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47x03 Lugar

 

Imagem: TingTing Huang

Eu sou uma mulher negra. 

Negra, de pele clara. 
Calma lá, não se exalte. 

Negra. 

Como eu sei? 
Existo, às vezes, em um não-lugar, não posso me sentar no banco do branco e, às vezes, nem no banco do preto (isso quando o preto pode sentar). 

Acesso lugares que ninguém acessa, não lugares. 

Nunca sou branca, mas, às vezes, dizem que não sou preta. 
Eu sou o quê? 

Minha vivência é só minha.
Eu sei quem eu sou, porque a minha história é. 
Existe. 

Meus pais, minha família, as tentativas infinitas e doloridas de embranquecimento de peles e cabelos e narizes e genes e descendentes, o dito pelo não dito. 

Como eu posso explicar e comprovar quem eu vejo no espelho, quem fala pela minha boca e dorme e acorda no meu colchão? 

Invado lugares e piso em cacos e sento em bancos e sou continuamente relegada a um não lugar. 
Que é um lugar.
Solitário e doído, à sua maneira.

Entre os bancos, puxo uma banqueta e sento. 
Tem mais gente que se sente assim. 
Tem que ter. 
Tem que ter. 

Espero. 

46x19 Male Fantasy

 

Imagem: TingTing Huang 

"Queria beijar sua boca"
4 palavras no papel, letra miúda, singela. 

Ele sorri com os olhos, como se pudesse ler a minha mente.
E eu quase tenho medo de que possa. 

Eu sou uma mulher.
Cor de café-com-leite, burro quando foge.
Nem de longe a primeira a ser chamada pra dançar. 

Ninguém me olha duas vezes ao passar por mim, nas ruas ou corredores.
Ninguém me busca nas fotos ou me escreve poesias.
Não olham meus seios e nem sussurram meu nome nos vestiários.
Não sonham sonhos eróticos, cheios de cores e sensações.
Ninguém quer o que eu vejo no espelho. 

Por um instante, você quase consegue me fazer pensar nisso. Quase consegue me fazer pensar que --

O que você quer?
O que você vê, com esses seus olhos fundos de contar degraus?
Vejo, refletido nos seus olhos, a imagem de um lago pra você se debruçar num dia quente.
Feito uma miragem. 

Dentro do lago, existe um oceano.
E você só quer o lago. 

Todo mundo só quer o lago. 

45x07 Which Witch

 

Imagem: TingTing Huang

Não me lembro do seu nome, da bruxa no quarto, à beira da morte, da bruxa na jaula, esperando a fogueira. 

Não me lembro do seu rosto. 

- Não foi um feitiço, foi um milagre, ela disse. 
Mas eu não vim julgar, eu vim pra aprender. 

Ela me conta sobre as noites, cicatrizes, dedos quebrados e gritos, e ele, o demônio, um homem, e o medo e o terror. 

Conta, delirante, febril, sobre o pavor, a coragem, uma semente, um desejo, um
feitiço. 

- Mas eu não sou bruxa, ela disse, eu não sou bruxa. 

Peço que continue, não temos muito tempo. 

Ela me conta que decidiu que nunca mais sentiria aquilo.
Decidiu? Desejou? 
Naquela noite, ele saiu em meio à chuva torrencial. 
E não voltou pela manhã. 
Foi encontrado em um buraco, tetraplégico. 

- Mas não fui eu. Foi Deus. Ele me ouviu, Ele me ouviu. 
- O que foi que Ele ouviu?, perguntei, o que você disse? 

Ela chorou, só chorou sem parar, sacudindo o corpo inteiro. 
- O que? - eu quase gritei

Podia ouvir o barulho dos passos no corredor, próximos. 
Ela moveu os lábios, sem que saísse som. 
- O que? Fale mais alto. O que você disse, naquela noite, o que você desejou? 

Aproximei meu rosto do seu, queria ouvir, precisava ouvir, mas, quando cheguei meus ouvidos perto o suficiente dos seus lábios, a porta se abriu, o tempo acabou e eu desapareci no ar, infelizmente, muito mais rápido do que o som do seu murmúrio, como se nunca tivesse existido, um borrão de tinta e pequenos pontos de poeira. 

- Não sou uma bruxa, foi o que ela disse - contei a Lilith, que me esperava, pacientemente, bebericando café. 
- Ela tem razão. Bruxas não existem.

E, como se apenas para contradizê-la, como se viajasse atrás de mim em uma velocidade infinitamente menor,
ouço o feitiço-desejo, baixinho, 
um segredo.

- Sim, você tem razão. 
Bruxas não existem. 

45x04 Unsteady

 

Imagem: TingTing Huang

Ele me pede pra andar na faixa branca que divide a pista, sem perder o equilíbrio. 

E eu consigo, eu sei que consigo. 

Nunca estive tão estável, eu nunca fui tão equilibrada. 

Tá tudo bem, agora eu sei quem eu sou, eu sei o que eu quero. 
Eu estou exatamente onde eu deveria estar. 

Ele me importuna, grita, sem fazer muito sentido, e cai na risada: quer ver se eu consigo andar em linha reta sem cair. 

Mas e se eu cair? 

Não tem problema, me tranquilizo.
É só uma linha no asfalto. 
Só uma linha. 

Se eu cair, talvez nem me machuque. 
Mas eu não vou cair. 
Por que cairia? 

Estou sóbria. Estou sã. 
Ele ri. 

E eu não reconheço essa risada.
E eu reconheço essa risada. 

- Anda, quero ver. Até o final da rua. 

Mas a rua é longa demais, a noite escura demais, minhas pernas tão curtas, meus cotovelos tão ossudos, ossos tão frágeis, tão frio aqui fora, e tão sem sentido estar aqui. 

- Por que estamos aqui? - pergunto a ele. 
Ele dá de ombros. 
- Você disse que conseguia, sem sombra de dúvida, andar na linha. Então, prove. 

- E se eu provar? O que eu ganho?

Ele não responde. Inclina a cabeça pro lado e me encara, pensativo. 

- O que você quer ganhar? O que você está tentando ganhar?


Eu não sei. 
Eu não faço a menor ideia, mesmo agora. 

Ainda assim, me coloco em posição. Um pé, depois o outro. 
Ando na linha, sou capaz de andar na linha, de chegar ao final. 

O que eu quero ganhar? 

Vou pensando no caminho. 
Eu te digo, quando chegar ao final. 

44x10 Mistletoe

Imagem: TingTing Huang

Cabeça pesada e meu corpo nas nuvens:
eu danço, pra um público que só existe na minha cabeça.

Eu em sinto-
bem.
Não acontece com frequência.

