34x04 Alice
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Fiquei estúpida.
Digo coisas sem sentido, palavras ao acaso sobre as quais não penso.
Ensaio várias coisas inteligentes-simpáticas-educadas que te chamem a atenção, aí olho pro teu rosto e as palavras somem.
Eu quero ficar perto de você.
Tô tentando ser honesta, mas não me entendo, não entendo nada, voltei a ser leiga nessas coisas de gostar.
Como é que se gosta e por que é que se gosta de alguém com quem troquei duas palavras?
Alice.
Seu nome tem gosto de doce,
sua voz faz cócegas.
Boca vermelha escura,
visceral,
capaz de gritar palavras de ordem,
histórias tristes,
de sorrir bonito.
Gosto do seu cabelo.
Queria ter sentido o seu cheiro de perto, ter te dito algo que te fizesse rir.
Não sei o que acontece, nem porque parece tão natural assim que eu goste de você.
Mas vai passar, Alice. Infelizmente ou não, sempre passa.
Eu me apaixono assim, bobamente, a todo minuto, por todo mundo.
Vai passar.
Eu só não sei se quero que passe.
34x03 Alone is not together
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garota solteira procura,
Imagem: Ting Ting Huang
Sozinho não é junto.
Nunca foi, nunca vai ser.
Enquanto você conversa com seus amigos, de costas pra mim.
Sozinho não é junto, enquanto eu me sinto derreter no sofá de casa, numa tarde quente de um dia qualquer, mais um dia, só mais um, e você não vem.
Sozinho não é junto quando choro no carro, parada na frente de casa.
Sozinho não é junto quando você finge dormir pra não ter mais que conversar.
Sozinho não é junto quando eu tô sentada te esperando chegar por horas, horas e horas.
Sozinho não é junto quando você está com ela.
Sozinho não é junto quando eu tenho que descobrir todas as respostas, quando não entendo as perguntas, quando eu nem sei quem eu sou.
Sozinho não é junto quando não sei onde eu termino e onde você começa.
Sozinho não é junto quando parece que falamos duas línguas completamente diferentes.
Sozinho não é junto
Sozinho não é junto
Sozinho não é junto
Eu consigo entender, só não consigo aceitar.
34x02 Undateable
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Eu não posso fazer isso.
Eu não posso.
Porque eu não amo você.
E eu não quero mais não amar alguém.
Eu quero querer você como você me quer.
Mas eu não posso.
Eu posso tentar fingir,
mas meu corpo não consegue mais mentir.
Eu não consigo.
Eu me importo com você, muito muito
o bastante pra não querer fazer isso. Não dessa maneira.
Te observo dormir,
e eu sei que não posso mais fazer isso.
Estou ficando louca.
E eu não quero mais ficar louca.
Eu quero ficar ok.
Eu quero ficar bem.
Eu quero ficar feliz.
E eu tô com medo, um medo estranho, mas com o qual dá pra viver
de que eu só consiga ser feliz assim,
como eu quero ser,
se estiver sozinha.
Como eu sou quando você vai embora,
no silêncio de uma tarde de domingo,
quieta e sã.
Não porque você veio, mas porque você partiu.
Eu sinto muito,
não posso fazer isso.
Nem com você,
nem comigo mesma.
Boa sorte.
34x01 Back in the saddle
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garota solteira procura,
Drinks - 0
Cigarrettes - 0
Dates - 0
Weight - 50
Ex talks - 1
Eu quero me apaixonar.
Assim, sem necessidade de esperar, de forma honesta e adulta,
eu não quero mais esperar uma previsão favorável do horóscopo ou a boa vontade de mulheres estrelas, que com certeza têm mais o que fazer, com todos esses mortais e suas velas da Babilônia.
Eu não quero mais ouvir 3 mulheres cegas descrevendo o homem a quem vou amar, ou me forçar a gostar de alguém que gosta de mim.
Eu não quero mais fazer coisas contra a minha vontade, ou porque acho que devo ou porque acho que vou gostar ou porque
Eu não quero mais.
