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46x04 Multiverso

 

Imagem: TingTing Huang

Em algum lugar no universo, tem essa mulher. 

Eu não sei o que ela faz, eu não sei como ela é. Mas eu sei 

Eu sei que ela gosta de música, de cinema e de dar as mãos. 
Eu sei que ela dá muitas risadas e esconde a cabeça no seu ombro quando ri muito alto. O som da risada dela é engraçado. 

Eu sei que vocês ouvem música às vezes, no finalzinho da tarde. 
Eu sei que vocês tem uma música só de vocês, que não revelam pra ninguém. 
Sempre que toca, vocês se entreolham, onde quer que estejam. 

Eu sei que vocês são felizes. 
Eu sei sobre o primeiro beijo de vocês, na penumbra, ou na chuva, ou no seu carro, quando você estacionou pra deixá-la mais perto do carro dela. Na calçada. 

Eu sei que vocês tem uma linguagem secreta de sinais e que, às vezes, não precisam nem conversar pra saber no que o outro está pensando. 
Eu sei que você contou pra ela alguns segredos que nunca tinha contado pra ninguém. Morreu de medo, mas, depois, se sentiu tão mais leve. 

Eu sei que ela se sente insegura às vezes, fica com medo do que vai ser, se vocês vão mesmo ficar juntos pra sempre, pra sempre é tanto tempo.
Eu sei que você já se acostumou com o caos que ela deixa por onde passa. 
Eu sei que ela não tem tido mais pesadelos, desde que você começou a dormir em casa. 

Eu sei que ela acha que você cozinha melhor do que ela. 
Mas, também, eu sei que ela acha que tudo o que você faz é incrível, maravilhoso, perfeito e mágico.
Eu sei que ela pensa, secretamente, se vocês foram feitos um pro outro. 
Eu sei que ela pensa que vive em um filme romântico dos anos 90. 

Eu sei que ela gosta do seu cheiro, do cheiro que você deixa no carro e na casa. 
Eu sei que ela pensa o dia inteiro sobre as partes do seu corpo que ela ainda não decorou.
Eu sei que ela cria poemas sobre a textura da sua boca e o jeito como você beija

Eu sei que ela te adora, e adora o seu corpo e a sua voz e o jeito como você anuncia a sua chegada, tanto que às vezes ela até se assusta com essa intensidade. 
Eu sei que ela adora quando você ri alto, de um jeito inesperado.
Eu sei que ela odeia a sua ausência. 

Eu sei que ela se pergunta se é possível ficar sem você, e tem medo da resposta. 
Eu também teria medo. 

Eu também tenho medo da resposta. 

44x08 All you had to do

Imagem: TingTing Huang

"Me dá a mão",
eu peço.

Mas você não pode. Suas mãos estão cheias, ocupadas, sujas de sangue e memórias arrancadas às pressas.

Eu preciso de você. Hoje, agora.

Mas você não pode ficar. Está tarde.
Muito, muito tarde.
Tarde demais.

Eu só preciso de mais tempo.
Um pouco de tempo, pra melhorar, pra ficar bem.
Pra ficarmos bem.

Mas você não pode esperar.
Seu trem chegou e tem outros lugares pra onde você quer ir.
Lugares onde eu não posso ir.

Eu quero te pedir pra ficar,
eu te peço pra ficar,
mas você não pode dizer nada.
É segredo, uma das coisas que eu nunca devo entender.

Viajo o mundo,
fujo de casa,
fujo de mim,
pra ir atrás de nós,
no meio de um deserto de concreto.

Mas você não pode me beijar com os lábios colados aos de outras pessoas.

E agora eu vejo, não entendo completamente, mas percebo:
tudo o que você tinha que fazer era ficar.
Mas você não podia, você não podia mais.

E eu entendo que você tinha seu próprio sangue pra purificar,
mas eu não posso mais achar desculpas pra você.
Preciso achar desculpas pra mim.
E me perdoar por não ter sido perfeita.
Por não ser perfeita.

Eu te pedi pra ficar,
e você foi embora.

Tudo bem,
continue.

Continue andando,
não olhe pra trás.

Não tem nada lá.

43x08 Her

Imagem: TingTing Huang

Estive seguindo a mulher que amo.
Porque eu a amo, e não tem outra forma de escrevê-lo.

Eu a amo.

Ela acorda todos os dias, e eu a ouço acordar, do apartamento ao lado.
Eu a ouço colocar música pra tocar, canções alegres ou tristes, a depender do seu humor.
Eu a ouço tomar banho e imagino seu corpo nu e molhado.

Eu a ouço destrancar e trancar a porta, e seus passos ecoam no corredor e nas escadarias até desaparecerem no vento cortante da manhã, após a batida da porta de metal que nos separa do mundo lá fora.

E então eu desço.
Já estou pronto desde cedo, desde antes das 5, insone, triste, ansioso, desesperado, sóbrio de uma forma nova e intensa.

Saio sem bater a porta, e caminho sem correr.
Eu sei pra onde ela vai.
Eu sei quantos passos ela dá até o ponto de ônibus e sei que ela vai tomar um café barato e doce antes de mais nada, pra começar bem o dia.
Eu sei que ela vai se encolher quando o vento estiver forte demais, e prender os cabelos quando estiverem sujos.

Cabelos negros, brilhantes, fortes, longos, com cheiro de xampu de maracujá que eu sinto no corredor quando o banho dela leva mais do que 5 minutos.

Ela entra no ônibus, e eu entro algumas pessoas atrás, caminho até o fundo, como se ela não existisse, como se ninguém existisse.
Sacoleja o ônibus, sacoleja meu estômago com a proximidade entre nós.
Eu estou aqui.
Ela está aqui.

Alguém se levanta e ela senta, mas não sem antes olhar para os lados, à procura de alguém que precise se sentar mais do que ela.
Seus olhos quase encontram os meus, por um milésimo de segundo, mas eu desvio o olhar para algum prédio estúpido.

Ela abre o livro,
o livro que eu deixei na caixa de correio, endereçado a ela, sem dedicatória, sem remetente, nada,
e meu coração saltiteia.

Sinto minha pele queimar quando ela passa as páginas, como se eu fosse o livro, como se o livro fosse eu.

Consigo me sentar, finalmente, e fico atento às paradas, ao céu azul e limpo, pessoas nas ruas, correndo, se apressando,
sem saber o que é amor,
sem saber o que é amar.

Uma parada antes, eu desço e me apresso, corro, aproximo os metros que nos separam.

E ela está lá.
Cabelo balançando, blusa de frio fechada até o pescoço,
e os olhos,
os olhos.

Conversa com a melhor amiga, de quem já sei absolutamente tudo, enquanto eu observo, de longe. Elas riem, em alto e bom som,
e eu só quero rir também, eu só quero fazê-la rir, eu quero abraçá-la e aquecê-la, levá-la pra casa pela mão.

Eu quero saber como foi teu dia, mas você se fecha,
desaparece,
e volta com algum cara que eu torço pra não ser o mesmo de sempre,
vocês brigam e ele vai embora, mas volta.

Eu quero cozinhar pra ela,
fazer o café,
podemos até discutir política, eu te ouço discutir, eu te ouço brigar com a televisão.

As risadas morrem aos poucos, enquanto as duas entram no prédio.

Acendo um cigarro, trêmulo,
desajeitado.

Sou um maluco,
um puto psicopata desesperado, errado, completamente louco, um merda.
merda.

Olho no relógio.
Ela sai pra almoçar às 13. Faltam 5 horas.
Fico na dúvida se volto pra casa ou se espero.

