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45x18 Trema

 

Imagem: TingTing Huang

Você vê, 
tenho sentido uma coisa estranha. É difícil explicar, um frio na barriga, o peito apertado, a boca seca, intranquilidade e a mão a tremer de leve. 

me distraio e deito, não durmo, eu não durmo nunca, mas parece que nem sequer acordei. 

Que gosto é esse, de sono ou sonho que eu sinto no café matinal. 

E que língua é essa, de mulheres e homens que soa como o sol, como os sinos, sacos e sacolas

A boca seca, mas nem sofro, só sonho alto, 
noite alta, 
mas sem dormir, eu não durmo nunca

Ou durmo? 

Não me lembro, mas também nunca esqueci, na verdade, não me lembro como se esquece. 

Tem algo aqui, na casa ou na minha cabeça, uma coisa bem pequena ou muito grande que me deixa, que me deixa
Não louca, não estou louca. 
Na verdade, nunca estive tão bem, você não vê? 

Eu não durmo e não me canso e não me canso de
eu conheço você de algum lugar
tenho certeza, certeza absoluta de que já te vi antes, 
mas tudo bem, depois eu me lembro

Nossa, que sensação ruim, parece até que
que

Ah. 
Então era isso.
Faz sentido, agora. 
Tudo faz sentido. 

Não faz?

44x18 Needless to say

Imagem: TingTing Huang

Eu preciso de um amigo.

Quão estranho é perceber isso?

As mensagens não lidas se empilhando no celular, eu vejo pessoas todos os dias, elas me perguntam se estou bem, e estou.

Eu sempre estou.
Eu sempre estou bem.

A rasura dos relacionamentos que construí com tanto afinco, sem nunca molhar mais que os pés pra não me magoar, me magoa. Que irônico.

Preciso conversar.
Preciso de contato humano profundo, ser ouvida. Preciso de conselhos vazios e sem aplicação prática. Preciso de um abraço.
Preciso de ajuda, e não sei pedir.

Eu sei sinalizar errado, feito um recém-nascido que chora pela angústia de estar vivo e é calado, quase que imediatamento, pelo seio da mãe.

Fico dando sinais tortos "olhe pra mim, eu não estou bem", e sorrio. Eles sorriem de volta.

O horóscopo diz "está tudo bem", os e-mails, o tempo, você, meu amor.

"Está tudo bem", eu repito, feito um mantra, feito um feitiço secreto que vai melhorar as coisas, colorir o mundo, me fazer entender quem sou, pra onde vou, se devo ficar, se sou boa o suficiente pra você e pra todo mundo que importa, eu digo que estou bem,
com sinais confusos e pontos finais,
mas você parece sempre ébrio demais pra se concentrar em mim.

Tem coisas demais por aí pra ver, pra saber, pra não sentir e eu choro feito um bebê,
você me cala com a boca, comida, amor, palavras de afeto que eu não sei ouvir ainda e eu

só preciso de um amigo pra dizer que não tá tudo bem.
Amor,
não tá tudo bem.

38x07 Sábado

Imagem: TingTing Huang

"Me diz que me ama"

Ela sorriu.
O que acontece com essas mulheres, o que elas comem que faz com que elas sorriam assim?

Tomo meu café, enquanto ela ri dessa mensagem que recebeu no whatsapp, e não me diz de quem é, não me diz o que foi. Sinto ciúmes, mas não pergunto nada.

Coisas assim me lembram: não sou o seu dono.

Me levanto da mesa e levo a louça até a pia, bem comportado, quero que ela repare, quero que ela me elogie, quero um beijo na boca como agradecimento, mas ela não diz nada.
Se espreguiça e seu cotovelo estrala, boceja, bagunça ainda mais os cabelos amassados de travesseiro, depois ajeita a camiseta branca amassada, a minha camiseta branca, como se fosse sair daqui a pouco. Meu Deus, eu a amo e ela é a coisa mais linda que já vi.

Essa percepção me deixa aterrorizado, paralisado. Eu a amo, de um jeito que parece, e eu sei que só parece completamente novo. Tento ser racional, tento argumentar comigo mesmo enquanto lavo a louça, eu já me apaixonei antes. Sempre parece a primeira vez. Dessa vez, também parece diferente. Mas não é.

