13x01 Lucky blue

Imagem: Taís Toti


Achei uma moeda, peguei - não se recusa dinheiro achado.
No horóscopo, dia bom.
Uma peça de roupa velha, pra ajudar com Murphy.
Tênis da sorte nos pés, perfume da sorte.
Faço figa na rua, cumprimento pombos - por falta de pegas.
Me desvio de escadas e de rachaduras na calçada.
É hoje o dia, já posso me ver esbarrando com você ou você me pergunta algo ou diz logo que me ama - quem sabe?
Mas chego lá e você não está. Passo a manhã deprimida.
Resolvo não ir pra casa direto, vou no mercado - fila gigante -, na lan house - mas que rápida a internet hoje! Vou saindo, vejo uma caixinha bonita - não vou comprar, mas olho assim mesmo, me dá vontade. Demoro bem uns 15 minutos olhando, meu estômago ronca, tenho que ir.
Quando piso na porta, enxergo, lá do outro lado da rua uma camiseta azul - sempre chama a minha atenção -, uns braços e uns cabelos inconfundíveis.
Caio na risada. Rio do dia completamente atípico, da caixa do supermercado, do Google chrome, do meu primo, de Berenice, tudo o que me atrasou o suficiente pra que eu te visse.
Saio correndo, atravessando a rua e vou pra casa, sem passar por ele. Deixe estar a sorte, deixe estar o destino. Não vou abusar. Hoje.

12x21 Sh'muel (Season finale)


Imagem: DJMcCrady

Assim como veio, ele deve ir.
Pois do pó vieste, e ao pó retornarás.
 
Eu quero saber. Saber se você está aí.
Oi.
Eu tenho um milhão de beijos guardados pra você, aqueles que faltaram nesses últimos anos.
Eu tenho desculpas que eu queria que você ouvisse. 
Um te amo sincero, pensado e pesado.
Tem mágoa guardada, mas já está vencida. Ela se afogou no tempo espesso.
Tenho perguntas que não pretendo fazer, perguntas que não importam.
Tem muita culpa, muita. Litros e caixas. 
Eu espero que você tenha me perdoado, que saiba que eu fiz o que achei que deveria fazer.
Eu sinto muito por nós todos, pelo que fomos e pelo que nos tornamos.

Eu só não sinto saudade, nunca senti. 
Mas era só te ver pra me dar conta de que eu tinha feito um esforço sobre-humano pra ficar longe de você.

Eu vou me sentir assim de novo um dia. 
No dia em que nos encontrarmos de novo, pai.
Obrigada por ter me amado desde o início. Me desculpe se eu não soube corresponder, me desculpe se eu não soube. Um dia eu vou aprender e vou te compensar. 
Eu vou, papai, acredite, como você sempre fez.

12x20 Pré-parto

Imagem: abbamouse  (Nesse link você encontra imagens atuais da Emily, essa manchinha adorável de apenas 12 semanas no ultrassom ao lado. Ela é linda. E perfeita.)

- Mamãe?
Fico segurando a porta, apavorada.
- Mamãe?
É o meu filho lá fora. Reconheço a sua voz, assustada e ansiosa, reconheceria essa voz em qualquer ocasião - a vz da minha vida pedindo que eu não vá embora.
Ele tenta girar a maçaneta e eu a seguro com força. Não quero olhar pra ele, não quero checar se ele é do jeito que eu sonhei, nem contar seus dedos, nem acariciar seus cabelos.
- Mãe?, choraminga baixinho.
Eu não posso vê-lo, ele é a única coisa que pode me fazer ficar. Nem os livros, nem as ideias, nem as pessoas, nem mesmo Otto tem esse poder. Essa pessoa pequenina é a única que pode me convencer. Não é só uma pessoa, é uma promessa.
- Mamãe, mãe, mãe. Ele bate na porta, manso.
Não vou abrir, não vou abrir...
Abro.
Um bolinho de cabelo preto e nariz sujo se encolhe no canto da porta. Pego-o no colo e nino-o, afago-o. Conto seus dedos, várias vezes, suas pintinhas, seus olhos escuros, suas costelinhas delicadas, suas falanginhas e omoplatas. Ficamos ali, os dois fungando e cochichando durante horas.

Quando acordei, cabeça encostada no vidro do ônibus, Brasília me encarava, entre ansiosa e grave.
- Me dê meus livros, liberte seus reféns: digo que fico.

