18x07 Not nineteen forever

 Imagem: TingTing Huang

"Um furacão, um levante em meio ao carnaval, minha pequena arlequina gritando alto fora do tom das marchinhas - fadada ao desafino", alguém disse, 20 anos atrás.

E olha só pra mim: nem céu azul, nem canção de pássaro, nem furacão. Chuvisco, chuva fina.

Tanta coisa que eu não fiz, meu bem.
Nunca esqueci quem eu deveria ser - grudado em mim feito suor -; tive medo de saber de que tenho medo - e passei quase 20 anos cobrindo espelhos e evitando gatos -; nunca gostei de mim por inteiro; nunca acreditei em "eu te amo"; nunca aprendi a tocar instrumento algum, nem sei nadar; acho que nunca me apaixonei; ninguém nunca me consolou; há anos que não subo num palco - não sei se conseguiria; não tenho outros amigos; não sei fazer as unhas; não dei o beijo que podia ter me quebrado as pernas; não viajei; não plantei uma árvore; não escrevi um livro; não mandei flores; não fui à terapia; não vi o show da minha banda preferida; não vi o sol nascer; não vi o sol se pôr; não li todos os livros que tenho; não joguei verdade ou consequência; não disse a Otto o que deveria ter dito (ou não).

Mas tanta coisa que eu fiz.
Toquei os ossos de McCandless e cuspi seu azar na boca de alguém; conversei com um cacto; escrevi meus segredos disfarçados de histórias e deixei que qualquer um lesse; achei que tinha me apaixonado; ouvi "eu te amo"; corri cega pelas ruas escuras com a mão na de McCandless; ri muito; tive amigos; chorei; aprendi coisas inúteis; cresci; cozinhei; conheci pessoas; fechei os olhos e esperei; desejei; fui feliz; escrevi; criei; cantei; menti; amei; esqueci; corri; voei; enxerguei.

Falta tanto pra fazer, tanto futuro pra temer.
Tantas corridas cegas de chuva fraca, de vento só.
E vontade de crescer, de lutar, de sobreviver.

De presente, quero uma voz nos ouvidos a gritar "Corre, que a sua vida tá passando, menina, corre que ela tá indo sem você. Vai logo, ser o que você tiver que ser".
Isso só, e uma vela perfumada.

Feliz aniversário pra mim.
Feliz aniversário, de mim.

18x06 He doesn't

 Imagem: TingTing Huang

"Pare de sussurrar". Tapo meus ouvidos: tampões, algodão, fones, música alta - Fink e Said the whale. Não adianta: os sussurros vêm de dentro.
É a voz do meu sangue, a voz das células, dos átomos. É a minha voz de verdade me dizendo pra parar de fugir, pra parar de querer.
Grito, mas o som que sai da boca parece a voz de outra pessoa, de uma parasita.
Até meus sonhos dizem "qualquer um, menos esse".
As unhas sangram, sangra o nariz, a boca - como suponho que deve ser -, sinais de uma vida que não é minha.
Corto as palmas das mãos, inutilmente. Apago traços com açúcar, limão e fogo. Mas elas continuam lá, sob a superfície.
"Você já perguntou? Já tentou ouvir?", ele pergunta.
Minto que sim.

A verdade é que, quando chega a noite, oro com os ouvidos cobertos.
Não quero ouvir o que Ele tem a dizer. Ainda não.

18x05 Miserabilia

Imagem: TingTingHuang

Que segredos esconde? O que sabe sobre mim que eu não sei?
Pra onde devo ir?
Quais são as cores dos olhos dos meus filhos?
Quantas pessoas saberão quem é Isobel?
Que segredos esconde debaixo da túnica, da barba hirsuta e branca, nesses olhos de menino, nas mãos gigantescas, no arbusto em chamas?
O que você sabe sobre as estrelas e sobre os homens de mercúrio?
O que pode ouvir nas minhas veias e ler nos meus olhos?
Me diz o meu nome, me diz o teu nome, caso eu precise te chamar.
Me diga a verdade sobre a luz (partícula, onda ou partícula-onda?) e onde Fermat escreveu seu teorema. Aliás, quem matou Getúlio - se alguém o fez.
Onde Agatha passou onze dias? O que aconteceu com Atlântida?
Que religião é a certa? Sereias existem? Onde está a Arca? O que acontece depois que se morre? Estou no caminho certo? O destino já está escrito?
Quando é que eu vou morrer?
Você morre?