Então danço.
Dança comigo?
E eu danço comigo mesma.
Eu não preciso de ninguém.
Eu só preciso de mim.
De música.
Do escuro.

O mundo todo gira,
eu
o mundo
tão lindo, tão lindo.

Eu sou invencível.

Deito no sofá, caio no sofá, um peso enorme, vivo, pulsante,
meu coração em chamas,
e ela se senta ao meu lado, acaricia meus cabelos,
o cheiro de luz
e eu simplesmente sei que é assim que acaba
e tudo bem,
tudo bem
se estiver tudo bem

Mas as luzes giram e giram,
e eu no centro de um redemoinho de escuridão,
lembranças ruins pálidas e confusas,
minha boca, sua boca,
nossas bocas,
língua e saliva,
e

amendoim

Eu sou invencível
- invisível
- insegura
- solitária
- vazia,
ela sussurra.

Não, não
não mais
eu cresci
grew out
você não pode me atingir aqui no chão do banheiro
você não pode me alcançar na varanda
e eu não posso te ouvir sob a música e o barulho dos fogos de artifício.

E eu danço,
eu beijo,
eu rio,
eu durmo

e acordo, no meio da noite, sufocada pela sua presença,
pela sua existência,
lembranças enterradas tão fundo que eu nem sei se são mesmo lembranças

corro pra lavar o rosto,
e vejo o rosto dela no espelho, brevemente,
num lampejo
e eu reapareço.

Não tenho medo de onde as experiências me levam,
nem das lembranças,
nem de você.

Sinto que vou ter que aprender a conviver com esses momentos,
que eles vão vir à tona sempre que eu baixar a guarda,
sempre que eu tomar sorvete ou morder frutas, usar glitter.

E eu não vou parar de fazer nada disso.
Eu amo frutas,
sorvete,
glitter,
beijos e álcool e escuridão e o som das ruas de madrugada, declarações de amor e escrever no papel.

E, importante repetir, marcar várias vezes, enfatizar, gritar pelas ruas e repetir feito mantra todos os dias de manhã:

não tenho medo.

43x15 Thunderstorm

Imagem: TingTing Huang

O céu está caindo.

Eu tentei avisar.

O céu está caindo.

Mas ninguém ouviu.

É assim que é?

Eu me deito no chão, sob o domo. Pedaços de nuvens, sol, azul, pó de estrelas mortas há trilhões de anos.

O céu está caindo.

Abro uma garrafa, outra, mais outra.
Separo grãos.

O céu está caindo, Deus, o céu está caindo, e talvez eu descubra se realmente há um Deus.

Eu tento me concentrar em estatísticas, planos, uma gueixa cheia de dentes, mas eu estou tão cansada, tão cansada de nunca ser o suficiente.

Tão cansada, que não quero me levantar, e o céu continua caindo.
E eu continuo esperando pra ver o que acontece.
Sem mover um músculo.

Eu quero ver o que acontece,
eu quero ver.

Eu estou tão cansada.

Tão,
tão cansada.

43x04 Nothingness

Imagem: TingTing Huang

- Mas você está triste?

Não.
Eu não sinto nada.
Absolutamente nada.

De manhã, eu rio. Faço piadas, faço meu trabalho, faço fofocas, eu me importo.
Eu como. 5 vezes ao dia.

Eu beijo. Eu amo, com todo o meu coração.

Eu cuido. Eu sou boa em cuidar.
Cuido toda hora.

E eu rio.
Eu estudo, eu entendo, eu leio, eu assisto.

Mas não sinto nada.
Nem ansiedade,
nem tristeza,
nem alegria.

Acordo cedo, o celular transbordando de mensagens sobre uma boa notícia. ótima notícia.
Viro pro lado e durmo.

Durmo sem dormir, os sonhos coloridos, intensos, morte, medo, raiva, sensações que eu não sinto ao acordar.

Como uma banana.
Dirijo no escuro.
Consolo um amigo.

Mas não sinto nada.
Nem medo, nem raiva, nem dor.

"mas você tem que sentir alguma coisa", ele diz, ela diz.

Mas eu não quero.

Vocês não entendem,
eu não quero.

Eu quero viver no limbo, no nada,
no escuro,
uma linha reta cortando o monitor.

Eu quero ficar estável.

Quero poder voltar pra casa depois de um dia difícil e conversar com minha irmã, a pessoa mais incrível e esperta do universo, de forma tranquila.
Eu quero ouvir.
Eu quero beijar meu namorado sem chorar, prefiro nunca mais dormir uma noite inteira do que chorar pela dor de alguém que mal conheço.
Eu quero poder cumprir um dia de trabalho sem trazer tudo pra casa.
Quero poder conversar.
Quero poder dizer o que penso, sem remoer depois.
Eu quero poder me olhar no espelho pela manhã.

Eu quero não sentir nada,
pra poder aproveitar tudo.

As sensações intensas me sufocam,
me afogam no escuro de quem eu sou.

Então me deixe não sentir.

Pra que eu possa ficar bem.
Finalmente.

40x16 Paint it black

Imagem: TingTing Huang

Disse em voz alta a nossa senha secreta e esperei.
Mas você não veio, você nunca veio.

Estava com as malas prontas, paguei as contas, arrumei a casa e deixei bilhetes.

Acendi um cigarro, porque é o que eu faço quando não sei o que fazer. Eu nem fumo.

Eu estava sempre com medo.
Mil armas apontadas pra minha cabeça e eu  só conseguia pensar no que ia acontecer depois daquele agora.

Eu pedi sua ajuda, mais alto, mais alto, mais alto, mas você nunca veio, estava tarde, eu estava com frio, com medo do que acontecia no escuro.

Ouvi um ruído e os pelos da minha nuca se eriçaram.
Olhei na direção da noite escura e eu soube
ele estava lá, me esperando, me chamando, me cantando pra ele.

Eu não queria mais fazer aquilo.
Eu precisava que você viesse me salvar.
Mas você nunca veio.

Alguma coisa brilhou no escuro e ele me chamou, numa voz rouca, cantou meu nome, meu nome, e eu tentei resistir à vontade de correr até lá e me jogar na escuridão.

Gritei nosso código, repetidas vezes, na esperança de que você finalmente ouvisse, mas você nunca o fez.

Ninguém nunca veio, eu era de novo uma criança sentada de castigo no escuro, 1 2 3 4, esperando que alguém viesse me pegar no colo e me levar embora. Mas ninguém nunca veio.

Eu gritei até perder a voz, até aceitar que você nunca viria,
que ninguém viria.
Até aceitar que eu seria meu próprio herói.

