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44x23 Yet again

Imagem: TingTing Huang

O mundo gira. Rápido demais, brilhante demais.
às vezes, eu me pergunto:
garotas bonitas enxergam o mundo assim?

O velho dilema, guardado sob as costelas, explodindo sob o barulho do meu coração pulsando sangue rápido demais.

Eu quero dizer, eu quero encontrar as palavras, mas não quero mais ter que dizer, de novo e de novo,
porque nunca deixa de machucar, nem um pouco.

E eu sempre achei que o problema estivesse apenas nos meus olhos,
uma bagagem de 26 anos de me sentir pequena, menor, insignificante e estúpida,
e isso, isso é só um dos problemas.

A cor da minha pele sussurra baixinho as coisas que eu não posso ouvir, e a cor da sua pele fala uma língua completamente diferente que as pessoas parecem ouvir, a cor dos seus olhos, e eu simplesmente não consigo entender.

Por que?

Eu tento te dizer, eu tento falar a sua língua, eu te imploro, por favor,
me deixe ser.
Eu posso viver com isso, eu posso lidar com o gosto amargo de não ser como você, mas, por favor,
me deixe ser.

E então, eu, feito um Edmond Dantes, só preciso de amor e de um barco num mar calmo, por onde eu possa navegar, braços pra onde voltar, mas preciso que você me deixe ser, eu penso.
Porque eu me sinto menor,
ainda,
pior.
E eu penso que
tudo bem,
não é você,
sou eu.
Então eu vivo na sua sombra sem saber que eu produzo a sombra.

É apenas um jogo de luzes, e calha de você ter descoberto isso antes e descoberto como usar isso a seu favor.
E as pessoas têm me dito isso há séculos, mas lá estava eu,
vivendo à sombra, lutando contra minha luz, meu corpo, meus cabelos, meus olhos, minha pele, minha capacidade de atrair e de ser amada.

E eu devo dizer, é difícil, pra quem nunca esteve sob os holofotes, simplesmente sair.
Acordar e aceitar que eu posso não ser menor,
pior.

Mas eu posso fazer isso,
se você não estiver mais aqui.

Então nos separamos nessa encruzilhada, nenhuma sombra à vista, no seu caminho ou no meu, por favor, vá em frente, seja feliz e saudável e incrível, eu te desejo tudo de melhor e mais incrível, tudo o que desejar,
exceto a oportunidade de me machucar.

44x10 Mistletoe

Imagem: TingTing Huang

Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.

Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.

Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.

O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.

Eu sou invencível.

Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem

Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e

amendoim

Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.

Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.

E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo

e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças

corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.

Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.

Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.

E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.

E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:

não tenho medo.

39x17 Don't freek out

Imagem: TingTing Huang

Ah, eu não sei nada sobre relacionamentos.

Como é que se conversa com rapazes? Eu posso mesmo falar sobre gente morta no meio de uma conversa? Sei lá.

Eu sou estranha. Você fala primeiro, porque eu nunca sei em que pé estamos.
Sou insegura, será que meu cabelo tá legal, será que meu rosto tá fazendo aquela careta, será que eu tô dançando feito uma maluca no meio do salão?

Será que a gente fica junto agora
ou a gente fica junto pra sempre?

E aí? O que eu faço?
E se eu te mandar embora e for você?
Ou se eu disser que sim e estivermos perdendo tempo?

E se eu quiser te beijar mais?
E se eu quiser dar tudo de mim, se eu quiser te deixar chegar até a segunda base?
Você vai embora?
Vai me deixar pra trás?
Eu deveria fingir que não quero o mesmo que você?

Ah, eu não sou assim,
não sou quietinha não.
Eu mordo a sua boca, porque eu quero você, eu não quero mais ninguém, eu quero você,
agora.
Eu respiro fundo e me controlo da melhor maneira possível, pra não te assustar.
Mas meu melhor amigo de arco-íris me fez perceber que,
se você se assusta com uma coisa tão pequena,
então não vale o meu tempo.

Eu sou intensa, é noite de lua cheia,
eu quero te levar pra casa,
eu quero não voltar pra casa,
e é por isso que eu volto.
Porque eu fico o tempo todo me segurando,
me amarrando no porão.

Só que hoje não, eu sinto muito.
Eu me sentei no sofá, tranquila,
ele vai dizer alguma coisa.
Ele vai puxar conversa,
eu só vou ter que pensar antes de falar as coisas, um pouquinho mais.

Marquei horas no relógio, limites de tempo pra prever teu interesse,
até que me dei conta de que isso era loucura.

Porra, mulher, SE ACALMA
você é linda.
E engraçada, embora seu senso de humor seja duvidoso.
Beija bem pra caralho, ô moça, eu sou apaixonada por você.
Mulherão da porra desse, vai ficar em casa sentada esperando que ele aja?
Pois aja você.
Se você quer saber,
pergunte.

Não vale a pena desperdiçar teu domingo se perguntando e se
Pensando se ele vem,
se foi alguma coisa que você fez ou deixou de fazer
que disse ou deixou de dizer
uma piada mal contada
um beijo sofrível.

Nem todo mundo que a gente beija e gosta é pra casar, pisciana doida.
Vê se manda mensagem e espera resposta,
sem sofrer,
sem ansiar tanto,
sem joguinhos.

Você quer,
está dito,
enviado
e pronto.

Basta.

Vê se não enlouquece ainda,
tem muito homem no mundo pra te virar a cabeça.

Um deles é o certo.
(Talvez, até mais de um)

39x07 Cavorting

Imagem: TingTing Huang

Eu precisava sair, sair de casa e respirar.

Saí pra dançar, mas não era o bastante, eu estava faminta. Precisava sair pra caçar.
Pintei meu rosto, meus olhos, eu me camuflei pra parecer mais gente, mais
humana.

Apanhei minhas armas e corri, minhas botas fazendo barulho ao entrar em contato com o concreto, enquanto eu rezava pra ela que me trouxesse algo bom pra comer.
Algo doce.