Eu quero me apaixonar por alguém que goste de coisas de que gosto também, alguém com quem eu queira conversar e que eu queira ver.
Por alguém que queira me ver.
E eu não quero mais ficar em casa.
Mas também não quero mais sair por aí beijando desconhecidos (e é possível que eu seja muito criticada pelo Brasil inteiro e tenha que ficar fingindo pra todo mundo e pra mim mesma que não sou boa o suficiente).
Resta me render ao estereótipo de solteirona, sorrowed spinster do século XXI, e esperar por aquele famigerado match, eu suponho.
Escolho aquela foto favorita, que provavelmente não vai ser a foto favorita de cara nenhum, me coloco na vitrine, sem frase de efeito pra usar - poxa, eu sou só normal - e espero que alguém olhe nos meus olhos congelados na fotografia e decida arriscar.
E é depois que faço isso, que tomo essa decisão de agir, é que percebo que, agora,
só resta esperar.
E é assim que, no fim das contas, acabo, como sempre
esperando.
33x17 The Greatest (Season Finale)
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Começou comigo.
É sobre mim.
Que termine assim:
sobre mim.
Eu tenho medo.
Medo de que essa minha coragem toda, nova e reciclada, da Bels dos meus 9 anos, que urinava em mochilas, da de 16 que fumava em cigarros e tossia (nunca aprendi a tragar).
Coragem advinda de muito sangue e pouco choro,
muito muito sangue derramado,
muitas pílulas.
Da vontade de nunca mais ser contida com tiras e agulhas.
Eu tenho medo.
Essa coragem de não pentear o cabelo me dá medo. De me vestir como quero. De brigar.
A coragem de não brigar mais (pois, acredite, é preciso coragem pra não tomar partido). Coragem de não arrancar a dor do peito, de deixar sofrer.
Coragem de querer.
De querer mais.
E eu quero mais, caro leitor.
Eu tenho medo de querer.
Tanto medo, tanto tanto medo, você não tem?
Tanto, que tem até medo de admitir em voz alta que quer.
E eu quero.
Eu quero provar que posso.
Eu quero despentear meu cabelo.
E quero ficar em casa.
Quero ter dias ruins, e dias bons, eu sou humana. Eu quero ser humana.
Eu quero música, quero me apaixonar e quero ser correspondida. Eu quero sentir vontade de estar junto.
Eu quero correr riscos. e não quero mais lutar por ninguém. Eu não quero mais ser um soldado.
Eu quero dormir na minha própria cama, quero comer da minha comida, e quero entender como as coisas acontecem.
Eu quero escrever,
E quero me curar de você e da droga que sua presença injeta nas minhas veias.
Eu quero ser corajosa, coração de leão e não de coelho, quero fazer melhor do que isso, todos os dias. Mas não quero ser melhor do que ninguém, quero ser boa pra mim.
Eu não quero salvar vidas, eu quero conhecer coisas.
Eu quero encontrar a religião que as células seguem e conhecer o Deus que vive nas bases nitrogenadas.
Eu quero saber o que há de errado comigo, pra que eu nunca conserte.
Eu quero beijar sua boca na chuva, pra que eu entenda todas as sensações ao mesmo tempo, eu quero encontrar Otto, e me dói um pouco admitir isso porque eu nem sei o que faria. Eu só quero encontrá-lo e mantê-lo sob minhas asas escuras de carne.
Eu quero coragem, eu quero criar coisas, e fazer com que as pessoas sorriam.
Eu quero bolo de chocolate.
E quero não me intimidar.
Eu quero crescer.
E sentir dor, essa dor diária, que me lembra que estou aqui por conta própria, sem remédio, sem rumo, que estou viva.
Eu quero ouvir de novo as vozes dentro de mim.
Eu quero correr.
Eu quero correr pra bem longe.
Em algum lugar onde eu possa correr, sem rumo.
Eu quero correr.
Eu quero dançar.
Eu quero fazer o que meu corpo me implora há meses, eu quero correr.
Disso tudo, eu quero pegar minhas coisas e fugir.
Eu preciso fazer isso, pra querer voltar.
Eu quero tanta coisa.