Ele me chamou, do escuro, quente, vivo.
Eu já era adulta, então, adulta em um corpo de criança,
pronta pra matar ou morrer, sozinha no escuro.

Eu podia viver fugindo,
eu podia me render, de novo e de novo, deixar que ele me machucasse até não sobrar um pedaço intacto, até não sentir mais dor.
Eu podia deixar.
Eu podia continuar te chamando.
Então cortei minha língua, tirei minhas roupas e me joguei no escuro, que me acolheu como uma filha pródiga.

Eu me lembro de encontrá-lo na escuridão
ele emanava calor, medo, dor, confusão
e arranhava meu rosto,
partia meus ossos,
fazia meu sangue frio jorrar,

Eu me lembro do cheiro da madeira, da textura da escuridão, da maneira como ele chamou meu nome enquanto eu o rasgava em pedaços, com os dentes, com as unhas,
enquanto o acertava com pedras
enquanto cortava seu rosto.
Eu me lembro de tudo.

De cada palavra,
cada grito,
do exato momento em que você,
desesperado,
repetiu as palavras que eu passara séculos pronunciando,
nosso código secreto.

Era você.

Você estivera ali o tempo todo,
me chamando,
tentando me salvar.

Apalpei seu rosto úmido de sangue,
enquanto você repetia nosso código, feito uma prece.

Toquei seus cabelos, testa, olhos, nariz, boca, queixo, pescoço.
Você me chamava.
Você precisava de mim e eu estava ali por você.

Segurei sua cabeça, firmei seu corpo com com meu próprio peso e quebrei o seu pescoço,
com um movimento seco,
breve.


Não preciso mais de heróis.

38x11 Solo

Imagem: TingTing Huang

Não dá.

Eu tento, levanto da cama, escolho uma roupa. Não dá, não dá.
Eu não quero ver ninguém.
Quero ficar sozinha no apartamento vazio, quero todo esse ar só pra mim e, ainda assim, não é o bastante. Nunca tem ar suficiente.

Eu grito pras pessoas se afastarem, chegarem pra trás, mas elas não chegam e o ar não é suficiente.

Alguém me pede algo, e eu dou. E de novo, e de novo. Mas eu não tenho mais nada pra oferecer.
Eu não tenho nada pra oferecer. Digo isso, repetindo as exatas palavras que você me disse em janeiro, e sinto nojo de mim mesma. Não por tua causa, mas porque eu me deixei adoecer. Eu, logo eu, a mulher mais forte de todo o universo. Todos os socos na cara que você me deu, as suturas que eu mesma fiz sentada no chão do banheiro de madrugada, quando ninguém podia ver e, mesmo assim
você levou a melhor.

Porque eu não tenho nada pra oferecer.

Mas eles não acreditam em mim, ninguém me escuta, presta atenção, prestem atenção
Eles não me escutam.
Elas não me escutam.

Eu não posso, hoje não.

Mas ele precisa de uma amiga, ela precisa de alguém responsável, alguém precisa de mãe, de tempo, de um documento, roupa limpa, espaço, consolo, companhia, conselhos, amor.
Não, não.
Não pode ser outra pessoa?
Tanta gente no mundo com tanto pra oferecer e você bate à minha porta no meio da noite
mas eu não tenho nada pra oferecer.

E eu tento, eu juro que tento.

Eu pego a sua mão, eu digo o que você quer ouvir, eu digo o que você quer saber, eu cumpro o meu papel, eu abro a porta, eu lavo a louça, tomo um banho, eu finjo que tá tudo bem, eu sigo o protocolo dos últimos 15 anos, mas você quer mais.
Você quer mais.
E eu não tenho mais.

Você quer o meu bem, me quer saudável, limpa, sóbria, quer beijar a minha boca, dormir de conchinha, quer que eu ouça, quer que eu seja alguém, quer que eu tenha tempo, quer que eu tenha amor pra dar e eu não
eu não posso.

Eu não posso.

Então eu ajo impulsivamente, te chamo pra sair e
me falta o ar
dou pra trás
invento desculpas
e eu sei que tô te afastando, que tô te magoando de novo

Mas eu não tenho nada pra oferecer
Presta atenção
Me escuta
Eu não tenho nada pra oferecer
Seguro a sua cabeça entre as minhas mãos e tento gritar
Mas não consigo respirar

E eu sei que você entenderia se eu te explicasse
Eu sei que você daria o seu melhor
e tentaria me curar
e tentaria cuidar de mim

Mas eu não quero melhorar,
eu não quero a tua ajuda
eu quero espaço
eu quero ar
quero quebrar minhas costelas e deixar que meus pulmões se expandam até que eles explodam

Isso é tudo o que eu quero.

Eu tento te explicar, eu tento te contar
mas você não me escuta
ninguém me escuta,
eles continuam esperando, me tocando, me chamando,
me ligando

Você não entende,
ninguém entende.
Então eu me sento, abraço meus joelhos e tento respirar.
Mas não consigo.
Não com todos vocês em volta.

E eu sei que preciso fazer alguma coisa.
Mas eu
eu não tenho nada a oferecer.

nem mesmo pra mim

37x12 24 horas ou a assistente de mágico

Imagem: TingTing Huang

Começo meu aniversário estudando, tiro um cochilo, não consigo me concentrar nos meus pedidos, acordo, leio sobre Volvos Intestinais e agora tô escrevendo, cagando as tradições anuais.

Por que?
Annabel disse, no começo do mês "Não faça planos". E é por isso que aceito o que a vida deu, vou ao cinema acompanhada, almoço acompanhada, durmo, faço tudo errado, o livro que eu queria é caro demais, tô pensando em abandonar um pouco as tradições e só fazer o que tiver que fazer, quando tiver que fazer.

Acendi uma vela na janela,
mas não soube o que pedir.

Coragem, sempre, essencial, maravilhosa. Mas tem mais alguma coisa. Tem outra coisa de que preciso.
Porra, que ano longo.

E eu tô viva, minha boca tem o gosto horrível de sono, eu tô estranhamente descansada (pra quem só dormiu uma hora e tem que acordar daqui a pouco), estranhamente calma. Daqui a pouco, começam a chegar as mensagens, os abraços.
E eu estou viva.

Às vezes, eu não tenho certeza de quanto consigo aguentar, de qual é o meu limiar de dor e incerteza. Se eu vou estar aqui pra ler todos esses livros na minha estante. Então, eu me sento aqui, na frente da estante, e eu desejo, com todo o meu coração, estar aqui pra ler "O teorema Katherine".
Ler "The solitude of prime numbers", que eu comprei pra um homem que já não amo mais, e que não me ama mais.
Quero chegar o fim do semestre lendo "Nick & Norah", pra me lembrar de quando eu era uma romântica incurável, pra ler com esses meus olhos mais velhos, mais cínicos.

