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40x20 Flores da estação (Season finale)

Imagem: TingTing Huang

Era uma vez um livro sobre o tempo.
Em algum lugar, existe tempo pra tudo.

Tempo pra aceitar mudanças, tempo pra dormir, pra assistir seriados.
Tempo pra comer.
E pra cozinhar o que se come.

Existe tempo pra irmãs.
E tempo pra amigos.
Tempo pra fazer as pazes,
tempo pra dizer verdades.

Existe tempo pra ler os livros empilhados nas estantes.
E pra arrumar o quarto.
Tempo pra assistir as séries na ordem alfabética, e pra sair da ordem.

Existe tempo pra aprender sobre pancreatite.
E pra aprender sobre psicofármacos.

Existe tempo pra escrever artigos,
histórias,
posts,
projetos.

E tempo pra tomar sorvete.
Tempo pra esperar que você diga que gosta de mim,
tempo pra decidir se eu gosto de você.
Tempo pra me apaixonar,
e desapaixonar.
Pra beijar sua boca,
pra beijar outras bocas.

Existe tempo pra segurar sua mão.
Existe tempo pra ficar com frio do seu lado,
e pra me consertar o bastante pra ficarmos juntos.
Existe tempo pra que eu me torne a pessoa que você quer que eu seja.
Existe tempo pra que você perceba que gosta de mim sem que eu precise mudar nada.

E existe tempo pra que eu me apaixone por gente que já sabe que eu não preciso mudar,
por gente que gosta de quem eu sou.

Existe tempo pra dançar,
pro calor,
e pra se afastar de quem quer cometer erros.

Existe tempo pra entender melhor
pra cometer erros
pra perdoar erros,
pra não perdoar erros.

Tempo pra terminar e não querer mais saber de amor,
tempo pra só querer saber de amor.
Tempo pra querer você o tempo inteiro,
tempo pra odiar sua existência.

Existe tempo pra conhecer seu rosto, seu corpo
suas mãos
E tempo pra te dizer que não quero mais,
ou que nunca quis.

Tempo de te puxar e beijar sua boca com toda a força de todos os sentimentos guardados desde sempre,
e tempo de perceber que não é bem isso o que eu queria.

Tempo de me aventurar pelo mundo,
e de só querer dormir a tarde inteira do seu lado.
De ser má,
de ser boa,
de ser robô,
de ser humana.

Eu não sei que horas são.
Nem o que acontece agora.

Eu queria muito saber, queria ter a convicção,
a firmeza de caráter de alguém que sabe que é você
que é você e mais ninguém,
que vai me fazer sair de casa numa noite gelada de julho pra qualquer coisa
qualquer coisa

Mas eu penso nisso, e meu estômago aperta,
cheio de comida, borboletas e de "e se?"s, sacolejando, gelados.

Vamos ter que esperar pra ver.
Isso me cansa, é.
Mas eu não sei fazer outra coisa.

Não sei nem se existe outra coisa.

40x19 Bad Juju

Imagem: TingTing Huang

Bad Juju: any action that has a harmful or bad vibe to it.

- O que você disse?
Eu não ouvi.
Eu estava bêbada.
Ou não?

Tem alguma coisa errada,
eu acabei de tremer.

Me distraí olhando suas sobrancelhas,
eu simplesmente gosto delas,  eu gosto do jeito como você morde o lábio inferior,
eu gosto do jeito como você repara em tudo e eu tô perdida demais não reparando nada.

Bad juju, você diz a coisa certa, você faz todas as coisas erradas do jeito certo,
bad juju.

Eu tô dando risada tão alto que meus ouvidos explodem,
eu tô feliz.
Bad juju.
Então eu me viro pra você,
você mexe a boca e eu não sei se entendi direito,
mas você estragou tudo, você estragou tudo porque eu não te disse que podia dizer isso.

Bad juju.
Eu tô quebrando garrafas,
eu quebro garrafas porque tô confusa
porque não sei o que vai acontecer amanhã.
porque eu tô ansiosa,
porque eu tô zangada
e feliz.

Aí eu acordo, no meio da noite,
numa casa que não é minha
e você tá olhando pra mim
e eu não quero magoar ninguém,
eu quero dizer isso
mas eu tô te magoando se disser,
eu tô te magoando se não disser.
Bad juju.

Eu acho que me desapaixonei por você.
Isso é bom, isso é lindo,
isso é mágico.
Fell out of love.
Você diz boa sorte,
eu digo boa sorte,
mas o fim da minha frase se estende e caminha atrás de você.

Eu dou uma risada tão alta,
eu tô tão feliz
que isso tem que ser errado de alguma maneira.

Ou será que não?
Ou será que tá na hora de eu me importar um pouco menos com toda essa bagunça de regras e consequências e
saltar?

- You are bad juju, girl. - diz a voz na minha cabeça - Bad, bad juju.
Eu sei.

- Você quer fazer alguma coisa agora?
("You are bad juju, girl. Bad, bad juju")
- Não

Eu quero.
Eu realmente quero.
Eu quero retirar o que eu disse, vou ir pra casa e bater a cabeça na parede.
Umas 100 vezes.
Mas eu não retiro.

Porque eu ainda não sei o que isso quer dizer.
Eu não faço a menor ideia.
Só sei que é assim.
Só sei que sou assim

Bad, bad juju.

40x10 Dando moral

Imagem: TingTing Huang

Sim.

Ele fica de pé na minha frente.
É você?

Eu tô sentada na minha mesa cativa, não pedi nem água pra beber porque não sei se consigo segurar alguma coisa no estômago além de borboletas.

Trouxe comigo esse livro que não é muito pretensioso, nem muito tosco, do Doctorow (ok, um pouco pretensioso), tô vestida de azul, olhando pela porta feito uma maluca, mas você nunca entra.

Entram esses dois caras e é claro que você não traria um amigo. Porque não. Certo? Traria? Eu não sei.

Mas eles se sentam juntos, falam sobre garotas, milhões de garotas de coração partido e eu tô bem feliz por não ser uma delas.

Acho que tô adiantada.
Olho meu relógio de bolso, e ele tiquetaqueia como quem diz "ele não vem", mas aí o sininho da porta faz barulho de novo e entra esse cara, esbaforido, eufórico, ele começa a contar mil coisas, pede uns doces, e eu acho que é você, mas ele é tão, eu não sei, tão
enfim, tem algo de errado e eu não sei bem o que é, então eu o deixo ir e me sinto muito estúpida por isso.