Mas ela me abandonou,
muitos éons atrás,
ela me abandonou à deriva no meio de um lago gelado, enquanto eu pedia só um pouquinho de paciência,
um pouco mais de resiliência.
(Tem gente que vive tanto tempo com a dor, por que eu não podia? Por que eu não podia ser uma dessas pessoas?)

Mesmo sabendo disso,
eu escolhi rezar,
me ajoelhar nua sob a lua crescente e renovar meus votos,
me despir e correr,
farejando o ar, apurando os ouvidos pra escutar o coração das feras que vivem escondidas no escuro.

Encontrei você,
farejei o ar ao seu redor,
e esperei,
ouvindo o seu coração bater devagar.
Eu salivava, faminta, e minha boca seca atrapalhava minha fala,
a fome quase atrapalhava minha concentração,
mas eu esperei.

Sutil, eu fiquei encoberta pela folhagem, controlando meus batimentos,
olhando nos olhos dos outros caçadores como quem diz "aqui não",
esperei em silêncio.

Eu fui me intoxicando com os odores do sangue e das ervas mágicas, ninfas
e com o gosto do vento que a sua boca soprava na minha direção.
o sonho dos gatos acordou dentro de mim e se espreguiçou, sacudindo e arrepiando todo o meu corpo molhado, gelado,
morto
eu olhei nos seus olhos e você olhou de volta
Era isso então, Mulher?
Eu coloquei meus dedos nas têmporas dele, senti o pulsar,
eu estava faminta,
mas será que estava?

Ou será que é o que você quer que eu pense?
Que eu preciso disso,
sair pela cidade, nua, descalça,
voltar com os pés em carne viva,
sem saber como andar até o banheiro,
sem saber quem sou,
ou de quem é todo esse sangue

"Não", eu disse, soprando a fumaça pra longe da água.

Peguei minhas roupas e fui pra casa, tonta
ferida, suja,
sob o primeiro sol que surge atrás da ponte.

Deitei no colchão, na sala, nua,
porque não conseguia andar mais do que alguns passos pra trocar de roupa,
não conseguia me arrastar até o banheiro

Sonhei com ele, coisa que não acontecia há meses,
e tive medo.
Tive muito medo do que isso pode significar.
Sonhei com ele porque você quer me punir por não ter me alimentado,
por não ter sacrificado ninguém no seu altar, quando você me ofereceu tudo o que eu precisava.

Eu tô vendo agora que você tentou,
mas não da maneira como eu tentaria,
porque eu não quero machucar ninguém.

Eu só tô com fome,
mas dá pra aguentar,
dá pra esperar

até não dar mais.

36x08 Akhmet

Imagem: TingTing Huang

Eu me lembro de um sonho.
Eu era.
Eu significava algo pra alguém, portanto, eu era.
Ou não?
Sim.
Eu era poesia pura, minhas pernas foram construídas dentro das canções de amor e das cores dos seus olhos.
Nas minhas costas podia-se ver a tua respiração e meus cabelos cresciam ao som da tua voz.
Eu era uma música que vivia no teu peito, sem ritmo e sem dor, eu era incrível, invencível e bonita, eu já fui bonita e eu sabia como criar mundos e estrelas.
Eu cheirava à grama e lençóis limpos, recém lavados.
No meu corpo, toda a existência consistia na cor marrom e na textura macia da sua boca.
Eu era.

Acordei, com aquele gosto horrível na boca, e me lembrava.
Eu me lembrava.
Virei pó.
Eu não era. Só carne, sangue, ossos, metal e a dor de ter que continuar sabendo de tudo o que eu não era mais.
Como viver sabendo?
Como conviver com a frustração de saber e não poder ser?
Guardei dentro de mim a sensação de ser até que a vida perdesse a graça, vida torpe, morosa.
Morro?
Não, não, eu luto.
Eu me levanto e enfrento a crueza da vida, sendo cruel, eu arranco a beleza dos ligares, roubo significados.
Eu quero significar.
Mas eu não sou.
Minha carne é ácida, meu beijo queima, entristece, entristeço, entristecemos e eu sinto muito, eu sinto tanto, eu só queria significar.
Eu só quero significar.

E eu queria terminar esse texto com uma puta mensagem positiva. Sim, sobre significar, sobre não precisar que alguém te dê significado.
Eu tô sentada aqui no meu quarto bagunçado, finalizando esse texto que comecei há quase um mês (dentro de um redemoinho de dor e frustração) e tentando entender porque é que eu acho que o meu significado tem que partir de alguém.
Se eu sou a mesma pessoa que escreve que detesta ser limitada, ser definida por pessoas que acham que me conhecem, por que é que estou choramingando sobre alguém que me dê significado?

Sim, sinto que estraguei um texto que poderia ter sido tão bonito e poético.
Mas essa nunca foi a minha intenção, caro leitor.
A começar pelo título, que é o nome de um homem nojento e revoltante, incrivelmente cruel: um ser humano podre (e fictício, ainda bem).
Esse não é um texto sobre amor, sobre querer ser amada.
É sobre a crueldade dos momentos bons. E sobre a bênção do esquecimento.

Como é que eu posso viver sabendo que já significo algo pra alguém, e que esse significado vai se perder com o tempo?

Eu não sei responder a essa pergunta, ainda.
Mas eu sei que está relacionada com meu próprio significado.
Eu tenho um, que não me foi dado por alguém.
Eu só preciso encontrar.

E aí,
eu respondo.
Se você quiser saber.

35x12 Mississipi

Imagem: TingTing Huang

Eu não sei flertar.
Não tenho coragem de te olhar pelos tais segundos mississipi.
Vou te comer com os olhos, é. Mas só quando você não estiver olhando.

Não sei jogar esse jogo,
não vou falar com você, pura e simplesmente.
Muito embora eu queira muito falar.
Sobre o gêmeo do Elvis, serial killers e essa história em quadrinhos pela qual estou apaixonada.
Eu quero falar sobre música, pegar na sua mão e me sentar num cantinho, pra conversar.

