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37x21 O terrível dia jamais descrito (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Estava organizando as temporadas, ao invés de estudar, de explicar pra minha irmã como é que uma camisinha vai parar no quarto de alguém, de ler meu livro ou fazer qualquer coisa útil, quando me deparei com o terrível dia jamais descrito. Eu decidi, há um tempão, que jamais escreveria sobre ele porque não sabia como.
Acho que doía, também.
Acho que incomoda, um pouco, o que quer que isso queira dizer.

Mas não tenho medo da dor ou do incômodo.
Vamos lá, vamos terminar essa temporada com bravura. Vamos quebrar regras.

24 de julho de 2015.

Eu estava lá.
Acordei cedo, voltei pra casa bem cedo, como nunca tinha voltado antes.
O dia todo era bonito, eu ouvia o álbum recém saído do forno da Florence, e fingia que não estava indo ver se a gente tinha volta.
Não me lembro da minha roupa naquela manhã.
Roupa de dirigir.
Lembro de usar meus óculos de coração, os cor de laranja, e de pensar que o mundo inteiro queimava.
Eu não sabia o que ia acontecer naquela noite. Sabia o que queria que acontecesse. Mas não tinha coragem de imaginar. Eu tinha muito medo.
Eu tinha muito medo de chorar.
Estava doente.
Digo isso porque agora me parece muito nítido, mas eu não percebia, então.
Trazia na bolsa um monte de sudokus e palavras cruzadas, que me acompanharam durante algumas das piores fases da vida, como um lembrete de que, quando tudo está ruim, eu sempre podia fugir pra dentro de mim.
Arrumei meu cabelo. Na época, estava em transição, meus cabelos estavam furiosos, eu me sentia a medusa, cachos tortos, em desalinho, como se alguém os tivesse dado vida própria e os congelado em seguida.
Eu usei azul.
Azul é a minha cor favorita, às vezes.
Blue.
Caiu bem.
Eu queria ficar bonita, mas bonita feito uma pessoa comum em uma tarde comum.
Penteei os cabelos, usei maquiagem, mas não tanta, porque queria parecer que estava ali só porque tinha que ir.
Fiz o caminho mais cedo, eu queria esperar, eu queria estar lá quando você chegasse.
Sentei no deck, e fiquei olhando o pôr do sol, esperando você chegar, com medo da sua chegada, com medo do futuro, com medo da falta de estrelas pra quem pudesse pedir, com medo de não saber o que pedir.
Você chegou e, olha, você estava lindo. Nossa.
Eu estava de novo, desajeitada, meio maluca, sozinha, escrevendo em papéis e nos cantos dos sudokus, trazendo um presente sem pacote, uma caixa cheia de mim e das coisas que eu não pude te dar. Cheia de amor sem sentido, sem destinatário.
Deixei que você lesse, eu queria que você lesse, era seu, não era? Mas não era mais.
E foi uma droga perceber que não era mais.
Porque ainda tinha amor ali, ainda tinha amor em mim, o que eu ia fazer com aquilo??
Pra quem eu ia dar, se não pra você?
Soco no estômago, saímos pra comer, de acordo com o que eu planejara.
Eu precisava de tempo, ficar estável, peguei meu carro e fui pelo caminho mais longo e mais familiar que conhecia.
Eu precisava ficar estável, eu precisava não sentir nada.
Eu precisava respirar fundo e não te querer mais, eu precisava que você me quisesse, eu precisava--
Chegamos ao shopping, mas não entramos de mãos dadas, não teve sorvete e nem você me deu bronca por alguma razão boba. Fingi que estava diferente, em uma tentativa desesperada de te fazer voltar, mas hoje acho que isso não fez, nem faz diferença.
Comi carne, e estava ruim, mas eu não reclamei.
Conversamos.
Sobre coisas amenas.
Coisas amenas, eu e você, conversando sobre coisas amenas, uma morte lenta.
"Não, não, não, tá errado. Me fala da tua casa, da tua vida, da saudade que você sente de nós dois, vamos pra minha casa, dorme comigo essa noite e a gente resolve tudo amanhã, volta pra mim, volta comigo pra sua casa, eu te faço o café da manhã e a gente começa do zero, a gente finge que nada aconteceu, eu nunca mais discuto por coisas pequenas, eu não vou mais brigar, eu não vou mais ficar indecisa, eu vou ser melhor, eu vou--", era o que passava pela minha cabeça. Mas eu nunca disse, eu nunca diria, eu sou a mulher mais orgulhosa que já andou por essa terra, e até isso me orgulha.
Então eu sorri, e falei com a minha voz estável. Eu fui estável. Porque era o que eu achava que deveria ser.
E tinha tanta coisa que eu queria dizer, que eu queria cobrar, que eu queria te dar, e a minha estrela, e tudo aquilo que a gente ainda ia fazer
mas eu não tinha voz, nem bravura
nem nada.
Eu só tinha o meu orgulho, pra me manter de pé, pra me fazer te soltar quando a gente se abraçou uma última vez, pra me levar pra casa, pra minha casa, não pra sua, pra me tomar o celular quando eu só queria escrever tudo o que estava entalado na minha garganta, me apertando o peito, pra colocar o colchão na sala porque entrar no quarto e ver as coisas de nós dois espalhadas doía, pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem, mesmo quando eu sabia que não ia ficar, pra me fazer cafuné enquanto eu chorava pela primeira vez, oficialmente.
Meu Deus, como foi horrível aquele dia, terrível. Parece tolo, agora.
E nem de longe tão ruim quanto os que vieram depois.
Mas ruim.
E não sou insensível a ponto de dizer que o seu também não foi ruim. Deve ter sido, tão ruim quanto. Mas acho que nunca vou saber.