Ela está bem.
Vai ficar bem.
É o que importa, certo?

Volto pra casa,
leio,
escrevo, ansioso, perturbado,
fumo,
fumo, fumo
desesperadamente.
Estou arrependido de tê-la deixado só, de tê-la deixado voltar sozinha
Qualquer coisa pode ter acontecido.

O mundo é cheio de gente ruim,
de gente doente.

Pego o celular, pego dinheiro, eu vou atrás dela,
eu preciso ver se ela está bem,
abro a porta e
ouço a porta de ferro bater.
Passos nas escadas.
Fecho a porta e prendo a respiração;
até ouvir os passos passarem pela minha porta, pararem na dela,
chave na fechadura

e eu posso respirar, com o ouvido colado na parede.

Tô ficando louco.
completamente louco.

Acendo meu último cigarro do dia,
e me sento perto da tua parede, enchendo a sala de fumaça,
pra te ouvir caminhar, e fazer o que quer que você faça,
até você dormir,
pra eu poder dormir
e sonhar com você,
dias melhores,
tua mão na minha

abrir a porta,
te encontrar no corredor,
dizer meu nome,
perguntar o teu
sair pro mundo lá fora contigo.

Nem atrás, nem na frente:
do teu lado.

Boa noite, Berenice.
Até amanhã.

42x13 Blur

Imagem: TingTing Huang

Eu te pedi que me machucasse.
Um de nós tem que fazer isso. É assim que essa história acaba.
Mas você me pediu que parasse de te pedir pra me machucar.
"Tem jeitos melhores", você disse.

Mas isso é tudo o que eu conheço.

Eu estou aqui,
mas eu não estou aqui.

Não aconteceu,
eu não estou acontecendo.
Eu não estou.

Eu acordo (eu sempre acordo)
Dirijo meu carro
Trabalho
Converso
Eu cuido
Dirijo meu carro
Deito na cama
E o dia acaba
E o dia começa

O mesmo dia?
Ou será outro dia?
Faz diferença?

Não faz.

É sempre o mesmo dia.

E eu sempre acordo.

Eu sempre dirijo

Mas eu não estou

Eu sinto todas essas sensações ao mesmo tempo.
Náusea.
Uma náusea absurda que toma todo o meu corpo e que não vem do estômago, vem de mim, vem das minhas costas e pernas e dos meus olhos e eu quero vomitar, mas
Tem dor
E cansaço

E eu quero vomitar,
eu quero chorar,
mas eu durmo

E dirijo

E as luzes, os carros, o despertador, as vozes, os rostos, os sons

É sempre o mesmo dia

Sempre o mesmo dia

Você sabe o meu nome?
Porque eu não tenho um.

Eu dirijo

E acordo

No mesmo dia
É sempre o mesmo dia

Sempre o mesmo gosto

As mesmas paredes

As mesmas dores

Eu dirijo

Eu dirijo

Eu dirijo

Eu dirijo

E acordo.

42x09 Mother!

Imagem: TingTing Huang

E então ela se ergue sobre a cabeça da Caçadora ferida, e ela sabe,
ela sempre soube,
que essa hora chegaria.

Foi pra isso que ela caminhou sob o sol, saiu de casa caminhando no escuro de um dia de verão, quente e seco,
foi pra isso que ela reuniu tudo o que podia,
sangue, sêmen,
uma página em branco arrancada do caderno do karma,
uma armadura cheia de amor, com cheiro de azul e pequenas pintas pretas espalhadas feito uma constelação,

foi pra isso que ela correu, foi disso que ela correu por todos esses anos,
apenas pra ser trazida de volta ao começo,
seguindo o cheiro do seu próprio sangue.

Era chegada a hora de matar seu próprio monstro.

Ela sentia o cheiro de terra da sua primeira casa,
seu primeiro cachorro,
a textura dos azulejos da casa da sua avó,
cheiro da fumaça de cigarros,
o gosto de sal das suas próprias lágrimas,
cada dor,
cada oração da sua voz de criança,
suas costas doendo, vergando sob o peso de vários mundos que não eram seus,
o sangue úmido de uma pessoa amada molhando suas pernas

Ela tinha medo.
E sabia.
Ela sabia.
E sabia que o medo não significava que ela não podia atacar.
Era só medo.

Então ela atacou com as mãos nuas,
usou toda a força guardada em cantos escuros da Brasília de baixo,
cada pedaço de medo,
até a Besta parar de lutar.

Ela emergiu do sangue, ofegante,
assustada,
triste,
doente,

vitoriosa.

Ela podia fazer o que quisesse, agora.

Ela podia até ser feliz.

40x08 Of other girls in different lights

Imagem: TingTing Huang

Gosto do escuro. O escuro na sua boca, o escuro da suas pupilas, o escuro dos cantos do seu corpo, nas notas da sua voz sussurrada e nos pigmentos da sua pele e pelos.

O tom violáceo da primeira luz da manhã que vejo de dentro do seu carro, hematomas e pequenos machucados de bater em portas, quinas, e sua língua roxa depois de beber suco de uva.

Gosto da luz das lâmpadas fluorescentes refletidas nas suas unhas, da luz e sombra das curvas do seu corpo.

Gosto das luzes que piscam quando você abre e fecha as mãos, as luzes no seu rosto, nos seus dedos, o gosto de luz na tua boca, joelhos e orelhas. A luz da tua voz

A sombra da tua ausência. A luz nas pontas dos teus dedos, no teu cheiro.
A escuridão das tuas mágoas, da parte do teu passado que desconheço.

Tem luz no calor do seu corpo, tem escuridão no aconchego do seu abraço, luz na textura da sua boca, luz nas conjunções, pronomes, no teu número, nas tuas vírgulas,
e tem escuridão na sua força, nos lugares onde o nós se esconde, onde o você e eu fica guardado.

Tem luz nas suas fotos infantis, na risada infantil que te vejo dar quando você se empolga, tem luz na maneira como você abre as portas, nos seus ossos.

Em tudo isso há sombra, ganhando espaço, ganhando voz, manchando nós dois.
Luz e escuridão se chocam, discutem, se abraçam, enquanto eu observo, assustada, maravilhada,
você me diz

- Acenda a luz. Eu quero ver a sua luz também.

Eu até tento, homem,
clic clac no interruptor,
clic clac,
mas a luz não acende
não tem luz.

Eu sou o que você vê.

39x20 From womb to tomb (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Já considerou o fato de que já nos conhecemos?
Eu te peguei no colo pela primeira vez,
fui seu pai,
sua mãe.

Eu dei o seu primeiro beijo,
eu cortei sua garganta e corri, suja com seu sangue.

Estamos destinados um ao outro, magneticamente atraídos, estrategicamente colocados em milhares de tapeçarias, que repetem diálogos, alterando detalhes, alterando cenários.

Você teima em nascer sob a mesma lua, enquanto eu dou meu primeiro grito ao pôr-do-sol.

Já nos conhecemos em uma praia, sob o sol escaldante de um deserto, enquanto você corria pela sua vida, quando eu nem sabia o que era viver.
Eu fiquei enjoada com o balanço das ondas e você voava pelos mastros e deu nós certeiros e seguros.

Eu queimei sua pele com o fogo dos meus ossos,
eu queimei sua pele em uma pira funerária e sobrevivi à você, na esperança de nos juntarmos novamente.

Minha carne febril tocou seu rosto,
e você foi o último homem do meu universo,
o primeiro,
o único.