Tento dizer isso pro meu corpo, mas ele fica todo trêmulo quando ela se aproxima por trás e encosta o nariz gelado na minha nuca. Me abraça pelas costas pra colocar seu copo e prato na pia e me beija as costas, sem deixar de me abraçar. Me diz alguma coisa engraçada, pra me convencer a lavar sua louça também, e eu lavo. Eu lavo e me sinto grato por poder lavar a sua louça, beijar a sua boca, dormir na sua cama e ser a primeira pessoa que você vê pela manhã.

Ela corre pro banheiro, ouço a descarga, ouço o chuveiro ligando. Roupas jogadas no chão, sujas e limpas, tudo misturado no meio do caos, e eu cato as roupas como se catasse pedaços dela, junto em um montinho no canto do quarto e me lembro de quando era criança e minha tia me elogiava porque eu era tão organizado, tão limpo, tão educado. Estou apaixonado pela antítese e mim. O caos. Isso me lembra um trecho de um livro de mitologia grega que li quando adolescente "Primeiro, havia o caos". Soa certo, deito na cama quentinha e rolo para a ponta dela, esquerda, sempre a esquerda. Tem o cheiro dela, de condicionador e essa coisa, essa coisa que é só dela.

Sinto uma coisa estranha, faço um esforço imenso pra respirar. Como é que eu vou viver com isso, como é que eu posso fazer isso, o que eu faço com isso tudo, com essa sensação insana de que eu não posso mais viver sem ela?
Isso tá errado, isso não é amor, isso é assustador, é bizarro, é

Ela sai do banheiro, usando calcinha e sutiã descombinados, secando o cabelo com uma de suas técnicas secretas de secar o cabelo e me pega olhando pra ela, embasbacado, assustado. Me pergunta se vi um fantasma. Digo que não. Uma barata, então. Digo que não tenho medo de baratas. Ela diz que tem medo, um puta medo, mas que não é medo, é nojo, que se mistura com medo e vira um pavorzão. Conta uma história sobre um pesadelo que teve com baratas. Adoro quando ela conta histórias.

Ela fica empolgada com as próprias histórias, para pra rir e arregala os olhos de um jeito como eu nunca vi ninguém arregalar os olhos. Eu quero ouvir todas, todas as histórias, quero conhecer cada pedaço do seu corpo e cada fragmento da sua memória, por favor, me deixe fazer parte de tudo o que aconteceu antes de nós dois.

Ela continua a falar, alheia ao fato de que eu me desespero, e eu fecho os olhos pra me concentrar só no som da sua voz. Ela para de falar, pensa que dormi, e eu deixo que pense assim. Eu não quero que ela saiba, ainda não. Sou humano, um desses humanos que acha que é ruim demais quando as pessoas sabem o quanto gostamos delas, que é até errado que elas saibam.

Deita na cama, com cheiro de desodorante, condicionador, creme de pele, protetor solar, sabonete e pasta de dentes, uma mistura doida que dá certo no corpo dela, e me beija na boca. Me beija a boca. Como isso soa bem quando estamos apaixonados. Me beija a boca. E beijo de volta, com toda a intensidade permitida nas manhãs de domingo, e eu quero dizer, eu quero sussurrar entredentes que eu a amo mais do que já amei na vida toda, que o corpo dela é a única coisa que me faz sentir seguro, que eu não quero que ela me deixe, eu quero ficar assim pra sempre, aqui, pra sempre.

Abro os olhos e olho diretamente nos olhos dela. "Diga que me ama"
Então espero, olhos nos olhos, enquanto o mundo inteiro passa por trás dos olhos dela, sem que eu saiba em que ela pensa. "Diga que me ama"
Mas ela se levanta, ajeita o cabelo, ajeita as roupas, me diz que a gente vai se atrasar se eu não for tomar banho logo, sai do quarto e me deixa sozinho, perdido em dúvidas, pensamentos e insegurança.

Caos.

38x05 Nau frágil

Imagem: TingTing Huang

Deito no chão de madeira, fecho os olhos.
O professor me pede pra imaginar coisas, meditar.
Não consigo.
Mente a mil por hora, acelera até a velocidade da luz, eu tô quicando.

