanidade, quero deitar vocês no meu divã e questionar cada pormenor dessa história, quando é que começou?
Eu disse algo que fez com que vocês pensassem que eu era normal, que eu era gostável?
Quero tirar essa ideia da cabeça de vocês, passar remédios pra esquecimento, pra anestesiar a dor que eu possa vir a causar.
Porque eu não consigo gostar de ninguém, eu não consigo nem me imaginar gostando de alguém, tocando alguém.
Eu só consigo me imaginar sozinha, quieta. Distante de tudo, de todos, insensível, civilizada.
E você pode até me perguntar
Por que?
Mas fique sabendo,
a resposta que tenho pra dar só pode ser
"Porque sim".
Porque sim.
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a guy with a sister and a name,
Cover,
Like,
Mila Cavalhero,
No love lost,
Rubel
37x10 Heartbreak Hotel
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Chuva torrencial lá fora, abro a porta, fazendo tocar o sininho
Que dia horrível
Eu me arrasto até o fundo do restaurante, pra tomar um café amargo feito a vida, enquanto leio notícias horríveis no jornal.
Sento no balcão e sujo minha roupa de café velho, derramado mais cedo por alguma outra pobre alma.
A garçonete se aproxima, obviamente num dia terrível, e é extremamente rude comigo porque demoro a decidir entre o de sempre e qualquer outra coisa.
Suspira, nervosa, quando escolho o de sempre, após ler o cardápio inteiro 8 vezes.
- Nos encontramos de novo. - diz um homem, cabeça raspada, todo molhado. Agasalho preto, jeans e all stars marrons. Ele sorri pra mim e se senta no balcão, ao meu lado, pede um café sem açúcar e segura o copo com as mãos brancas e molhadas de chuva.
- Café sem açúcar. Nojento. Prefiro a morte. - resmunga um outro cara, que se senta numa das mesas pra ler um livro enorme. Ele pede panquecas, ovos e bacon e eu até avisaria a ele que são mais nojentas ainda, que o bacon é gorduroso e estranho, as panquecas tem gosto de farinha e os ovos sempre vêm meio crus, mas
não digo nada.
Um conhecido me cumprimenta, mas não para pra conversar sobre a morte, ele simplesmente compra cigarros e fuma lá dentro mesmo, me deixando com dor de cabeça.
Um homem irritado se levanta pra ir embora, mas ele não vai. Apenas fica e resmunga, sozinho.
Eu bebo meu café até o final, enojada, enquanto observo um cara do outro lado do balcão, olhando pro nada, ignorando o fato de que estamos aqui, que está chovendo, que o café é terrível, que essa fumaça vai nos deixar doentes, que a vida é horrível.
Uma garota bebe chá amargo, enquanto lê "Lolita".
Algum cara grita do banheiro se alguém viu sua camiseta por aí e todos o ignoram.
Tamborilo os dedos pela mesa, tentando me lembrar
como vim parar aqui. De novo.
Aponto para Otto, que cantarola, baixinho, "Piledriver Waltz"
- Foi você? Eu estou aqui por sua causa?
- Não. Não estamos nos falando, lembra?
- Aaah, sim. Bom, então... ele?
Aponto pro cara sentado na mesa, que resmunga pra caralho quando descobre que as panquecas são horríveis, mas não reclama. Ninguém aqui reclama de nada.
- Não. E, cá entre nós, sério? Quero dizer, sério???
Eu daria risada, se não fosse tão trágico. Ao invés disso, esquadrinho o salão atrás de alguém que possa me explicar exatamente como vim parar aqui.
Olho pra fora, o dia cinza perde as formas e a chuva transforma todas as pessoas que passam pelas ruas em borrões de tinta.
Lá fora, um homem bate no vidro, sem saber como entrar.
Eu me levanto pra ajudar, mas Otto segura meu cotovelo
- Não. Não deixe que ele entre.
- Está chovendo lá fora!
- Está melhor do que aqui dentro, acredite em mim. Não abra a porta.
E eu me sento de volta e fico olhando, olhando, olhando
esperando que ele se dissolva de alguma forma, vá pra casa
"vá pra casa", eu sussurro, como um feitiço,
mas ele não vai.
- Vai ficar aí o dia inteiro ou vai pedir mais alguma coisa? - pergunta a garçonete
- Estou satisfeita, obrigada. Só esperando a chuva passar.
Ela pisca, lentamente, e volta a limpar as mesas e ouvir os resmungos.
E eu fico, sentada, ouvindo o ruído das pessoas, das páginas, da caneta no papel desse cara que está tentando escrever algo legal, e esperando que você pare de bater e vá embora.