Aí entra esse cara e ele ri muito alto, ele é incrível, brilhante e eu realmente gosto de vê-lo aqui, mas é isso? É essa a sensação certa? Por que eu estou na dúvida se é? Não era pra eu saber de imediato, simplesmente me jogar de cabeça, ou não é assim que funciona? Já funcionou assim alguma vez ou eu é que tô tentando enfiar regras novas no jogo mais antigo do mundo?

Sei lá, só sei que ele também vai embora, mas eu já tô me acostumando a olhar as costas das pessoas.

Aí de novo, ele, mas a gente já passou por isso, não?
Já? Tem certeza? Porque pode ter esse pequeno detalhe, essa coisa que você não percebeu e que vai fazer toda a diferença, que vai ser exatamente o que falta pra funcionar.
- Me conta uma história
E outra
E outra.
Mas não é isso,
o que eu quero é outra coisa.

E eu realmente queria que fosse fácil de verdade.
Mas também prefiro que não seja.
Tiro o relógio do bolso, vejo que você tá atrasado,
mas não dá pra esperar, sabe?
Eu tô faminta.

Peço pizza e como,
acompanhada,
depois sozinha
e, se você correr, prometo guardar um pedaço pra você.

40x08 Of other girls in different lights

Imagem: TingTing Huang

Gosto do escuro. O escuro na sua boca, o escuro da suas pupilas, o escuro dos cantos do seu corpo, nas notas da sua voz sussurrada e nos pigmentos da sua pele e pelos.

O tom violáceo da primeira luz da manhã que vejo de dentro do seu carro, hematomas e pequenos machucados de bater em portas, quinas, e sua língua roxa depois de beber suco de uva.

Gosto da luz das lâmpadas fluorescentes refletidas nas suas unhas, da luz e sombra das curvas do seu corpo.

Gosto das luzes que piscam quando você abre e fecha as mãos, as luzes no seu rosto, nos seus dedos, o gosto de luz na tua boca, joelhos e orelhas. A luz da tua voz

A sombra da tua ausência. A luz nas pontas dos teus dedos, no teu cheiro.
A escuridão das tuas mágoas, da parte do teu passado que desconheço.

Tem luz no calor do seu corpo, tem escuridão no aconchego do seu abraço, luz na textura da sua boca, luz nas conjunções, pronomes, no teu número, nas tuas vírgulas,
e tem escuridão na sua força, nos lugares onde o nós se esconde, onde o você e eu fica guardado.

Tem luz nas suas fotos infantis, na risada infantil que te vejo dar quando você se empolga, tem luz na maneira como você abre as portas, nos seus ossos.

Em tudo isso há sombra, ganhando espaço, ganhando voz, manchando nós dois.
Luz e escuridão se chocam, discutem, se abraçam, enquanto eu observo, assustada, maravilhada,
você me diz

- Acenda a luz. Eu quero ver a sua luz também.

Eu até tento, homem,
clic clac no interruptor,
clic clac,
mas a luz não acende
não tem luz.

Eu sou o que você vê.

40x02 Break a leg

Imagem: TingTing Huang

Gosto de você.
Mas você não pode saber porque você não pode saber, não porque eu não queira dizer.

Dirijo, séria, e você está bêbado, me diz que me ama, mas eu sei que é da boca pra fora.
Você tá elétrico, a nossa química tá explosiva, quero você aqui e agora, te beijo no sinal vermelho e me sinto uma puta traidora, mas eu só quero você, e você tá suado.

Tyler me manda mensagem, Jack me manda mensagem, meus amigos querem sair, querem me ver, mas eu não quero ficar parada, eu quero funcionar no mesmo nível de energia que você funciona.

Você não dorme.
Se mexe na cama, levanta no meio da noite, me acorda,
acorda cedo, me chama pra conversar, beija a minha boca e flutua, fecha os olhos e volta a dormir.

Você é doido.
Eu te espero voltar pra casa, enlouquecida, desesperada,
mas você nem sabe, nem percebe, desaparece no mundo, sai voando, ou flutuando ou o que quer que você faça, vive a sua vida e volta, como se nada tivesse acontecido,
trazendo flores, um chocolate com gosto de banana, uma casquinha de sorvete, as mãos sujas com o teu futuro, teu presente, teu passado, cheiro de terebentina ou de qualquer coisa que não compreendo.

Toco suas costas, sua blusa, sua pele, seus pelos, reverencio suas costelas, essa coisa infantil no teu rosto, que você descansa no meu seio às 3 da manhã, enquanto me conta sobre o seu dia.

Você não é meu.

Você não pertence a ninguém e é a primeira vez que eu consigo entender (talvez até aceitar) que é assim que deve ser.
Você levanta o rosto, arrasta a boca até a minha, faz poesia com as batidas do meu coração, tem alguma coisa na maneira como você me toca, esse aperto que diz
eu tô aqui

- Foge comigo.
Pra longe de tudo isso.
Do lençol na janela, pra longe dessa cama, da luz do sol.
Vamos viver feito nômades, nus, nos aventurar por todos os cantos do mundo, eu cuido de você, você cuida de mim, vamos ter filhos, criá-los no meio do mato, na fronteira com o fim do mundo, ensiná-los a ler e a respeitar as pessoas, as culturas, fazer poesia, plantar flores e

Sacudo a cabeça pra afastar essa ideia maluca haha
Você me dá essas vontades estranhas de quebrar todas as regras, de virar meu mundo de cabeça pra baixo, dizer coisas que eu não deveria dizer e eu quase digo

Mas aí passa e eu olho pra você e sorrio
- Que foi? - você pergunta.

- Nada,
não foi nada.

38x03 Somebody else


Imagem: TingTing Huang

Penteio os cabelos, alheia ao fato de que as coisas estão mudando, de que os deuses possuem planos que não compreendo, de que meu corpo manda mensagens que não visualizo.

Minha mãe se assusta porque as pessoas me amam, mas eu não entendo. Eu não entendo. "Eu não fui feita pra isso", minto.




Saio da aula, compro sorvete e tomo na frente da sua casa. Porque eu quero te ver, mas você não volta pra casa. Você não volta mais.

Então eu saio pelas ruas à caça de qualquer coisa que me distraia do meu cotidiano horrível, uma festa cheia de luzes e eu beijo alguém de cujo nome não me lembro, eu danço e eu não sou capaz de gostar de ninguém. Meu Deus, como eu te amo, como eu te odeio, você me estragou, ou eu já era estragada, sei lá.

Bebo mais um pouco, e ele me manda mensagem. Eu visualizo, respondo imediatamente, eu sei o que está acontecendo, mas eu quero ver até onde vai.

