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40x12 Tennessee Honey

Imagem: TingTing Huang

Cheguei em casa, tranquei as portas, abri as janelas, cobertas pelas cortinas que te impedem de entrar.
Respirei fundo.
Livre.

Coloco o colchão no chão, eu já posso sentí-la acordando, se espreguiçando dentro de mim, como quem dormiu por anos e agora sente fome, uma fome que não cessa, de contato humano, de ouvir a própria voz, tocar os próprios cabelos.

Abro e fecho as mãos, tentando entender o movimento desse corpo que não é mais só meu,
onde eu não vivo mais só,
eu nunca estive só.

Tem um vento sutil soprando, quente, e eu danço ao som dele, passos lentos, e depois rápidos demais pra parar.

Meu corpo se move, ocupa espaços, faz uma dança bizarra e ilógica, elétrica, enquanto meu coração bate rápido, sem saber
que agora tudo pode acontecer

Eu me deito no chão e respiro,
deixando o ar entrar e sair dos pulmões,
eu sinto as pernas dela se esticarem dentro das minhas,
seu rosto tomando forma por debaixo da minha pele
enquanto eu deixo de ser eu.

Sem paixões ou sonhos,
personalidade
ou lucidez,
eu vou me apagando aos pouquinhos,
sem querer outra coisa.

Ela segura meu coração devagarinho, contém meus pulmões
e então aperta e solta,
aperta e solta
devagarinho
até que eles aprendam e repitam
até que meu coração bombeie o sangue todo do meu corpo no ritmo da canção do vento,
até que minha respiração se torne uma música assoviada

E todo o meu corpo
desliga

E reinicia
Ela abre meus olhos, os olhos dela
sorri um sorriso que não é meu
e cantarola uma canção, mais antiga do que eu,
mais antiga do que todos que já conheci,
que me lembra um sonho que tive quando ainda nem existia

E só então, quando a canção chega ao fim,
ela se espreguiça, usando meus braços
e se encolhe feito uma bola
e dorme

pra que eu finalmente possa acordar.

40x08 Of other girls in different lights

Imagem: TingTing Huang

Gosto do escuro. O escuro na sua boca, o escuro da suas pupilas, o escuro dos cantos do seu corpo, nas notas da sua voz sussurrada e nos pigmentos da sua pele e pelos.

O tom violáceo da primeira luz da manhã que vejo de dentro do seu carro, hematomas e pequenos machucados de bater em portas, quinas, e sua língua roxa depois de beber suco de uva.

Gosto da luz das lâmpadas fluorescentes refletidas nas suas unhas, da luz e sombra das curvas do seu corpo.

Gosto das luzes que piscam quando você abre e fecha as mãos, as luzes no seu rosto, nos seus dedos, o gosto de luz na tua boca, joelhos e orelhas. A luz da tua voz

A sombra da tua ausência. A luz nas pontas dos teus dedos, no teu cheiro.
A escuridão das tuas mágoas, da parte do teu passado que desconheço.

Tem luz no calor do seu corpo, tem escuridão no aconchego do seu abraço, luz na textura da sua boca, luz nas conjunções, pronomes, no teu número, nas tuas vírgulas,
e tem escuridão na sua força, nos lugares onde o nós se esconde, onde o você e eu fica guardado.

Tem luz nas suas fotos infantis, na risada infantil que te vejo dar quando você se empolga, tem luz na maneira como você abre as portas, nos seus ossos.

Em tudo isso há sombra, ganhando espaço, ganhando voz, manchando nós dois.
Luz e escuridão se chocam, discutem, se abraçam, enquanto eu observo, assustada, maravilhada,
você me diz

- Acenda a luz. Eu quero ver a sua luz também.

Eu até tento, homem,
clic clac no interruptor,
clic clac,
mas a luz não acende
não tem luz.

Eu sou o que você vê.