Vai estar aqui quando eu acordar?

18x04 The Haunted Woman

Imagem: TingTing Huang

(Em memória de Mikhail. Não o Blomkvist, mas tão interessante quanto. Sem aspas.)

Me deixa apagar tuas lembranças ruins, eu disse, tocando suas veias saltadas.
Eu quero lembrar, quero saber o que você fez comigo.
Beijei seus lábios inquietos e ele deixou; gosto de terra, sangue e grama.
Abri os olhos e ele reclamou Feche os olhos, me dá medo olhar pra essas luzes.
Eu fechei.
Ele me mordeu o pescoço, deixando marcas minúsculas - queria que o fizesse parar, não reclamei.
De repente, parou e deitou a cabeça no meu ombro.
Por que eu? Por que você fez isso?
Eu não tive escolha, você sabe, eu não fiz isso.
Então desfaça essa merda, só faça tudo voltar ao normal. Isso ele não disse, foi seu silêncio quem disse, porque eu  nunca o ouvi falar palavrão, mesmo quando me disse Eu não gosto daquele cara, com medo de que eu gostasse - como ela já tinha gostado antes. (E eu quis gostar dele assim, matar você de raiva, onde quer que estivesse. Mas eu nunca faria isso - acho)
Ele segurou minha cabeça entre as mãos e apertou meus olhos com os dedos, com força. Tentei puxar suas mãos, me doiam os olhos, mas ele só apertava mais forte. Vi flashes daquela noite, de mim, sentindo vibrar o chão de concreto observando as luzes surgirem na estrada, do seu mergulho de encontro a terra, do cheiro, do gosto, da sua cegueira, da minha fome, da sua voz me chamando Mãe.

Tirou os dedos dos meus olhos e sussurrou, num fio de voz  Eu não vou esquecer.
Disse que também não esqueceria.
Eu sei.

18x03 Pour l'arrivée

Imagem: TingTing Huang

Nem fogueiras, nem bolas de palha e lama, nem canções secretas e danças: não faço mágicas.
Só espero que chegue logo, que volte são e salvo, nem um fio de cabelo a menos.

Não peço que volte o mesmo,
nem que volte meu:
peço que volte.

Acho que nem peço, só espero, placidamente, pela sua chegada, como espero a chegada da manhã e das monções.
Ou a chegada de uma carata jamais escrita, de uma conversa que provavelmente não vá ter.
Espero com uma esperança vaga, murcha, que se acende com a visão de cabelos brilhando contra o sol, de caixas de mercado nas quartas feiras pela manhã e blusas de frio pretas.

Espero.

18x02 Home

Imagem: TingTing Huang

Casa não é um lugar, não é um país, não é uma pessoa, nem uma lembrança.
Casa é uma palavra, seus dentes batendo uns contra os outros; casa são suas cordas vocais, vibrando ao sabor do vento da sua voz.
Casa são seus olhos na luz do dia, buscando o alvo da palavra.
Casa são seus dedos que apontam direções.
Casa são seus pés, indo no caminho certo.
Casa são suas sinapses, sua língua, o céu da sua boca bonita.
Casa é o seu sangue correndo nas veias, casa é o ar nos seus pulmões.
Casa é o seu maxilar indo e vindo.
Casa é a energia do seu corpo.
Casa é o pulsar do seu coração.

18x01 Reign over me

Imagem: TingTing Huang

Venha e reine sobre mim. Mais perto.

Venha e reine sobre mim.
Sobre minha casa, que seja sua.
Mude nela o que quiser, derrube cada parece com palavras ou sopros.

Venha e reine sobre mim.
Que meu cavalo seja teu:
em tempos de guerra ou paz, ele te levará pelas estradas mais seguras e pelos vales mais ensolarados.

Venha e reine sobre mim.
Seu será meu cão de caça, venha e eu to darei.
Por você, ele correrá pelas planícies e te será fiel como nenhum outro jamais foi.

Venha e reine sobre mim.
Todo o meu pão eu te darei, até a última migalha.

Venha e reine sobre mim.
Meus tesouros, minhas maçãs,
meus segredos, minhas escolhas.

Venha e reine sobre mim.
Sobre a carne, os ossos,
as unhas, o carbono.

Venha e reine sobre mim.
Mais perto.