Uma garota me chama no banheiro, me diz pra fugir de você, me diz que você machuca as pessoas, que é tão estragado quanto eu, que você é o pior tipo de pessoa que existe. Eu tento socar o rosto dela, mas percebo que é só o espelho, quando os cacos de vidro cortam meu punho e a dor fica insistente demais pra ignorar.

Enfaixo o braço no casaco e volto pra casa andando, sem rumo, porque eu percebo que não quero você. Eu não quero você, eu não quero você. Mas eu não consigo não querer você, acendo um cigarro e me sento no meio-fio, na frente da sua casa, eu só quero que você venha me machucar. Venha me machucar, me pegue pela mão, me arraste pra sua casa, pro seu quarto, pra sua cama, pra

Vomito.

Eu não quero você. Eu quero uma cura pra isso, não você.

Limpo a boca e cambaleio até a minha casa, durmo de roupa, fedendo à vômito e álcool, cigarro e decepção.

Acordo cedo com uma mensagem dele, e dou risada sem querer.

Respondo, e ele responde, e respondemos, e eu não consigo me desligar desse diálogo ameno, e eu não consigo me desligar dele. Me permito fechar os olhos, pensar como seria se

E, talvez, nesse exato momento, um estranho em um bar talvez esteja dizendo a ele pra fugir, que eu sou a pior pessoa do universo, mas eu quero saber até onde isso vai. Tenho um interesse quase doentio em saber até onde isso vai, que eu espero que passe assim que eu começar a beber de novo.

Vou até à cozinha, como morangos, tomo um copo de leite azedo e meu corpo inteiro fica arrepiado de nojo

Jogo tudo no ralo, leite, você, eu, ele, ela, os próximos dias.

O que tiver que ser, será.

37x15 Garotas bonitas e babacas

Imagem: TingTing Huang

Eu amo meu cabelo.

Eu sei, todo mundo sabe disso. Mas eu o amo.
Amo minhas roupas, amo o jeito maluco como me visto.

Eu beijo bem, ouvi dizer.
Não tem nada de muito errado comigo.
Quero dizer, fora o que há de errado comigo, mas isso você não sabe o que é. Ninguém sabe ainda.

Gosto do meu corpo.
Ele é ok.

Eu consigo falar sobre coisas.
Um pouco de história, literatura, música, cinema,
eu sei até mesmo enrolar quando não conheço o assunto.
Também sei onde tem café gostoso,
um lugar legal pra sentar,
música agradável.

Eu sei sorrir.
E posso usar maquiagem o suficiente pra parecer bonita.
Me vestir de maneira mais sexy ou mais feminina.
Alguns caras já até me disseram que eu era bonita.
Alguns caras já até gostaram de mim.

Hoje, eu dancei.
E acredito que posso ser quem eu quiser ser.
Ou poderia ser,
não fossem garotas bonitas
e babacas
me dizendo
que eu não sou bonita o bastante pra gostar de alguém
que eu não sou feminina o suficiente
que eu não sou sociável o bastante
ou que eu não sou atraente.

E eu acredito.
O pior é,
eu acredito.
Eu me olho no espelho e me sinto horrível.
Cansada, abatida,
eu só consigo ver minhas olheiras, meu cabelo bagunçado, meu corpo desproporcional,
a maneira como sou desajeitada.

Eu acredito,
eu concordo
que não sou bonita o bastante.

E a parte de mim que é forte grita,
e se irrita
porque eu acredito.
Eu sei que não é verdade, que eu sou tão bonita quanto eu quiser ser, porque as pessoas têm olhos diferentes.
Eu sei que vocês são tão inseguras quanto eu e disfarçam essa insegurança sendo maldosas, mesmo sem intenção.

Mas eu acredito.
E quantas outras garotas não acreditam também?
Quantas pessoas vocês fizeram com que se sentissem uma bosta porque vocês se sentem uma bosta?
Quantas, só hoje?

Bom, deixe-me dizer,
pelo menos uma.

Porque eu acredito em você
é impressionante,
é muito fácil
acreditar em você.

34x11 Silver Linings

Imagem: TingTing Huang

Eu quero me apaixonar.

Não pelo calor debaixo das cobertas num sábado frio,
nem pelo personagem principal da série de TV,
nem pela cor do esmalte favorito de alguém.

Eu quero me apaixonar por alguém.
Uma vontade sofrida,
desesperada,
que só pode ter as motivações erradas.

Me esforço,
converso,
vou a encontros mal sucedidos,
ando por aí cega, deslumbrada,
eu tô tentando.
Desesperadamente.

Educo minha mente com as músicas românticas, os filmes de sessão da tarde,
eu quero me apaixonar
eu quero me apaixonar,
quero sufocar meu cinismo e me fazer acreditar que existe mesmo esse tipo de amor que os filmes pregam.

Eu quero me apaixonar.
O horóscopo me prometeu isso, as estrelas me deixaram mensagens dizendo que aconteceria
E eu acreditei.
Com mais fé do que já acreditei em qualquer coisa no mundo.
Me prometeram uma paixão pra setembro,
mas já é novembro.
E eu

Eu quero me apaixonar.
Eu preciso.
Uma carta no tarô me diz que vai acontecer e eu espero,
eu espero
eu espero
Eu acredito tanto, tanto

Nada acontece.

Digo a H, histérica,
jurando ódio às mulheres estrelas,
à Mãe, à Donzela, à Morta,
ao amor e todo o resto.

Aí ele me diz
exatamente o que preciso ouvir.

Isso é quem eu sou.
Essa fé estranha em mulheres que lêem as mensagens que as estrelas mandam,
eu sou a Ashling sem o buda da sorte, com toda a dor do mundo.
Eu sou tão boa quanto posso ser.
Gosto de livros e de ficar em casa.
De batatas fritas, cozidas e de todos os tipos.
Eu gosto dos meus pés.
Eu acredito em horóscopos, eu sou uma descendente profissional.
Não sou boa com diálogos, nem gosto de filmes, nem sei tudo o que há para saber sobre nada.
E estou bem assim.
Eu me sinto ótima.
E não quero mais forçar as coisas.
Eu quero ficar em casa, sim, ficar em casa
Eu quero fazer as coisas do meu jeito, eu quero dançar feito uma maluca, eu quero me vestir como quiser, eu quero gostar de ser quem sou, e eu quero que gostem de mim por isso.
Não porque eu me esforcei pra ter um assunto pra falar,
porque eu me arrumei toda
ou só porque eu conheço a droga de um livro.
Eu sou incrível.
E, sei que parece estúpido, caro leitor, mas é muito difícil pra mim aceitar, dizer ou entender isso.
E eu não percebo, na maior parte do tempo.
Mas eu sou bem legal.
E existe muita coisa que as pessoas não sabem sobre mim. Nem mesmo você.
Espero que, um dia, alguém se interesse o suficiente pra tentar descobrir tudo.