Durmo, e isso é um bom sinal.
Ou não?
Não sei, porque durmo 14 horas seguidas, depois acordo e não consigo ficar acordada.
Meu médico dizia que, se eu tô dormindo, então é um bom sinal, nesse contexto.
Mas não sei se é.
Eu tô doente?
Pego o telefone, mas não tenho pra quem ligar.

Tô sentindo
Tô me sentindo fragmentar, como se meus dedos estivessem se separando do meu corpo, como se meu cérebro corresse em direções diferentes, minha boca, meus olhos caem enquanto corro e vou deixando pedaços de mim pelo caminho torto que sigo.
Eu sento.
Respiro fundo, 1,2,1,2,1,2

Mas não adianta, adianta?

Eu sinto isso vindo na minha direção, como se eu pudesse prever uma batida de carro fatal, eu a vejo vindo e isso me deixa agoniada.

Durmo.
Durmo, durmo, durmo, durmo, durmo, durmo, durmo
Faço listas.
Faço listas o tempo todo, começo a criar regras novas, regras pras coisas, pras pessoas, eu preciso de regras, eu preciso ficar aqui nesse quadradinho, estável, completamente estável, segura e sã. Não posso sair, não posso sair.
Durmo.
Tenho que estudar, mas não estudo.
Eu não quero estudar.
E isso me deixa agoniada, porque eu não quero.
Porque tocar nos livros me dá engulhos, eu não quero.

Minhas unhas caem, meu nariz ferido solta casquinhas e eu começo a fazer listas
Faço listas
e mais listas
Febril, no meio da madrugada, eu respondo à perguntas que ninguém me fez, eu encontro padrões.
Depois durmo e falto às aulas e volto, dou risada
Depois tô de mau humor, não quero que me toquem, não quero que me toquem, não quero que

Ligo pra L., em desespero, números desenhados na pele do corpo inteiro, em todas as partes que consegui alcançar e como vai doer pra tirar tudo até amanhã de manhã
Ela me diz, como sempre, "por que você não se corta, como uma pessoa normal?", daí a gente ri, porque essa piada nunca fica velha.
Mas eu digo a ela, eu digo a ela que eu tô me fragmentando, explico que, debaixo da minha pele tem alguma coisa estranha acontecendo, que o gosto na minha boca não é de algo que eu comi, que--

E ela reconhece o padrão. Respira fundo e me diz, daquele jeito dela, pra não sair de casa, que ela tá vindo.
Mas eu não tô em casa, L.
Tô no meio da rua, tentando pegar meu braço esquerdo do chão.

Tiro uma nota ruim, tenho um dia ruim, uma mulher grita comigo.
Tantas regras, tantas listas
E eu não consigo ficar aqui, estável.
Eu não consigo fechar os olhos.

Holden me manda mensagem e ele sabe.
Eu não sei como ele sabe, eu nem sei se eu sabia até agora.
Mas ele sabe,
ele sabe mesmo sem ter me visto assim, sem dedos, sem braço, completamente desconectada.
Eu tento dizer que tudo bem, meu bem,
isso já aconteceu antes. Muitas vezes, incontáveis.
E eu tô aqui. Eu tô bem. Eu vou ficar bem.
Mas ele sabe.

Sabe, eu estou fazendo algo errado.
E eu não sei o que é.
Eu não consigo ver onde é que eu tô errando.
Porque eu erro quando acordo de manhã, e quando durmo demais.
Quando vou a todas as aulas e estudo e me aplico, eu erro quando mato aulas pra descansar, eu erro quando fico, quando vou pra casa, quando tô junto, quando tô sozinha, eu estou fazendo algo muito errado
Eu tô tentando ficar aqui, nesse quadrado estável, seguro. Eu só tô tentando fazer isso, não experimento coisas novas, eu repito as receitas, as fórmulas de ficar bem, mas elas não querem funcionar.
Nada nunca funciona.
Porque parece que tá tudo bem,
aí eu durmo
aí eu não durmo
faço listas
escrevo números
e, mesmo assim,
meu corpo se parte em pedaços

mas eu continuo correndo
sempre correndo

No final, sempre fica tudo bem.
Ou não.

