Imagem: TingTing Huang
Entramos no carro, repassamos o cronograma e ele me beijou, como sabíamos que faria.
Me puxou pra mais perto, como sabíamos que faria.
E, de repente, ele não era mais o mesmo, aquele momento poético e tétrico em que uma pessoa se torna puro instinto.
Ele esqueceu a hora, a vontade de ser compreensivo e calmo, o juízo.
Levou o meu junto, vazando pelos poros, saindo pela respiração curta, ruidosa.
Ele me segurou como quem diz "Não me importo com mais nada agora", como se só aquilo existisse, sem amanhã, sem juízo, sem ninguém.
Trocamos calor, átomos, pele lisa, febril, o ar tão quente que era quase impossível tolerar.
Toquei seu rosto e ele suava, derretia, febril, delirante, sem luz, sem penumbra, mas, ainda assim, poético, cru, humano, vivo.
Tão cru e tão bonito. Pele pura, lisa, úmida, quente.
Achei linda e perturbadora toda aquela vontade, e eu ali, sem saber exatamente o que fazer, o que querer, até onde ir.
Fiquei com medo, "eu nem te conheço", e o que é que você sabe de mim? Esse corpo é meu, isso é meu?, dei dois passos pra trás e nos perdemos um pouco, ele longe demais dos limites entre certo e errado, tentando me dizer com dentes, peles e movimento, "there's no need to complicate".
Mas já era tarde, já estava tudo complicado.
Já está tudo complicado,
E eu não sei como descomplicar.
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27x11 Ghost Protocol
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um cara que fazia dragões
27x10 Parks and recreation
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Imagem: TingTing Huang
Parque, rodas gigantes, vento frio, chuva. Começamos clichê.
Te expliquei neuro, Merkel e Meissner, te beijei a boca, você me beijou, debaixo de chuva, tempestade e ímpeto.
Caminhamos pelo parque escuro, sem saber onde íamos chegar (e ainda não sabemos), sua boca longe da minha, sem saber o que fazer, o que era permitido dizer, o que era permitido pensar.
Kartódromo, música, psicopatas em potencial, deixamos tudo pra trás e nos sentamos na beira de uma lagoa, no meio do nada, no meio de tudo; Dentes e boca, lábios, sua língua de textura diferente de todas as outras, seus dentes me mordendo e não me mordendo.
Fiquei com medo. De ser velha demais pra tanta irresponsabilidade, de ter medo demais pra deixar as coisas acontecerem.
E você derrubando muro atrás de muro, abrindo caminho com os dentes, enquanto eu os erguia de volta, sob seu olhar atônito, com o gesto simples de colocar a alça da roupa no lugar.
Você me olhou daquele jeito, daquele jeito que a gente olha quando quer alguém, respirou do jeito que a gente respira quando quer alguém, me tocou do jeito que a gente toca em alguém que a gente quer.
E isso também me deu medo.
De mim, das coisas, de mudanças, de um coração inflado, murcho em cima do guarda-roupa, das pessoas, da vida, do amanhã, do meu corpo e do seu, da percepção súbita de que eu estava apavorada e, por isso mesmo, era tudo tão fascinante.
Sentei na grama, respirei fundo, sem querer ir pra casa, sem querer evitar esse medo.
Eu precisava sentir isso.
E tudo o que viesse com ele.
"Let it be", eu disse pra noite, dragões, grama e corpos, "vamos sair daqui".
Parque, rodas gigantes, vento frio, chuva. Começamos clichê.
Te expliquei neuro, Merkel e Meissner, te beijei a boca, você me beijou, debaixo de chuva, tempestade e ímpeto.
Caminhamos pelo parque escuro, sem saber onde íamos chegar (e ainda não sabemos), sua boca longe da minha, sem saber o que fazer, o que era permitido dizer, o que era permitido pensar.
Kartódromo, música, psicopatas em potencial, deixamos tudo pra trás e nos sentamos na beira de uma lagoa, no meio do nada, no meio de tudo; Dentes e boca, lábios, sua língua de textura diferente de todas as outras, seus dentes me mordendo e não me mordendo.
Fiquei com medo. De ser velha demais pra tanta irresponsabilidade, de ter medo demais pra deixar as coisas acontecerem.
E você derrubando muro atrás de muro, abrindo caminho com os dentes, enquanto eu os erguia de volta, sob seu olhar atônito, com o gesto simples de colocar a alça da roupa no lugar.
Você me olhou daquele jeito, daquele jeito que a gente olha quando quer alguém, respirou do jeito que a gente respira quando quer alguém, me tocou do jeito que a gente toca em alguém que a gente quer.
E isso também me deu medo.
De mim, das coisas, de mudanças, de um coração inflado, murcho em cima do guarda-roupa, das pessoas, da vida, do amanhã, do meu corpo e do seu, da percepção súbita de que eu estava apavorada e, por isso mesmo, era tudo tão fascinante.
Sentei na grama, respirei fundo, sem querer ir pra casa, sem querer evitar esse medo.
Eu precisava sentir isso.
E tudo o que viesse com ele.
"Let it be", eu disse pra noite, dragões, grama e corpos, "vamos sair daqui".
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Tiago Iorc,
um cara que fazia dragões
27x08 Walking cliché
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Imagem: TingTing Huang
Saímos, Dragon Maker e eu.
Parque, ingressos, eu estava preparada pra te beijar a boca na roda gigante, pra gostar, pra ficar triste.
A vida achou que era pouco: choveu, os brinquedos pararam.
Nos sentamos na chuva, eu entre feliz e triste, livre e presa debaixo da sua jaqueta.
Não tínhamos papel, nem dragões, mas eu tinha minhas mãos e seus receptores
Ruffini,
Paccini,
Órgãos terminais do pêlo,
Merkel,
Meissner,
você entendeu a deixa e me beijou.
Beijei de volta, Merkel, Meissner, Ruffini, Paccini, tudo ficando elétrico, enquanto a chuva caía, o parque piscava e eu deixava de ser eu pra ser só eu.
Porque era novo, não tinha dono, tudo era novo. A música de parque, sua boca, a textura engraçada da sua língua, seu cabelo recém-cortado.
"Pode ser bom", você tinha dito.
Tirei a blusa da cabeça e te beijei de volta.
É, pode ser bom.
Vamos ver.
Saímos, Dragon Maker e eu.
Parque, ingressos, eu estava preparada pra te beijar a boca na roda gigante, pra gostar, pra ficar triste.
A vida achou que era pouco: choveu, os brinquedos pararam.
Nos sentamos na chuva, eu entre feliz e triste, livre e presa debaixo da sua jaqueta.
Não tínhamos papel, nem dragões, mas eu tinha minhas mãos e seus receptores
Ruffini,
Paccini,
Órgãos terminais do pêlo,
Merkel,
Meissner,
você entendeu a deixa e me beijou.
Beijei de volta, Merkel, Meissner, Ruffini, Paccini, tudo ficando elétrico, enquanto a chuva caía, o parque piscava e eu deixava de ser eu pra ser só eu.
Porque era novo, não tinha dono, tudo era novo. A música de parque, sua boca, a textura engraçada da sua língua, seu cabelo recém-cortado.
"Pode ser bom", você tinha dito.
Tirei a blusa da cabeça e te beijei de volta.
É, pode ser bom.
Vamos ver.
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