- Você acredita em destino? - ele me perguntou.
E eu disse que sim, embora fosse horrível, porque é tão inalterável.
E ele me disse pra pensar nisso de outra forma, daquela forma incrível dele,
sobre esperar coisas boas.
Tem algo aí pra mim,
tem alguém aí pra mim.

E eu acredito nele.
Eu acredito.

34x01 Back in the saddle


Drinks - 0
Cigarrettes - 0
Dates - 0
Weight - 50
Ex talks - 1

Eu quero me apaixonar.
Assim, sem necessidade de esperar, de forma honesta e adulta,
eu não quero mais esperar uma previsão favorável do horóscopo ou a boa vontade de mulheres estrelas, que com certeza têm mais o que fazer, com todos esses mortais e suas velas da Babilônia.
Eu não quero mais ouvir 3 mulheres cegas descrevendo o homem a quem vou amar, ou me forçar a gostar de alguém que gosta de mim.
Eu não quero mais fazer coisas contra a minha vontade, ou porque acho que devo ou porque acho que vou gostar ou porque
Eu não quero mais.
Eu quero me apaixonar por alguém que goste de coisas de que gosto também, alguém com quem eu queira conversar e que eu queira ver.
Por alguém que queira me ver.
E eu não quero mais ficar em casa.
Mas também não quero mais sair por aí beijando desconhecidos (e é possível que eu seja muito criticada pelo Brasil inteiro e tenha que ficar fingindo pra todo mundo e pra mim mesma que não sou boa o suficiente).
Resta me render ao estereótipo de solteirona, sorrowed spinster do século XXI, e esperar por aquele famigerado match, eu suponho.
Escolho aquela foto favorita, que provavelmente não vai ser a foto favorita de cara nenhum, me coloco na vitrine, sem frase de efeito pra usar - poxa, eu sou só normal - e espero que alguém olhe nos meus olhos congelados na fotografia e decida arriscar.

E é depois que faço isso, que tomo essa decisão de agir, é que percebo que, agora,
só resta esperar.

E é assim que, no fim das contas, acabo, como sempre
esperando.

33x10 The Hangover, parte 2

Imagem: TingTing Huang

L. me pergunta sobre ontem.
Como vou explicar?
Não consigo, nem quero conseguir contar tudo de maneira lógica.
Não quero tentar contar sobre rampas, e me sentir feito branca de neve enquanto colocava os meninos pra dentro do elevador, contando um por um pra me certificar de que estavam todos lá.
Ou todas as declarações bêbadas de amizade profunda que recebi do aniversariante mais maluco de todos os tempos.
Não quero tentar contar sobre a profusão de cores e livros naquele apartamento que quero ter quando crescer, ou na vista incrível da varanda.
Eu talvez queira contar sobre beber e discutir política e direitos humanos, sobre ouvir todas as coisas que não deveria ouvir calada, e conseguir dar risada e ficar zangada ao mesmo tempo.
Sobre todas as pessoas mais inusitadas, sobre roncos e pasta de dente.
Sobre plantas que se desfazem, gatos psicopatas e muito fofos, milhões de livros de todos os tipos e a vontade de me deitar no chão do escritório e ler todos.
Sobre eclipses solares e mercúrio retrógrado. Saber coisas sobre as pessoas que você nunca saberia de outra maneira.
Sobre perguntas que eu nunca teria coragem de fazer.
Cartas de tarô, de todos os tipos e tamanhos.
Azulejos coloridos e como a luz da manhã é linda.
Sobre como as pessoas sempre me surpreendem.
Eu queria escrever textos e mais textos enormes, transcrições das conversas que tive, queria nunca esquecer nenhum detalhe, capturar cada segundo e guardar em um frasco pra dar risada todos os dias.
Eu queria descrever a familiaridade dos meus pés imundos com o piso e os tapetes, e a minha falta de vergonha na cara de deitar no sofá com os pés sujos pra olhar a manhã.
Queria falar da coisa, A COISA, e de como ela estava lá também, e eu já estou me acostumando, então não liguei muito. Só olhei pra ela e dei de ombros, como quem diz "vamos ter que conviver uma com a outra amigavelmente, certo?". Acho que, por ela, tudo bem. :)
E joguei tarô, uma, duas, três vezes, jogaria um milhão de vezes.
Tirei "Princess of hearts", a personificação desse setembro maluco, de vozes na minha cabeça dizendo que não consigo me parecer com uma princesa, das minhas esperanças românticas e tolas, das minhas incertezas, da COISA, de milhões de pequenos detalhes como as horas iguais nos relógios, e as músicas de amor.
Deixei as armaduras de lado e dormi no sofá, sem medo de acordar com o rosto sujo de pasta de dentes, sem medo de nada, sem vontade de ir embora. Eu só queria ficar, eu só queria ficar ali, como se fosse um lugar sagrado, e o mundo estivesse preso lá fora, enquanto eu estava livre lá dentro.
Livre o suficiente pra dizer qualquer coisa, que tô cansada de beijar pessoas que não significam muito a longo prazo.
Fui sutil, me afastei nos momentos certos e tentei não causar mal a ninguém.
Queria explicar a sensação de não querer voltar pra casa, de criar um limbo, uma repetição daquelas horas, um concentrado de palavras e expressões, de coisas não ditas, engarrafar a sinceridade desse gigante maluco e usar nos momentos certos. Engarrafar sorrisos e aquela cara de "é, eu sei" que o homem-abacaxi faz quando sabe que eu não tô entendendo nada de nada.

Queria contar as histórias toda a hora, pra todo mundo, cada detalhe.
Mas não conto.
Digo uma coisa aqui, um detalhe engraçado ali,
mas guardo a maior parte de tudo, como se tivesse medo de deixar escapar.

Setembro, é, eclipses e etc. Esses segredos não me pertencem.
Ouço tudo e guardo num cantinho da memória, pra lembrar do que não conheço sobre as pessoas.
E é tudo.