Eu tô viva e eu gosto disso.
Gosto das possibilidades.
Gosto do meu corpo, sou apaixonada pela textura dos meus cabelos, eu tenho que tomar decisões diariamente e lembrar a mim mesma que eu consigo fazer isso.

Eu não tenho a menor ideia do que acontece daqui pra frente.
Mas eu quero descobrir.
E isso me surpreende.

Eu quero sair de casa.
Conhecer pessoas.
Eu quero sentar em algum lugar dessa cidade com vento soprando, e quero sentir que dá pra respirar. Que tem ar suficiente pra mim aqui.

Eu quero usar um vestido azul.
E transformar meu corpo em uma onda.
Eu quero esperar. Pelo cara certo, no momento certo. Tô mesmo cansada de magoar as pessoas, de acordos e de sentir que tô perdendo tempo. Eu não consigo mais fingir gostar, eu quero sentir muito.
Eu quero te deixar pra trás, assim como as coisas que eu nunca disse a ninguém.
Eu quero o que a vida tiver pra oferecer, o que eu quiser aceitar.
Não sou madura o suficiente pra pedir essa coisa, essa pessoa. Arregalei os olhos só de pensar que, talvez, seja isso o que eu queira pra vida. Não. Definitivamente, não.
Bom, eu quero acordar de manhã.
E eu quero voltar pra casa sã e salva.
Eu quero retribuir o amor das pessoas, preciso aprender a fazer isso porque me mata um pouquinho cada vez que tenho que ouvir alguém que amo me dizer que acha que não sinto o mesmo que esse alguém sente por mim.
Eu quero me apaixonar. Bilateral, por favor, gênios dos aniversários.

Ano passado, eu quis bravura.
Coragem pra fazer tudo e mais um pouco.
E eu consegui.
Eu fiz tudo,
eu me declarei
eu falei em público
eu tirei minhas roupas
beijei todo o mundo
viajei
briguei
decidi
aceitei
pedi desculpas
e não pedi desculpas
falei o que me veio à cabeça

Esse ano, eu preciso de esforço, de força.
Preciso me aprumar,
forçar minha entrada no caminho certo,
no caminho errado.
Preciso de força, preciso de foco
preciso de esforço.
Preciso de esforço pra levantar da cama pela manhã e pra dormir à noite,
pra respirar
pra ser o melhor que eu puder ser.

Vela na janela, podemos começar de novo?

Eu desejo, eu desejo, eu desejo
Força
de vontade
de atrito
de aceleração
empuxo
de expressão
daquele tipo que mantém a galáxia coesa.

Sopro a vela,
escovo meus dentes,
nem sei se vou acordar daqui a pouco,
mas tenho que acreditar que vou.
E partir daí.

O que vier, eu aceito.

Feliz aniversário.
Pra mim,
de mim.

37x06 I love your new glasses

Imagem: TingTing Huang

Eu nasci feia.
Mas também nasci muitas coisas, percebo agora.

Nasci bonita, aos olhos de mamãe.
Mas era feia, eu vi as fotos.

Cresci, e ainda era feia.
Mas tinha algo, sempre teve algo, um instinto animal, a capacidade de algo, e eu consegui não afugentar as pessoas com a feiura do meu rosto e a feiura do meu coração.

Eu sou feia.
Era feia quando eu o conheci.
E ele olhou pra mim, e eu me amei porque ele me amou.
Continuava feia, horrenda.
Mas tudo bem,
tudo bem, quando é assim.

Eu sou feia.
Espinhas no rosto, pele oleosa, um nariz que não me cabe direito no centro, boca fina sem nada pra oferecer, meu corpo é magro e ossudo, desajeitado.
Feio.
Eu sou feia.

Eu sou feia aos olhos das pessoas,
dos meus amigos,
dos homens
das mulheres

E, por muito tempo, eu me escondi sob uma capa de sarcasmo, comédia e mistério, sangue e desinteresse, cansada de olhar nos olhos das pessoas erradas e acreditar que o que eles veem é o que é real.

Aí eu fiz alguns testes.
Deus sabe que eu adoro brincar com a cabeça das pessoas, com a minha cabeça
e eu percebi
que elas só podem ver o que eu vejo.

Eu não preciso olhar pra alguém pra me enxergar.
Eu não preciso nem ver.

Porque eu passei muito tempo de cabeça baixa,
esperando que alguém viesse me dar significado, que alguém me dissesse o que ser, onde ficar, Calibã
Ouvindo vozes
e comentários estúpidos de gente estúpida que não quer ser magoada mas só sabe fazer isso com as pessoas
até perceber, talvez meio tarde,
que as pessoas só verão o que eu deixar.

Sou feia.
Em muitos sentidos, a feiura é parte integrante da minha vida.
Mas, se eu acordo pela manhã
lavo meus cabelos e os penteio até o braço doer,
se eu escolho minhas roupas com todo o cuidado do mundo,
se eu bagunço meus cabelos, dou risada de mim mesma,
se eu digo, afirmo "continuo linda", "sou maravilhosa, rainha do mundo"
as pessoas compram.
Até eu compro, às vezes, chego em casa, me olho no espelho, passo o famigerado batom e dou uma piscadela para a mentira que eu tenho que contar todos os dias.

Eu não me tornei bonita.
Eu sou feia.
"Você se acha muito, colocou uma foto mostrando parte dos peitos no facebook, teu ego é enorme, gostei do que você fez no cabelo"
O obrigada sai, automaticamente, mudo de assunto, desvio a atenção
E passo.

Assim, só.
Eu passo.

Se eu tentasse explicar o que tô tentando provar,
o que tô tentando entender,
nem conseguiria.

Pode ser o choque de ver o teu rosto inchado de chorar pela ameaça à tua beleza,
pode ser só uma coisa que uma garota me disse no semestre passado e não sai da minha cabeça,

ou tô tentando me distrair da aflição constante que é estar viva,
criando uma nova identidade
pra nunca mais precisar passar, de novo, pelo que aconteceu naquela noite.

37x04 Lacuna Inc.

Imagem: TingTing Huang

"Dear Mr. & Mrs. ____________

B. has had _________________ erased from her memory. Please, never mention their relationship to B. again.

Thank you"

Estou sentada.

Dragon Maker me disse pra queimar tudo, "queime tudo, eu te ajudo".

E eu cheguei em casa e queimei.
Por dentro e por fora.

"Quem sou eu?"