Você me acolheu na noite da revolução,
e caminhamos pelos trilhos de trem na noite escura e fria,
seus óculos embaçando, com a fúria e a paixão das nossas expirações.

Eu dei banho no nosso primeiro filho em uma manhã fria,
você voltou pra casa cansado
e assistimos à TV usando pijamas.

Eu conheço as pontas dos seus dedos como se fossem as pontas dos meus dedos
e a sua boca é um extensão da minha.
Eu não me lembro de outras, mas me lembro da sua, mesmo sem jamais tê-la beijado,
porque eu a beijei antes.
Em outras épocas, outros mundos,
daqui a alguns anos,
décadas,
milênios,

em outro universo,
outra galáxia,
num mundo de cabeça pra baixo,
com teletransporte e um sol que faça sua pele ficar cor de rosa.

Eu termino de escrever esse texto,
aperto a sua mão
você me diz que anda tenso, que tem medo que a gente se separe, se perca,
mas eu não tenho medo,
não tenha medo

nós temos essa vida toda pela frente
e outra
e outra

e outra.

39x07 Cavorting

Imagem: TingTing Huang

Eu precisava sair, sair de casa e respirar.

Saí pra dançar, mas não era o bastante, eu estava faminta. Precisava sair pra caçar.
Pintei meu rosto, meus olhos, eu me camuflei pra parecer mais gente, mais
humana.

Apanhei minhas armas e corri, minhas botas fazendo barulho ao entrar em contato com o concreto, enquanto eu rezava pra ela que me trouxesse algo bom pra comer.
Algo doce.

Mas ela me abandonou,
muitos éons atrás,
ela me abandonou à deriva no meio de um lago gelado, enquanto eu pedia só um pouquinho de paciência,
um pouco mais de resiliência.
(Tem gente que vive tanto tempo com a dor, por que eu não podia? Por que eu não podia ser uma dessas pessoas?)

Mesmo sabendo disso,
eu escolhi rezar,
me ajoelhar nua sob a lua crescente e renovar meus votos,
me despir e correr,
farejando o ar, apurando os ouvidos pra escutar o coração das feras que vivem escondidas no escuro.

Encontrei você,
farejei o ar ao seu redor,
e esperei,
ouvindo o seu coração bater devagar.
Eu salivava, faminta, e minha boca seca atrapalhava minha fala,
a fome quase atrapalhava minha concentração,
mas eu esperei.

Sutil, eu fiquei encoberta pela folhagem, controlando meus batimentos,
olhando nos olhos dos outros caçadores como quem diz "aqui não",
esperei em silêncio.

Eu fui me intoxicando com os odores do sangue e das ervas mágicas, ninfas
e com o gosto do vento que a sua boca soprava na minha direção.
o sonho dos gatos acordou dentro de mim e se espreguiçou, sacudindo e arrepiando todo o meu corpo molhado, gelado,
morto
eu olhei nos seus olhos e você olhou de volta
Era isso então, Mulher?
Eu coloquei meus dedos nas têmporas dele, senti o pulsar,
eu estava faminta,
mas será que estava?

Ou será que é o que você quer que eu pense?
Que eu preciso disso,
sair pela cidade, nua, descalça,
voltar com os pés em carne viva,
sem saber como andar até o banheiro,
sem saber quem sou,
ou de quem é todo esse sangue

"Não", eu disse, soprando a fumaça pra longe da água.

Peguei minhas roupas e fui pra casa, tonta
ferida, suja,
sob o primeiro sol que surge atrás da ponte.

Deitei no colchão, na sala, nua,
porque não conseguia andar mais do que alguns passos pra trocar de roupa,
não conseguia me arrastar até o banheiro

Sonhei com ele, coisa que não acontecia há meses,
e tive medo.
Tive muito medo do que isso pode significar.
Sonhei com ele porque você quer me punir por não ter me alimentado,
por não ter sacrificado ninguém no seu altar, quando você me ofereceu tudo o que eu precisava.

Eu tô vendo agora que você tentou,
mas não da maneira como eu tentaria,
porque eu não quero machucar ninguém.

Eu só tô com fome,
mas dá pra aguentar,
dá pra esperar

até não dar mais.

38x08 Sketch

Imagem: TingTing Huang

Ela me olha, os olhos vazios, o coração partido,
partido tantas vezes, em tanto pedaços, que ela até já perdeu a conta.

Eu tento te detestar e não consigo, eu nem quero conseguir, quero te abraçar pra aplacar a dor imensa que é não ser amada por quem a gente ama.
Crueldade pura, visceral,
eu seguro os cabelos dela enquanto ela vomita, vômito negro, escuro, sangue e mágoa.

Levanto a mão no meio da aula e pergunto à professora se, algum dia, isso passa.
A gente aprende?
A gente para de querer sofrer?
E ela me olha sem entender, responde que não. Responde que a gente vai sofrer pra sempre.

Ela deita no chão, encosta o rosto no azulejo frio desse colégio escuro que é o cenário dos meus pesadelos recentes,
e eu quero dizer que vai ficar tudo bem.
Eu quero dizer que amor
eu quero dizer que amor
mas dói muito, meu Deus, dói muito
e nada que eu diga a ela vai fazer passar, porque nada do que me disseram foi capaz de fazer com que melhorasse.

A dor é contínua, difusa,
alguém vem e te pede pra descrever,
vem tentar te curar.
Às vezes, ninguém vem, e a gente fica se rasgando em pedaços de carne,
se machucando e se odiando, fazendo a boca sangrar e só parando quando a dor física consegue superar aquela outra dor. (O que não é fácil de conseguir, tem que estar disposto a fazer muita coisa)

Eu quero dizer a ela que entendo,
mas não sei como fazer isso sem contar pra ela que ela já me deixou nesse estado,
que, por causa dela, eu vomitei sangue e mágoa num vaso branco e sujo, apoiada no chão, sem ninguém que me segurasse os cabelos porque eu não podia demonstrar fraqueza.
Eu não posso dizer isso,
então não digo nada.

Só fico lá, segurando os cabelos dela com firmeza,
pra que ela possa vomitar todos os últimos meses,
os últimos anos,
cada vez que escutou uma ofensa, cada vez que alguém a tocou ou agiu como se ela fosse algo garantido.
Eu a deixo vomitar cada paixão que não foi pra frente, eu aliso as costas dela enquanto ela vomita chamando seu nome de um jeito que você não foi capaz de fazer, desvio o olhar quando ela não para de dizer seu nome,
porque eu também me sinto assim.

Ela vomita tudo o que tem de ruim, suja o chão, o vaso, meus pés, seus joelhos.
Nada a ser feito sobre essa sujeira, sobre nós, sobre eles, então eu a ajudo a se levantar, a se limpar. Lavamos as mãos, retocamos a maquiagem e ela sai primeiro, altiva, natural, como se aquilo não fosse nada.
Normalmente, eu faria o mesmo.
Mas não hoje, não.
Eu me apoio na pia, me olho no espelho, e eu sei que não quero mais isso.

E eu sei que estou de saco cheio das noites em que passo deitada do seu lado da cama, esperando que você volte. De me sentar ao seu lado e tentar chamar a sua atenção, enquanto você me ignora deliberadamente, de te ver olhando as outras garotas quando saímos juntos, de perceber que você não está lá quando estamos juntos, ouvir histórias sobre como você se diverte infinitamente mais quando não estamos juntos, te ver saindo com outras garotas e me procurar só nos seus piores momentos, todo sujo e machucado. De tentar te encontrar em outras pessoas que tem muito mais a oferecer do que uma cópia das suas melhores características. De perceber que você não se lembra quem sou eu.