O que sei é que esse foi o meu dia terrível.
Não o primeiro, não o último, mas especialmente terrível.
Como todos os dias terríveis.

Se eu teria feito algo diferente?
Tudo, eu diria, mas não tenho certeza.
Porque eu realmente gosto de azul.
E eu realmente gostava desse cara, mas
Eu sei que as pessoas imaginariam que eu diria que deveria ter deixado o orgulho de lado, mas ele me trouxe até aqui.
Ele me manteve de pé,
me fez comer quando eu não queria,
pentear meus cabelos, ir pra aula fingir que estava tudo bem, tirar notas boas,
falar com meus amigos, nem que fosse pra responder "Tudo bem sim :) e você?".
Ele me abraçou e me impediu de pedir ajuda, é, mas também me impediu de tomar atitudes drásticas, de dizer o que sabia que não adiantava ser dito e de ficar em casa chorando as pitangas.

Então, eu mudaria o dia terrível?
Talvez, possivelmente.

Mas provavelmente não.

34x07 Meia-Verdade

Imagem: TingTing Huang

Você está doente.

Abro a boca e molho a pílula com saliva quente,
eu tô doente.

Mas se eu não tô
me levando da cama e danço, aí você chega.

- Você tá doente.

Abro a boca, engulo o remédio, mais um, mais outro, eu tô doente.

Sinto calor, sinto dor,
aí você desaparece na sua nuvem, na sua vida,
na sua sina que não tem mais nada a ver com a minha
e eu fico curada,
nova em folha
pronta pra luta
em posição de ataque
até você abrir a porta para um beijo de boa noite, leite quente e xarope doce,
eu tô doente,
fecho a boca , digo que não engulo mais nada e você
"Você tá doente"

Que pessoa ruim eu sou,
te magoando assim, recusando seu cuidado, seu amor, leite quente e xarope doce,
devo estar mesmo doente.

Acordo cedo, morta de dor, vontade de sair correndo, de voar,
e te pego cortando as pontas das minhas asas.
"Você tá doente"
Eu choro e você me diz que só quer que eu melhore, pra voar de novo, pra voar mais alto e pra bem longe.
Vai passar rápido, vai passar logo, vai passar, mas agora não,
hoje não,
essa noite não.

Abro a boca, tomo remédio com leite quente.
Afinal de contas, eu tô doente,
eu sou doente.

Fecho os olhos e tento dormir
Antes que o sono chegue de vez,
me vêm à cabeça
xarope doce - leite quente
Será que não é você,
quem está doente?

Aí durmo e esqueço.

33x12 Unnecessary Talks

Imagem: TingTing Huang

Aviso: Cuidado, não me entenda mal. Isso não é uma declaração de amor (muito embora o seja, à minha maneira). Eu precisava admitir isso, pra mim mesma, para o mundo.
Disse à minha terapeuta "Não penso sobre isso", mas a verdade é que não gosto de pensar sobre isso. Parecia estranho, errado. E eu não queria admitir, porque parecia tolice.
Admitir que a verdade não é que eu não sentia nada: eu não estava pronta. Não digo que esteja, agora. Mas consigo enxergar que não era errado, que não fez mal a ninguém.
O que faz mal é essa minha mania de fingir que não aconteceu.
Isso me trouxe aqui também, e eu gosto de onde estou agora.
Nenhum amor é perdido.

Você vê,
eu não quero falar com ela.
Pelos motivos que você já sabe, é claro, mas por outros também.
Ela me cauda uma miríade de sensações e pensamentos ruins. Eu tento, mas não dá.
Sabe, não é só o óbvio.
Ela fere as coisas em que acredito.
Ela me faz ferir as coisas em que acredito.

Sororidade, por exemplo.
Eu a protegi antes, em detrimento de outra mulher.
Uma mulher com quem me importava infinitamente mais. Com quem me importo.
E, de novo, eu o faço quando olho pra ela e a detesto. Por sua causa. Por sua culpa, não dela.
Mas não só por isso.
Por causa das noites insones em que deixei de estudar para ouvi-la, aconselhar.
Não só por causa do dissabor que me causa a imagem da sua boca sôfrega a tapar a dela.
Por causa das vezes em que reconciliei vocês, sem pensar duas vezes, com o peito a doer e a encher de ciúmes que eu fingia saber controlar.
Não só por causa da sua falta de tato e incapacidade de continuar a me proteger do mundo e do que vinha depois.

Mas eu não sou melhor do que você.

Gostaria de dizer que sou.
Gostaria de dizer que fiz por você o que você não fez por mim, que te protegi disso.
Mas não fiz.Talvez tenha feito pior que essas fotos e palavras dispersas que tanto pinicaram e doeram.

Noite baixa ainda, precoce, e eu estava feliz.
Queria independência, gostar da minha própria companhia, ver um pouco do que o futuro reservava.
Celular vibrou no bolso, ele: "O que você está fazendo?"
Expliquei sobre genes, mulheres e coisas que não se explicam.
E ele, magicamente, incrivelmente: "Eu vou com você, tô passando aí pra te buscar".