Eu me sento na frente do espelho e desembaraço meus cabelos, e algo faz falta. Algo de que não me lembro. Espaços vazios na estante de livros, algo, algo sobre
cores.
Estou sentada olhando a minha parede, cheia, cheia de figuras de mulheres, nomes de lugares pra onde talvez eu nunca vá, o armário cheio e vazio, ao mesmo tempo.

"Quem sou eu?"

Subo as escadas, paro no primeiro lance, olho pra baixo.
Mas ninguém bateu à porta.
Me enganei.

Paro à porta, quando a luz acende, como se uma lembrança estivesse sumindo aos poucos, fugindo, enquanto eu tento agarrá-la, sinto vontade de tapar meus olhos, mas algo está errado.
Sacudo a cabeça, entro em casa.

E está tudo aqui.
Não está?
Eu não sei.
Pego vasilhas e panelas pra cozinhar, como tenho espaço, tanto espaço, tanto espaço em todos os lugares.
Abro as janelas, olho pra lua, olha essa lua, "olhe essa lua", eu digo.
Mas não tem ninguém pra ouvir.
Viro de costas e dou de cara com a porta fechada.

E tem algo, tem algo de que eu deveria me lembrar.
Algo que preciso fazer, talvez, algo pra comprar
Abro a porta do quarto, acendo a luz.
Eu não me lembro.
Mas
A sensação é incômoda demais.
É quase como se

Se o quê?
Já não me lembro mais.

Entro no banheiro, lavo os cabelos com água quente, lavo o rosto, escovo os dentes, me olho no espelho
"Quem sou eu?"

E isso me incomoda por alguns minutos, minutos intensos, em que eu me olho nos olhos, como se fosse encontrar neles a resposta pra todas essas sensações.
Aí eu me lembro que eu sei quem sou

Sou quem eu quiser ser.

E tudo fica bem no mundo.

34x19 Não ou sim (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

- Quer namorar?

Assim só, simples, sem grandes ações.
Sem grandes preparações.
"Acho que estou destinada a conseguir pretendentes incapazes de me propor namoro com flores e jantares", pensei. É a maldição daqueles filmes dos anos 90. Tudo bem.

Quero dizer,
não.
Eu quero estar apaixonada, eu quero querer você.

Não.
Eu quero ser livre, eu não quero me comprometer com a felicidade de outro nós.

Não.
Eu gosto de você. Muito. Mas não quero namorar com alguém porque temos interesses similares, porque é fácil, porque minha família acharia ok

Não.
Eu não sei o que quero, ou o que fazer quando souber.

Eu diria sim, eu juro que diria.
Estável, seguro. Você é bom e, nesse exato momento, eu desejo nunca ter te conhecido, nunca ter te feito mal.
Eu diria sim, em outra época, outra vida, outra B.
Mas a pessoa que sou - ou estou tentando ser -, essa não quer nem tentar.

Eu me conheço melhor.
Sei o que não quero.
E não quero nós.
Coloco todo o sentimento, a vontade, a incerteza, a insegurança, saber quem sou, em uma palavra, um som, desvio o olhar, digo alto, da maneira mais segura que consigo dizer:

- Não.

Você vai ficar bem.
E eu também.

32x09 Two paper airplanes

Imagem: TingTing Huang

Beijo a sua boca.
E  meu coração explode em pedacinhos.

Confundo com amor, porque não conheço amor.
Porque ninguém nunca me explicou que amar não é isso.

Tô sentada na calçada, fumando um cigarro, amuada, porque Ben e Hannah não ficaram juntos no final.
Porque os meus casais favoritos nunca ficam juntos no final.

Alguém passa, me vê, bagunça meu cabelo já bagunçado.
E  eu simplesmente tenho que rir.

Nós éramos um dos meus casais favoritos, sabe?
Eu torci bastante.
Mas eu também torci por Otto e eu - acho que ainda torço.
E por McCandless e eu.
Torci por Holden e eu, também.

Antes mesmo do nosso primeiro beijo, eu te falei dessa minha curiosidade, dessa vontade imensa de entender o que é que acontece depois que o filme acaba, depois que o herói beija a mocinha.

- Bom, não dura pra sempre.- digo, pra rua vazia.

Olho pra lua, penso em todas as coincidências, todos os milhares de pequenos enganos e erros que me trouxeram a essa calçada, os joelhos de Otto, a falta de cabelos de Holden, a doença de Augustus, o gosto de doce na boca de McCandless.
E eu percebo,
que estou mesmo à procura.

E que não pretendo parar.

Que esse texto era pra ser sobre você, moço,
mas minha vida não é mais sobre você.

Dou a última tragada no cigarro, e apago o que sobra com o pé, antes de me levantar,
e ir embora.

Pra onde?

Você sabe: setembro.

Enquanto setembro não chega,
oscilo.
Vou, volto.
Amo, odeio, me apaixono e me desapaixono a torto e a direito, fico entediada, escrevo mensagens e volto atrás.
Espero ele chegar.
Mas não tenho pressa.

Não tenho pressa.

31x11 Insight

Imagem: TingTing Huang


Acordei há umas semanas. Faminta. Bem. Curada. Nova. Feliz.
E comi.
Seria capaz de comer qualquer coisa.
Qualquer quantidade.
A qualquer hora.
Acordava no meio da noite, faminta.
E comia.
Comia.
Comia. Até pegar no sono, sem escovar os dentes.
E acordava com fome. E com nojo do gosto da minha boca.
Com nojo da minha boca.
Com medo de que meus dentes caíssem.
Aí escovava os dentes.
E comia.
Comia.
Comia.

Eu não sei quem eu quero ser.

Eu sinto um vazio, um vazio crescente, abrindo caminho por dentro de mim.
Um vazio que preenche. Que cresce,
enquanto eu observo, sem poder fazer nada.

Abri um buraco no dedo.
Bicho de pé.
Enfiei a agulha fundo, bem fundo e saí cortando o buraco até tirar de dentro aquele bichinho encolhido, minúsculo.
Cortei com alicate, joguei álcool em cima
e ficou um buraco.
Um buraco vazio, que nem eu.

Tem gatilho pra isso?
"Deixa a B. falar, quando ela explica dá pra entender"
Mas você já se perguntou como é que ela sabe disso?
- Todo ataque de pânico tem gatilho?
Talvez.
Só que, depois de um tempo, você nem sabe mais qual é.
No começo, é o azul.
Você pinta seu mundo de cinza, o mundo inteirinho.
Até que percebe que o cinza, tem um z. Z de azul.
E aquela cor já não serve mais.
Toda a tinta do mundo não vai ser suficiente.