Mas você não vai embora.
"vá pra casa"
- Ele pode até ir, sabe? Mas ele vai voltar. - diz Otto, atrás de mim.
- Por que? Por que ele faria isso? Esse lugar é horrível
E então ele sorri, do jeito dele de quem quase nunca sorri, e meu estômago dá uns pulinhos.
- Bom, você sempre volta, certo?
É, eu sempre volto.
Chuva torrencial lá fora, abro a porta, fazendo tocar o sininho
Que dia horrível
Eu me arrasto até o fundo do restaurante, pra tomar um café amargo feito a vida, enquanto leio notícias horríveis no jornal.
Sento no balcão e sujo minha roupa de café velho, derramado mais cedo por alguma outra pobre alma.
A garçonete se aproxima, obviamente num dia terrível, e é extremamente rude comigo porque demoro a decidir entre o de sempre e qualquer outra coisa.
Suspira, nervosa, quando escolho o de sempre, após ler o cardápio inteiro 8 vezes.
- Nos encontramos de novo. - diz um homem, cabeça raspada, todo molhado. Agasalho preto, jeans e all stars marrons. Ele sorri pra mim e se senta no balcão, ao meu lado, pede um café sem açúcar e segura o copo com as mãos brancas e molhadas de chuva.
- Café sem açúcar. Nojento. Prefiro a morte. - resmunga um outro cara, que se senta numa das mesas pra ler um livro enorme. Ele pede panquecas, ovos e bacon e eu até avisaria a ele que são mais nojentas ainda, que o bacon é gorduroso e estranho, as panquecas tem gosto de farinha e os ovos sempre vêm meio crus, mas
não digo nada.
Um conhecido me cumprimenta, mas não para pra conversar sobre a morte, ele simplesmente compra cigarros e fuma lá dentro mesmo, me deixando com dor de cabeça.
Um homem irritado se levanta pra ir embora, mas ele não vai. Apenas fica e resmunga, sozinho.
Eu bebo meu café até o final, enojada, enquanto observo um cara do outro lado do balcão, olhando pro nada, ignorando o fato de que estamos aqui, que está chovendo, que o café é terrível, que essa fumaça vai nos deixar doentes, que a vida é horrível.
Uma garota bebe chá amargo, enquanto lê "Lolita".
Algum cara grita do banheiro se alguém viu sua camiseta por aí e todos o ignoram.
Tamborilo os dedos pela mesa, tentando me lembrar
como vim parar aqui. De novo.
Aponto para Otto, que cantarola, baixinho, "Piledriver Waltz"
- Foi você? Eu estou aqui por sua causa?
- Não. Não estamos nos falando, lembra?
- Aaah, sim. Bom, então... ele?
Aponto pro cara sentado na mesa, que resmunga pra caralho quando descobre que as panquecas são horríveis, mas não reclama. Ninguém aqui reclama de nada.
- Não. E, cá entre nós, sério? Quero dizer, sério???
Eu daria risada, se não fosse tão trágico. Ao invés disso, esquadrinho o salão atrás de alguém que possa me explicar exatamente como vim parar aqui.
Olho pra fora, o dia cinza perde as formas e a chuva transforma todas as pessoas que passam pelas ruas em borrões de tinta.
Lá fora, um homem bate no vidro, sem saber como entrar.
Eu me levanto pra ajudar, mas Otto segura meu cotovelo
- Não. Não deixe que ele entre.
- Está chovendo lá fora!
- Está melhor do que aqui dentro, acredite em mim. Não abra a porta.
E eu me sento de volta e fico olhando, olhando, olhando
esperando que ele se dissolva de alguma forma, vá pra casa
"vá pra casa", eu sussurro, como um feitiço,
mas ele não vai.
- Vai ficar aí o dia inteiro ou vai pedir mais alguma coisa? - pergunta a garçonete
- Estou satisfeita, obrigada. Só esperando a chuva passar.
Ela pisca, lentamente, e volta a limpar as mesas e ouvir os resmungos.
E eu fico, sentada, ouvindo o ruído das pessoas, das páginas, da caneta no papel desse cara que está tentando escrever algo legal, e esperando que você pare de bater e vá embora.
Mas você não vai embora.
"vá pra casa"
- Ele pode até ir, sabe? Mas ele vai voltar. - diz Otto, atrás de mim.
- Por que? Por que ele faria isso? Esse lugar é horrível
E então ele sorri, do jeito dele de quem quase nunca sorri, e meu estômago dá uns pulinhos.
- Bom, você sempre volta, certo?
É, eu sempre volto.
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