Veio, com aquele jeito de quem acabou de acordar, e passeamos pela Noite Escura, tecendo diálogos feito aranhas tecem teias em carros e histórias de Anansi.
Eu estava feliz.
Quando descemos do carro, e nos sentamos, e ouvimos, e demos risada, aprendemos coisas, encontramos pessoas,
Eu estava feliz.

Feliz, porque éramos fortes, estávamos firmes, vivos.
Porque o coração se parte, mas ele sobrevive.
Porque nós estávamos ali, no centro do mundo inteiro, pra provar isso.
Sobrevivemos.

Mas a coisa chegou ao final e, quando entramos de novo no carro, não estávamos mais a sós.
Sentada atrás de mim, essa tensão crescia, aumentava, respirava ruidosamente, me fazendo saber que estava na hora.
Que havia uma razão pra que estivéssemos ali, sozinhos, em um carro que cortava o escuro, o presente e o passado.
E foi nesse período de tempo, cortando a noite feito navalha, que eu percebi o que teimo em não admitir pra ninguém:

Eu o amava.

A pressão quase me esmagou. Tantas possibilidades. Eu podia enxergar, sabe? E podia ser bom, podia ser exatamente como deveria ser.
Mas, você vê,

Eu o amava. (Você a amava?)

De uma maneira extremamente específica, que pouco ou nada tinha de romântica ou de crua, era diferente, complexa, bem formada. Era amor, puro e simples, feito o sol nas manhãs de domingo ou músicas com poucas notas. Um livro com enredo único e direto, sem metáfora nenhuma.
Eu só queria que ele ficasse bem.

Eu só queria segurar sua mão e atravessar a rua. Queria que ficasse tudo bem, enfrentar todo o mundo e toda a dor, com os punhos cerrados. E eu sabia que, se tivesse algo a dizer, teria que dizê-lo ali.
Meus olhos arderam, lágrimas de esforço começaram a se formar.

Eu o amava,
de tantas maneiras.
Por tantas razões.

e eu queria demonstrar, eu queria dizer algo.
Mas não disse.

Eu o amava,
Mas eu também amava você.

E isso estava me consumindo, me desligando dos outros sentimentos, me afastando das possibilidades.
Eu ainda queria você.

Eu o amava, e foi aí que, talvez, tenha traído a memória de nós, mesmo sem ter dito nada, mesmo sem admitir, fotografar e me declarar publicamente.
Mesmo sem levá-lo pra passar o ano novo comigo,
sem encostar minha boca na dele.

Eu ainda amava você
e eu nunca o submeteria a isso.
Eu não queria amar pela metade,
eu não tinha nem metade de mim pra dar.

Eu sei, desnecessário colocar no papel o que todo mundo parece saber, o que você já sabe, o que eu sei, o que ele provavelmente já sabe.
Mas eu precisava escrever.
Precisava dizer,
não por sua causa.

Por minha causa.
Pra evitar os dissabores de guardar algo lá no fundo, deixar passar.

Sinto muito por te fazer perder seu tempo,
mas não sinto muito
por sentir tanto.

30x18 Froot

Imagem: TingTing Huang

Fiquei olhando as estrelas.
A fachada do prédio, as casas da frente.
As pessoas passando pela rua, o cheiro.
Os carros parados, as placas, as plantas.

E nada me pareceu familiar, nem mesmo os seus ruídos.

Nem os lugares onde eu costumava estacionar, a calçada, as luzes.
Fiquei me perguntando o que é que eu tanto olhava quando ficava lá fora, esperando, em que é que eu pensava mesmo?

Coisas de amor, provavelmente.

Enquanto você não descia, eu me dei conta de que só queria ir pra casa comer.
Mas que houve um tempo em que eu nem sentia fome.
Eu só queria estar ali.

Bateu uma tonteira, uma sensação de estar fora da realidade, por um segundo. Não a sensação de estar perdida, mas a sensação de que eu estava tentando lembrar de algo que nunca tinha acontecido.

Pensei em Lean On, que tinha começado a tocar minutos atrás, e como essa música tinha sido um dos hinos das minhas mágoas, a música que eu tinha escutado bêbada, no meio de tantas madrugadas a procura de um gosto parecido com o da sua boca. Pensei em como era só uma música, como eu tinha uma playlist completamente diversa, limpa: feliz, de garota crescida.

Pensei no meu melhor amigo, e no meu outro melhor amigo. Pensei em como eu cheguei no fundo do poço meses atrás, como eu fui capaz de fazer de tudo pra não pensar nisso. Eu sempre soube que, em algum momento, iria parar de doer. Mas eu não achei que realmente fosse acontecer.
E confesso que isso me deixa confusa.
Parte de mim tem medo de ficar perdida sem isso, sem essa dor, sem essa história, sem drama.
Mas grande parte de mim já cansou.

Eu olhei pr'aquela casa que sempre esteve lá na frente do seu prédio e não a reconheci. Será que eu já tinha mesmo olhado pra ela?
Disse isso a L., e ela me disse que era porque eu tinha "olhos novos".