Estava tudo bem.
- Está tudo bem - eu disse.
E eu não menti.
Eu não minto sobre isso. Não pra ele.
Era verdade quando eu disse.
Tem gente que diz que isso é como mentir pra mim mesma.
Não é.
É diferente, porque nem eu sei que é mentira.
Não consigo encontrar as palavras pra explicar esses dias
Você acorda
e está tudo bem.
Vai ficar tudo bem.
E seu coração sabe, sua cabeça sabe,
que é verdade.
A vida é boa, seus amigos são bons, as pessoas são ótimas.
As cores, os livros.
Você come.
Você come e isso só pode ser bom.
Você dorme 3 horas por noite.
E fica cansada. Ou não.
E seu coração está calmo.
Vai ficar tudo bem.
Não é mentira. Mas também não é real. E não tem ninguém pra te avisar.
É como subir em um palco, dizer todas as falas com toda a confiança, entrar no personagem, hipnotizar a plateia. E, quando as cortinas se fecham, você percebe que esteve nua durante toda a apresentação.

Eu fui perdendo a vontade de ouvir música.
Gosto de pensar que foi um sinal. Que eu poderia ter percebido.
Música me deixava impaciente.
Aí eu acordei.
E comi.
Comi.
Comi.
E o dia começou a escorrer.
A pesar.
Fui pra aula.
E percebi
Que não queria ter ido.
Que não queria ter dirigido.
Que não queria ter aberto as janelas.
Ou conversado.
Eu não queria ter tocado ninguém.
E nem queria participar de nada, ou saber segredo algum.
Eu não queria saber.
Fui embora, aliviada, tão aliviada pela conversa amena, sobre comida.
E comi.
Comi.
E comi.

Minha mãe mandou mensagem.
E eu percebi
que queria ir embora.
Que queria nunca mais voltar.
Deixar a casa exatamente assim, como quem saiu às pressas, com a roupa do corpo, sem carro, sem nada.
Calçando chinelos, sair andando por aí.
Até chegar a lugar nenhum, até derreter e desaparecer.

Eu não me importo com o que acontece amanhã, ou depois, ou setembro.
Eu só quero não ser eu.
Não é insuportável, não agora. Já foi.
Mas é doloroso. Incômodo. Dá uma agonia.
Eu tô com vontade de sair do meu corpo.
Ao mesmo tempo, tem alguma coisa querendo sair do meu corpo.
O vazio, talvez, inflando feito um balão, ocupando cada centímetro debaixo da minha pele.

Uma garota da minha turma disse que seria bom
se as pessoas pudessem simplesmente prever as coisas.
Por que?
Pra deixar um bilhete na cabeceira da cama dizendo pra mim mesma que vou acordar me sentindo uma merda?
Pra pedir pros amigos esconderem meu cartão de crédito?
Pra avisar pro meu namorado que eu vou querer pegar um guardanapo e esfregar um hambúrguer só pra tirar o molho dele?
Ou que, em certos dias, eu vou ignorar quem ele é e o que precisa e fingir que ele só serve pra sexo?
Ou eu devo ficar em casa pra não machucar ninguém?
Pra não puxar assunto com quem não conheço ou pra não ser horrível com quem conheço?

Eu quero acreditar.
Eu gosto da minha ingenuidade, da minha burrice.
Mesmo agora, eu sinto falta daquela sensação. Das vezes em que olhei no espelho e achei que estava bom.
Por pior que seja entender que nada daquilo era real,
eu não mudaria nada.
Estava tudo bem.
Eu ia ficar bem e chegar ilesa, no final.

Agora, eu nem sei se quero chegar lá.

Ella me diz que preciso dos remédios antigos, do Dr. T., de alguma classificação, um algoritmo padronizado. Mas eu não quero outro algoritmo. Não quero ninguém pra dizer quais das minhas características podem ser chamadas de critérios.
Eu não sou a porra de um caso que você lê num livro.
Eu não sou a porra de uma checklist.
E me dá muita raiva de quem tenta me reduzir a um grupo de palavras, de quem acha que a vida é muito simples, remédios coloridos e finais felizes.
VÁ.SE.FODER.

Eu tenho 23 anos.
Filha mais velha de 4 irmãos.
Eu curso medicina.
Gosto de ler.
Gosto de Brasília.
E de comer sorvete com batatas fritas.
Gosto de música indie e baladas levinhas pra ouvir e pensar.
Também gosto de música pop
E de dançar.
Mas, em alguns dias, eu acho que estou normal. E não estou. E vivo com uma sensação constante de não saber se sou quem acho que sou. De não saber se sou como acho que sou.

Eu costumava escrever histórias. Mas parei. Eu não sei se acredito mais no que elas significam.
Eu achava que elas iriam me proteger.
Que elas não iriam deixar que ninguém entrasse
e me magoasse.

Quero só terminar esse texto confuso.
Mas não sei como.
Então não termino.
É como essa coisa dentro de mim,
termina,

mas nunca acaba de verdade.

31x03 The door

Imagem: TingTing Huang

E assim acaba, ao menos pra mim, Abril.

Eu não tô apaixonada.
Não foi empate, e ninguém venceu.
Não teve jogo.

Eu tô pronta? Talvez.
Gosto de pensar que sim.

Que superei de vez, cheguei sã e salva na praia.
E trouxe ele comigo, pra ficar são e salvo, seguir seu caminho, longe do meu.

Mas, ao invés de andar, me bateu uma vontade imensa de sentar olhar o pôr do sol.
Já passei daquela fase, já não quero mais correr com as coisas, quero o que eu quiser, no meu tempo, do melhor jeito possível.

Eu quero conhecer as pessoas sem ter que conhecê-las. Sem usar desculpas, não é que tô de coração partido. É que não quero mesmo acordar com ninguém.
Eu quero esse silêncio, exatamente esse.
Dos dedos correndo pelo teclado, Isbells tocando alto, sem precisar de fones.
O sofá e a possibilidade de ler.

Eu gosto de gente, de beijo, de passar a mão nos cabelos.
Mas gosto mais disso.
E tinha me esquecido como era bom.

Ainda quero aquele namoro de propaganda, a luz do sol batendo e descobrindo a pele, pedaço por pedaço.

Mas não tenho pressa.
Achei que tivesse, o coração pulando pela boca o dia todo.

Mas aí eu te vi. Sentado, olhando o celular, à espera, iluminado pelas luzes lindas, pela lua linda, cheirando a Brasília.

E eu soube, de uma maneira triste e natural,
que eu quero ficar só.

Mas não dei meia volta e fui pra casa. Não faço mais isso.
Segui em frente, toquei seu rosto.
Eu não tenho medo.

O que tiver que ser,
que seja.