31x11 Insight

Imagem: TingTing Huang


Acordei há umas semanas. Faminta. Bem. Curada. Nova. Feliz.
E comi.
Seria capaz de comer qualquer coisa.
Qualquer quantidade.
A qualquer hora.
Acordava no meio da noite, faminta.
E comia.
Comia.
Comia. Até pegar no sono, sem escovar os dentes.
E acordava com fome. E com nojo do gosto da minha boca.
Com nojo da minha boca.
Com medo de que meus dentes caíssem.
Aí escovava os dentes.
E comia.
Comia.
Comia.

Eu não sei quem eu quero ser.

Eu sinto um vazio, um vazio crescente, abrindo caminho por dentro de mim.
Um vazio que preenche. Que cresce,
enquanto eu observo, sem poder fazer nada.

Abri um buraco no dedo.
Bicho de pé.
Enfiei a agulha fundo, bem fundo e saí cortando o buraco até tirar de dentro aquele bichinho encolhido, minúsculo.
Cortei com alicate, joguei álcool em cima
e ficou um buraco.
Um buraco vazio, que nem eu.

Tem gatilho pra isso?
"Deixa a B. falar, quando ela explica dá pra entender"
Mas você já se perguntou como é que ela sabe disso?
- Todo ataque de pânico tem gatilho?
Talvez.
Só que, depois de um tempo, você nem sabe mais qual é.
No começo, é o azul.
Você pinta seu mundo de cinza, o mundo inteirinho.
Até que percebe que o cinza, tem um z. Z de azul.
E aquela cor já não serve mais.
Toda a tinta do mundo não vai ser suficiente.

Estava tudo bem.
- Está tudo bem - eu disse.
E eu não menti.
Eu não minto sobre isso. Não pra ele.
Era verdade quando eu disse.
Tem gente que diz que isso é como mentir pra mim mesma.
Não é.
É diferente, porque nem eu sei que é mentira.
Não consigo encontrar as palavras pra explicar esses dias
Você acorda
e está tudo bem.
Vai ficar tudo bem.
E seu coração sabe, sua cabeça sabe,
que é verdade.
A vida é boa, seus amigos são bons, as pessoas são ótimas.
As cores, os livros.
Você come.
Você come e isso só pode ser bom.
Você dorme 3 horas por noite.
E fica cansada. Ou não.
E seu coração está calmo.
Vai ficar tudo bem.
Não é mentira. Mas também não é real. E não tem ninguém pra te avisar.
É como subir em um palco, dizer todas as falas com toda a confiança, entrar no personagem, hipnotizar a plateia. E, quando as cortinas se fecham, você percebe que esteve nua durante toda a apresentação.

Eu fui perdendo a vontade de ouvir música.
Gosto de pensar que foi um sinal. Que eu poderia ter percebido.
Música me deixava impaciente.
Aí eu acordei.
E comi.
Comi.
Comi.
E o dia começou a escorrer.
A pesar.
Fui pra aula.
E percebi
Que não queria ter ido.
Que não queria ter dirigido.
Que não queria ter aberto as janelas.
Ou conversado.
Eu não queria ter tocado ninguém.
E nem queria participar de nada, ou saber segredo algum.
Eu não queria saber.
Fui embora, aliviada, tão aliviada pela conversa amena, sobre comida.
E comi.
Comi.
E comi.

Minha mãe mandou mensagem.
E eu percebi
que queria ir embora.
Que queria nunca mais voltar.
Deixar a casa exatamente assim, como quem saiu às pressas, com a roupa do corpo, sem carro, sem nada.
Calçando chinelos, sair andando por aí.
Até chegar a lugar nenhum, até derreter e desaparecer.

Eu não me importo com o que acontece amanhã, ou depois, ou setembro.
Eu só quero não ser eu.
Não é insuportável, não agora. Já foi.
Mas é doloroso. Incômodo. Dá uma agonia.
Eu tô com vontade de sair do meu corpo.
Ao mesmo tempo, tem alguma coisa querendo sair do meu corpo.
O vazio, talvez, inflando feito um balão, ocupando cada centímetro debaixo da minha pele.

Uma garota da minha turma disse que seria bom
se as pessoas pudessem simplesmente prever as coisas.
Por que?
Pra deixar um bilhete na cabeceira da cama dizendo pra mim mesma que vou acordar me sentindo uma merda?
Pra pedir pros amigos esconderem meu cartão de crédito?
Pra avisar pro meu namorado que eu vou querer pegar um guardanapo e esfregar um hambúrguer só pra tirar o molho dele?
Ou que, em certos dias, eu vou ignorar quem ele é e o que precisa e fingir que ele só serve pra sexo?
Ou eu devo ficar em casa pra não machucar ninguém?
Pra não puxar assunto com quem não conheço ou pra não ser horrível com quem conheço?