Não sei ser sedutora, ou chamar sua atenção,
nem chegar de mansinho.
Eu só sei esperar, que horror.

E é, eu adoraria puxar sua mão e te trazer pro meu mundo,
pro meu canto,
gêmeo de Elvis,
e realidades alternativas,
ser honesta e te falar sobre um conto da Clarice que não sei se entendi,
e sobre essa música maravilhosa e uma vontade que tenho de aprender certas coisas.
Mas eu não sou assim.

Eu espero, Jane Austen to the core.
Eu espero,
e não tem nada de errado em esperar.
Eu gosto de tanta coisa, eu penso em tanta coisa, mórbida ou não,
e eu tenho certeza de que
mesmo que eu não consiga sustentar esse olhar por esses segundos mississipi,
ou dançar sedutoramente,
ter conversas amenas adequadas,
mesmo que eu não me aproxime de você no momento oportuno como aquela garota foi capaz de fazer,
mesmo que

Isso não importa.
Porque eu sou assim, é parte da mágica haha.
Eu vou olhar pra você, e arregalar meus olhos,
desviar o olhar
e tentar te ignorar
dizer sempre as piores coisas nos piores momentos
e falar muito sobre morte, porque é do que falo quando estou nervosa

Eu não vou, nunca vou seguir as regras certas,
e gosto disso.
Se você for legal, se for a pessoa certa
vai gostar também.

Então, é
eu quero falar sobre coisas de gente velha,
sobre um livro que eu li,
um filme que eu vi,
e comer torta,
te explicar as coisas da maneira mais confusa possível.
E ouvir o que você tiver pra dizer.

Dê uma chance pra garota mais estranha da festa,
seja legal,
seja agradável
e sensato.
Tá todo mundo procurando alguma coisa,
às vezes a gente nem sabe o quê.
E pode ser incrível.

Então, esqueça as regras, só por esse minuto,
não tenha medo,

Vai ser incrível.

35x08 The ability of happiness

Imagem: TingTing Huang

Cheguei à conclusão de que a felicidade está em todos lugares.
Ok, Pollyanna já sabia disso há séculos, assim como a princesa Sara.

Eu leio todos esses livros e não aprendo nada com eles, como você pode perceber.

Mas essa ideia me pegou de jeito, escondida na penumbra, de luto, esperando a manhã chegar, trazendo a morte ou esperança.

Sentei-me, sóbria demais, viva demais, meus dedos vazavam
Eu queria casa, cobertas e solidão.
E não sei se é tanto porque estou doente, ou se é porque sou assim.
Eu não sei mais quem é ela e quem sou eu.
E isso não é pra ser perturbador.

Acontece.
É como um relacionamento longo. Um dia, você acorda e não sabe direito onde você acaba e onde o outro começa.
Eu tenho essa dúvida.
Quanto dessa sensação é minha?

Pois bem.
Eu sinto que a felicidade está em todos os lugares.
Conversas,
na música,
comida,
na temperatura dos azulejos,
no gosto do álcool,
nas luzes noturnas
e nas pessoas.

E não consigo sentir.
Parece que estou dentro de uma bolha.
Sentir-se feliz é uma habilidade única e complexa.
Envolve receptores, neurotransmissores.
E, às vezes, parece que falta tudo.

"Pelo menos faça um esforço"
"Você tem mesmo que ser tão chata?"
"Por que você não bebe alguma coisa?"

Não é assim que funciona.

A felicidade está em todos os lugares.
Eu posso tocá-la, às vezes.
Eu posso ouví-la, eu posso sentir o gosto dela.
Na comida chinesa.
Eu a ouço, diariamente.
Eu a vejo nos seus olhos.
E é lindo, é incrível.

Mas a habilidade de sentí-la,
essa não é pra todos.
Envolve receptores, neurotransmissores.
Envolve tanta coisa, tanta.
Não é tão simples assim.

Eu conheci uma garota
e ela não conseguia ser feliz.
Nunca.
Eu conseguia ver nos olhos dela,
ela estava presa, vazia. Morta.
E então eles receitaram pílulas e pilulas e pílulas
e disseram que eram pra que ela fosse feliz.
Mas todos sabíamos que, na verdade,
eram pra que ela não sentisse falta de ser feliz.

Eu consigo.
Eu fico feliz em dias frios.
Quando como doces.
E ruffles de cebola e salsa.
Quando meus melhores amigos no universo decidem visitar
e quando leio livros.
Quando escrevo algo de que gosto e quando gostam disso.
Quando arrumo meu guarda-roupas, e quando lavo meus cabelos.
Quando ouço uma música, numa festa na qual eu queria estar,
ou quando alguém me diz algo surpreendente, e não finge que me conhece só porque passou algumas horas comigo.
Eu consigo fazer uma dança maluca
ou fazer elogios à pessoa certa
terminar uma história em quadrinhos.

Eu consigo.
Mas, na maior parte do tempo, eu estou muito preocupada sobre tanta coisa.
Se eu consigo ser bonita,
se as pessoas gostam de mim ou não,
o que eu sinto,
se eu sou uma boa pessoa,
se isso,
se aquilo
e isso devora minha habilidade, minhas conexões, meu sorriso,
minha vontade.

Você vê,
a felicidade está em todos os lugares.
Você só precisa saber sentir.
Sinta.
Eu acredito em adaptação.
Quanto mais você se sentir feliz, mais você será capaz de se sentir feliz.
E é, me desculpe se isso parece um discurso motivacional.
Não é minha intenção.

É só que eu estava lá
olhando
todo mundo parecia tão feliz
e eu sabia que eu só precisava
de alguma coisa
pra ser feliz também
mas eu estava tão preocupada
com o comprimento do meu vestido,
as minhas sandálias,
minha falta de conhecimento cultural,
vestidos,
diálogos,
o futuro
e tanta coisa boba.