E tenho medo, um medo imenso, de querer.
Mas não dá pra esperar mais.
Por Otto, por você, por mim, pelas vozes, pelo destino, sua boca, paixão.
Eu preciso correr
Estou atrasada,
sempre atrasada.
E não posso mais esperar.
Eu quero não esperar mais.
Começou comigo.
É sobre mim.
Que termine assim:
sobre mim.
Eu tenho medo.
Medo de que essa minha coragem toda, nova e reciclada, da Bels dos meus 9 anos, que urinava em mochilas, da de 16 que fumava em cigarros e tossia (nunca aprendi a tragar).
Coragem advinda de muito sangue e pouco choro,
muito muito sangue derramado,
muitas pílulas.
Da vontade de nunca mais ser contida com tiras e agulhas.
Eu tenho medo.
Essa coragem de não pentear o cabelo me dá medo. De me vestir como quero. De brigar.
A coragem de não brigar mais (pois, acredite, é preciso coragem pra não tomar partido). Coragem de não arrancar a dor do peito, de deixar sofrer.
Coragem de querer.
De querer mais.
E eu quero mais, caro leitor.
Eu tenho medo de querer.
Tanto medo, tanto tanto medo, você não tem?
Tanto, que tem até medo de admitir em voz alta que quer.
E eu quero.
Eu quero provar que posso.
Eu quero despentear meu cabelo.
E quero ficar em casa.
Quero ter dias ruins, e dias bons, eu sou humana. Eu quero ser humana.
Eu quero música, quero me apaixonar e quero ser correspondida. Eu quero sentir vontade de estar junto.
Eu quero correr riscos. e não quero mais lutar por ninguém. Eu não quero mais ser um soldado.
Eu quero dormir na minha própria cama, quero comer da minha comida, e quero entender como as coisas acontecem.
Eu quero escrever,
E quero me curar de você e da droga que sua presença injeta nas minhas veias.
Eu quero ser corajosa, coração de leão e não de coelho, quero fazer melhor do que isso, todos os dias. Mas não quero ser melhor do que ninguém, quero ser boa pra mim.
Eu não quero salvar vidas, eu quero conhecer coisas.
Eu quero encontrar a religião que as células seguem e conhecer o Deus que vive nas bases nitrogenadas.
Eu quero saber o que há de errado comigo, pra que eu nunca conserte.
Eu quero beijar sua boca na chuva, pra que eu entenda todas as sensações ao mesmo tempo, eu quero encontrar Otto, e me dói um pouco admitir isso porque eu nem sei o que faria. Eu só quero encontrá-lo e mantê-lo sob minhas asas escuras de carne.
Eu quero coragem, eu quero criar coisas, e fazer com que as pessoas sorriam.
Eu quero bolo de chocolate.
E quero não me intimidar.
Eu quero crescer.
E sentir dor, essa dor diária, que me lembra que estou aqui por conta própria, sem remédio, sem rumo, que estou viva.
Eu quero ouvir de novo as vozes dentro de mim.
Eu quero correr.
Eu quero correr pra bem longe.
Em algum lugar onde eu possa correr, sem rumo.
Eu quero correr.
Eu quero dançar.
Eu quero fazer o que meu corpo me implora há meses, eu quero correr.
Disso tudo, eu quero pegar minhas coisas e fugir.
Eu preciso fazer isso, pra querer voltar.
Eu quero tanta coisa.
E tenho medo, um medo imenso, de querer.
Mas não dá pra esperar mais.
Por Otto, por você, por mim, pelas vozes, pelo destino, sua boca, paixão.
Eu preciso correr
Estou atrasada,
sempre atrasada.
E não posso mais esperar.
Eu quero não esperar mais.
33x16 When September ends
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Sua boca tem gosto de pó, de loucura, febre, desesperança.
O gosto do inexistente,
daquilo que nunca chega,
gosto amargo da espera
Você não vem, vem?
Tô sentada nessa estação de metrô vazia, limpa, silenciosa, te esperando chegar desde janeiro, tentando não me mexer demais pra não suar, pra não me amarrotar, pra não me perder.