Uma garota entra no banheiro, olhos inchados, meio pálida
e eu quero dizer algo, eu quero ficar e ajudar. Mas eu também preciso de ajuda, da minha ajuda.

- Você 'tá na fila? - ela me pergunta, apontando para o reservado de onde Lucy e eu acabamos de sair.
Olho pra ela, e ela sou eu, uma garota como eu, passando por uma dessas coisas pelas quais a gente não precisa passar. Não, definitivamente, ninguém precisa passar por isso. Mas não é algo que eu possa dizer a ela agora.
- Não. Pode usar.

Saio do banheiro correndo e vou pra casa.
Vou pra casa e sussurro baixinho, no escuro, pra que só Lucy possa ouvir, onde quer que ela esteja, com quem quer que ela esteja, porque só ela vai me entender agora, sussurro que a gente merece mais, sussurro um feitiço curto pra que, só hoje, só hoje
possamos dormir um sono tranquilo,
sem sonhos,
sem aquele medo costumeiro
de que não haja ninguém por aí que vá nos amar.

Amanhã, a gente sofre de novo.

35x15 30

Imagem: TingTing Huang

Não falou comigo.

Primeiro, aquela dor, aquela vontade, o peito a se rasgar em dois, em dez "fala comigo".
Por mensagens subliminares, telepatia ou sinais de fumaça,
"fala comigo".

Contei as horas, os segundos, os anos, as eras.

Achei que, em algum momento, como um sinal, você viria.
"Fala comigo".

Sem pensar, acabei fazendo promessas silenciosas, dizendo não e sim, a torto a à direito.
"Fala comigo"
Não dói falar comigo.
Mas doeu.

Tapa na cara, soco no estômago acordar sabendo que quem te amava era eu.
Sentei no sofá da sala, desolada.
Eu andei amando sozinha.

Levantei, limpei a sala e depois o resto da casa, esfreguei o chão até que os braços doessem e descobri algo simples, tão simples e complexo e ingênuo e diabólico, escondido entre as roupas que eu jogara no chão, o pó das cortinas e os fios de cabelo caídos pela casa:
Eu não preciso de você.

Corri a me olhar no espelho, perguntar-me se tinha certeza daquilo, não era possível.
Eu não preciso de você.
Horror dos horrores, comecei a rir de nervoso, com medo de que o mundo soubesse, com medo de estar fazendo algo antinatural.

"Eu não preciso de você", sussurrei, com bravura, pro universo infinito, pra chegar nos teus ouvidos e te acordar, ou pra não chegar nunca, sei lá.

Ainda fiquei com medo, ainda estou com medo de que seja passageiro. Mas não acho que seja.
Eu não quero mais precisar.
E acho que estou no caminho certo.

31x05 The truth about that

Imagem: TingTing Huang

Era uma vez
uma menina muito, muito triste.
Ela estava sempre triste, o tempo inteiro.

Era uma vez,
uma menina que se achava horrível
e que chegava em casa, depois das festas e chorava sozinha por não ser bonita.
Que saia das aulas com a sensação de não conseguir entender nada do que os professores diziam.
Tirava notas boas, mas nem tão boas assim e, portanto, devia ser muito burra.
Pedia desculpas até por existir.
Pedia desculpas por não ser uma boa namorada, porque certamente existiam namoradas melhores. E mais bonitas, e mais inteligentes e cultas. E amigas melhores. E irmãs melhores. E filhas melhores.
E seres humanos bons.

Era uma vez uma menina. Que faltou uma aula.
E viu que isso era bom.
Que era bom ficar sozinha em casa, que era melhor do que ver as pessoas, tão assustadoras, tão terríveis e metidas.
Era uma vez uma menina que começou a sentir que não se encaixava mais. Que seus amigos falavam uma língua que não era a sua.
E que sua melhor amiga não sabia nada sobre ela.
Era uma vez uma menina que acordou com o despertador de manhã e soube que não iria mais sair de casa.
Era uma vez uma menina que fechou todas as portas, deixou de falar com todo mundo e se voltou pra uma pessoa só, pendurou-se no pescoço dela e não soltou mais.

Era uma vez uma menina que passou, da noite pro dia, a detestar sua melhor amiga.
Ela não conseguia entender o que estava acontecendo. Mas era maior e mais forte que ela. Ela entendia que era terrível e ridículo e possivelmente passageiro, então achou por bem se afastar cada vez mais, antes de tornar a situação irreversível.
E ela se sentia tão culpada por isso que nem sequer conseguia falar com ela.

Era uma vez uma menina que parou de comer.
E nem percebeu.
Até perder 6 quilos. E ouvir todo mundo dizendo que ela estava magra demais.
Aí ela comeu. ~
E a comida não tinha gosto.

Era uma vez uma menina que parou de dormir.
Ela fechava os olhos
E o sono não vinha.
Então ela ficava acordada a noite toda, pensando e pensando e pensando e pensando
E dormia quando a manhã chegava, exausta.

Era uma vez uma menina que amava escrever. E ler. Falar com os amigos.
Até não amar mais nada.
Os livros por ler se empilharam nas estantes, e os cadernos ficaram intocados.
E ela ficava o tempo todo deitada no sofá, na frente do computador, olhando a tela sem prestar atenção, pensando, pensando, pensando

Era uma vez uma garota que começou a dormir a tarde inteira.
Matava aulas e dormia.
Ia pra casa e dormia, dormia, dormia.
E não sonhava,
Só dormia.
E, às vezes, desejava secretamente nunca mais acordar.

Era uma vez uma garota que acreditava que ia morrer.
Ela somou os pontos, - que pontos eram esses, só ela saberia explicar - e percebeu que estava muito doente. Seu corpo apodrecia dia após dia.
E ela não se incomodou com isso.
Todos os dias, antes de se deitar, ela fechava os olhos e jurava que podia quase sentir
algo dentro dela, alimentando-se de sua energia vital, destruindo-a de dentro pra fora.
Depois, sentia-se culpada, muito culpada
porque o pensamento não a assustava. Muito pelo contrário, ele a inundava de
alívio.

Era uma vez uma menina que tinha certeza absoluta
de que não era mais a mesma.
Tinha alguém dentro dela.
Tinha alguém fora dela.
Olhava-se no espelho e não reconhecia o próprio corpo.
Ao acordar, não sabia ao certo quem era.
E tinha certeza de que todos aqueles sentimentos, aquela raiva, aquela mágoa, aquela tristeza
eram parte de outra pessoa.

Era uma vez uma menina
que começou a perder os limites de si mesma.
Sentia-se derreter, sentia-se liquefazer
e não conseguia evitar.
E ela tentou
Mas não sabia o que fazer.
Ela não podia melhorar.
A gente não melhora assim, por vontade própria.

Era uma vez uma menina que sabia que tinha algo de errado.
Ela sabia.
Ela sabia quando estacionava o carro na porta de casa e chorava lá dentro durante horas antes de entrar,
Ela sabia, quando gritava com ele, mas não queria gritar, sabia depois que brigavam, quando não conseguia entender o que tinha acontecido.
Ela sabia, cada vez que subia em uma balança,
sabia, cada vez que acordava e desejava não ter acordado,
sabia, cada vez que saia das aulas mais cedo pra não ter que falar com as pessoas,
sabia, cada vez que era rude com alguém com quem se importava,
sabia, cada vez que sentia que ele estava se afastando, se sentindo sufocado.
Ela sabia.
Mas não sabia o que fazer.