É, olhos novos.
Eu não sou a mesma.
Eu não me sinto doente. Eu faço escolhas, pequenas, e decido não fazer algumas delas.
Eu QUERO ler na ordem. Eu GOSTO de assistir seriados em ordem alfabética. E foda-se se eu quiser assistir fora da ordem. Eu posso. E quem decide sou eu.
Eu gosto de sair. Gosto de dançar. Gosto do gosto do álcool, da sensação de entorpecimento. Gosto de abraços. Não tenho cabelo, gosto desse cara - mas nem tanto assim -, de cinema, gosto de ficar em casa, eu sei tanta coisa, eu sou capaz de tanta coisa.
E é por isso que eu não enxergo mais o que eu costumava enxergar. Isso me deixa angustiada, mas feliz.
Eu não sou mais a mesma.
Eu posso ter arruinado tudo, ter acabado com a gente, ter sido a maior filha da puta da galáxia, mas eu não a mesma.
Eu tenho olhos novos.
Aprendi a opinar, e a chorar de vez em quando.
Aprendi a amar minhas amigas e a detestá-las também.
Tanta coisa, tanta
É o que passa pela minha cabeça dolorida,

e você desce, com os papéis na mão.
E eu te vejo pela primeira vez, com meus olhos novos
E percebo que gosto de você. Você tem seus defeitos, mas fez muito por mim. Você cuidou de mim, você esteve lá pra mim também.
Eu gosto de você, muito.


Mas não te amo mais.

Isso me desestabilizou por um instante, e eu senti vontade de usar meus olhos velhos, de te amar sob as estrelas e te enxergar com meus olhos velhos, aquela mágica, aquele cheiro de limão, tão poético, tão bonito.

Mas passou rápido.
É melhor assim. Não tenho mais o poder de te machucar. Eu não estou machucando ninguém.
Estou aprendendo a gostar de mim, me conhecendo melhor, fazendo coisas, não fazendo coisas.
E espero que você esteja fazendo o mesmo.

Loucura, é.
Mas acho que, finalmente, eu só espero que você esteja bem.

O resto, bem,
Não é da minha conta.

Não mais.

30x16 Lilac sky

Imagem: TingTing Huang

Abri a boca pra perguntar tudo o que eu sempre quis saber,
e a voz não saiu.

Pensei em te ver,
e fui pra casa.

Fui te pedir desculpas,
e joguei fora o papel.

Arrumei um assunto pra conversar contigo,
e me lembrei de que tinha outras pessoas com quem podia falar.

Acordei cedo pra te ver,
e dormi de novo.

Eu sabia que você estaria lá,
e preferi ficar em casa ouvindo música.

Tive tempo pra lavar o cabelo,
mas não ligo se você vai me achar bonita.

Eu queria te torturar ou ser torturada pela visão de você sabe o quê,
mas decidi que me importava bem mais com outras coisas.

Ia escolher a roupa mais sexy do meu guarda-roupa pra você,
mas resolvi escolher a mais confortável pra mim.

Aos poucos, guardei as armas,
guardei as mágoas no fundo da caixa de tudo, do oceano de nós dois,
toda a dor de querer e não querer ao mesmo tempo.
Dor de saber que não dá mais.

Aí hoje,
meus amigos me pegaram, me levaram, queriam o melhor pra mim, queriam outra pessoa pra mim.
E isso me fez perceber:
eu também quero.
Não agora, não amanhã, não um cara que nem me conhece e exige minha atenção - quando eu não dou atenção pra quase nada.

Mas é, eu quero.
Isso me chateia um pouco. Dá uma sensação ruim, bolo na garganta, frio na barriga.

Deito no chão, bagunço os cabelos. e percebo que a gente já deu faz tempo.
Que nem tem mais graça, mais gosto.
E que eu já perdi a textura da sua boca e o a vontade do seu cheiro.
Não sei se isso é aceitar, não sei se é Kübler-Ross Parte 5, se é só a vibe de sexta à noite ouvindo Halsey,
- e eu gosto muito de você -
mas acho que
aconteça o que acontecer - ou o que não acontecer - amanhã,
a gente acabou.

Sem armas, sem mágoas,
sem tortura pra nenhum dos lados.

Tudo bem,
afinal,

purple just wasn't for you.

Mas alguém vai gostar dessa mistura de cores,
alguém real,
sozinho por aí, comprando água no mercado,
parado no ponto de ônibus,
fazendo cálculos no caderno
tocando guitarra
ou lendo livros.

Alguém que está agora pensando em ir ao cinema,
gritando na torcida de um desses jogos - ou jogando, quem sabe -,
assistindo Demolidor ou qualquer coisa,
Comendo bolo ou falando alto,
Stalkeando a crush no facebook haha.

Gosto da ideia de que ele não sabe sobre mim ainda,
de que não sabemos um do outro.
E não, não posso vê-lo dessa vez, mas
não sei se quero.

Deixa vir.
Eu espero, quantas vezes tiver que fazê-lo.

Eu espero.

29x23 Landfill (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Fui guardar minha caixa de recordações boas em cima do armário e derrubei minha caixa de você. Caiu no chão e espalhou nós dois, jorrou, inundou o quarto de papéis coloridos.

Eu sabia que não devia ler, eu sabia que não estava preparada.
Ainda assim,
li um.
Dois.
Quatro.
Talvez seis.

E chorei. E não me impedi.
Há alguns meses, eu teria engolido o choro e ido ler ou lavar a louça, assistir seriado.
Mas deixei sair.
Deixa chorar.