Eu quero acreditar.
Eu gosto da minha ingenuidade, da minha burrice.
Mesmo agora, eu sinto falta daquela sensação. Das vezes em que olhei no espelho e achei que estava bom.
Por pior que seja entender que nada daquilo era real,
eu não mudaria nada.
Estava tudo bem.
Eu ia ficar bem e chegar ilesa, no final.

Agora, eu nem sei se quero chegar lá.

Ella me diz que preciso dos remédios antigos, do Dr. T., de alguma classificação, um algoritmo padronizado. Mas eu não quero outro algoritmo. Não quero ninguém pra dizer quais das minhas características podem ser chamadas de critérios.
Eu não sou a porra de um caso que você lê num livro.
Eu não sou a porra de uma checklist.
E me dá muita raiva de quem tenta me reduzir a um grupo de palavras, de quem acha que a vida é muito simples, remédios coloridos e finais felizes.
VÁ.SE.FODER.

Eu tenho 23 anos.
Filha mais velha de 4 irmãos.
Eu curso medicina.
Gosto de ler.
Gosto de Brasília.
E de comer sorvete com batatas fritas.
Gosto de música indie e baladas levinhas pra ouvir e pensar.
Também gosto de música pop
E de dançar.
Mas, em alguns dias, eu acho que estou normal. E não estou. E vivo com uma sensação constante de não saber se sou quem acho que sou. De não saber se sou como acho que sou.

Eu costumava escrever histórias. Mas parei. Eu não sei se acredito mais no que elas significam.
Eu achava que elas iriam me proteger.
Que elas não iriam deixar que ninguém entrasse
e me magoasse.

Quero só terminar esse texto confuso.
Mas não sei como.
Então não termino.
É como essa coisa dentro de mim,
termina,

mas nunca acaba de verdade.

31x10 Canções de Apartamento

Imagem: TingTing Huang

Tenho que estudar, mas as vozes escondidas nos cantos não me deixam.

Tenho prova, tenho tantas preocupações esdrúxulas. Tenho que me preocupar com meus dentes, pentear os cabelos, cortar essas unhas, tirar a maquiagem. Tenho que me preocupar com amor. E com meus bigodes.

Tá difícil.

Consigo ouvir a tua voz da porta do quarto, quase vejo a sombra dos teus pés por baixo da porta. Consigo te ouvir dizer "Você não vai comer?". Consigo sentir o cheiro que você trouxe lá de fora, de um mundo para o qual eu achei que nunca mais fosse sair. Consigo ouvir o ruído dos seus cabelos no travesseiro, sentir o cheiro de frio na sua pele. O cheiro de frio, Otto. O cheiro daquele frio cinzento que você trazia da rua. Cheiro de frio.

Tento me concentrar em transtornos alimentares, mas consigo ouvir a voz de Berenice a escorrer. Cícero canta alto nos ouvidos a música que é nossa, só nossa.
Corri no quarto, peguei logo as três caixas que me escorrem hoje:
A tua, a dele, aquela outra.

Você nunca vai ter outro cheiro que não seja de papel. Cheiro áspero, de conforto, de carinho, de dor.
Eu preciso que você esteja segura. Feliz. Com ou sem minhas histórias terríveis, minhas manias, minhas tristezas. Se eu pudesse, me apaixonaria por você. Perdidamente, loucamente. Da maneira mais bela e pura que eu conseguisse. Eu preciso que você esteja bem. Eu sempre vou voltar pra te buscar. Onde quer que eu esteja. Onde quer que você esteja. Sempre. Eu sinto muito por ter te deixado naquela época, mas não vai mais acontecer. Eu disse que sempre voltaria. Eu vou.
(Eu quebrei a gente. Eu tô sempre quebrando as coisas e não sei como consertar. Mas eu não vou desistir, não da gente, dessa mentira gigantesca e complexa. Mesmo que não tenha conserto, eu vou voltar pra te buscar)

Caixa azul, bate aquela calma, aquela curiosidade. Já faz quase um ano.
Passou tão rápido, tão rápido que já parece que foi outra pessoa aquela. E talvez tenha sido.
Cícero fala sobre alguma coisa deixada pela casa, e é exatamente isso.
É sobre isso que tô escrevendo hoje, sobre essas coisas que deixaram por aqui, que deixaram em mim, e que eu não quero que voltem pra buscar.
Caixa do lado, e eu ainda não abri, acho que tô adiando, de medo ou sei lá de quê.

