23x09 Eficácia simbólica

Imagem: TingTing Huang

No que é que você acredita?
Em corvos, gatos presos nas fundações com homens que gritam, pedindo amontillado.
Acredito que sonhava com coisas e pessoas que só viria a conhecer mais tarde na vida, que sonhos contêm verdades, que não existem coincidências, que o sangue carrega segredos, que estou aqui há bilhões de anos, que as estrelas, ou as pessoas nelas, olham de volta.
Acredito em ciclos, possibilidades, tapeçarias tecidas só pra serem cortadas por uma menina de um olho só, em apertar as mãos juntas pra sentir a presença de alguém que ainda não chegou.
Acredito em ordem, caos, mulheres que devoram gatos e homens, histórias de todos os tipos, meias verdades e mentiras, no aquecimento global, na existência do timing perfeito, anjos e vampiros.
Acredito em tudo, só pra não ter que acreditar em nada, nunca.

23x08 Desertora

Imagem: TingTing Huang

Eu não quero lutar.
Eu quero esperar.
Pela batida na porta, pelo beijo repentino, pela declaração inesperada.
Eu não quero lutar.
Não quero mortos ou feridos, nem arcar com as consequências.
Eu não quero lutar.
Quero que você venha por vontade própria, que perceba que me quer também.
Eu não quero lutar.
Eu não quero, talvez - muito possivelmente -, perder.
Prefiro fugir e nunca saber se fiz a escolha certa.

23x07 Locked in

Imagem: TingTing Huang

Saí de casa.
Saio de casa diariamente, agora.
Não odeio mais as pessoas.
Mas ainda sou eu, não mudei.
Ainda guardo mais segredos do que posso conter, mais pessoas do que consigo lembrar.
E ainda tenho medo de deixar que me vejam.

Saio de casa, mas continuo trancada na minha própria cabeça.

23x06 Plants vs. Zombies

Imagem: TingTing Huang

Em casa, um frio dos diabos mantém conservado meu cadáver favorito.
- Olá, eu digo.
Ele me responde com um beijo levemente fétido, gosto de limão e álcool, gosto de morte.
A cada dia que passa, ele morre um pouco mais, apodrece, sem que eu possa fazer nada.
Não quero que ele morra de vez, quero que ele fique, mesmo assim, meio vivo, meio morto.

- Você podou a planta hoje? - ele pergunta, olhando pela janela - Ela parece enorme, fica maior a cada dia. Vai acabar invadindo a casa, estragando a fundação. Quer que eu faça isso?
- Não, deixa. Eu vou.
Armada com a tesoura de poda, vou até o jardim de inverno.
A planta tem o tamanho de um homem, as formas de um homem. Maior do que eu, talvez maior do que ele. Não é o tamanho que assusta, é a quantidade de raízes que ela tem, a capacidade que ela tem de invadir as estruturas, de sugar todos os nutrientes do solo, a ponto de que mais nada cresça à sua volta.
Começo a cortar, lentamente, e o sangue começa a jorrar e a me sujar.
- Eu sinto muito, muito mesmo. - sussurro.
Corto dedos formados por um emaranhado de ramos, corto pernas, raízes fortes e firmes. Tudo sangra muito e eu paro, esperando ouvir um gemido, um grito, ao menos um "não faça isso". Não ouço nada, continuo. E ela continua lá, parada, silenciosa, sangrando. Corto braços.
E, quando estou prestes a cortar sua cabeça, não consigo.
Não entendo o porquê, apenas não consigo.
Não é medo de ficar só, estar com ela é estar só. Acho que é esperança. Espero que ela cresça normalmente, que pare de destruir minhas fundações, que pare de lançar ramos em todos os lugares.
Então a deixo assim, entro em casa, pro velho e aconchegante cheiro de podre e digo a ele, acreditando mesmo nisso: - Acabou.
E ele, ainda olhando pela janela, nem se vira pra responder:
- Será mesmo?

23x05 Misinterpretation

Imagem: TingTing Huang

L. me diz que é você, Holden.
Me diz "Deixe o Otto pra trás, é ele".
- Mas, e se não for?
- Ele é inteligente.
- Mas e a angústia, a prudência? E os erros repetidos?
- E você? E as frases desconexas? Desequilíbrio, infortúnio!
- Tudo bem, mas quando?
- Você tem andado alegre demais, não é como você é. Por que você não o confrontou, no outro dia? Você fica fugindo disso!
- Eu não quero isso, L. Quero ficar assim, quero Otto.
- "O hoje é a finalização natural. Aceite as perdas"
- E os erros, L.? E os erros repetidos?
- É a história, B. A história se repete. Não é familiar pra você? Holden, o segredo, a impossibilidade.
- Eu não quero me machucar, L.
- Você precisa, B. A lucidez deve encontrar a tristeza.
- Tá, eu sei. Já ouvi isso antes. Mais alguma coisa? Mais algum argumento nonsense em favor do Holden?
- Na verdade, sim. Mais um.
- Fala.
- Lembra disso: "Vai acontecer quando a ajuda do outro for necessária"? Isso te lembra alguma coisa? Talvez duas coisas?
- Eu não pedi a ajuda dele!
- Mas ela disse "quando a ajuda do outro for necessária". E você precisava de ajuda, admita! Com o James e depois com...
- Já entendi. Mas e agora, L.? O que acontece?
- Agora, deita no meu colo e espera a tristeza. Ela vem. Em algum momento, ela vem.

23x04 Matilde

Imagem: TingTing Huang


Ulrika?
Caso você esteja lendo isso, caso esteja por aí, quero que saiba que tenho pensado em você.
Você se lembra de quando você chegou à conclusão de que jamais poderíamos ser amadas se agíssemos como realmente somos porque ninguém seria capaz de nos aceitar?
Eu me recusei a entender e você me chamou de tola romântica.
Mas você estava certa, eu vejo agora.
Ninguém nunca vai amar nossas personalidades múltiplas, nunca vai aceitar que eu sou, ao mesmo tempo, a garota de saia curta na festa e a menina de trança, séria e irônica, a que faz piadas e a que lê, a que escreve, desafina, dirige, cuida.
Eles querem que eu seja uma coisa só, Ulrika. Plana, rasa. A bonita ou a feia, não as duas.
Eu quero ser tudo, Ulrika. Mas ninguém vai me aceitar assim, inteira, como você fez um dia.
Eu nunca mais conheci ninguém que me viu inteira, que conheceu todos os meus rostos e não se assustou, mas eu espero que você tenha encontrado gente assim, Ulrika.
Espero que você acredite que isso é possível.
Uma de nós tem que acreditar.

23x03 Sophie's world

Imagem: TingTing Huang

Caro Otto,
Existe uma maneira de ficarmos juntos, tem um lugar onde podemos ficar juntos.
Eu quero esquecer as mágoas, quero deixar de lado a frustração e a mentira.
Quero encontrar você.
Quero pegar a mochila, enchê-la de biscoito e mudas de roupas, livros e escovas de dente e rodar pela cidade até te encontrar.
Eu tô com medo, Otto. A vida tá me levando pra longe de você e eu não quero isso.
Eu quero abrir uma porta e encontrar você do outro lado, quero te contar tudo, quero ouvir tudo o que você tem a dizer. Quero que sejamos só nós dois de novo.
Não quero que ninguém me machuque.
Não quero machucar ninguém.
Existe uma maneira, um lugar. Você o conhece também.
Feche os olhos.
Estarei esperando.

Com amor,
B.