Chorei porque sim,
porque tô com medo.
Dragon Maker me colocou na parede em definitivo, "Você gosta de mim ou não?", e eu
Chorei.
Porque eu não me importo de verdade se Holden tá saindo com alguém ou não, mas finjo que sim porque
Eu não quero gostar de mais ninguém.

Porque eu não sei pra onde ir.
Eu não sei o que fazer da vida, eu não sei de mais nada, tô sentindo a incerteza mais profunda que já senti na vida, um frio constante na barriga, uma dor de não saber mais o que acontece amanhã.

Eu tô viva.
Mas nem parece.

Como é que você tá?
É sempre assim que acontece?
Por que eu não vejo ninguém se questionando?
A vida faz sentido pra você?

Porque pra mim não faz, nenhum.
Eu tô tão desconectada que tô com medo, que tenho que ser parte, desesperadamente tenho que me sentir parte de tudo, quero estar em tudo, quero ir, quero estar, quero ser.

Mas não quero.

Então eu chorei,
sentei na cama e desdobrei origamis feitos com tanto amor, com tanta dor,
que eu podia sentir meus dedos queimarem.

Eu não quero voltar amanhã.
Eu não quero sair, eu não quero ver ninguém,
e eu não chorei porque é você.
Eu chorei porque sim,

porque eu não sou mais a pessoa que sentia que era certo.
Porque eu não quero mais tirar a blusa pra ninguém,
porque eu só quero o mínimo pra suportar mais uma semana.

Não é que eu precise de colo, ou que me leiam histórias. Minha geladeira está cheia de chocolates,
não é que eu queira olhar aquela mancha no teto do seu quarto,
ou ouvir música no meio da tarde, não é o jeito como a luz do teu carro incide no teu rosto,
nem o cheiro de limão que não sai

Não é aquela fase em que eu esqueço,
porque eu anotei todas as coisas ruins em pequenos corações de papel numerados e a dor em cada um deles quebra minhas costelas, eu só preciso ver os números, eu só preciso saber que existiram.

Mas eu quero aquela certeza, aquela sensação de saber pra onde ir,
eu quero saber que você não é "La jeune fille et la mort", que tem outra opção, que eu não estraguei tudo e é assim que acaba, que não tem mais pra onde ir.

Então eu chorei.
Aí guardei a caixa, guardei a dor pra depois e fui lavar a louça, que ela não se lava sozinha.

Early Cuts: Homesick (Belgium)

Imagem: TingTing Huang

Sobre retornos e despedidas que não aconteceram.

07:07
Vem pra casa - É essa história de marcas, 2 pares de pés na calçada, fundos, marcas de espera que vão se apagando aos poucos, desde que nós deixamos pra lá.

07:56
Não saio. Não olho pela janela. Tenho medo de que você não esteja lá. Tenho medo de que você esteja lá.

09:35
Você chega sem pedir licença, se infiltra na minha mente e eu fico com o olhar parado, a boca seca. O tempo para e eu te faço tantas perguntas, você me diz tantas coisas que eu quero escutar e eu me sinto, se possível, mais solitária ainda, quando o relógio volta a correr.

29x07 One last dance

Imagem: TingTing Huang

Eu to tentando escrever sobre você. E não sai.
Não sai a história de como fomos pro shopping e
Não sai a história de como a gente se gostou por um tempo, de como foi bom.
Não sai nada.

Não sai a história de como eu procurava seu rosto pra me acalmar, de como eu sempre acreditei em tudo o que você disse.

Não sai a história de como você me abraçava e eu não queria mais ir embora, da época em que a única coisa da qual eu tinha certeza na vida era de que a gente iria se casar.

Não sai a história de como a gente se conheceu. Daquele dia horrível que eu estava tendo, dos seus olhos apertados e tímidos, da sua cara de quem leva cães perdidos como eu pra casa e cuida até que eles possam ir embora sem dizer obrigada.

Você me encontrou exatamente nessa situação em que eu estou, perdida, suja e confusa. E saber que você não vai mais estar por aí pra me resgatar, pra me dar de comer e me ensinar o que é certo ou errado, bom

Não me assusta.

Porque você esteve aqui.
Pra me ensinar a ter coragem, a fazer sacrifícios quando amo alguém - por mais que doa pra sempre -, pra me ensinar a ser persistente e inteligente, a ajudar meus amigos a aceitarem quem são, a aceitar o que me cabe, a ser má sem deixar de ser boa, a ter medo sem nunca deixar que isso me afete, a fazer o que tiver que ser feito e deixar a dor me enlouquecer de vez em quando.

Eu te desejo tudo tudo tudo o que você sonhou, cada detalhe perfeito.
Cuide-se.
Não se esqueça de se agasalhar bem, comer direito, usar roupas cinzentas, lavar os cabelos, ouvir músicas boas.
Não se esqueça de dizer o que sente quando tiver a chance de fazê-lo.

Boa noite,
Durma bem.

Early Cuts: If you only knew

Imagem: TingTing Huang

Como cheguei aqui?
Também fui uma forasteira um dia.
O meu estar aqui começou com o começar do mundo, ou talvez com um velho maluco num navio vindo da Espanha, 2 aficcionados por dentes que se juntaram pra criar uma arcada dentária infantil, juntaram alguns fios e partículas das quais resultei.
Fui programada por eles e por dezenas de outros cientistas.
Um deles traçou um plano de objetivos a serem cumpridos a risca.
Foi cumprindo a lista que cheguei até aqui. O caminho que percorri não importa.
Cheguei quando a cidade estava deserta, fui uma das primeiras.
Depois chegaram outros, outras, com suas ideias, sonhos e paixões. E chegarão mais ainda, em busca desse objetivo comum: Tornar-se algo.