(Eu só queria que as pessoas parassem de reduzir tudo a teorias,
remédios,
força de vontade,
ser bom ou mau,
doente ou são
parassem de olhar pra um episódio da vida e achar que é ele quem me define.
Eu só queria que lessem o livro inteiro.

Porque eu sempre soube que estava tudo errado.
Eu soube no momento em que comecei a derreter, a me desconectar.
E não foi a primeira vez,
não vai ser a última.

Mas eu não quero viver com medo da próxima.
De que ela seja pior, muito pior, como a primeira foi.)

Era uma vez
uma menina
um dia, ela soube
ela descobriu o que era
e ficou muito, muito triste

porque não era câncer.

30x14 You don't know shit about fuck

Imagem: TingTing Huang

Meu caro,

Eu amo você.
E é por isso que peço educadamente: Vá se foder. Você não faz a menor ideia de quem eu sou.

Eu gosto de Russian Red. Durmo no sofá. E eu bebo até desligar qualquer pudor.
Beijo rapazes. Eu gosto de beijar na boca. Mas eu não gosto de nenhum deles, nem mesmo um. Porque eu amo você.
Viajei para uma cidade que me assusta, que é um enigma gigantesco, com meu melhor amigo. E desbravamos o monstro, andamos de metrô, talvez tenhamos nos encontrados com a fera que vive na São Paulo de baixo. Ela vivia na linha amarela e sussurrava meu nome. Quando eu dormia, ela tomava sua forma e arrancava meu coração do peito incontáveis vezes. E eu sobrevivi. Eu não sou covarde.
Eu fechei o caderno no tutorial. E falei. Não morri disso. Eu sou capaz disso. E não me venha dizer que sempre soube, porque você não sabe de porra nenhuma.
Eu estive no limbo que é o oceano que fica no meio da sua sala de estar por 6 meses, esperando que você voltasse pra me ver e esquecer, ou pra puxar minha mão quando a hora chegasse, e você me esqueceu. Porque você não sabe porra nenhuma. Me deixou plantada no meio da sala, com medo dos meus próprios demônios, enquanto trouxe outras pessoas pra sua vida, que eu considero infinitamente mais o que quer que seja. Que eu não considero nada, eu acho.
Você não me pediu pra esperar, nem disse que voltava. Porque você não sabe porra nenhuma de mim, nem soube ler o título desse blog, onde fica claro que esperar é uma das minhas coisas favoritas.
E foi o que eu fiz.
É o que eu tô fazendo.
Você sabe tanto, tantas coisas que ninguém sabe. Tantos significados ocultos nos meus atos. Mas não sabe de porra nenhuma. Não sabe que eu acordei e me pintei pra guerra, rasguei tudo o que me fazia mal e queimei meu corpo até a dor passar. Nem sabe que eu coloquei o dedo na tua campainha uma noite, pra matar ou morrer. Mas tive coragem de deixar pra lá.
Você não sabe de nada, porque eu olhei nos seus olhos e menti incontáveis vezes nos últimos meses, tantas, tantas, sem sentir, sem pensar, eu só me esqueci que tinha dito pra mim mesma que ia te dizer o que pensava pra consertar as coisas. Ou talvez eu tenha me lembrado que isso nunca trouxe nada de bom.
Se você soubesse quem eu sou, não me magoaria dessa maneira. Se soubesse quem eu sou, não faria isso comigo.
Se me conhecesse, pelo menos um pouco,
Mas você não sabe de porra nenhuma.

Você não sabe sobre como machuquei meu joelho, ou como Otto apareceu de repente e tirou minha vida dos eixos, sobre uma aliança que guardei por 7 anos e que talvez seja a hora de colocar no dedo, sobre como descobri que meu melhor amigo não queria ser o rei do mundo como conheço, sobre o que ele me ensinou sobre a vida enquanto nos sentávamos no chão do banheiro. Você não sabe porra nenhuma sobre quantas vezes o meu nariz sangrou e quantos narizes eu fiz sangrar, sobre os cortes nos pulsos de Ingrid, o que eu disse nas cartas que você não leu, o que a mãe dela nunca riscou, uma playlist secreta e limpa, sem dono, pra pessoa certa.
Você  não sabe de porra nenhuma, sobre o meu lado da história, sobre o que houve antes, o que houve depois.
Você nem sabe que eu não sou uma vadia escrota, que eu não simplesmente mudo meu humor do nada, que você me ataca sem saber e eu me defendo atacando de volta. Que só porque você não sabe qual é o motivo, não quer dizer que não tenha um.
Você não sabe que eu poderia ter perguntado qualquer coisa, que eu poderia saber qualquer coisa, mas eu preferi não saber porque eu sou uma filha da puta covarde, incapaz de admitir o óbvio.
Você não sabe porra nenhuma.
Então não finja que sabe, não aja como se me conhecesse porque já viu de perto a cicatriz nas minhas costas e já sentiu meu mau hálito matinal.

Porque você não sabe porra nenhuma sobre mim.
E eu digo isso, meu caro,

porque também não sei porra nenhuma sobre você.

Atenciosamente,

B.

Early Cuts: Prosopon

Imagem: TingTing Huang

Aviso: Encontrei este texto recentemente. E tenho a impressão de que essa dor e confusão que encontrei nele não chega nem perto da dor que senti ao escrevê-lo. Queria poder reencontrar a B. desses meses, desse último ano, e abraçá-la bem forte. Vai ficar tudo bem. Só depende do ponto de vista.
É um texto confuso, mas contém toda a verdade sobre o que aconteceu enquanto a vida seguia seu curso.

Olho nos olhos da sua máscara, minha máscara, nossa máscara.
Quem é --- eu?
Eu não sou mais. Somos.
Partes do corpo trabalhando, transformando caos, sem criar ordem.

Eu penso, ela fala, você faz.
Eu penso.
Um dos pensamentos ali dentro é meu.
Uma dessas bocas é minha.
Mas qual?
Quem veio primeiro?
Eu sou a ideia original?
Sou aquela que se repete eternamente, em ciclos.
Isso sou eu ou é fase?

Você é minha ou eu sou sua?
Existe eu?
Uma tábua crua, nua, onde jogaram palavras e cores.
Eu me vejo em você. Você se vê?
Sinto o seu coração estranho empurrar minhas costelas, seu cérebro, nosso cérebro que pulsa.
Você me diz que tudo pulsa.
É sangue, estou viva.

O que é vida? Controlo mãos,
e pés, e boca. Estou viva.
Então, eu sou. E você não.
Certo?

Então, quem me controla?
Então o que é você?
Então falo,
ouço
ando
penso
sinto.

NADA.

Eu sou só a voz na minha cabeça.
Nem mãos, nem és, olhos e orelhas.

Acordo com mãos
Acordo

Quero mais.
Quero menos.
Quero acordar eletricidade,
gás.

Quero não-mãos
Quero não-pés

Quero não-eu.

29x21 Blow out all the candles

Imagem: TingTing Huang

Acendo uma vela, ponho onde o mundo possa me ver queimar.

Olha onde eu tô.
23 anos.
E eu não sei nada da vida.
Não sei o que vou fazer daqui pra frente.
Tenho medo de voltar pra faculdade.
Tenho medo de não querer mais voltar pra lá.

Medo de não estar à altura da responsabilidade que é cuidar de alguém.

23 anos, e eu ainda não sei amar.
Eu ainda não sei ser amada.