A manhã chega, vamos embora, e eu não quero ir. Quero morar entre as duas fileiras de livros da estante, ou na gaveta das cartas de tarô, talvez no mesmo aquário em que o peixe que não se chama Baudelaire. E me sentar cada dia em um sofá diferente, colocar comida para os gatos bizarros e escrever sentada no sofá, enquanto a manhã chega aos pouquinhos e invade o mundo.
Eu não quero ir embora, quero entender cada enigma escondido debaixo da miniatura de aranha e a disposição dos azulejos.
Quero acordar cada um dos sete bêbados insanos e perguntar tudo sobre a vida deles, eu quero
Eu só não quero sair.
Eu só não quero voltar pra minha casa bagunçada e muda, pouco colorida. Não quero voltar pras minhas manhãs brilhantes demais. Não quero voltar a encontrá-los somente nos corredores e não quero voltar lá pra fora, onde existe o tutorial e a vida inteira, decisões a tomar, e pessoas que precisam de mim, precisam que eu me decida.
Eu quero aqui.
Eu quero as paredes coloridas e os imãs na geladeira, quero as poesias de T.S. Elliot e a sensação de que esses pêlos de gato jamais sairão do meu cabelo.
Mas é tarde,
e a vida espera lá fora.
Os telefones tocam, as mães telefonam, meu quarto precisa de organização, minha vida implora por organização, e eu não tenho tempo pra conhecer todos os segredos desse lado do mundo.
Saímos, e ele tranca a porta,
e eu me despeço,
acabou.

Mas deixe,
esse dia vai estar vivo na minha memória por muito tempo ainda.
Muito,
muito tempo.

33x09 The Hangover, parte 1

Imagem: TingTing Huang

Tô tentando achar um jeito de escrever sobre ontem/hoje.
Tô tentando achar as palavras.
Não acho.
Encontro cores, imagens, sensações.
O gosto do álcool na minha língua, amargo, rude.

E me sentir segura no lugar mais teoricamente inseguro.

Bom, do início, pra variar.
Muitas noites em uma só.

16: 00 Sentei no sofá e escrevi. Escrevi, como não escrevia há muito tempo, com vontade, fé nas palavras que surgiam, como se Oliver estivesse me sussurrando as palavras certas. Ele foi tomando corpo, tomando forma, virando gente, andando pelas ruas de Brasília, com passadas incertas, em tardes quentes e brilhantes demais, irreais demais.

18:00 Mensagem no celular, me levanto e tomo banho, gelatinas prontas na geladeira, quero me parecer com uma princesa. Mas nem tanto assim. Eu só quero ser quem eu quiser, e quando quiser.
Visto minhas roupas, mas nada fica bom, nada nunca fica bom. Eu não me sinto feia, só me sinto estranha. É setembro, e eu não quero mais ninguém. Eu quero me achar bonita e me encontrar por aí, na minha escrita e nas minhas ações, quero fazer o que acho certo. E parece certo, soa certo ir hoje à noite. Não espero nada.
Só quero me sentir bem.

20:00 Elspeth. Milhões de coisas passam em minha cabeça, mas tudo me parece tão familiar.
Eu não me sinto mais doente.
E eu sei disso, eu percebo isso nas cores do suéter de Elspeth, o azul vivo, o branco brilhante, e pela maneira como nossa familiaridade não me assusta, me agrada e me deixa tranquila ao invés de acuada.
Observo pelas frestinhas das outras vidas que as pessoas têm e me agrada por demasiado a familiaridade das conexões que existem por aí, amor puro e simples. A noite é escura e quente e, quando me sento no banco de trás das pessoas mais teimosas do universo, eu me sinto inexplicavelmente abençoada pela oportunidade de estar ali.
Casa do homem-abacaxi, melhor amigo/pessoa que menos conheço no mundo inteiro, tudo parece inexplicavelmente comum. Nossa viagem até uma festa de aniversário sem aniversariante, as pessoas na cozinha, o gosto de guaraná e cerveja, vodka e cereja, os milhares de tons de verde na roupa da garota em quem estou acostumada a pensar como a melhor e mais bonita do mundo - palavras do aniversariante/melhor amigo.
(Sei que é confuso, mas é como se esses detalhes pequeninos constituíssem os pontos-chave de todas as lembranças)
88 descendo na garganta, queimando tudo por dentro, as cartas bonitas de um jogo chamado Coup, a sensação de blefar e de não blefar, e de não estar nervosa. Geralmente, não gosto de jogos. Fico excitada demais, nervosa demais e parece que meu coração vai explodir.
Não dessa vez.
Foi divertido.
Meus amigos gritavam, eu gritava, gritávamos e misturávamos nossos gritos sem nexo ao burburinho das conversas paralelas sobre assuntos que desconheço. Meu amigo dançava no chão, e o mundo parecia no lugar certo.
A comida parecia perfeita, a simplicidade da coisa era fascinante, a areia dentro da ampulheta parecia correr mais lenta e até a chatice ébria das pessoas parecia mais suportável.

2:00 Enxaguei a louça e fiquei feliz, inexplicavelmente feliz por estar fazendo algo tão banal. Parecia adequado. Jogamos as coisas no lixo e eu voltei a ser eu, o álcool escoando aos poucos, evaporando e me tornando mais focada.
Hora de ir embora, mas eu não queria realmente ir, queria?
Sim, queria. Queria minha cama bagunçada, lavar a louça suja na pia, minha roupa, estudar histologia e cumprir com minhas obrigações.
Eu queria ir pra casa.
Eu tinha que ir pra casa.
Eu deveria ir pra casa.

Não fui.
Ainda bem.

33x06 Different shades of love

Imagem: TingTing Huang

Tudo deveria ser fácil, simples.
Amor e etc.

Eu queria poder olhar nos teus olhos e te dizer que acabou, assim, só dizer e dar as costas à nós dois, pra todo o sempre, sem me arrepender.
Queria então te beijar a boca e me jogar sobre o teu corpo, sem medo, como se o meu amor por você fosse suficiente pra te fazer me amar.
Mas não: ora te amo, ora te nada, ora amizade, ora esquecimento, ora tô com medo de seguir em frente, ora só quero seguir em frente.
Daí rodopio nesse eixo de nós dois, e nada acontece, nada nunca acontece.
"Me deixa ir.", eu quero te dizer, "me deixa ir pra sempre e vê se para de me machucar com sua presença constante".
Mas não digo,
eu não sei te deixar ir.

