Mostrando postagens com marcador Alex Turner. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alex Turner. Mostrar todas as postagens

37x19 Keep your heart strong

Imagem: TingTing Huang

2005

Eu estava deitada no chão, chorando, dramática, mais infeliz do que eu achava que poderia ser na vida toda.
- Por que você gosta dele? Ele é idiota. E nem sabe que você existe.

Naquele momento, eu pensei uma coisa que penso até hoje, em momentos como aquele "se eu ganhasse uma moeda pra cada vez que já ouvi isso..."
E isso diz algo sobre mim, eu suponho.
Mas, naquele momento, eu continuei deitada, contendo qualquer ruído, e chorando, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Eu achava que nunca ia parar de doer.

E David estava lá, me julgando, me dizendo que eu estava sendo estúpida, que eu
Tanta coisa, tanta coisa se perdeu na lembrança daquela noite.
Ele estava preocupado, zangado
porque eu estava apenas iniciando um comportamento que viria a repetir minha vida toda,
eu estava escolhendo o impossível,
amando uma pessoa que eu tinha inventado.

Eu poderia tê-lo amado.
Amado pessoas que me amaram e eu nunca entendi a razão.
Mas eu queria o impossível,
eu queria me deitar no chão e chorar,
eu queria a dor de não poder ser amada.

- Levanta daí.

Mas eu não me levantei.
Eu queria sucumbir, eu não queria mais nada,
a vida nem fazia mais sentido,
então ele se deitou no chão comigo, derrotado,
e me fez cafuné, enquanto dizia coisas boas
coisas bonitas, das quais eu queria me lembrar, mas se perderam,
porque o meu estilo de vida não permite que as coisas boas permaneçam.
Só o que é ruim fica.

Ele me olhou nos olhos, cochichou no meu ouvido
e só agora, quase 12 anos depois,
é que me bate uma curiosidade de saber o que ele disse.
De saber me ver pelos olhos dele.

Por que é que eu estava chorando, afinal?
Disso eu me lembro, é claro.
Mas não importa, não agora.
O que importa são as palavras de que não me lembro,
a pessoa que se deitou do meu lado, sem poder fazer nada,
a coceira que aquele tapete me deu depois,
a cor de verniz do guarda roupas antigo.

12 anos depois, é só isso o que importa.

E, daqui a 12 anos,
o que vai importar não é a repetição de padrões ou a chateação que causam certas coisas,
mas aquele dia em que você usou seu quimono e ele olhou pra você como se você fosse única no mundo,
ou uma tarde passada na chuva,
coisas boas que as pessoas dizem, das quais você nem precisa lembrar direito pra saber como te fazem sentir,
aquela tarde em que você leu um livro que te fez sentir mais forte,
e a sensação boa de se manter sã,
as pessoas que te mantiveram sã.

Então, respire fundo,
aguente firme,
chore deitada no chão, se precisar
nada disso fica.
Felizmente, ou não,
tudo é por enquanto.

37x10 Heartbreak Hotel

Imagem: TingTing Huang

Chuva torrencial lá fora, abro a porta, fazendo tocar o sininho
Que dia horrível

Eu me arrasto até o fundo do restaurante, pra tomar um café amargo feito a vida, enquanto leio notícias horríveis no jornal.

Sento no balcão e sujo minha roupa de café velho, derramado mais cedo por alguma outra pobre alma.
A garçonete se aproxima, obviamente num dia terrível, e é extremamente rude comigo porque demoro a decidir entre o de sempre e qualquer outra coisa.
Suspira, nervosa, quando escolho o de sempre, após ler o cardápio inteiro 8 vezes.

- Nos encontramos de novo. - diz um homem, cabeça raspada, todo molhado. Agasalho preto, jeans e all stars marrons. Ele sorri pra mim e se senta no balcão, ao meu lado, pede um café sem açúcar e segura o copo com as mãos brancas e molhadas de chuva.
- Café sem açúcar. Nojento. Prefiro a morte. - resmunga um outro cara, que se senta numa das mesas pra ler um livro enorme. Ele pede panquecas, ovos e bacon e eu até avisaria a ele que são mais nojentas ainda, que o bacon é gorduroso e estranho, as panquecas tem gosto de farinha e os ovos sempre vêm meio crus, mas
não digo nada.

Um conhecido me cumprimenta, mas não para pra conversar sobre a morte, ele simplesmente compra cigarros e fuma lá dentro mesmo, me deixando com dor de cabeça.
Um homem irritado se levanta pra ir embora, mas ele não vai. Apenas fica e resmunga, sozinho.

