Imagem: TingTing Huang
Denial
Acordei no chão da sala.
Você não era mais meu.
Meu.
Você nunca foi meu, você não podia ser de alguém.
Que pena.
Dei de ombros, fui pra aula.
Vi você. E te reconheci como algo a parte, alguém que não era meu, que não era eu, que não era parte de mim. Era só você e eu era eu. Fui pra casa sufocando, sabendo que quem sufocava e morria era o nós, e que eu sobreviveria a ele. A esse nós e a muitos outros que não envolveriam você.
Senti sua falta.
Comecei a esquecer coisas, números, informações, a me irritar com tudo e todos - cada comentário , cada história, cada pedaço de informação -, fiquei apática, morta, cansada. Deixei de dormir. E, quando dormi, tive sonhos vívidos, incômodos, tolos, que me faziam acordar às 3 da manhã e ficar olhando pro nada, pro teto, pro chão.
Era abstinência.
Queria falar com você. Sobre tudo, sobe nada. Sobre nós. Sobre provas finais. Sobre filmes ou pacotes de internet.
E falei.
E me senti estúpida, tão pequena, tão boba, tão mimada, tão fraca.
Passei a te escrever mensagens em origamis que eu sei, embora não vá admitir, que eu queria que você lesse.
Eu queria você. E juro que achava que não, achava que não estava sentindo nada e, talvez, não estivesse mesmo. Foi uma época estranha.
Eu te queria, como sempre, como antes, e sabia que nunca mais iria te querer de novo.
Eu já vivia minha vida como se você não tivesse existido e isso doía, mas era uma dor surda, à qual me acostumei rápido.
Ocupei o tempo. Todo ele. Cada segundo.
E você morreu em algum canto da minha mente.
Fiz as provas, falei com você, mas você não era você. O você que eu amava estava jogado em um canto de mim e, a cada vez que nos falávamos, eu percebia, com mais força: não era você.
Dessa vez, eu não podia confundir os dois, eu não ia confundir os dois.
Comecei a beber, quando as aulas acabaram. E só fiquei sóbria na manhã em que voltei pra casa. Tinha que dirigir. E, então,obtive permissão pra morrer também, pra secar e murchar.
Mas eu estava ok.
Conversamos. Você até falou comigo.
E foi quando eu entendi que te amava. Que te queria bem. E que não iríamos voltar. Que esse tempo todo eu tinha sufocado, em parte, o alívio por não estarmos mais juntos. Por não ter mais a oportunidade de te magoar.
Adoeci uma, duas, três vezes.
E quis você. Mas você nem existia mais.
Era só eu,
como tinha que ser.
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9x19 Scar
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: Sexy Fitsum
- Vamos fazer um pacto?
Ele me estendeu aquele estilete sujo de sangue.
(Às vezes, quando penso nessa cena, me lembro de o sangue dele ser azul)
Um corte superficial, na ponta do dedo até o meio da palma, sangrava sangue azul.
Eu não pude.
Nunca fui corajosa como ele. Nunca me cortei, corri demais.
Sempre disse "não posso", como naquele dia.
- Tudo bem, Bels, tudo bem.
Mas não estava tudo bem. Eu queria uma cicatriz como essa. É que eu não queria que ele soubesse, eu nunca quis que ninguém soubesse: meu sangue não é azul.
- Vamos fazer um pacto?
Ele me estendeu aquele estilete sujo de sangue.
(Às vezes, quando penso nessa cena, me lembro de o sangue dele ser azul)
Um corte superficial, na ponta do dedo até o meio da palma, sangrava sangue azul.
Eu não pude.
Nunca fui corajosa como ele. Nunca me cortei, corri demais.
Sempre disse "não posso", como naquele dia.
- Tudo bem, Bels, tudo bem.
Mas não estava tudo bem. Eu queria uma cicatriz como essa. É que eu não queria que ele soubesse, eu nunca quis que ninguém soubesse: meu sangue não é azul.
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3x13 The Colors of Chaos
Postado por
garota solteira procura,
Localizo com os olhos as pequenas manchinhas no teto do quarto enquanto aperto o travesseiro com as mãos.
Alguns meses atrás, esse travesseiro estaria de encontro ao meu rosto e eu estaria desesperadamente conter o sentimento de fracasso, o fracasso emanando de mim, como se fracasso fosse uma doença contagiosa.
Meses atrás eu cobri minha cabeça, disse a mim mesma que era possível que eu sufocasse e morresse. Eu quis, mas não queria realmente, morrer ali também. Mas eu sabia que iria querer de novo, em breve.
Acho que essa certeza que eu tinha de que passaria pelo mesmo é que me faz não querer repetir aquilo.
Na minha cabeça, há também a nova constatação de que querer morrer é extremamente infantil. O que não é verdade. É só mais um pequeno pensamento tacanho na minha cabeça semi adulta.
Acho que é isso sim. Quando se tem certeza absoluta do fracasso - embora um leve requício de esperança -, ele não é tão ruim assim.
(É, diga isso pra mim, diga isso pra mim várias vezes até que eu acredite)
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