30x12 Lemonade

Imagem: TingTing Huang

Ele estava sentado na banheira. Água, álcool, gelo e limão, os cheiros se misturando no ar, fazendo arder meu nariz.
Me sentei no vaso sanitário, e comecei a desembaraçar seus cabelos.

- Você sente dor?
- Não.
- Medo?
- Não.
- Fome?
- Não.
-Você consegue sentir alguma coisa?

- Eu amo você, ele diz.
Mas é triste.
Amor nem sempre é bom.
Não desse tipo, não a esse ponto.

Passo a mão nos seus cabelos, no seu rosto frio.
- Você sente isso?
- Eu não sinto nada. Eu só-- Eu só amo você. É complexo. Eu tento pensar, eu tento entender o que você diz, o que sinto, o que quero, o que houve. Mas só consigo pensar em você. Não consigo me lembrar de como era antes de pensar em você, eu só sinto essa vontade incontrolável de estar com você, de falar com você, te ver, te ouvir.

- Era isso o que você queria?
Não respondo.
Ele segura minhas mãos, se vira pra me olhar, pra me ouvir, o rosto branco feito cera, as pupilas mais dilatadas do que achei que fosse ´possível.

- E você? Sente dor, medo? Fome? Consegue sentir alguma coisa?
- Eu amo você, digo.
- Espero que isso seja o suficiente, dessa vez.

É, eu também.

30x04 (I am) The one that got away

Imagem: TingTing Huang

- Se estiver sentindo dor, pode dizer.

Ai.
Dói.
Às vezes, dói bastante.

Mas tá passando.
Porque eu acordo pela manhã com vontade de lutar pelo que eu quero,
porque eu conheço pessoas incríveis que me amam com molho ou sem,
porque eu fico bonita nas quartas-feiras.

Um cara perguntou sobre mim,
e tá cheio de gente por aí pra ter paciência.
Gente que sabe que eu sou boa, que quer estar comigo pra dar risada, porque eu sei dar risada.
E eu sei brigar.
Mesmo assim, tem gente que não vai embora.

Eu sei que tá passando, porque eu não tenho mais medo de ficar sozinha.
Acho até graça,
e sei que não quero não ficar sozinha.

Sou muito leonina sim (às vezes) e acho legal quando elogiam o que eu escrevo.
Eu sei que sei fazer coisas boas.

E eu sei que consigo fazer qualquer coisa, não preciso que me digam.
Eu não vou mais duvidar, vou tentar não duvidar.

Ontem, a Mãe me disse que ia ficar tudo bem.
"Vá viver", ela disse, "as coisas acontecem nas encruzilhadas".
Eu acredito.
E vou.

Ser o melhor que puder.
Mesmo que o melhor de mim não seja o suficiente pra todo mundo.
(:

29x16 Figs

Imagem: TingTing Huang

Não dormi.
1:00, 2:00. 4:00, depois 6:00 e eu de olhos bem abertos, sem sono, sem nada, o coração estralando as costelas de novo.

Eu tenho medo da vida.

Aí apaguei, acordei tarde, comi, dei risada, dei tanta risada. Estudei, assisti TV, calma. Criei um ambiente seguro pra mim, outra gaiola dentro da gaiola. Tô me mantendo segura. Tô me mantendo sã.

Mas ficar sã, ficar na gaiola, isso não me faz ficar mais forte.
Daqui a pouco é dia 22 e eu tenho que voltar pra lá, e eu não posso me perder de novo.

Enchi a mão de xampu, e lavei os cabelos, mecha por mecha, ao som de músicas da Mallu. Da Mallu, é. E quando ela cantou Sambinha bom, confesso que me deu um medo, um medo de doer, mas não doeu.
Eu respirei fundo e pensei em coisas boas, cabelos brancos, cachinhos curtos, pensei em muitos chocolates, que amores não são perdidos, em um show perdido em algum lugar da memória de Brasília, caído na grama, na lama, no concreto. A canção tocou até o fim, enquanto eu enchia o cabelo de creme e de amor, de amor meu pra mim, cada rolinho uma lembrança boa que eu quero guardar.

Enrolei muito no banheiro, ouvindo cada música que me rasgou a pele meses atrás (quase um ano!), que é música. Não é pra doer.

E aí saí. A pele intacta, o cabelo com cheiro gostoso de carinho e de meu. De mim.

Sentei no sofá, dei minha opinião no grupo das minhas amigas, meu lugar seguro. E uma delas insistiu que eu dissesse pra todo mundo o que pensava. Tive vergonha de dizer que tinha medo, que não ia dizer nada, que meu coração queria sair da boca só de pensar em digitar algo, que minha mão nunca tremeu tanto só porque eu ia dizer que não gostei de algo.

Eu tive tanto medo. E sei que não é normal. Que sou capaz de falar em público, mas não consigo mandar uma mensagem com minha opinião.
Tremi tanto, que não conseguia escrever.
Parei, respirei fundo, mil, trimilhões de vezes.
ô, B. Quem te deixou assim tão covarde?

Queria chorar. Acho curioso que ninguém saiba o quanto me custa mandar uma mensagem.
O peito fica em chamas, o estômago embrulha, os dedos tremem.
Mandei a mensagem, me desculpei pela mensagem, ando me desculpando por existir há um bom tempo.

E as pessoas concordaram comigo.
Gostaram das minhas ideias.

Eu poderia chorar. Gratidão.
Porque eu tô tremendo até agora.

Eu tenho medo da vida.

Eu invento coisas.
E não é só puro estalo, eu leio coisas, eu vejo coisas, eu quero inventar coisas que as pessoas entendam.

Quero ser mais corajosa.
Quero mostrar quem eu sou e o que importa pra mim.
Queria não ter medo de expressar minha opinião, mas queria que as pessoas entendessem esse meu medo.
Esse pavor.
Essa vontade de calar.

Eu tenho medo de viver.

Alguém esbarra em mim e eu peço desculpas.
Desculpe por estar aqui.

Eu não quero mais me sentir segura, porque não é mais suficiente.
Eu quero ser corajosa.
Eu quero me levantar e bater se preciso,
não quero ficar em silêncio.
Não quero me encolher quando alguém muda o tom de voz numa conversa.

Eu quero ser a pessoa que sei que posso ser.
Quero ser minha heroína, meu príncipe do cavalo branco.
Minha casa, meu cavalo, meu cão de caça.

Quero nunca mais tremer ao apertar enviar,

a não ser que seja uma mensagem de amor.
Aí tudo bem.
Esse medo do não eu consigo levar.