Eu queria poder bater na tua porta, Meu Grande Amor, com um discurso pronto.
Eu te amo, eu sempre amei, eu sempre vou amar,
e não quero nada da vida que não envolva você e eu.
Desde que você foi embora, tô me sentindo meio sem rumo, meio sem chão, meio não-eu.
Me deixa entrar e passar a noite, me deixa passar o dia, cozinhar pra você, cuidar do teu resfriado e dos seus machucados, como a gente fazia antes.
Me deixa abraçar tuas costas brancas cheia de pintinhas e desenhar nosso futuro em cima das suas escápulas.
Eu queria me declarar pra você de um jeito novo, único e incrível, de joelhos na chuva, ou com a ajuda de uma fanfarra, quero ficar sentada, boquiaberta, enquanto você seca os cabelos depois do banho.
Quero viver de olhar pra você.
Mas não: eu tenho que te deixar em paz, como combinamos. Cada um pro seu lado, cada um com sua metade da cidade (eu norte, você sul).
Você precisa de espaço, de tempo pra curar as feridas de nós dois, e eu preciso aprender a me afastar também.
Pego o telefone, finjo que sei teu número, quero te ligar e dizer que ainda te amo, que sou tua, objeto largado pra trás na casa vazia que a sua voz preenchia com luzes de Coppolla.
Penso em bater no seu apartamento antigo no meio da noite, perguntar aos vizinhos pra onde estão mandando suas correspondências, e minha cabeça dói, explode,
e eu não saio da cama,
porque tenho medo
de nunca mais te ver ou
de te ver e não sentir mais nada.

Eu queria, Martin, destruir tua vida.
No bom sentido, é claro.
Queria quebrar tuas pernas com minha mania de amar as pessoas de um jeito todo meu. Queria te chamar pra um café com torta de frutas vermelhas,
beijar sua boca da maneira mais pura e casta pra não te assustar.
Queria até te levar ao cinema e, quem sabe, pegar na sua mão.
Eu queria te mostrar umas músicas que já considero um pouco tuas,
e discutir com você pra saber o que acontece com a doçura na tua voz quando você fica bravo.
Queria te mostrar meu mundo cheio de sol e cinza e tirar seus óculos quando fôssemos dormir.
Ô, Martin, eu queria dizer foda-se a tudo que aprendi no último ano e te chamar de meu.
Queria não me importar com minha personalidade terrível, meu medo de me envolver, minhas neuroses (e psicoses) e te chamar pra sair, pra andar por aí na noite escura e tocar suas costas nuas.
Quero te deixar furioso e te beijar nos corredores brancos, te trazer pra minha casa no meio da noite e te assegurar de que gosto mesmo é de você, do seu cheiro, da sua voz e das suas manias esquisitas. Talvez até dos seus chinelos, que Deus me perdoe.
Mas não faço nada disso: não te convido pra um café, não seguro a tua mão. Eu observo.
E você está bem.
Você vai ficar bem sem mim, muito bem, sem essas incertezas, sem essas brigas, sem esse desastre que eu sou.
Vai ficar bem, Martin, sair ileso: nem equimoses, nem luxações, entorses, fraturas, rupturas, hematomas. Vai ficar bem, meu bem.

E não sei se posso dizer o mesmo de ti, moço, te escolhi pra bode expiatório do meu amor sem nome, sem direção, sem propósito.
Estava em casa contida, esperando um grande amor bater a porta e me punir pelo mal que tenho causado, quando você me mandou mensagem, esperando um "não", o de sempre.
Não,
dessa vez é sim.
Pra tanta coisa que você nem faz ideia.
Saímos e eu já sei como termina, mas você nem faz ideia. Tudo isso é truque, um jogo tão bem criado que você nem sabe que está jogando.
Eu faço as regras, e minhas regras não são as regras usuais, você tira a camiseta preta no escuro e
eu consigo ver a delicadeza do que quer que seja isso,
a delicadeza das coisas que não serão.
Deixo minhas roupas no chão, num lugar qualquer, junto com o significado do que quer que acontece quando você me pede pra ficar mais um pouco.
Peço as desculpas de sempre, sinto sono e um certo fascínio infantil pelas peculiaridades do seu corpo na penumbra.
Você parece feliz, e isso me deixa feliz, muito embora o significado de deitar no seu braço e te abraçar no escuro tenha se perdido horas atrás, em meio a sapatos jogados no chão, folhas debaixo da cama e toques de celular.
Você se levanta e se veste pra ir pra onde quer que você vá e me surpreendo com o fato de que quero que você fique.
Te peço pra ficar e me lembro de que não quero que você fique, quero ficar só, quero ser só, quero estar e permanecer só.
Beijo a sua boca com toda a intensidade, toda a honestidade daquele vínculo que fica quando duas pessoas sabem dos detalhes da nudez uma da outra, sabendo que esse efeito dura um dia ou dois, depois passa, fica embotado e vazio.
Você vai embora, me manda mensagens que leio e releio, e rememoro o calor da tua pele.
Mas aí o efeito vai passando,
passando,
passando,
até passar.

Queria que fosse tudo muito simples.
Amor e etc.
Mas não é,
então eu me deito no sofá e espero até o próximo erro,
até conseguir um mínimo de clareza e entendimento da vida e das nuances de querer estar junto.

Espero.
Sem esperança de encontrar, é claro.

32x20 Pieguice

Imagem: TingTing Huang

Preciso de pieguice.
Músicas de amor.
Filmes dos anos 90.

Eu sou pisciana, ora essa.

Mas também não quero que isso me defina.
Esqueço romance, me desapaixono, endureço a casca e trabalho o dia inteiro.
À noite, me exercito, medito.
Quando quero, beijo a boca de quem não amo, de quem não quero amar.
Não leio livros de amor.
Ou leio, e interpreto tudo da forma mais cínica possível.
Enxergo o relacionamento dos outros no maior aumento, com óleo de imersão e percebo que isso não é pra mim.
Eu acordo de manhã, planejo meu dia inteiro, passo a passo.
Chego em casa no fim de um dia cheio de vozes, de palavras difíceis,
olho as mensagens no celular e nenhuma delas me causa arrepios ou frio na barriga.
Eu leio meu livro e as cenas de amor são secas, então eu leio rápido, pra poder fazer outra coisa.
Assisto seriados e nenhum deles me comove.
Lavo meus cabelos, cuido da pele, faço exercícios, estudo, medito e durmo.
Assim, no piloto automático.

Mas existem esses pequenos momentos.
Depois de lavar o cabelo, enquanto passo pela cozinha, eu paro na frente da janela e me pergunto se isso é tudo.
Quando estou em um encontro, enquanto mexo o gelo no meu copo com um canudo, me pergunto se é assim que quero me senti pra sempre.
Pequenos momentos, pensamentos mínimos que espanto com as mãos.