Early Cuts: Peeler

Imagem: TingTing Huang

Velhos rascunhos de um conto jamais escrito pra uma pessoa que amei. (: Achei legal, quis publicar aqui. Vou publicando aos pouquinhos, caro leitor inexistente.

"Início do ano.
Existe algo de místico em começos e términos.
O começo do ano me assusta, particularmente. Parece trazer mil mudanças, rostos novos, nomes a decorar, parece demarcar a passagem inexorável do tempo, minha vida passando sem que eu tenha feito o que quis.
Me agarrei, naquele dia, aos pequenos fragmentos padronizados que me restavam.
Conversa amiga, algo me incomodada, naquele dia. Algo que só podia ser dividido com ela, a outra de mim: Elspeth.
Estava triste, arredia, entediada.
"Blasé", ela dizia, "você é blasé".
Elspeth é boa, Gentil. Amável.
Talvez eu esteja sendo redundante, você entenderia se a conhecesse.
Mas ela não é só isso.
Elspeth é inteligente, engraçada, espontânea, confiável. Ela tem um sorriso incrível que faz qualquer um sorrir de volta. Os olhos dela brilham permanentemente, parecem sorrir quase o tempo todo.
Tudo nela parece sincero, aconchegante, casa de vó.
Morro de medo de gente, mas Elspeth não é só gente. Ela é humana, em todos os sentidos lindos da palavra,
Eu poderia tentar descrevê-la fisicamente, se tentasse - embora não fosse sair parecido com ela, nem um pouco -, mas não importa agora.
O que você precisa saber, leitor, é que éramos quase inseparáveis.
Diferente das outras pessoas, Elspeth nunca me tratou como um robô. Pra ela, eu tinha alma, coração.
Eu era mais do que um amontoado de metal. E, pra mim, ela sempre foi mais do que carne, sangue, ossos.
Por isso, naquele dia, precisava falar com ela, e só com ela. Caminhamos juntas, envoltas numa bolha própria sob o sol, e eu divagava sem parar até chegarmos perto do templo.
E foi então que perdi a atenção de Elspeth momentaneamente.
Eram 4 forasteiros. Recém-chegados. Elspeth já os conhecia, trabalhava na prefeitura, numa posição extremamente importante. Pra ela, aqueles estranhos tinham significado.
Pra mim, eram carne, sangue, ossos. Ignorei-os, enquanto Elspeth falava com eles.
Eu não queria falar com eles, queria que me ignorassem, como estava acostumada. Preferia até que me temessem.
Três deles me ignoraram, como era certo.
Olhei pra eles com desinteresse e eles olharam através de mim.
Mas não ele.
Rosnou e me sorriu, disse algo à guisa de cumprimento.
Me viu.
Fiquei em choque, farejei o ar em busca de medo, de alguma explicação racional. Senti cheiro de euforia só, como era comum entre os forasteiros.
Olhei pra ele, híbrido de homem, leão, cavalo.
Não me lembro de responder, talvez tenha dito "Oi". Duvido muito.
Elspeth se desculpou por mim, não pela primeira vez, e voltei a me desinteressar deles até que foram embora e continuamos nosso caminho, nossa conversa, como se nada, nada mesmo, tivesse nos interrompido. "

27x14 6 ou Canção pra não voltar (Season Finale)

Imagem: TingTing Huang

Caro Pégaso – é, eu nunca te dei um nome de verdade, nome de gente. Agora é desnecessário -,