Um cara de quem gosto muito, deus me perdoe (não romanticamente, ew),
me disse que sou a pessoa mais legal do mundo.
Assim, sem contexto.
E foi muito legal, porque ele não tinha motivo algum pra dizer aquilo.
Porque ele não me conhece.
Eu não gosto de elogios, eu não acredito neles. Nem em notas, nem em pessoas, nem em você.
Mas eu acreditei nele.
E aquilo me fez feliz.

E é isso o que eu quero ser.
É assim que quero me sentir.
Eu quero sair com gente que me faça bem.
Eu quero não sair. Eu quero passar tardes inteiras em casa, sem tomar banho, viver de sucrilhos e ovos.
Eu quero adquirir a habilidade de me fazer feliz.

Eu sou triste.
Eu estou triste.
Mas eu quero ser capaz de capturar a felicidade onde quer que ela esteja, qualquer fragmento, em qualquer lugar.
E eu consigo fazer isso.
Afinal de contas,
eu sou a pessoa mais legal do mundo.

34x09 Remain Nameless

Imagem: TingTing Huang

"Acorde"

Um grito no meio da noite.
Abri os olhos e a realidade baixa aos poucos, sem se encaixar nos lugares certos.
Eu não sou eu.

Há quanto tempo isso não acontecia? Semanas, meses. Talvez um ano.

Tomei alguma coisa, alguma droga, provavelmente, e não conseguia me defender de mim mesma.

Ela abriu meus olhos, assustada, ferida, todas as sensações a que ela jamais tinha acessado, de uma vez, cegando, enregelando, machucando, nauseando, ensurdecendo, enlouquecendo.
Sem nome, sem saber nada do mundo, a fera saiu de seu útero escuro, úmido e fétido.

E correu, sem saber como se corria.
A experiência, de que eu já tinha me esquecido, assemelhava-se um pouco a colocar a mão em uma luva ao contrário, dedão no espaço do mindinho.
As coisas não se encaixavam.

Ela se sentia mal, uma experiência mal sucedida, Frankenstein, mas não achava as palavras, coisa recém-criada.
Tentei explicar, tentei entender, mas não consegui.
Ela estava assustada, não me ouvia, não entendia, e eu me sentia engolfada por todo aquele medo, aquela dor.
Tentei acessá-la de todas as maneiras, acalmá-la, mas o pânico era imenso. Maior do que qualquer coisa que já senti nos últimos dias, talvez, desde muito tempo o sentimento mais intenso que já tive, nada romântico ou sexual: medo.
Assim como ela surgiu, foi embora. No outro dia, pela manhã.

Mais uma, de tantas, pensei, enquanto tomava meus remédios negligenciados.
Ela vai aparecer de novo, em algum momento.
Tenho uma certeza enorme disso. Acho que acontece porque, apesar da falta de jeito, a conexão pareceu a certa.
Natural, de um jeito completamente novo.
Aquele medo, aquela dor.

Quem quer que seja a mulher sem nome, a besta silenciosa e arredia que saiu do escuro usando meu rosto,
tenho a perturbadora impressão de que, de todos os fragmentos dessa minha mente transtornada,
aquele era o que mais continha pedaços de mim.

Era eu, na minha versão original, sem cortes, sem extras.
Eu.

E nos encontraremos de novo.
Disso, não há a menor dúvida.

34x08 Trust Issues

Imagem: TingTing Huang

Vomito e apago, num banheiro escuro no centro do mundo.
Nasci sozinha, hei de morrer sozinha,

meu corpo gruda, o cérebro não funciona, eu não sinto, porque não consigo traduzir o cheiro, o desejo, o medo, o gosto

Sou puro instinto, vomito e durmo, apago num borrão de sensações indistinguíveis.
Acordo na noite escura, animal assustado, ferido, anestesiado e grito, uivo alto, tenho medo.

Saio na chuva, buscando as luzes, mas não sei pra onde ir. Esqueci onde estou, esqueci quem sou.
Eu simplesmente existo.
Sem razão aparente,
simplesmente existo em meio ao caos.
O céu desaba enquanto choro feito bebê, sem motivo, a dor de existir sem rumo.

Alguém me encontra e me diz meu nome, não o reconheço e, ao mesmo tempo, sou eu.

Um nome, uma sina, olho minhas mãos cheias de linhas fundas, eu existo.

Ele me pergunta se alguém fez algo comigo.
E eu sei o que ele quer saber, eu sei, lá no fundo, mas eu quero dizer que sim, fizeram muitas coisas
Existem muitas coisas ruins que se pode fazer com alguém, e nem sempre envolvem sexo.

Chorei, ou a chuva no meu rosto chorou, minha boca não conseguia expressar toda a dor e o medo. Eu tremia, de frio ou de pavor.

"Tá tudo bem, confia em mim"

Id solto, bêbada na chuva, morrendo de frio, de medo, de qualquer coisa que não sei explicar bem,
dei dois passos pra trás,
eu não confio.

Cega, incapaz de fugir, de lutar, eu não conseguia aceitar ajuda.
Eu não confio.
Chorei de novo, uma luta interna pra dizer "ok, eu acredito"
Ok, eu confio

Não deu.
Eu não confio.
Eu não confio, algo grita nos meus ouvidos, o som de milhares de gritos me ensurdecendo, eu não confio, não confiamos, não confiamos, não confiamos, não confiamos

Dormi: sono sem sonhos, gosto ruim na boca.
E acordei longe do escuro,
com essa sensação ambivalente de estar protegida por um milhão de armaduras.

Me sinto segura e, ao mesmo tempo,
certa de que
nunca
vou deixar alguém entrar.

33x09 The Hangover, parte 1

Imagem: TingTing Huang

Tô tentando achar um jeito de escrever sobre ontem/hoje.
Tô tentando achar as palavras.
Não acho.
Encontro cores, imagens, sensações.
O gosto do álcool na minha língua, amargo, rude.

E me sentir segura no lugar mais teoricamente inseguro.