23 anos, e eu ainda não sei dizer não. E ainda leio meus livros na ordem.

23 anos,e eu ainda faço pedidos quando assopro a vela, eu ainda quero ser normal.

23 anos, e eu ainda não sou capaz de lutar contra o mundo pra defender as coisas nas quais acredito.

23 anos, e eu ainda não escrevi nenhum livro, não deixei que as pessoas certas lessem minhas histórias.

23 anos, e eu ainda não me amo o bastante.

Mas isso não é tudo, não é aqui que a história acaba.

23 anos, e eu tenho amigos incríveis, capazes de entender e amar o fato de eu não gostar de escolher.
23 anos, e eu já amei muitas pessoas, e aprendi um pouquinho sobre amor com cada uma delas. E doeu, e eu sangrei como um gladiador romano. Mas passou, e eu fiquei, pra aprender mais.
23 anos, e eu fui amada, várias, incontáveis vezes. Às vezes eu deixei, às vezes não. É parte de quem eu sou.
23 anos, e eu faço pedidos, e eu nunca vou parar de desejar coisas, de querer ser melhor, de querer ser o que eu acho que é normal. Eu quero estar bem. E não quero parar de querer isso, eu não quero me acostumar com essa confusão, com essa dor, esse medo.
23 anos, e eu não sei dizer não quando alguém me pede ajuda, quando alguém precisa de mim. Eu não sei dizer não porque eu gosto de ser útil. Me faz feliz, me faz sentir parte.
23 anos, e eu não sou capaz de lutar pelas coisas em que acredito porque não achei nada pelo que valha a pena lutar. E porque sou capaz de ver as coisas por vários lados. Eu não quero magoar ninguém.
23 anos, e não escrevi nenhum livro, não deixei que as pessoas certas lessem minhas histórias. Talvez eu não escreva bem, talvez eu queira a história certa, a coisa certa. No momento certo. Eu vou saber quando chegar.
23 anos, e eu não me amo o bastante. Mas eu me amo muito, eu amo amar a leitura, amar desconhecidos, minha mania de pensar milhões de vezes, analisar tudo, amo meus cabelos, algumas partes do meu corpo, amo minha capacidade de ser quem eu quiser, minha capacidade de fazer rir, a cor dos meus olhos, minha coragem de levantar da cama, as coisas que escrevo, as coisas que guardo, minha paixão por moda, meu olhar único pra tudo, minha capacidade de ver a poesia das coisas, eu sou esperta, e diferente de todas as pessoas que já conheci. Eu me amo o suficiente pra me considerar única. Eu amo minha coragem de continuar, minha vontade de me desafiar, minha ansiedade, essas pessoas que vivem dentro de mim e que me rasgam ao meio às vezes, amo meu cuidado, a maneira como eu amo as pessoas só por amar mesmo, porque sinto vontade, porque posso, porque quero. Amo minha mania de andar descalça, o dia em que nasci, meu orgulho da minha mãe, o amor que sinto pelos meus irmãos. Eu amo quem sou. Nem sempre é o bastante, mas eu não poderia ser de outra maneira.
23 anos, e eu tenho tanto medo. Mas eu sempre vou ter medo. Eu sempre tive, de tanta coisa.23 anos e eu finalmente entendi que esse medo gigante não vai embora, ele vai ficar aqui, ele sempre esteve aqui. E eu preciso voltar a tomar o controle.

Então, ei
Vela acesa na janela,
Apartamento escuro, sozinha em casa
Eu desejo coragem.
Rio de mim mesma, do leão covarde que me tornei.
Quero coragem.

Coragem pra amar mais e melhor, dar aquele beijo - não o que vai quebrar as pernas de alguém - que vai fazer com que alguém fique, que vai dizer tudo que precisa ser dito.
Coragem pra me amar mais e melhor,
pra controlar esse medo,
pra fazer o que tem que ser feito,
pra chorar quando sentir vontade - eu cansei de ser essa pessoa que não chora -,
pra ser quem eu quiser ser, mesmo que eu só queira ser eu mesma.

Coragem, é o que eu desejo, é o que eu preciso.

Pra mim,
de mim.

Feliz aniversário, B.
Coragem.

29x20 Mood

Imagem: TingTing Huang

Acordei no meu corpo e não era eu.
Essa dor de cabeça que não passa, dor nos ombros, dor dor

Acordei e me dei conta de que não tô bem.

O diário me pergunta qual é meu humor, como tô me sentindo hoje.
Me sugere palavras

Ansiosa
Estressada
Okay
...

Eu tô --
O problema é que eu não tô.
Sinto como se tivesse me desconectado durante a noite, como se estivesse com mau contato.
Ligo e desligo, apago, rio tão alto que incomoda os vizinhos, uma risada que não é minha. Daí fico ansiosa, daí paro, respiro.
Claire fala comigo e eu não ouço. Eu não consigo ouvir porque tô pensando numa música do One Direction, lembro que não sei mais o caminho de casa.
Escrevo uma coisa aleatória no meio de uma conversa, e percebo que tô respondendo uma conversa que só aconteceu na minha cabeça.
Eu quero fazer graça, porque tô tentando esconder que não tô aqui.

E que não sei onde eu tô.

Deito no sofá, penso em você.
E não me dá prazer, não me faz sentir nada, é só um pensamento, como lembrar de um filme sem motivo algum, porque viu uma toalha que era parecida com a daquela cena, sabe?
Quero entender se eu te amo, mas hoje não é o dia pra isso.

Então eu danço, até me dar conta de que não sei dançar, nunca soube. De repente as garotas todas evoluem, digivolvem e são todas mil vezes mais bonitas, mais seguras.
Mas eu não me escondo em casa.
Eu rio da minha própria estupidez, da minha falta de confiança, da minha falta de jeito.
E ganho força pra chegar em casa e chorar minha estupidez, minha falta de confiança, minha falta de jeito.

Pego minha coragem na mão e guardo no bolso, pra usar mais tarde,
alguém fala comigo, e eu simplesmente não tô.
Meus olhos escorrem,
e eu sinto milhões de coisas que são uma só.

L. me liga, eu não atendo, abro meu blog pra escrever e, de pronto, no painel, aparece o nome dela e todas as garotas de juntam em uma só, tudo o que eu sempre quis ser numa pessoa só,
e
eu não consigo nem ficar triste.

Então eu toco meus cabelos, bagunço e rearranjo os fios, como se ele fosse um objeto místico com o poder de me acalmar, de me dar forças pra mandar mensagens, pra encarar meus amigos sem escapar de mim mesma, pra fazer o que que tenha que ser feito.

Eu preciso voltar.
Eu preciso estar aqui quando a hora chegar.
Quem quer que eu seja,
onde quer que eu esteja.

- Eu só quero ser normal. Não é pedir muito. - digo pro espelho do banheiro.
Mas ela só me olha com aquele olhar perdido e vazio,
aqueles que a gente dá
quando não tem mais nada que possa ser feito.

O celular desperta
- How are you feeling today?






I'm okay.

29x15 Baby Steps

Imagem: TingTing Huang

- Ei, vem cá. Saia daí, deixe eu te ver.
E ela descobre a cabeça, sai debaixo das cobertas, viva, palpável, pulsátil: esperança.

Andei lendo meus textos antigos espalhados pela casa, muita dor, vontade de deitar na cama e não acordar mais. Andei pelas ruas feito um fantasma, uma grande mentira contada quando eu era criança, feito gente grande, feito gente.