Eu bebo meu café até o final, enojada, enquanto observo um cara do outro lado do balcão, olhando pro nada, ignorando o fato de que estamos aqui, que está chovendo, que o café é terrível, que essa fumaça vai nos deixar doentes, que a vida é horrível.
Uma garota bebe chá amargo, enquanto lê "Lolita".
Algum cara grita do banheiro se alguém viu sua camiseta por aí e todos o ignoram.
Tamborilo os dedos pela mesa, tentando me lembrar
como vim parar aqui. De novo.

Aponto para Otto, que cantarola, baixinho, "Piledriver Waltz"
- Foi você? Eu estou aqui por sua causa?
- Não. Não estamos nos falando, lembra?
- Aaah, sim. Bom, então... ele?
Aponto pro cara sentado na mesa, que resmunga pra caralho quando descobre que as panquecas são horríveis, mas não reclama. Ninguém aqui reclama de nada.
- Não. E, cá entre nós, sério? Quero dizer, sério???
Eu daria risada, se não fosse tão trágico. Ao invés disso, esquadrinho o salão atrás de alguém que possa me explicar exatamente como vim parar aqui.

Olho pra fora, o dia cinza perde as formas e a chuva transforma todas as pessoas que passam pelas ruas em borrões de tinta.
Lá fora, um homem bate no vidro, sem saber como entrar.
Eu me levanto pra ajudar, mas Otto segura meu cotovelo
- Não. Não deixe que ele entre.
- Está chovendo lá fora!
- Está melhor do que aqui dentro, acredite em mim. Não abra a porta.
E eu me sento de volta e fico olhando, olhando, olhando
esperando que ele se dissolva de alguma forma, vá pra casa
"vá pra casa", eu sussurro, como um feitiço,
mas ele não vai.

- Vai ficar aí o dia inteiro ou vai pedir mais alguma coisa? - pergunta a garçonete
- Estou satisfeita, obrigada. Só esperando a chuva passar.
Ela pisca, lentamente, e volta a limpar as mesas e ouvir os resmungos.
E eu fico, sentada, ouvindo o ruído das pessoas, das páginas, da caneta no papel desse cara que está tentando escrever algo legal, e esperando que você pare de bater e vá embora.
Mas você não vai embora.
"vá pra casa"

- Ele pode até ir, sabe? Mas ele vai voltar. - diz Otto, atrás de mim.
- Por que? Por que ele faria isso? Esse lugar é horrível
E então ele sorri, do jeito dele de quem quase nunca sorri, e meu estômago dá uns pulinhos.
- Bom, você sempre volta, certo?

É, eu sempre volto.

36x16 Sexual Healing

Imagem: TingTing Huang

Respire fundo, pense.

Às vezes, coisas boas vêm disfarçadas de coisas ruins. Às vezes só.

Penso, engulo o orgulho e penso na dor que a coisa toda há de me poupar.

Sim.
Sim!

E, de repente, estou salva, ilesa, intacta. Salva, por uma noite só, e isso é quase inebriante demais pra conter dentro de mim, quer dar amor a todo mundo, mordidas e sinais trocados, abrigo da chuva, do frio, de corações partidos.

Homem, eu estou segura hoje, e nem a sua sinceridade pode me magoar, nem a certeza da minha tolice, nem os ruídos do mundo, o medo ou as regras universais impostas há milênios.

Deito, olhando pra lona úmida enquanto você fala, Dragon Maker, sobre essa garota de olhos verdes que representa todas as coisas que acredito desconhecer e fico feliz por você, por nós, extasiada, e viajo, como quando era criança, nas costas de um dragão, pra um lugar possivelmente melhor.

36x10 Repetições

Imagem: TingTing Huang

VÁ TOMAR NO CU
(é um mantra, minha maneira de extravasar, me olho no espelho ao acordar de manhã, penteio meus cabelos para mais um dia horrível, torcendo, ansiosa, pra que seja um pouco menos horrível)

Começo.
Repetições.
Galeano disse que a vida acontecia em círculos.
Somos padrões, vivemos padrões.

Isso não é novo, não me surpreende, mas me enoja, me machuca, me humilha, me fere fundo.

Círculos, padrões, repetições.
Aperto replay na eterna cena da minha vida, essa.
Aqui, agora.

Círculo, padrão, repetição.
Minha cabeça lateja, eu anoto no braço que posso ir embora.
Eu anoto "B, vá pra casa".
Eu anoto milhões de vezes, nos braços, nas pernas
355
355
355
355
355
355

É quebrar um padrão, um círculo, uma repetição.

Vá pra casa, B.
Vá pra casa, B.

Vá pra casa.


(não deu)

36x09 Where does the good go?