Esse é um desses momentos:

Eu quero pieguice e não acho feio, não acho triste.
Não sou uma dessas garotas assim tão independentes do século XXI.
Quero cenas ao som de Sixpence None The Richter,
dançar com o mocinho no final do filme.
Eu não quero esse seu relacionamento moderno que envolve não nos envolvermos.
E nem quero começar um relacionamento e me apaixonar no decorrer dele.
Não quero ter que me acostumar.
Eu quero luzes e mais luzes de Coppolla, quero não parar de pensar em você, quero desenhar corações em folhas de papel avulsas, quero querer matar aulas pra te ver, quero a irresponsabilidade de se estar apaixonado.
Eu não quero um relacionamento adulto, quero promessas que você não pode cumprir.
Eu quero aquela cena final em que eu largo tudo pra correr atrás de você, quero te escrever poesias e detestar cada momento em que brigamos.
Eu quero olhar as estrelas. Eu quero sentir vontade de olhar as estrelas.
Eu quero uma única declaração de amor que valha por todas.
E rir do seu rosto, lembrar dele antes de dormir.
Quero uma música que seja nossa, uma só, pra guardar no bolso e levar por aí.
Eu não quero que você dê sentido a isso tudo, só quero que você faça parte disso tudo.

Quero Meg Ryan e Tom Hanks,
Ashley Judd e Hugh Jackman,
Molly Ringwald e Andrew McCarthy
Rachael Leigh Cook e Freddie Prinze Jr.
Drew Barrymore e Michael Vartan
Amanda Peterson e Patrick Dempsey
Julia Stiles e Heath Ledger
Julia Roberts e Harrison Ford - todas as vezes!
Meg Ryan e Hugh Jackman
Audrey Hepburn e Rex Harrison
Audrey Hepburn e Humphrey Bogart
Audrey e Fred Astaire
Debra Messing e Dermot Mulroney
Meg Ryan e Tim Robbins
Sandra Bullock e Hugh Grant
Sandra Bullock e Keanu Reeves
Sandra Bullock e Bill Pullman
Sandra Bullock e Aidan Quinn

Eu quero pieguice,
eu quero gostar de alguém que não tenha medo de dizer, de gritar - se preciso for -
porque eu não tenho mais medo de dizer - embora tenha medo de gostar.

Então não,
eu não quero seu relacionamento adulto.
Eu não quero suas migalhas,
eu não quero passar uma tarde legal,
eu não quero colocar relacionamento sério no Facebook
e não preciso de companhia para as sextas à noite,
não gosto tanto assim de dormir junto
e muito menos de acordar junto.
Não quero alguém pra escrever sobre, quero alguém pra não escrever sobre.
Quero sim, loucura, quero um vendaval, um furacão,
que é muito melhor do que essa forma de amor morta que você me oferece do teu lado da mesa.
Que é muito melhor do que aceitar alguém pra não viver mais só.
Eu já vivi sozinha estando junto e, deixa eu te dizer,
não é bom.
Você quer me ouvir falar, contar da vida,
mas eu não quero contar pra você.
E nem você quer saber
das minhas loucuras. Você só quer achar bonita essa excentricidade, e gostar de mim enquanto dá pra gostar de mim.
Mas não é isso o que eu quero.
Eu quero me perder. E me encontrar de novo.

Setembro tá chegando e eu tô com medo de me apaixonar por um idiota qualquer que vai me machucar.
Mas eu prefiro me apaixonar e me machucar
do que aceitar nunca mais sentir isso.
Essa estabilidade me deprime.
Esse romance cheio de etiquetas.
Sem necessidade de declarações, em que a gente sai e eu não me impressiono.
E te esqueço assim que fecho a porta atrás de mim.

Eu vou estudar, e ler, e escrever e planejar meus dias.
E esquecer a importância de toda essa pieguice.
Sair com você mais uma, duas, dez vezes até enjoarmos um do outro.

Mas aí, nesses momentos
vou parar na frente da janela,
olhar as estrelas
e pensar se a gente não merece mais do que isso,
se era mesmo pra ser assim.

Mais dia, menos dia
eu descubro a resposta.

32x08 Sujeito à lotação

Imagem: TingTing Huang

Caro Otto,

tenho pensado em você.
Sinto a sua falta. Não daquele jeito, acho que só ando solitária.
Vai ver é essa lua cheia, enorme, me manipulando feito maré.

Ou vai ver sou eu mesma, e meus sentimentos que vão e voltam.

Eu queria, de verdade, muito mesmo, sair com você pra tomar sorvete. Só isso. Sentar na calçada pra te explicar as coisas, pra te ouvir falar da tua vida, do trabalho, dos estudos.
Eu te contaria sobre essa música, sobre essa soundtrack maluca que domina meus dias.
Sobre as músicas das pessoas.

Tocaria o teu braço, e te explicaria umas coisas sobre Beirut.
- Paciência, você diria, você precisa esperar, é a vida.
E daríamos de ombros.

Eu te contaria sobre todas essas sensações girando no meu estômago,
lagartas ainda, encasuladas,
esperando,
esperando.

- Esperando o quê?

Eu não sei. Eu nunca sei.
Não quero me apaixonar ainda, agora não,
ainda é cedo.
Estou me percebendo.

Eu tocaria seu rosto,
minha mão seu rosto
eu estou me percebendo.

Sinto a sua falta.
Não como parte de mim,
não sinto falta daquele nosso relacionamento impossível,
romanticamente bizarro
cheio de silêncios e corações saindo pela boca,
perfeito e triste.
Mas sinto sua falta.
Da sua presença real, suas pernas,
seus cabelos,
seu silêncio, é.

Um dia desses,
vou desejar te ver.
Vou te encontrar pelas ruas da cidade,
e te olhar da maneira mais intensa que puder.
Não vamos nos falar, é claro,
como se estivéssemos cumprindo uma promessa feita no meio de uma daquelas noites no meio da rua.

Mas eu vou matar a saudade.
Vou olhar pras tuas costas,
até você sumir no horizonte,
sem olhar pra trás.

Com amor,
B.

32x07 Desde as três

Imagem: TingTing Huang

Disse que gostava de mim.
Minto, disse que não me via mais como amiga.

Me assustei, não esperava por isso. Pensei em dar dois passos pra trás,
mas não dei.

Há muito que decidi avaliar as possibilidades, não dizer não sem pensar sobre o assunto.
Além disso,
esse tipo de coragem, de ousadia,
precisa de recompensa.
Mesmo que a recompensa seja pensar sobre o assunto.

Falei com ele, nos dias que se seguiram, como se nada tivesse acontecido.
E aquilo me incomodou.
Porque era exatamente, - é exatamente - o que o outro têm feito comigo. Agido como se aquilo não tivesse acontecido, como se não tivesse significado nada.