Abro a playlist no aleatório pra te escrever uma carta, uma última, uma penúltima, uma carta só, de número 5, 6 ou 7, sei lá, e os acordes de “Mercadorama” me dão um tapa na cara, forte, um aperto grande no estômago, náusea. Prendo a respiração, procuro os botões pra mudar de música, mas essa coisa não passa, ainda me dói respirar.
Bom, direto ao ponto. Escrevo porque senti vontade. E vontade, do tipo puro e simples, é uma coisa rara, nos últimos dias.
Você talvez nunca leia isso, muito embora tenha mais chance de ler essa carta do que Otto tem de ler as que escrevo pra ele. Talvez um dia, daqui a alguns meses, você se veja parado na frente de uma tela como essa e se pergunte “Ei, o que será que ela anda fazendo?”. Aí você vai vir aqui e muito tempo já vai ter passado, essa postagem vai estar lá em setembro, há um século de distância. Mas, quem sabe, talvez você sinta vontade de se ver pelos meus olhos antigos. E, então, vai saber:
Eu ainda não segui em frente.
Tô perdida, sozinha, carente, confusa. Não segui em frente.
Ontem, estava sentada com uns amigos - Holden, meu amigo, é. O mundo dá essas voltas -, você passou, e eu senti o mesmo misto de medo, ansiedade e desespero de sempre. A garota, que você deve saber quem é, disse depois que “nem me lembrava mais que vocês dois já estiveram juntos”.
Eu me lembro. Não disse isso a ela, dei risada, dei de ombros. Mas eu me lembro.
Eu tenho uma lembrança pra cada uma das suas camisetas. Pra cada uma das minhas roupas, cada um dos meus brincos.
Eu não segui em frente.
Mas tô tentando. Não tô mais ouvindo o “How big”, da Florence, que acredito ser o nosso “break-up album” .  Evito Babel e o último álbum da Russian Red (Ou evitava, até hoje). A banda mais bonita da cidade, nem pensar.
Por um tempo, tentei ser como era antes, como se a vida sem você fosse simplesmente a mesma que era antes, como se houvesse um ponto de restauração no sistema. Li. Li durante dias, horas, sem ver o tempo passando, até a vista escurecer toda, até algumas horas antes das aulas.
Li. Saí por aí procurando Otto. Que loucura. Como se ele fosse a grande resposta, como se voltar a amá-lo fosse apagar você. Deus, eu espero que ele esteja bem longe. Feliz.
Enquanto procurava Otto, percebi que eu nunca mais poderia ser quem costumava ser. Percebi que só queria ser aquela pessoa porque você se apaixonou por ela. Porque eu queria que você se apaixonasse por mim outra vez.
Mas não dava. Continuei a ler, comecei a beber, passava a maior parte do tempo pensando em sair pra beber. A semana se tornou apenas um intervalo entre a ressaca e o próximo porre. Bebi, bebi, fiz coisas muito tolas. Mas não chorei. Não saí por aí chorando e gritando seu nome.
Dirigi bêbada, coisa que havia prometido pra mim mesma nunca mais fazer. Voltei pra casa bêbada, gritando músicas da Florence pra mim mesma, lutando contra a vontade que me rasgava em pedaços, de ir tocar seu interfone, te pedir pra descer, te pedir pra gostar de mim de novo, te pedir pra pelo menos me deixar dormir no seu quarto.
Senti dor. E agora vejo que você também deve ter sentido, talvez ainda sinta. Às vezes, eu só queria te perguntar se isso passa, se é sempre assim.
Sinto sua falta. Sinto falta da sua companhia, sinto falta de te perguntar as coisas, de te contar o que acontece. Sinto falta de te contar sobre um livro muito bom, sobre a cor do céu de madrugada, um evento no CCBB, uma fofoca da vida de alguém, uma coisa que aconteceu em casa, hoje um filme no cinema (vão passar uns filmes do tipo 500 dias com ela por esses dias, sabe?) . Sinto falta de olhar pra você sem ter que desviar os olhos.
Mas calma, já passei da fase de achar que vamos voltar. Já passei da fase de te querer de volta, de querer te beijar, dormir com você, sentir seu cheiro. Já até esqueci como é seu beijo, tanto que às vezes tenho que me esforçar pra lembrar da consistência da sua boca. Já superei a vontade de ir até sua casa, embora ainda imagine – todas as segundas e quartas, quando passo pela sua rua – qual seria sua reação. Você provavelmente também já passou dessa fase de achar que vamos voltar, eu acho. É triste, mas me deixa aliviada.
Já passei dessa fase, mas não segui em frente.
Ainda te encontro em cada canto do meu quarto, dos meus cadernos, da minha playlist e paro um segundo, pra ficar triste porque eu te amei tanto, nos amamos tanto e agora somos estranhos. É triste, é como se você tivesse morrido e eu não pudesse passar pelas fases do luto porque ninguém quer falar sobre você. Cada vez que menciono seu nome, as pessoas se entreolham e mudam de assunto, e eu me obrigo a guardar você de volta. Aos poucos, elas vão se esquecer de que a gente existiu e eu não sei se é o que eu quero. Porque aconteceu.
Isso me deixa muito confusa. Eu deveria apagar mesmo você, cada traço, cada memória, e começar com um espaço em branco na vida? Porque, às vezes, eu quero fazer isso. Às vezes, acho que é o único jeito de fazer com que isso passe. Mas aí vem alguém mais sensato que eu e me diz pra dar tempo ao tempo, que eu vou guardar isso, que você e eu nos tornaremos uma história que eu vou querer contar.
Mas será que vou?
Eu conheci um cara. Já faz um tempo, eu o conheci um dia depois do nosso último encontro, o encontro fatídico.
Ele me encontrou no meio de um monte de gente e eu mal olhei pra ele, eu estava tão cheia de dor, eu me sentia tão horrível, tão monstruosa, suja, vil. Tão só. Levou um tempo, muito tempo e álcool – uns poucos caras também, confesso -, pra deixar de me sentir assim.
Ele foi paciente, está sendo paciente. Eu digo a ele que não quero gostar de ninguém, nunca mais, não quero me envolver com ninguém, não quero nada, não quero ser nada e ele dá de ombros, diz que espera.
E eu gosto disso. Da ideia de que essa dor é só uma dor, que passa e daqui a pouco quero estar junto de novo. Da ideia de que a gente não deu certo, mas a culpa não é toda minha, eu posso dar certo com alguém um dia, quando estiver pronta.
Mas não estou pronta agora.
Antes da gente, antes mesmo que eu te conhecesse, eu estava me preparando  pra você sem saber, me preparando pra estar com alguém, pra ser parte de um nós, pra pai, mãe, festas de família, andar de mãos dadas, sair pra jantar, apresentar pros amigos. Eu estava me preparando pra dormir junto, pra deixar de enxergar o meu corpo como sagrado e apreciar o que ele pode fazer, o que mais ele pode significar. Eu estava me preparando pra penumbra, pra me magoar, pra falar e pra guardar os seus segredos.
E agora, eu não quero dar as mãos. Eu não quero ninguém passando o braço pelos meus ombros ou me acompanhando até o carro. Depois de ficar com um cara eu só quero ir pra casa ficar só. Não sinto vontade de mandar mensagens dizendo o quanto o dia ou a noite foi especial pra mim. Não sinto vontade de dividir meus segredos ou contar sobre o meu dia. Ou dizer o que penso. Ou dizer coisas que só fazem sentido pra mim.
Eu me sinto perdida. Tão perdida. Não acho que seja só porque você não está aqui, acho que acabaria por acontecer um dia desses. Eu me sinto perdida e preciso me encontrar. Não quero ninguém aqui enquanto faço isso.
Eu não rezo. Eu não vou à igreja, não leio a bíblia. Não falo sobre Deus. Até nisso acabei me perdendo.
Eu não estou pronta.
Esse cara, eu acho que posso gostar dele. Pode ser bom. Ele é uma boa pessoa. Acha que sou normal. Gosta do meu jeito estranho de pensar, do meu cabelo, do meu corpo. Diz que quer me ver, sinto borboletas no estômago. Descubro que quero vê-lo também. Acho que isso é bom.
Mas ainda não superei.
Ainda fecho meus olhos ouvindo Pompeii e consigo sentir meu coração bater daquele mesmo jeito que batia na Disney quando eu me sentava pra falar com você, do jeito que batia quando eu ia pra uma reunião do C.A. e você estava lá sentado no sofá, do jeito que bateu quando você segurou minha mão na palestra de Anatomia do Amor, quase consigo sentir o seu cheiro e a sensação de certeza que tive de que queria arriscar, de que queria que fosse você e mais ninguém a me magoar quando saí do cinema depois de assistir “A culpa é das estrelas”, depois de te beijar no seu carro usando aquela blusa de zebras que eu quase nunca uso porque ela é sua, é nossa e sempre vai ser.
Eu nunca achei que fôssemos ficar juntos pra sempre. E isso não quer dizer que eu não tenha acreditado. Eu acreditei. Em quase todos os segundos. Eu acreditei tanto, como nunca pensei que fosse possível. Eu te amei tanto - ainda te amo tanto, embora não do mesmo jeito - , de um jeito que eu tenho até medo. E, lá, naquele show da Banda do Mar, quando eu cantei olhando nos seus olhos, eu só disse a verdade 
"Olha só, moreno do cabelo enroladinho
Vê se olha com carinho pro nosso amor
Eu sei que é complicado amar tão devagarinho
E eu também tenho tanto medo
Eu sei que o tempo anda difícil e a vida tropeçando
Mas se a gente vai juntinho, vai bem
Eu não sei se você sabe, mas eu ando aqui tentando
E a gente tem o eterno amor de além".
Era tudo verdade. Eu fiz o melhor que eu pude, mesmo que não tenha sido o suficiente. E mesmo que eu me arrependa de muita coisa, não sei se faria diferente, porque eu sou assim, eu cometo esses erros. Não cometê-los seria não ser verdadeira com o que sou, seja algo ruim ou bom. Mas eu te amei de verdade. Eu te amo de verdade, acho que sempre vou, after all this time...
Eu ainda não segui em frente.
Mas vou fazer isso uma hora dessas.