29x06 Dinamarca

Imagem: TingTing Huang

Estava bêbada.
Estou sempre bêbada.
Os verbos se tornam pó debaixo da língua e eu não sinto dor, eu não sou nada.
A música alta me tira do prumo, e eu deito, eu me encolho e cresço, as pessoas me imprensam, me apertam e a física se curva, tudo ocupa o mesmo lugar, tudo é a mesma coisa.

Eu não sei quem sou. E isso é verdade, mais do que nunca, e é a única coisa que existe.

Um cara me olha, me pede um beijo e eu não sei se quero, eu não sei se não quero. Nos beijamos e eu não quero mais vê-lo de novo.

Respiro fundo, fumaça de cigarro, eu fumo, mesmo não fumando, porque eu não sei quem eu sou.
Uma garota me pergunta se beijo garotas. Digo que não, eu não beijo. (Estou esperando a garota certa, quero dizer, mas não digo)
Dançamos juntas, amigas agora. E eu não olho pra nada, pra ninguém, caminhamos por aí trocando olhares e eu não sinto meus pés.
- Ei, aquela garota é a ex do meu ex namorado, ó, digo, no meu estupor alcoólico. Mas eu também sou a ex do meu ex namorado. - digo isso não sei pra quem, não sei o porquê e rio, como se fosse muito engraçado, mas não é, é nada, é a verdade e a verdade não tem vez aqui.
Encontramos um cara que eu beijei na outra noite e ele me olha incerto, não sabe se me lembro dele, se vamos nos beijar de novo, acho graça, mas é claro que não.
Mas aí encontro outro cara, quebro minha regra, nos beijamos de novo e é bom, mas calma, eu tô bêbada demais pra me importar com o fato de que isso não significa nada. Quero ir lá pra dentro, quero ficar no escuro, onde sou bonita, onde ninguém me vê.
Caminhamos, eu encontro um cara, nos beijamos, qual é teu nome 'Camila' (minto e não minto, porque não quero mais te ver), e o teu 'Bernardo' (Bernardo nem soa como um nome de verdade, ele me conta que vai pra Dinamarca e eu não ligo, não dou a mínima) me beija, e a gente se beija e não é tão bom quanto eu gostaria que fosse, mas eu não sei exatamente o que é que eu estou procurando. Digo tchau, vai procurar outra garota pro que quer que seja.

E eu ando, zonza, tentando não cair e não esbarrar em ninguém, eu não sei mais o que eu quero da vida. Tento me lembrar do porquê faz tanto sentido beijar essas pessoas e não me lembro, sinto vontade de me sentar, mas não posso, não posso, eu preciso achar a pessoa certa, só precisa ser a pessoa certa.
O primeiro cara me pede um beijo de novo, diz que meu beijo é incrível, algo sobre como ele se sentiu e eu não quero saber, eu não quero ouvir, me beija,
não, não é esse, definitivamente não é esse

Danço, e o cara da outra festa me vê, vem falar comigo
'Oi, você lembra de mim?' Digo que sim, não vejo sentido em mentir, a gente ficou e nem foi ruim, 'Eu lembro que você faz medicina, mas não lembro seu nome', ah, cara, eu tenho que parar de falar que faço medicina, disso todo mundo lembra, acho irônico e triste que a porra da medicina seja a coisa mais grandiosa que eu vá fazer com minha vida merda, mesmo pra esses caras. Digo pra ele 'Eu lembro teu nome', ele parece meio tenso por isso, ainda bem que sou boa com nomes e em constranger as pessoas, ele me pede pra dizer o meu e eu resolvo tudo com um 'vai ter que lembrar sozinho', aí é adeus e eu volto pra essa busca insana por nada e por qualquer coisa que signifique algo.

Danço e um cara me olha, mas eu já estou quase sóbria, sóbria o bastante pra querer beijar o amigo dele, o que ferra tudo, porque eu não fico com amigos de caras que querem ficar comigo. Acho horrível.
Ele se aproxima e meu amigo grita "Não vai ficar com ela, ela é minha". E eu digo, meio bêbada, "NÃO SOU NÃO", e me arrependo logo em seguida porque parece interesse e não é: é desespero.

Ele me empurra pro King, e nos beijamos de novo, e acho que ambos já nos cansamos um do outro, já sugamos toda a vontade possível dos pulmões um do outro e nossas línguas já se movem de forma quase automática. Eu não ferro com as coisas, mas tô cansada das coisas que não significam nada, e eu só quero que ele tenha beijado 50 outras meninas e que tenha sido mil vezes melhor. Porque eu não tenho mais forças pra isso. Pra toda essa estupidez, toda essa insanidade.
Quero ir pra casa, mas não dá, eu não tenho pra onde ir.

Ele vai embora e eu fico, eu danço, eu pulo, eu preciso disso, eu preciso ficar, eu preciso não voltar pra casa, eu preciso disso.

Aí o amigo do outro cara volta e começa a dançar do meu lado e eu suponho que deveria achar legal o fato de ele querer ficar comigo mesmo depois de eu ter beijado outro cara na frente dele, mas só acho triste, tremendamente triste. Porque eu não sou ninguém, eu estou suja e cansada, e não sinto nem vontade de tentar.
Ele não desiste, dança e olha pra mim como quem diz "eu quero você e pronto".
Daí se cansa, se aproxima e usa aquela velha frase "Eu ia esperar mais, mas você é muito linda e eu preciso te beijar".
De repente, sinto que tenho 80 anos, ou 100 ou mil e que já vi aquela cena tantas vezes tantas vezes. Mas ele é jovem, e quer beijar uma droga de garota que já deve ter pego zilhões de bactérias da boca de outras pessoas, e vai que é ele, vai que é esse e não o amigo dele, vai que os planetas se alinham e

Bom, não.
Não era ele. A gente se beija e eu faço aquelas coisas que eu faço, automaticamente. Estou certa de que ele deve ser um cara legal, deve merecer mais do que isso, digo isso a ele, em outras palavras, mas ele balança a cabeça, "eu queria você".
Ele pergunta meu nome, o que faço da vida, here we go 'Camila, psicologia', e de repente eu só sei que nunca mais vou falar meu nome de novo.

Aí acaba, sempre acaba, adeus, adeus.

Todo mundo vai embora e só a gente fica - James e eu- , dançando as músicas do final, com uns caras engraçados, até a manhã quase chegar.
Quando ela chega, estamos onde sempre acabamos, em casa, sentados, cheirando a cigarro, bebida e suor, gosto de morte na boca,

- Acho melhor a gente dar um tempo dessas festas. Muita gente conhecida. Que não quero ver de novo.
- Yep. De acordo.

Aí a gente dorme, e o significado dessas coisas se perde, pra nunca mais ser encontrado.
Ainda bem.