Mas você não vem, vem?
2 últimos minutos do 2º tempo,
eu não tenho mais tempo pra te procurar pelas ruas.
Eu tô aqui.
Eu sempre estive aqui.
E você não veio.
Você não vem, vem?
Foi um bom mês.
Com você ou sem,
foi um bom mês,
um ano incrível.
Todo sobre mim, sobre me descobrir e despertar.
Ano com cheiro doce de creme de pentear, com a textura dos meus cabelos enroladinhos.
Você não veio, mas eu vim.
Eu sempre estive aqui,
E ainda vou estar, quando setembro acabar.
Você não vem, vem?
Ainda dá tempo.
Mas, se não der,
eu vou ficar bem.
Sua boca tem gosto de pó, de loucura, febre, desesperança.
O gosto do inexistente,
daquilo que nunca chega,
gosto amargo da espera
Você não vem, vem?
Tô sentada nessa estação de metrô vazia, limpa, silenciosa, te esperando chegar desde janeiro, tentando não me mexer demais pra não suar, pra não me amarrotar, pra não me perder.
Mas você não vem, vem?
2 últimos minutos do 2º tempo,
eu não tenho mais tempo pra te procurar pelas ruas.
Eu tô aqui.
Eu sempre estive aqui.
E você não veio.
Você não vem, vem?
Foi um bom mês.
Com você ou sem,
foi um bom mês,
um ano incrível.
Todo sobre mim, sobre me descobrir e despertar.
Ano com cheiro doce de creme de pentear, com a textura dos meus cabelos enroladinhos.
Você não veio, mas eu vim.
Eu sempre estive aqui,
E ainda vou estar, quando setembro acabar.
Você não vem, vem?
Ainda dá tempo.
Mas, se não der,
eu vou ficar bem.
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Undateable
33x15 Going Rogue
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Imagem: TingTing Huang
Domingo à noite, doente, perdida em uma nuvem de dor, ele liga e me convoca pra lutar.
Tomo pílulas e pílulas, antiinflamatórios, analgésicos, antitérmicos,
vou à luta.
Eu não tô OK.
Meus ouvidos escorrem, garganta dói, meus olhos coçam.
L. me põe remédio debaixo da língua e eu derreto, escorro pelas frestas do chão até passar o efeito.
Mas, quando ele passa,
eu não sou.
Não reconheço meu rosto ou a textura seca dos meus cabelos.
Eu não sou.
Digo isso a L. e ela me diz que tô doente, que não posso voltar pra casa.
Pego o carro e dirijo sem parar, sem dormir, compro sorvete e espero o sol nascer, sentada no carro num lugar qualquer, com medo de tudo o que existe no mundo, com medo de ir pra casa e não me sentir em casa, com medo de L., com medo de jalecos brancos, agulhas e ressonâncias. Com medo de canetas e
Minhas costas sangram e eu me obrigo a usar camisetas escuras de algodão, que roçam permanentemente nos machucados, fazendo com que me lembre que estão ali.
Paro na porta da sua casa antiga e te espero voltar, pergunto pra um homem na rua se ele te conhece, mesmo depois de tantos anos.
E ele diz que não.
Eu tô ficando louca.
Ou será que não?
Ou será que sim
Uma gata de pelos dourados fala comigo nas ruas e me conta todo o meu futuro, mas eu me esqueço assim que ela vai embora.
Eu me esqueço rápido.
Assim como me esqueci de que te amava na semana passada.
Porque agora odeio tudo
e todo mundo.
Odeio, odeio.
e não consigo explicar,
eu não consigo encostar a minha boca na sua
eu não consigo sentir dor
eu não consigo levantar de manhã
eu não consigo conseguir
Arranco meu olho direito e sangro, no canto mais escuro da minha mente.
Alguém fala comigo, muita gente fala comigo,
o tempo todo
e eu não quero falar.
E elas não me deixam não falar.
Por que é que as pessoas teimam em saber mais de mim do que eu?