Bom, do início, pra variar.
Muitas noites em uma só.

16: 00 Sentei no sofá e escrevi. Escrevi, como não escrevia há muito tempo, com vontade, fé nas palavras que surgiam, como se Oliver estivesse me sussurrando as palavras certas. Ele foi tomando corpo, tomando forma, virando gente, andando pelas ruas de Brasília, com passadas incertas, em tardes quentes e brilhantes demais, irreais demais.

18:00 Mensagem no celular, me levanto e tomo banho, gelatinas prontas na geladeira, quero me parecer com uma princesa. Mas nem tanto assim. Eu só quero ser quem eu quiser, e quando quiser.
Visto minhas roupas, mas nada fica bom, nada nunca fica bom. Eu não me sinto feia, só me sinto estranha. É setembro, e eu não quero mais ninguém. Eu quero me achar bonita e me encontrar por aí, na minha escrita e nas minhas ações, quero fazer o que acho certo. E parece certo, soa certo ir hoje à noite. Não espero nada.
Só quero me sentir bem.

20:00 Elspeth. Milhões de coisas passam em minha cabeça, mas tudo me parece tão familiar.
Eu não me sinto mais doente.
E eu sei disso, eu percebo isso nas cores do suéter de Elspeth, o azul vivo, o branco brilhante, e pela maneira como nossa familiaridade não me assusta, me agrada e me deixa tranquila ao invés de acuada.
Observo pelas frestinhas das outras vidas que as pessoas têm e me agrada por demasiado a familiaridade das conexões que existem por aí, amor puro e simples. A noite é escura e quente e, quando me sento no banco de trás das pessoas mais teimosas do universo, eu me sinto inexplicavelmente abençoada pela oportunidade de estar ali.
Casa do homem-abacaxi, melhor amigo/pessoa que menos conheço no mundo inteiro, tudo parece inexplicavelmente comum. Nossa viagem até uma festa de aniversário sem aniversariante, as pessoas na cozinha, o gosto de guaraná e cerveja, vodka e cereja, os milhares de tons de verde na roupa da garota em quem estou acostumada a pensar como a melhor e mais bonita do mundo - palavras do aniversariante/melhor amigo.
(Sei que é confuso, mas é como se esses detalhes pequeninos constituíssem os pontos-chave de todas as lembranças)
88 descendo na garganta, queimando tudo por dentro, as cartas bonitas de um jogo chamado Coup, a sensação de blefar e de não blefar, e de não estar nervosa. Geralmente, não gosto de jogos. Fico excitada demais, nervosa demais e parece que meu coração vai explodir.
Não dessa vez.
Foi divertido.
Meus amigos gritavam, eu gritava, gritávamos e misturávamos nossos gritos sem nexo ao burburinho das conversas paralelas sobre assuntos que desconheço. Meu amigo dançava no chão, e o mundo parecia no lugar certo.
A comida parecia perfeita, a simplicidade da coisa era fascinante, a areia dentro da ampulheta parecia correr mais lenta e até a chatice ébria das pessoas parecia mais suportável.

2:00 Enxaguei a louça e fiquei feliz, inexplicavelmente feliz por estar fazendo algo tão banal. Parecia adequado. Jogamos as coisas no lixo e eu voltei a ser eu, o álcool escoando aos poucos, evaporando e me tornando mais focada.
Hora de ir embora, mas eu não queria realmente ir, queria?
Sim, queria. Queria minha cama bagunçada, lavar a louça suja na pia, minha roupa, estudar histologia e cumprir com minhas obrigações.
Eu queria ir pra casa.
Eu tinha que ir pra casa.
Eu deveria ir pra casa.

Não fui.
Ainda bem.

32x11 Metade Homem - Metade Texugo

Imagem: TingTing Huang

(Era pra ser um texto sobre uma garota, um cara, uma festa junina e algumas skol beats. Acaba que é só sobre a garota e quem ela é de verdade, mas mantive o título original.Eventualmente, quando o tema original voltar, irei usá-lo novamente)

- Nós não vamos ficar juntos, vamos? - pergunto a ela.

Estamos sentadas em um canto escuro. E ela corta, corta, corta, cega e serena.

Não responde.

- Você me enganou. Me fez acreditar que eu deveria correr riscos. E eu corri riscos. À toa.

Sem levantar os olhos do tecido, ela responde, quase cantarolando.
- Nada acontece por acaso. Você fez o que escolheu fazer. As consequências virão, eventualmente.
- Eu não acredito em você.
- Você não tem que acreditar em mim. Eu não preciso da fé dos homens. Eu existo. E deixarei de existir quando chegar a hora.
- O que teria acontecido se eu não tivesse arriscado? Se eu tivesse ficado quieta?
Ela pára de cortar o tecido e ele começa a se desfazer, sozinho, como se cortado por uma tesoura invisível. Toca meu braço.
- Você sabe o que aconteceria. Quase a mesma coisa. Por um tempo, você ficaria feliz, achando que tomou a melhor decisão. Depois, estaria aqui, tendo essa mesma conversa, com a Mãe.
- Essa é a ideia de vocês de uma lição? Eu deveria ter aprendido algo? Porque eu não aprendi nada. Eu percebi que seria terrível se voltássemos a ficar juntos. Percebi que ele não teve sequer a coragem de me dizer não. Percebi que tenho coragem o suficiente pra dar a cara à tapa e me declarar. Mas eu ainda o amo. O que isso muda? Eu sou a mesma pessoa que era um mês atrás.
- Minha querida,
se você sabe tudo isso agora e não sabia antes, como pode ser a mesma pessoa?

- Eu estou cansada. Cansada dos enigmas de vocês. Onde está ele? Essa incrível pessoa que vai acabar com a minha miséria? Se vocês pelo menos me dessem um nome, e eu pudesse ir atrás dele e
- Ele não está pronto. Você não está pronta.
- Claro que não, é claro que não estou. Eu nunca estou pronta. Não, eu preciso passar por isso. Eu preciso me sentir uma estúpida, uma pessoa ridícula, eu preciso sentir meu estômago revirar a cada vez que o vejo, eu preciso me sentir enojada com a ideia de me aproximar de outras pessoas, eu preciso mesmo disso?
Ela me encara com as órbitas vazias de criança.
E eu quero matá-la.
Eu quero, como nunca quis antes, quebrar seu pescoço,
me libertar dessa estúpida peregrinação a essa masmorra.
Eu não quero mais estar presa,
eu não

E, de repente,
eu sei exatamente o que fazer.
E me assusta um pouco o fato de eu não ter percebido antes.
Com todas essas dicas, todas essas ideias, esses sonhos que tenho tido,
esse vazio que não passa,
essa vontade intensa de reencontrar meus velhos amigos, de me reencontrar.

Ela sorri, como se lesse meus pensamentos.
- Existe algo de que precise saber?
- Não, digo, ao me levantar, eu sei tudo de que preciso saber.
- Mas e ele? Sobre vocês dois? O que acontece no próximo episódio?
- Tudo bem. Eu assisto quando sair.

Só dessa vez, só hoje,
tenho algo mais importante pra fazer.

32x05 Cusack-Beckinsale

Imagem: TingTing Huang

Bebi, mas o álcool não fazia efeito.
Tentei fingir, mas não era a mesma coisa.

Dancei.

E fingi que estava tudo bem.
Que meu coração não estava em casa, chateado,
amuado,
esperando ela acordar sem ressaca.

Que meu coração não estava no celular, na nossa última conversa, que eu não queria sair dali e inventar um assunto pra falar com você.
Que eu não preferia estar em casa.
Que eu não preferia estar com você, na sua casa.

Ouvi cada música de nós dois,
o DJ me dedicou "Babel", sem saber que aquela música já tinha, em algum momento, partido meu coração.

Cantei.
Alto, claro, gritei as palavras e mandei tudo embora, pra sua casa, pra minha casa, pra sua cama, pra onde quer que essas lembranças fiquem.
E bebi.

Mas o álcool não fazia efeito.
Fiquei entediada.

E fui me sentar no escuro, ao lado desse cara aleatório, num lugar aleatório.

Ele falou comigo e eu olhei pra ele
"é, é, eu fico com você, eu só preciso de qualquer coisa que me distraia".
Conversa amena, tímida,
meio boba.
E eu me dei conta de que não queria que ele fosse embora.
Carência, talvez.
Lua em Virgem,
músicas da Florence,
mas eu só queria saber um pouquinho mais sobre esse cara aleatório fazendo piadas sobre assentos de ônibus.
Passenger's seat.

Uma menina  foi falar comigo, me disse que o James estava passando mal
"e o dever chama", eu expliquei a ele.
E ele simplesmente
foi junto.

James, meio morto, meio vivo.
Eu olho pra ele,
olho de volta pra esse cara, um Pedro, de mil Pedros que eu já conheci,
só mais um Pedro,
talvez O Pedro,
tantas possibilidades,
ou não.

- Você precisa de ajuda?

E eu sei que vou me arrepender, já tô me arrependendo quando digo
- Não, obrigada. Eu vou levá-lo pra casa.

Apertamos as mãos,
tu Pedro,
eu B.

E isso é tudo, absolutamente tudo o que eu sei sobre você.

A gente podia ter se beijado,
eu podia ter gostado,
você podia ter gostado,
números de telefone,
conversas antes de dormir,
a gente sairia
e daria uns amassos,
só pra eu perceber que ainda não tô pronta pra seguir em frente.

Um pedro,
talvez O pedro.

Aperto tua mão sabendo que,
Brasília é um ovo.
Se for pra ser você, quem quer que você seja,
a gente vai se ver de novo.

Até logo,
ou até nunca mais.

31x02 Aphrodite Lady Seashell Bikini

Imagem: TingTing Huang

Fechei os olhos, música ruim, nem um pouco bêbada.
Bored as fuck.

Os rapazes passando, a vida passando,as pessoas se beijando aqui e acolá, gosto de Heineken na boca.
Eu não queria ir embora.
Mas não queria mais ficar.

Fechei os olhos, último fim de semana do vênus, e eu encostada na parede, movendo as pernas de mansinho. Sussurro breve, brisa com cheiro de grama recém-cortada: decidi confiar.

Dancei. Uma duas, mil músicas ruins.
Até que você chegou.

E me assustou.
Me fez rir.
Me fez mentir.
Me fez sentir pena, familiaridade, um pouco de medo, posição defensiva.
Falou comigo e eu ri.
Dei um passo pra trás, mas o espaço não era suficiente pra fugir da sua boca.

Aí você me beijou.
E, surpresa das surpresas,
foi bom.

Eu sóbria, você nem sei,
as músicas horríveis derretendo junto com a luz,
minha boca com gosto de cerveja, a tua com gosto de cigarro e de promessas.
Foi bom.

De um jeito diferente de todos esses últimos meses, livre de culpa e de tristeza, só beijo, beijo só.

Pediu meu número, prometeu sorvete.
Eu te fiz rir.
E você foi embora.

Dei de ombros, vocês sempre vão embora.
Geralmente, eu não ligo.
Mas liguei.

Olhei o visor do celular, procurando uma coisa qualquer.
Uma.
Duas.
Três.
Cem vezes.

E nada.

Veio o Dragon Maker perguntar se queria sair,
Eduardo-o-arquiteto chamando pra beber,
mais um ou outro.

E nada de você.

Dei de ombros.
Mas olhei o visor do celular
Uma,
duas,
três
e você apareceu.
E eu percebi que tinha estado esperando.

Loucura, é, nem te conheço.
Mas quero.
Não me sinto assim há um tempo, muito tempo.

Frio na barriga,
você fala,
e eu só quero que você não pare de falar.

Quero gostar de você.

Loucura, é.
Nem te conheço.
Mas quero.

Wish me luck.