Ontem à noite, não consegui dormir. Fiquei ouvindo playlists, olhando pela janela, respondendo mensagens, e meu coração batia tão forte de encontro às costelas que senti medo de me machucar.
Eu tô com medo, e nem sei de quê.

Pensar sobre o futuro me faz ficar extremamente ansiosa, a ponto de evitar ao máximo estender meus pensamentos além do próximo fim de semana.

Colapso nervoso, burnout, estresse. Sei lá o que me deu, o que me dá.
Mas eu não estava bem.
Eu disse pra todo mundo que estava tudo bem, mas não estava. Que loucura mentir sobre isso. Que loucura dizer isso agora.
Acho que é essa vibe de sinceridade contagiante de um grupo do facebook, todas aquelas pessoas honestas e lindas contando coisas sobre suas vidas, enquanto eu observo em silêncio.

Bom, eu surtei.
E não vou admitir isso pra mais ninguém, eu acho. Eu surtei. E eu precisava de ajuda. Mas eu não queria ajuda.
De novo, não. Já tive muita ajuda nessa vida, obrigada, e isso vai me perseguir pelo resto da vida.
Então, quando o doutor me olhou nos olhos e me contou uma história, me disse que não poderia me ajudar se eu não contasse a verdade ---
- Tá tudo bem.

Mas não 'tava. Eu perdi o controle sobre mim mesma, sobre as minhas emoções, sobre o meu corpo, sobre a realidade.
E eu só percebi isso muito tarde, porque até eu cheguei a acreditar no "Tá tudo bem".
Eu não conseguia mais me expressar, não controlava meu corpo,
uma bateria de exames pra eu saber que estava toda errada e descompensada
e eu comecei a acreditar que ia morrer.

Ok, parece estúpido. Não foi tão simplista.
Recebi meus exames, fiz o que todo mundo faz: Google. Daí fui pra biblioteca, li o que tinha que ser lido.
O médico viu meus exames, ficou preocupado, pediu que eu fosse a outro médico.
E eu não fui.
Por que?
Exatamente por essa razão na qual você pensou.

Eu deitava na cama todos os dias e pensava
Eu vou morrer.
E não sentia nada sobre isso.
Nada, nada, nada mesmo, eu nunca chorei, eu nunca fui mais gentil com as pessoas por isso ou disse a verdade, ou mandei mais mensagens humilhantes.

Perdi a realidade. Só tinha certeza de que tinha algo crescendo dentro de mim, me engolindo de dentro pra fora, se alimentando de mim, que essa era a razão pela qual eu emagrecia cada vez mais.

Pedi socorro à minha maneira. Escrevi um trabalho sobre o assunto, ganhei "A+" e o professor leu em voz alta, sem saber que era sobre mim que ele lia.
Escrevi sobre minha desesperança em relatórios gigantes que voltavam com mensagens motivacionais que eu guardo com carinho.
E falei sozinha durante 5 minutos sobre meu problema, só pra que a professora dissesse "É justamente isso que ela disse, descreveu perfeitamente".

Eu precisava das pessoas e não queria precisar de ninguém. Eu tinha medo de voltar pra casa depois das aulas e não querer mais sair.
Fiz grandes amigos, que entenderam minha necessidade de não ir embora e ficaram comigo.

E eu percebi, em algum momento, que aquilo não era certo.
Não estava tudo bem.
E foi muito muito muito difícil admitir isso.

As aulas acabaram e eu passei raspando em algumas coisas, tudo desabando.
Lembro de dirigir até o consultório do médico. Foi uma viagem de alguns minutos só, mas eu só queria saber. Como é que isso chama, eu acho. Eu acho que me cansei de estar doente. E nem sei o porquê.

Ele fez tudo o que é feito normalmente, perguntas, exames, piadas. Me disse que achava que não era o que eu pensava. Que achava que era estresse. Pediu uma bateria de exames.

E o resultado?
Ainda não saiu.
Tirei uma quantidade canalha de sangue na última semana, nem sei de onde saiu tanto.

Mas o resultado não importa.
Ele não vai me fazer ficar bem.
Não tá tudo bem.
Mas vai ficar.

Eu sei que vai ficar,
porque eu lavo meu cabelo maluco com amor, não porque acho que se não lavá-lo 4 vezes, vou me sentir limpa.
Sei que vai ficar porque quando acordo, tomo um copo com água.
Sei que vai ficar porque não como pra suprir minha necessidade de qualquer coisa, como porque me faz bem.
Sei que vai ficar quando arrumo meus cabelos, uso maquiagem. Não porque não quero que as pessoas pensem coisas sobre mim, mas porque eu fico feliz.
Porque não entro em crise quando meu cabelo está horrível. Eu uso um chapéu. E gosto.
Sei que vai ficar bem porque afrouxei as rédeas, porque não leio livros que não quero ler. Leio na ordem sim, porque amo minha ordem. Mas não hesito (muito) em admitir que não vou ler um livro. Sinto muito, James Joyce.
Sei que vai ficar tudo bem porque eu sou capaz de chorar de rir sozinha.
E porque parte de mim quer ficar perto das pessoas que eu amo.
Porque eu não tenho medo de sair. E nem de voltar.
Porque eu até digo não, de vez em quando. E me sinto péssima haha, mas NÃO.

E, embora eu ainda não consiga dormir,
embora a ideia de voltar pra faculdade me dê náuseas,
assim como a ideia de escrever histórias, ou sequer imaginar algo,
e eu não queira que ninguém se aproxime demais;
Embora não esteja tudo bem:
Vai ficar.

E não vai ser amanhã.
Nem depois.
Mas isso também não importa agora.

Eu preciso ter paciência.
Não 'tá tudo bem.
Mas vai ficar.

Baby steps, B. Baby steps.

Early Cuts: The list

Imagem: TingTing Huang

Coisas para fazer antes dos 20 22

1. Conhecer alguém da internet pessoalmente. (17)
"Tocava Kings and Queens, 30 seconds to mars. Você usava sua blusa listrada, certo? E ficou apoiado no metal gelado do que quer que seja aquilo, divisória ou apoio, numa pose tão James Dean-like que até hoje acho que você ficou ensaiando aquilo antes de finalmente me avisar que tinha chegado".
2. Acabar com um amor platônico (21)
"E como é que se acaba com isso, quem é que acaba? Fui eu, com meus planos e teoremas, com minha tristeza, minha raiva, minha frustração? Foi a vida, o tempo? Foi você, sua frieza, seus sumiços? Foi ele, sua entrada repentina, seus livros do Neil Gaiman e sua playlist? Acabou, mas não sei de quem foi a culpa. Obrigada."

3. Passar 1 semana a base de sorvete e chocolate. (17)
"Fossa. Mas teve amendoim, bacon e ruffles. Muito salgadinho de churrasco. E MUITOS filmes com o Hugh Jackman"

4. Tomar banho de praia a noite.
Not yet.

5. Ter um peixe cacto e conversar com ele.
Foi divertido. Mas eu regava demais :(

6. Viajar sozinho.  (21)
Cento e poucos quilômetros contam? Porque então eu posso riscar essa. Acho que não, porque já viajei tanto de ônibus nessa vida, pra esse mesmo lugar. Mas viajar sozinha, de carro, tem seu valor. Ninguém nunca cantou "Hey Jude" tão alto dentro de um carro com os vidros fechados :D

7. Plantar uma árvore.
Not yet.

8. Publicar um livro.
Not YET. (Calma, Clarice, eu chego lá)

9. Ir à academia.
-.- Not gonna happen.

10. Ter um site. (14)
Dã.

11. Mandar flores.
Nunca mandei flores. Acho triste, mas acho lindo. Incrível. Eu recebi flores de uma amiga, durante um momento ruim. E achei lindo, incrível. Costumava pensar que era tolice, "como se flores resolvessem algo". Mas é o gesto. É lindo, é puro. Quero fazer isso por alguém.