"Você consegue ver isso aqui?", eu grito, enquanto enfio os dedos no buraco do olho e arranco de lá o que me faz ser assim tão errada. "VOCÊ CONSEGUE VER A PORRA DESSE NEGÓCIO? Você não sabe de porra nenhuma sobre mim, então não me venha com diagnósticos baratos e seus clichês estúpidos"
Mas eu não falo de verdade,
eu me calo no canto do carro.
Eu nunca mais
Não quero mais falar.
L. me pergunta o que há de errado comigo, bate no meu rosto com os dedos gelados, molhados, me diz que já é segunda à noite, que eu tenho aula pela manhã, enfia os dedos na minha goela, mas eu não tomei nada.
Eu não tomei nada, eu tô é toda fodida, bem aqui ó.
Eu não quero morrer, L.
Seguro as mãos dela, mas já não consigo
não quero mais falar.
Eu não quero morrer, L.
Eu quero que o tempo pare,
eu quero que as pessoas parem.
Mas já é segunda à noite,
e eu tenho aula pela manhã.
Domingo à noite, doente, perdida em uma nuvem de dor, ele liga e me convoca pra lutar.
Tomo pílulas e pílulas, antiinflamatórios, analgésicos, antitérmicos,
vou à luta.
Eu não tô OK.
Meus ouvidos escorrem, garganta dói, meus olhos coçam.
L. me põe remédio debaixo da língua e eu derreto, escorro pelas frestas do chão até passar o efeito.
Mas, quando ele passa,
eu não sou.
Não reconheço meu rosto ou a textura seca dos meus cabelos.
Eu não sou.
Digo isso a L. e ela me diz que tô doente, que não posso voltar pra casa.
Pego o carro e dirijo sem parar, sem dormir, compro sorvete e espero o sol nascer, sentada no carro num lugar qualquer, com medo de tudo o que existe no mundo, com medo de ir pra casa e não me sentir em casa, com medo de L., com medo de jalecos brancos, agulhas e ressonâncias. Com medo de canetas e
Minhas costas sangram e eu me obrigo a usar camisetas escuras de algodão, que roçam permanentemente nos machucados, fazendo com que me lembre que estão ali.
Paro na porta da sua casa antiga e te espero voltar, pergunto pra um homem na rua se ele te conhece, mesmo depois de tantos anos.
E ele diz que não.
Eu tô ficando louca.
Ou será que não?
Ou será que sim
Uma gata de pelos dourados fala comigo nas ruas e me conta todo o meu futuro, mas eu me esqueço assim que ela vai embora.
Eu me esqueço rápido.
Assim como me esqueci de que te amava na semana passada.
Porque agora odeio tudo
e todo mundo.
Odeio, odeio.
e não consigo explicar,
eu não consigo encostar a minha boca na sua
eu não consigo sentir dor
eu não consigo levantar de manhã
eu não consigo conseguir
Arranco meu olho direito e sangro, no canto mais escuro da minha mente.
Alguém fala comigo, muita gente fala comigo,
o tempo todo
e eu não quero falar.
E elas não me deixam não falar.
Por que é que as pessoas teimam em saber mais de mim do que eu?
"Você consegue ver isso aqui?", eu grito, enquanto enfio os dedos no buraco do olho e arranco de lá o que me faz ser assim tão errada. "VOCÊ CONSEGUE VER A PORRA DESSE NEGÓCIO? Você não sabe de porra nenhuma sobre mim, então não me venha com diagnósticos baratos e seus clichês estúpidos"
Mas eu não falo de verdade,
eu me calo no canto do carro.
Eu nunca mais
Não quero mais falar.
L. me pergunta o que há de errado comigo, bate no meu rosto com os dedos gelados, molhados, me diz que já é segunda à noite, que eu tenho aula pela manhã, enfia os dedos na minha goela, mas eu não tomei nada.
Eu não tomei nada, eu tô é toda fodida, bem aqui ó.
Eu não quero morrer, L.
Seguro as mãos dela, mas já não consigo
não quero mais falar.
Eu não quero morrer, L.
Eu quero que o tempo pare,
eu quero que as pessoas parem.
Mas já é segunda à noite,
e eu tenho aula pela manhã.
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