Imagem: TingTing Huang

Cadê o povo pra defender a menina sem coragem de pegar a faca e matar o pai?
Cadê o povo que grita acusações, que chama esse (meu) Deus, quando essa menina é violentada todos os dias, quando é obrigada a sentar ao lado do seu estuprador?
Cadê sua lógica quando uma criança me diz, quando um amigo me diz que não se sente feliz no seu próprio corpo e você diz que isso não é normal? Fala sobre Deus, um Deus que você nem conhece, e que, se conhece, não é o meu. Não é o que eu quero.
Dor não é comparável, não é mensurável, não é engraçada.
Vê se me escuta, vê se olha as pessoas nos olhos e entende que o mundo muda, que homens beijam homens na boca e não é errado amar, e você não precisa beijar uma mulher na boca pra respeitar uma mulher que faz isso. Você só precisa ser humano.
Errado é reprimir, violar, aprisionar, ferir, entristecer.
Por que você não vê?
Quero te arrancar os olhos, te mostrar meu mundo, não tô tentando impor minha opinião, tô tentando te mostrar que existe outra opção, que o mundo não é só esse quarto fechado em que você se encontra, quero mostrar o mundo e a crueldade dele, a tua crueldade, a minha.
Cadê as pessoas boas, cadê o povo que alimenta os famintos, agasalha os pobres e dá as costas aos homossexuais pecadores?

Por que vocês não conseguem ver?
Isso não é guerra, frescura, fase,
isso é amor.
De um jeito que você não pode não sentir, mesmo sendo como eu.
É maior, mais bonito, incrível.

E é óbvio.
Mas você não consegue ver.
É óbvio.
Mas eu não consigo te mostrar.

Porque você não quer ver.

36x07 Por favor

Imagem: TingTing Huang

Por favor, Deus, por favor.
Por favor
Por favor
Por favor

Já fizemos isso antes, nós dois. Já estivemos aqui, eu sentada na Tua frente, pedindo, implorando.

Por favor
Por favor
Por favor, exista, por favor, me responda.
Por favor, me ajude.
Dessa vez também, mas não.

Só mais essa.
Hoje, por favor.
E amanhã.

Daí alguém diz, Ella diz, que minha dor é pequena quando comparada ----
E me sussurra histórias que me fazem ter medo de escuro, de dormir, de comer e de viver.

Por favor, só mais essa vez.
Só agora, só hoje.
Por favor.

E Ele cospe no meu rosto, Ele cospe no meu rosto como eu já cuspi no dEle e deseja que eu morra aos poucos, e eu estou, eu vou.

Seja feita a Vossa vontade.

36x06 Break Loose

Imagem: TingTing Huang

Algemada, fita na boca, venda nos olhos, mãos, pés e cabelos presos.
Eu quero ser livre.

Tô presa pelas regras da minha mãe, pelas palavras de pessoas que não me conhecem, que não me reconhecem, nem me olham nos olhos ou me beijam os lábios.
Presa às convicções antigas e terrores infantis, deito na minha própria urina. Estou presa há séculos, desde antes de nascer, a coisas ditas e feitas por gente que não conheci, amores que não passam de apego doentio, dinheiro, cor, gênero, poder, família, sociedade, medo, mídia, literatura, política, eu, você, Deus (o meu e os deles).

Choro, berrando alto, pro escuro do meu peito e, primeiro, ninguém me ouve, ninguém vem.
Dias e dias, eles chegam, abrindo cadeados, soltando correntes, prendendo correntes, afrouxando nós, diminuindo o espaço pra andar. E, mesmo assim, sobrevivo.

Vou lutando, solto um braço, me soltam uma perna, depois me tiram a venda, a mordaça.
Daí chega o dia, afinal, e eu fico livre.
Pra pensar, sentir, opinar, amar, beijar, não comer, fugir pra bem longe, pra ficar, pra tentar, fracassar ou conseguir.
Deixo pra trás meus grilhões e, no escuro, tateio em busca da porta, trêmula, cansada, ansiosa.

Oh, céus, estou livre!

Eu poderia morrer, se quisesse. Um milhão de possibilidades, poderia fazer qualquer coisa, qualquer uma, qualquer uma,

mas qual?

Devo largar a faculdade, preciso mesmo de amor? Morrer, viver, acreditar em quê? Em quem? Lutar pelo quê?

Encontro a maçaneta e, óbvio, lógico,
eu a abro?
Ou não?

Nenhum dos dois, tudo é válido enquanto estou de pé, livre e não livre, presa em mim e na dúvida do que acontece atrás da porta, ou sem dúvida, porque nada me prende, mas será que isso quer dizer que qualquer coisa serve?

Considero sim, como você bem sabe, voltar e me prender toda, amordaçar e vendar.
Considero, considero, considero.
Não espero, considero.

Estou viva, estou livre,

estou considerando.