12x19 The magnificent six

Imagem: MrUllmi

Dylan me apertou os pulsos, gritou e cuspiu, enquanto June assistia, bestializada. "Não, Dylan", eu disse.
Veio Annabelle, louca e avoada de amor e sabedoria infantil, me trazendo pedras e pedaços de pau. "Não, Annabelle", eu disse.
Vieram Ade e Jake, espertos e ladinos. Me fizeram perguntas, argumentaram: "Não, Ade. Não, Jake".
Eles pediram, gritaram e imploraram. "Não", eu disse - o coração ardia e os olhos diziam sim. Mas não, eu não podia mais salvar ninguém.
Veio Eden, não disse nada. "Não adianta, Eden", eu disse.
Evitei olhar seus braços e pernas cortados, seu rosto pálido.
"Você não sabe de nada, só finge", ela disse, "Nem sabe mais quem eu sou."
Fiquei digerindo o que ela havia acabdo de dizer por um bom tempo. Não fazia diferença, eu estava decidida a ir embora.
Mas ela se levantou contra mim, mesmo sabendo disso: "Eu não vou embora pela metade".

Ela talvez não tenha compreendido na época, mas metade ainda era muito, se comparado ao que eu estava levando. Eu só tinha migalhas.

12x18 Não fosse

Imagem: Pink Ponk

Me diga o que você faria se o amanhã não existisse. Se pá, me diga como seria o amanhã se o hoje se repetisse.
Me diga se acordaria cedo e se arrumaria direito. Se colocaria aquele seu vestido e seus tênis da sorte.
Me diga se correria até o lugar de sempre e esperaria.
Me diga se você o veria, se seu arcabouço vibraria de felicidade.
Me diga se você diria a si mesma algumas palavras de encorajamento.
Me diga quantos passos até ele.
Me diga a sua mão estendida, as pontas dos dedos quase tocando-lhe o ombro.
Me diga o cheiro dele, me diga a sua altura e a cor de suas roupas.
Me diga sua mão abaixando e ele indo embora.
Me diga mais essa chance perdida e um dos beijos e vulcões desperdiçado em meio à covardia.

Não fosse o amanhã, meu hoje ainda seria ontem.

12x17 Cruel mistress

Imagem: Pink Ponk

Aviso: Aconteceram muitas coisas nessa época, algumas das quais nem sequer consigo me lembrar. Apenas as consequências desses eventos foram registradas nesse e nos posts seguintes.

Pedi permissão pra ir embora, mera formalidade.
Ela disse "Pode ir, mas deixe tudo o que eu te dei".
Deixo livros amados, lembranças rasas, cadáveres. "Já vou indo", aviso.
Ela sorri, os cabelos em chama, olhos brilhando: "Deixe tudo". Tudo. A voz dela transborda excitação.
Demoro a compreender, mas nem tanto: "Otto?"
Ela arreganha os dentes e os olhos ficam negros e lustrosos: "E Annabel, e Ulrika, e Gideon, Eddie..."
Fraquejo internamente, não quero deixar tanto pra trás. Mas ela não tem que saber disso.
"Muito bem", digo.
Ela batuca a mesa com suas unhas de granito, sem demonstrar emoção alguma. 
"Muito bem. Pode ir quando desejar".

Quem me dera fosse simples assim.

12x16 Navegar e dormir

Imagem: Pink Ponk

Nome de Otto em mãos, comecei a vagar em desasossego.
Pílulas e pílulas não me apagavam da mente as 3 sílabas e a voz de sorriso.
Preguei os olhos duas ou três vezes pra ter pesadelos com gypsies, Sofia e Berenice.
Sem dormir, fui escrever e desenhar nos azulejos do banheiro, fui me distrair no pó das estantes de uma biblioteca particular.
A busca incansável por um pensamento linear ou, ao menos, por pensamento nenhum, resultou em um bolo na garganta, amídalas em carne viva, febre alta e delírios.
Querem me aleijar, tirar minhas amídalas que nunca sentiram seu gosto.
Adoeço, pescoço duro, dizem que é meningite.
Digo que não, tô somatizando a dor da saudade de não saber seu nome, de você ser só mais um futuro improvável sem rótulos.
Levo bronca do doutor: deveria ter me vacinado contra paixonites. Curar a última, Deus sabe, foi um suplício.