28x18 Madeira morta (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Eu estava sentada na sala, vestida de branco, com aquele vestido, é.
E eu me olhei no espelho, rememorando cada passo da maquiagem de véspera de ano novo, mexendo nos cabelos sem parar, tentando parecer menos "fofa" e querendo desesperadamente que fosse uma noite especial, tentando entender o que é que faltava ali.
Arrumei o cabelo uma, duas, doze vezes, contei e recontei dinheiro, conferi tudo.
E me olhei no espelho. Não estava certo.
Faltavam duas horas pro ano-novo, pra tudo mudar, porque algo me dizia que algo místico estava prestes a acontecer.

Mas ainda era eu.
Era isso o que estava errado.
Eu não queria mais ser só eu.
Porque eu nunca sei o que fazer, não tomo decisões, fico extremamente fora de controle, eu tenho essas ideias ridículas, não sou boa o bastante em nada.
O que está errado é que eu estou vendo uma garota que não consegue seguir em frente, não consegue voltar atrás. Minha postura está errada, a sombra está opaca demais, esse não é o batom para o meu tom de pele, minhas olheiras não estão corrigidas do jeito certo, meus seios são muito pequenos, eu estou magra demais pra parecer sexy, esses sapatos são muito sérios, meu cabelo é muito bagunçado, minhas pernas não são longas, as outras garotas são mil vezes mais bonitas e mais divertidas, meu ex-namorado fugiu correndo para as colinas e Deus sabe o quanto ele aguentou antes de finalmente fazer isso, ninguém mais vai gostar de mim, eu acabei de dizer pra um cara que preferia que não nos víssemos mais quando o que tínhamos era o mais próximo de um relacionamento que eu vou ter com alguém um dia, minha cabeça está povoada de ideias que eu tenho medo de passar pro papel, ninguém nunca mais vai fazer meu coração bater mais forte, eu não quero mais sentir isso, eu não tô pronta pra ficar próxima de ninguém, eu não deveria ter usado esse creme perfumado, eu não sei se quero ir pra essa festa, eu tô em pânico, eu não sei se vou ser uma boa médica, eu não sei nem se vou conseguir me formar, e se eu estiver grávida, eu sou uma péssima irmã, e uma péssima filha, não sei como falar com meu pai de novo ou se vamos nos falar de novo, eu só queria que ele tivesse gostado da minha família como eu gosto dela, eu queria que eles não brigassem tanto, eu odeio meu corpo, eu nunca mais quero amar ninguém, eu queria voltar no tempo e mudar tudo tudo tudo tudo todas as coisas horríveis que eu disse e fiz, eu tenho muito medo de mudar eu não consigo eu tenho tanto medo de não ser eu, eu não gosto de quem sou e ao mesmo tempo, não conseguiria ser outra pessoa, eu falo coisas horríveis o tempo todo eu queria ser uma boa pessoa, eu queria ser boa, eu queria ser melhor do que isso, eu

- Tá pronta? - James pergunta, olhando pra mim pelo reflexo do espelho.
Aceno com a cabeça, tô pronta.

Tô pronta.
Tenho que estar.

27x12 No mythologies to follow

Imagem: TingTing Huang

Bebi muito.
Anestesiada, boba.
Boca e cérebro praticamente desligados, desinibida.
Aí Pégaso chega, luz, fumaça e verde, cabelo cortado, que eu não vou tocar.
Lembro da sua pele lisa, clara-escura, boca macia, cheiro de pele, suas pintas, a textura do seu rosto, barba por fazer, o gosto da sua boca.
Overwhelming. Me dou conta de que estou bêbada demais pra minha própria segurança.
- Não me deixe falar com ele, por favor - peço-imploro para a outra B., estrelas, K.
Porque eu quero. Mais do que qualquer coisa no mundo, eu quero usar essa desinibição pra dizer qualquer coisa, oi, você ainda me ama? Porque eu tô com medo de ainda te amar, mas com mil vezes mais medo de já ter superado.
Fico com medo de mim. Repentinamente, percebo que vou atrás de você. Vou ser humilhada, vou me sentir mal, suja, só. De novo. Percebo que você vai rir de mim, ou me ignorar e que vai ser a morte pra mim.
No meio do meu quase estupor alcoólico, corro até ele - King. Encontro-o sentado, quieto. Por um segundo, sinto medo, culpa.
Olho nos olhos dele,"sinto muito, mas é preciso".
Ele me olha de volta, sem entender. Só vê uma menina bêbada e olhuda. Me chama pra dançar. Aceito, mesmo que não seja preciso, vamos acabar logo com isso, não precisa tentar demais, só vamos logo.
Mas King é um bom rapaz. Dançamos, bebemos mais, caminhamos. Lua, lago, ele fala de si, da ex-namorada, coisas que eu sei e coisas que não sei, que me pego querendo saber.
Olho pra ele e sinto que ele não merece isso, ninguém merece isso. Eu estou fazendo de novo, traindo a torto e a direito, mentindo, me destruindo aos poucos e levando outras pessoas comigo. Eu não vou te usar pra isso.
Viro pra dizer algo, explicar, mas a boca dele já está a meio caminho da minha, língua, dentes, pele, gosto de álcool. Fecho meus olhos, meus pensamentos e viro um bando de conexões, substâncias, receptores ensandecidos, o de sempre.
Tô estragada, mas não importa. Não importa quem sou, ele não quer saber de que lado da cama eu durmo, que quero conhecer a Coréia do Sul, gosto de filmes dos anos 90. Ele só quer conhecer a cicatriz nas minhas costas, independente de onde veio, o peso do meu corpo, a força dos meus músculos, o gosto do meu pescoço, as curvas do meu corpo.
Eu também não quero sua dor, King. Eu quero sua boca, sua vontade, seu aperto, sua sombra. Mais do que tudo, quero a proteção temporária de mim mesma, toda a dor que você vai me causar nos próximos dias, quando eu o vir e não souber o que ele pensa. Cada vez que eu me condenar, cada vez que eu olhá-lo e não me sentir mais digna de falar com ele.
Eu precisava disso, e só disso.
Do golpe final,
da certeza doida de que você nunca mais
vai me querer de novo.