Talvez esse tenha sido o melhor momento,
o momento em que eu saberia exatamente como é estar do outro lado da tela.
E eu não tenho, absolutamente, a menor intenção de fazer o mesmo que ele.
Quero deixar tudo às claras, sem a insegurança e a incerteza.

Digo a ele que não vou fingir que não aconteceu. Que sei o que aconteceu. Que estou pensando sobre o assunto sob uma ótica diferente, avaliando as possibilidades.
E que não me demoro.

Mas demoro.
Olho nos seus olhos e ele já não é o mesmo que era semana passada, adquire um significado completamente distinto, menos inofensivo.
Cada conversa possui algo velado, significados ocultos em cada ponto final.
Não me sinto mais confortável nas minhas roupas velhas e cara amassada,
digo coisas que normalmente não diria.
Ora tento despertar seu interesse, ora analisar suas razões, ora me afasto com respostas lacônicas demais.

Fecho os olhos e penso em setembro,
em como seria se fosse,
prós e contras,
mil coisas esquisitas,
até dormir.

Acordo cedo e encaro o visor do celular,
ansiosa, como quem espera.
E me surpreendo ao perceber

que estou esperando que você fale comigo.

Ainda não sei bem o que quer dizer,
ou como proceder.

Vai ver é a lua, vai ver é o vinho, a tensão, ou a rejeição,
então,
espero.

O tempo vai dizer.
Se não disser, não se preocupe,
eu digo.

31x08 The leaves of possibilities

Imagem: TingTing Huang

Éramos três em um carro, noite escura, luz artificial piscando na estrada, eu enjoada de suco de uva (de novo), Elspeth e Adam.

Eles me dizem que você superou, seguiu em frente.
E eu não tô surpresa, não tô sem ar.
Eu tô assustada, um pouco incerta.
Eu tô com medo do futuro.
Tô com medo de sentir dor, e espero que ela venha, intensa, rasgando meus braços e arrancando meus cabelos.

Mas bate só aquela saudade, aquela incerteza.
Aquela saudade, aquele ciúme, aqueles pensamentos obsessivos de gente que terminou namoro, nada de anormal. Adquiro essa mania de pegar uma lembrança aleatória e me perguntar se você vai fazer a mesma coisa, de novo e de novo.
E me respondo: Sim e não.
Eu fiz certas coisas, as mesmas. Mas também deixei de fazer coisas, eram nossas. E eu gosto que seja assim. De criar coisas novas, com pessoas novas.

Saio do carro, te encontro na estrada, te deixo pra trás. Aliás, você me deixa. Você vive me deixando pra trás, e isso já nem dói. Ou dói e eu já me habituei.

Sinto saudade de Otto.
Sento no chão, abro meus diários. E eu sei. Fecho os olhos e espero que ele esteja bem. Quentinho, chocolate pra comer, uma garota qualquer pra fazer cafuné.
Amor que eu não consegui dar, que eu não tive coragem pra dar.
Sinto saudade da cor da pele dele, dos dedos,
sentados na escada da festa de alguém, ele de moletom preto, eu de jeans e camisa xadrez, nós dos dedos frios, geladíssimos, e eu quis tanto. E eu o quis tanto.

Prendo os cabelos, saio dirigindo por aí,
e percebo que sempre acaba em Holden.
Tem sempre um empecilho, tem sempre eu, tem sempre a busca incessante de alguém pra gostar, tem sempre um sinal confuso, e a gente sentado, no fim do dia, você tem aquele cheiro de gente e nada, de outro muito.
E eu poderia gostar de você, eu poderia amar você, eu poderia ter devaneios insanos nos quais você simplesmente não consegue mais viver sem mim, e a gente se beija e aí -- e aí nada, porque a história acaba aí, a gente não tem futuro, eu podia sair correndo e bater na sua porta, te roubar um beijo, te deixar confuso, te fazer me empurrar, me rejeitar ou me amar. Mas a gente não tem futuro, a gente nunca teve. Ainda bem, porque eu amo você. E não estragaria isso só pra descobrir se a gente poderia dar certo.

Você me manda mensagem, Dragon Maker, senhor dos dragões, e eu sinto falta da sua pele. E eu me deixaria dormir no seu ombro, eu ficaria até o amanhecer, coisa que eu não faria com mais ninguém, no momento. Gosto do seu cheiro, da sua cor, da sua mão.
Mas eu não gosto de nós dois, eu não gosto desse apego, não gosto da insegurança. Eu não gosto.

Cara novo, manda mensagem, e antes de pensar já digitei minha desculpa da vez.
Eu não quero mais, simples assim.

King. Bom rapaz, beija bem. Dou de ombros. Deixa vir. Se for, então vai ser.

E tem ele. Sem nome, só um cara com quem nunca terei nada, bom de olhar, bom de abraçar, bom de ver abrir aquele sorrisão quando me vê, um desses caras criados pra paixões unilaterais. Bom pra te fazer levantar da cama e pentear o cabelo.

E tem você. Quem quer que você seja, um desses ou alguém completamente diferente, inédito. Sentado em algum bar, bebendo em uma festa, estudando pra alguma prova, enquanto eu te espero, sem te esperar. Tomo decisões, as mais estranhas, e fico me perguntando se são elas que vão me levar até onde você vai estar.

Desço do carro. Olho pra rua, pra lua, o vento frio acariciando o rosto de leve.
Possibilidades.
Tantas, tantas.
E eu escolhi ficar sozinha.
Eu escolhi me conhecer melhor, me entender. É, saber se ainda gosto dele (Aquele-que-não-foi-propriamente-nomeado), saber se gosto desse cara novo que me faz querer usar cremes cheirosos no cabelo pro caso de ele me abraçar (:, se quero sair com o King, dormir com o Dragon Maker, se vou viver de migalhas de Holden. Eu decido.
Eu decido que não preciso de ninguém agora, nesse exato momento.
Que eu gosto, de verdade, desse hiato.
Das surpresas, de quem quer que você seja.

Eu não sei quem você é, ou quando vai chegar.
Mas não se apresse.
Eu quero que você me encontre na minha melhor forma.
Eu quero te amar também.

Olho pro céu lindo da cidade mais linda, e sussurro baixinho, só pros seus ouvidos, onde quer que você esteja, quem quer que você seja
- Boa noite (:
Até logo.

E subo as escadas sem medo,
vai ficar tudo bem.

É só Maio, eu chegarei ilesa ao final -
De novo.