Com amor, todo o amor que eu te dei, meu coração inteiro – até os pedaços que você acha que não conhece -,


B. 

20x20 Over?

Imagem: TingTing Huang

Acho que preciso ficar sozinha.
Sem moves, sem estratégias. Sozinha.
Tô precisando ler, tô precisando pensar.
Seria bom, pra variar, me arrumar pra mim, pra eu ver, pra eu gostar. Sem ele, sem mais.
Quero ter mais conversas espontâneas, fugir menos.
Quero parar de rir tão escandalosamente quando o vejo se aproximar, quero parar de sair correndo quando não quero que ele me veja, quero não me sentir mais tão burra quando conversamos.
Acho que só quero ficar mais livre do nome dele, da sua voz. Quero chegar àquele ponto em que possa tocá-lo sem prender a respiração e digitar a primeira letra do seu nome no facebook sem que a foto dele apareça primeiro na lista.
E quero parar de confundir as coisas.
Detalhes, fios de cabelo e tons de voz.
Quero ficar sozinha.
Só por um tempo.
Até eu estar pronta.

18x08 Without a trace

Imagem: Ting Ting Huang

Ouvi dizer que as pessoas só devem ficar em nossas vidas enquanto são necessárias. Mais que isso seria tolice, desperdício.
Foi assim com Otto. Ele esteve por aí me dizendo, com aqueles olhões, que era hora de crescer.
Ele me disse, batendo as mãos umas nas outras, que eu tinha que estudar.
Me ensinou a ser paciente enquanto esperávamos nossos ônibus no ponto.
Ele me disse que eu precisava me gostar mais, me mostrou coisas dentro da minha cabeça que eu nunca teria visto sozinha.
Ainda tem tanta coisa que eu tenho que aprender, coisas que eu queria que ele me ensinasse.
Mas ele não pode, ou ainda não pode.

Obrigada, Otto. Por todos esses dias e por todos esses gestos e olhares e por não cortar os cabelos nem se demitir antes que eu pudesse, finalmente, andar com meus próprios pés.
Tenha uma boa vida. Por favor.