20x23 Sober

Imagem: TingTing Huang

Pensei que toda essa estupídez fosse culpa da bebida.
Aí fiquei sóbria.

Não deveria ter feito isso.

20x12 Girls

Imagem: TingTing Huang

Tinha me esquecido como era incrível ter amigas normais, daquelas que entendem do que você fala e as piadas que você conta (Não me entenda mal, eu AMO as amigas que já tinha, muito, e não as trocaria por nada no mundo).
Há séculos que só eu penteio meu cabelo (desde 11x16 Feminist Sweepstakes ) e ninguém opina sobre minhas roupas ou me dá atenção e conselhos sobre futilidades. Conselhos que não tenham relação alguma com cortes, graxa e socos.
Eu gosto disso. Mesmo. Espero que dure. 
Quero fins de temporada com danças pra espantar a tristeza, músicas pra espantar a ansiedade, girl talks, um pouco mais de Marnie, Shosh, Jessa e Hannah - sem todo o sexo kkk.
Gosto de poder pedir socorro, rir de algo ou só escutar, ser solidária, emprestar coisas ou deixar de lado.
É lindo.

É bom, véi. (:

16x24 On my way to believe

Imagem: TingTing Huang

"Detodas as pessoas aqui, você é a única que vale a pena", ele me disse.
E eu não senti nada, eu só quis ir pra casa.
"Por favor. Eu não valho a pena, não mesmo", eu disse.
Não era mentira. O pico tinha passado e eu me sentia lixo, eu era lixo.
"Não diz isso. E eu não vou dizr mais nada, mas você tá sozinha porque quer".

Eu quero estar junto, mas não desse jeito. O qu eu quero é uma espécie de verão eterno e ninguém pode me dar isso.
E eu quero Otto, mas ficaria com Gusto pelos motivos errados, porque ele me daria conversas e ideias.
Mas eu tenho a impressão de que as coisas são lentas demais.
Às vezes eu sonho com um olhar só, que vai me dizer tudo. Eu não quero ficar junto pra sempre, eu não quero não ficar junto. Eu quero que as coisas caminhem sozinhas, no seu próprio tempo. Sem planos, sem passos.
Esem aquela fase da corte, da conquista.
Talvez eu seja mesmo "toda errada", como dizem, mas eu prefiro mil vezes dar as mãos (eca) do que ouvir essas palavras vazias que, acredito, só fazem sentido quando as luzes não se apagaram.

3X19 Parte 2 - So happy I could die


Quando se sobe em uma roda gigante, ela te leva, inevitavelmente, pro alto. Eu tenho medo de altura. E amo rodas gigantes.
Eles gritaram surpresa, e eu já tinha 17. Mas quando eles gritaram, aí sim eu cresci.
So you can’t hold a star in your hand though

Como eu pude deixar isso tudo?
Era tão perfeito, tão cheio de significados, tão seguro.

and it feels just like the ground

Mas, quando as luzes começaram a piscar, todos tinham evoluído. Enquanto eu dançava de olhos fechados.
O que acontece no mundo lá fora enquanto estou presa nos meus pensamentos?

rusted wheel planted still
rusted wheel can't move on


E eu tive certeza que tinha que deixá-los, pra que crescêssemos longe da sombra uns dos outros. Certeza, não. Mas eu soube disso, de algum jeito.

so you can't hold a star in your hand though
at least you can move on to that better plan


Os olhos deles me diziam isso, mas entre todos eles, havia o dele. Ele nunca olhou pra mim de maneira diferente, ele e eu podemos evoluir, mas seremos a mesma coisa um pro outro, sempre.
Acho que não mudar, é isso o que me faz levantar às vezes.

2x12 June said, I did.


Alguns de vocês, leitores imaginários, provavelmente se perguntaram o que houve. Com minhas paixões instantâneas e todo o resto. Ou talvez nem tenham se preocupado, talvez tenham continuado vivendo suas vidinhas que não ousarei chamar medíocres, posto que a minha também não é grande coisa, e ouvido mais do que o silêncio que é tudo o que me resta - sem música = tédio -.
O que aconteceu foi o que eu previa. Não posso culpar minhas influências, nem mesmo culpar o retorno de minha velha amiga por isso. Bebi. Comecei com o Martini e terminei com Uísque. E não me arrependo disso, precisava disso. Tinha me esquecido da sensação de estar queimando por dentro, da sensação de estar sendo apagada aos pouquinhos... Não se preocupem, não vou voltar a urinar em telhados alheios apenas porque bebi um pouquinho aqui e ali.
Sabem do que estou cansada hoje? De nunca me deixar levar. De lutar pra não ser arrastadas por essas correntes loucas de amor livre, homossexualidade e ódio. Dane-se eu, dane-se você falso moralista. Se podemos fazer o que queremos, pra quê tantas barreiras mentais? Quero mais é transbordar e me juntar às outras correntes - filosóficas ou não -, deixar que Annabelle me leve pela mão e me mostre o mundo que eu conheci e de onde jamais deveria ser saído.

Você pode me entender, sem esforço algum, é só que estou cansada de ouvir as peripécias de outros e apenas sorrir;
de sentir cheiros dos quais desisti apenas por um moralismo que nem sequer possuo;
de amar e esperar algo em troca, pra quê, minha mosca?! Se não pertencemos nem a nos mesmos?;
de ter medo de sair e de sorrir, de ter medo de errar e nao ser amado por ninguém;
e, principalmente, estou cansada de nunca ter algo a dizer que já não tenha dito milhões de vezes.
June pode ter dito tudo que estou dizendo, mas aposto que ela não teve a mesma convicção que eu.
E, aposto que ela também não tinha que ser anfitriã de uma festa de arromba pré prova como eu. ;D

23 dias para a festa e contando...