12. Fazer terapia.
De verdade. Sentar e ouvir. Melhorar. Sem rebeldia, sem gritos, sem remédios. Sentar e ouvir. E falar a verdade, pra variar. Um dia, eu vou.

13. Ver um show da banda preferida.
Já perdi a Florence duas vezes, Não vai ter terceira.

14. Organizar uma festa a fantasia.
Ou uma festa, qualquer coisa. Tenho uma ambição secreta de ser uma dessas Martha Stewarts da vida. Um dia.

15. Ver o sol de pôr.
Quase. Cheguei atrasada demais.

16. Ver o sol nascer.
Isso sim me interessa. Eu queria muito só sentar e ver o sol nascer, me espreguiçar toda e pensar "Uau, ainda tenho um dia todo pela frente". Ainda não aconteceu. Ainda.

17. Ler todos os livros que tenho.
Tenho minhas dúvidas se vai acontecer algum dia. Mas tô tentando. Juro que tô. :x

18. Fazer um curso pela internet.
Fracasso total. Comecei um sobre contos de fadas, mas não deu em nada. Muitos livros pra ler. Vocês sabem quantas histórias dos irmãos grimm existem? ARGH.

19. Sair com os amigos para um lugar diferente.
Defina diferente. Eu vi Jesus tirar um pão da cueca. Que ele me ofereceu - e eu recusei, que fique bem claro. Judas tomou energético em uma garrafa em forma de pênis. E Maria Madalena estava usando um vestido de oncinha. E uma menina de braço quebrado dançava num palco.
Sério, defina diferente.

20. Aprender a tocar um instrumento.
Ukulele!Ukulele!
E gaita, pros momentos dramáticos.

21. Nadar nua.
Eca. Not gonna happen.

22. Acampar.
De verdade? Fora de casa? Sem energia elétrica?
Not gonna happen.

23. Jogar verdade ou desafio.
Por que adultos não fazem isso?? É simplesmente a brincadeira mais legal-anos90 da vida. E eu nunca brinquei EFETIVAMENTE disso. Falhei na vida.

24. Suba num palco.
Uau. Acho que existem pouquíssimas chances de que isso aconteça.

25. Fique com um amor de infância (16)
E nunca fale sobre isso.
(Não que tenha sido ruim, foi bonito, poético. E triste. Porque ele era meu amor de infância, e só eu sentia que aquilo era uma conclusão do que tinha sido, uma espécie de "Agora que sabemos como é, vamos seguir em frente")

26. Perceba que crença e religião são coisas distintas. (19)
Perceba que fé, às vezes, é suficiente.

27. Aprenda a fazer algo estranhamente exclusivo.
E o que é que a gente faz nessa vida que não é, de uma maneira ou de outra?

28. Comece um diário. (17)
E escreva todas as burrices que quiser, não seja profunda, nem se preocupe com quem vai ler. Escreva para você, no futuro. Pra rir ou pra chorar.

29. Preste vestibular (16)

30. E passe. (20)

22x16 Mosaico

Imagem: TingTing Huang

Tenho procurado você.
Nos olhos dos homens, das mulheres.
No calor dos abraços de meus colegas, no cheiro daqueles com quem não falo, nos caracteres de uma conversa que não significa nada.
Quero estar pronta pra você, pra nós dois. Seja você o vulto na janela do prédio ao lado, um rapaz assustadiço, alguém que partiu há tanto tempo que parece que nem existiu.
Sonhei com Holden na noite passada. Ele me olhava nos olhos, nossos rostos estavam próximos, de maneira mais assustadora do que romântica. Eu estava de cabeça baixa e ele enfiou a cabeça por baixo da minha, pra me olhar nos olhos - o que é anatomicamente impossível, naquela situação.
Tinha um olho de cada cor, azul elétrico e castanho, provável influência de uma conversa que tive com um colega. Mas não só isso.
Olhos assim me lembram amor verdadeiro, destino.
E me lembram que uma pessoa contém várias outras dentro de si.
Acho que os sonhos nos chamam a atenção para o que devemos perceber, para o que não conseguimos entender quando acordados.
Mas não sei o que esse sonho quer dizer.
Não mesmo.
Nem sei se quero saber.

18x07 Not nineteen forever

 Imagem: TingTing Huang

"Um furacão, um levante em meio ao carnaval, minha pequena arlequina gritando alto fora do tom das marchinhas - fadada ao desafino", alguém disse, 20 anos atrás.

E olha só pra mim: nem céu azul, nem canção de pássaro, nem furacão. Chuvisco, chuva fina.

Tanta coisa que eu não fiz, meu bem.
Nunca esqueci quem eu deveria ser - grudado em mim feito suor -; tive medo de saber de que tenho medo - e passei quase 20 anos cobrindo espelhos e evitando gatos -; nunca gostei de mim por inteiro; nunca acreditei em "eu te amo"; nunca aprendi a tocar instrumento algum, nem sei nadar; acho que nunca me apaixonei; ninguém nunca me consolou; há anos que não subo num palco - não sei se conseguiria; não tenho outros amigos; não sei fazer as unhas; não dei o beijo que podia ter me quebrado as pernas; não viajei; não plantei uma árvore; não escrevi um livro; não mandei flores; não fui à terapia; não vi o show da minha banda preferida; não vi o sol nascer; não vi o sol se pôr; não li todos os livros que tenho; não joguei verdade ou consequência; não disse a Otto o que deveria ter dito (ou não).

Mas tanta coisa que eu fiz.
Toquei os ossos de McCandless e cuspi seu azar na boca de alguém; conversei com um cacto; escrevi meus segredos disfarçados de histórias e deixei que qualquer um lesse; achei que tinha me apaixonado; ouvi "eu te amo"; corri cega pelas ruas escuras com a mão na de McCandless; ri muito; tive amigos; chorei; aprendi coisas inúteis; cresci; cozinhei; conheci pessoas; fechei os olhos e esperei; desejei; fui feliz; escrevi; criei; cantei; menti; amei; esqueci; corri; voei; enxerguei.

Falta tanto pra fazer, tanto futuro pra temer.
Tantas corridas cegas de chuva fraca, de vento só.
E vontade de crescer, de lutar, de sobreviver.

De presente, quero uma voz nos ouvidos a gritar "Corre, que a sua vida tá passando, menina, corre que ela tá indo sem você. Vai logo, ser o que você tiver que ser".
Isso só, e uma vela perfumada.

Feliz aniversário pra mim.
Feliz aniversário, de mim.

7x03 Amarula, tequila and naked Ian

Imagem por wilbanks

O piano espera, silencioso, por seu Ian. Mas Ian e eu estamos longe. Longe de tudo e todods, mesmo de nossos futuros bem planejados e de números e letras avulsos.
Estamos deitados sobre nossos próprios sonhos, cheirando a madeira e alcaçuz, encharcados de álcool, suor e chuva.
Ele resmunga, encolhido feito um feto e eu me sento no piso gelado pra acalmá-lo.
Sopro seus cabelos molhados de suor e encosto meu queixo em seu pescoço.
Um pombo arrulha e nos abraçamos, misturando o sal e o álcool.
Estamos assustados, estamos nos protegendo.
Estamos sobrevivendo.