Abri.

E li. E revi tudo. E fechei a caixa.
E deu saudade, mas ó, não doeu.
Acho que era hora, 23:21 de um dia de semana, de tirar o peso das costas e seguir em frente.

Não é adeus.
É mais como um:
Saia de cima das minhas costas e venha andar aqui, do meu lado.

(: E isso é bom.
Muito bom.

Early Cuts: Samson

Imagem: TingTing Huang

Meu cabelo caiu no chão, molhado, morto, e eu soube: não seria a mesma.

De onde venho, cabelo é coisa séria. Carrega tristeza, esconde segredos, atrai olhares, tem cor de sol, causa discórdia, é a gota d'água.

Cortar o cabelo é afirmar pra fora que você vai mudar por dentro.

Eu amava o teu cabelo,
mas te amava mais,
foi por isso que o cortei.

Eu precisava te salvar de si mesmo.

Quando chegava a noite, nós dois deitados, sua sobrancelha sangrando, eu passava a mão pelo seu couro cabeludo nu e te desejava todo o amor que alguém bom o bastante pudesse dar.
Às vezes, eu ainda sonho com a textura dos seus cabelos.

Cortei meu cabelo.
(Purga, REDRUM)
Está horrível. Repelente.

Mas é a purga.
Corto e a tristeza sai, cai no chão, úmida, morta.

Terminou, me achei horrível, nua, velha, assustada:

Limpa.

30x06 Eu e outros poemas

Imagem: TingTing Huang

Eu, de novo.

Eu posso fazer rir.
Eu tenho esse amigo secreto - mas nem tanto - , e eu gosto quando ele sorri. Gosto quando ele está de bom humor. E parece que estamos sempre de bom humor ao mesmo tempo, como se um conseguisse contagiar o outro. Gosto tanto quando ele ri alto, mostra o pescoço, me encosta pra mostrar que é dia de pessoas.  (:

Meus cabelos são malucos.
Fortes e frágeis, eles possuem vida própria. E eu parei de tentar controlá-los. Deixei que eles fizessem sua própria poesia, sem margem, sem rima.

Eu amo meus amigos.
De um jeito novo, único, grato, de quem só ama, porque sim, porque quer. Cada um deles, tenho vontade de amá-los diariamente, de correr por aí jurando amor, distribuindo abraços.
E não ligo se nem todo mundo gosta deles, se uns não gostam dos outros. Eu os amo. Com todo o meu coração.

Música.
Parece correr nas minhas veias, parece me dizer o que fazer, me inspirar. É o que me diz pra acordar, pra dormir, pra correr por aí com o coração partido.

Tu.
Olho pro teu rosto e meu coração canta, assovia. Meu sangue desliza, meu corpo todo dança a mentira que eu criei, meu corpo todo acha que essa música, que essa canção é tua.
Mas essa canção é minha.
Essa dor é minha. No máximo, nossa. Mas não tua.
Então, eu te amo. Eu amo a ti.
Mas só porque ainda não me amo o bastante.

Ela.
Tinha medo de dormir e sonhar com ela.
Medo de vê-la, medo de falar com ela.
E hoje falo, olho nos olhos, digo OI bem alto, quase grito. Eu não tenho medo, eu não tenho vergonha.
E nem ela deveria ter.

Minha boca.
Tem gosto de dor.
Gosto de medo.
Gosto de anonimato, de solidão.
Mas também tem gosto de pipa, de autorama, de carrinho de controle remoto. Gosto de livro colorido, de nota boa na prova, de quando a série é renovada e o livro ganha adaptação para o cinema. Gosto de oscar do leonardo diCaprio.

Tanta poesia escorrendo pelos dedos, pelos olhos,
tanta dor
mas tanta vontade

Tanta vontade.
Por enquanto, é vontade de ti
Mas calma,
mais dia, menos dia
vira vontade
tanta vontade

de ser feliz (: